Em fevereiro de 1887, uma matéria vinculada no jornal Diário das Alagoas, estabelecia o tipo de escolarização que deveria ser dada aos negros ―ingênuos‖, a qual foi, em parte estabelecida na Escola Central, que viria a ser instalada em setembro do mesmo ano:
Communicado Educação de Ingênuos
Parece-nos que é tempo de se cuidar seriamente do destino e applicação que devem ter os ingênuos, muitos dos quaes já attingiram á puberdade. Temos ouvido fallar que há loterias concedidas em seu favor. Que destino quererão dar ao resultado desse beneficio! Julgamos, que será de toda utilidade a compra de uma propriedade com bastante terrenos, onde os ingênuos tenham habitação e terras a rotear, e onde fossem adquiridos instrucção primaria e conhecimentos agricolas. Nesse estabelecimento tambem podem aprender qualquer officio, como sejam os de pedreiro, carpinteiro, marcineiro, alfaiate e sapateiro, conforme sua aptidão. Para melhor instrucção temos o lyceu provincial e de artes e officios. Um estabelecimento
da ordem do que tractamos deve cogitar de meios uteis e praticos adaptados a condição de individuo, de modo a tornal-os bons cidadãos e optimas mãis de
família. A sua sede não deve ser dentro do centro da capital e sim em suas proximidades ou arrebaldes. Deve-se procurar espaço e commodo salubre. A posse de terras em larga escala serve para os trabalhos agricolas, que mais tarde pela colheita trarão recursos próprios para ajuda de sua alimentação, e mesmo uma fonte de receita para o estabelecimento. Convicto do nosso acerto, temos esperança que os poderes publicos tomarão em consideração a nossa lembrança em prol do progresso da província. (Diário das Alagoas, 1 de fevereiro de 1887, nº 25, ano XXX, p. 1, grifos nossos).
Nessa matéria, verificamos a função civilizadora da escola, pelo movimento abolicionista local. Destaca que por meio da escolarização as crianças negras poderiam se tornar cidadãs e boas mães de família. A instrução deveria ser vinculada ao trabalho por meio de ofícios ou do trabalho agrícola, os quais moldariam o comportamento, além de exercer o controle, e assim promover o progresso da província.
O movimento abolicionista alagoano cria, na década de 1880, associações de caráter emancipatório, como a Sociedade Libertadora Alagoana, e esta por iniciativa de seu sócio Francisco Domingues da Silva, que foi, para muitos homens que escreveram sua biografia, o mais contundente defensor da causa abolicionista em Alagoas. Funda a Escola Central para atender aos meninos libertos pela Lei de 1871.
A Escola Central foi criada em Maceió na data de 22 de abril de 1887. A instituição vai seguir, de certo modo, o panorama apontado na matéria acima mencionada, assim como o projeto das colônias projetadas pelo governo da província na década de 1870. A proposta de seus fundadores era criar várias escolas, por isso, o nome Escola Central, a qual seria a matriz, como escreveu o abolicionista Francisco de Paula Leite e Oiticicaao escrever, em 1890, uma carta dirigida à população do Rio de Janeiro, publicada pela Gazeta de Noticias daquela cidade, pedindo ajuda para a manutenção da instituição: ―O próprio nome do estabelecimento mostra que elle obedecia ao plano de fundação de outras escolas nos differentes municipios da provincia, hoje Estado, tendo centro de operações a casa da Capital‖ 58. Mas o projeto não se realiza; possivelmente o alto custo para a manutenção de várias escolas foi a causa da não realização do propósito dos fundadores (SANTOS, 2008).
A Escola Central foi instalada no prédio anexo ao Colégio Bom Jesus59, de propriedade do fundador da Escola, Francisco Domingues. A escola, então, funcionava no prédio localizado na Rua Conselheiro Lourenço (hoje Boa vista), no centro da cidade. A fotografia abaixo registra a saída dos alunos da referida escola:
58 A referida carta foi reproduzida em Maceió pelo jornal Gutenberg, de 08 de junho de 1890, ano IX, n. 122, p.1. O trecho citado também foi reproduzido no meu Trabalho de Conclusão de Curso.
59 O Colégio foi criado em 1872 para atender os filhos da elite alagoana. Segundo Diegues Junior (1894), por esse colégio passaram vários homens ilustres de Alagoas.
Figura 5 – A fotografia registrando a saída dos alunos da Escola Central.
Fonte: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – foto reproduzida em 2008
A instituição de ensino abrigava alunos internos e externos. Segundo a fala do Presidente da Província, de 1888, José Cesário de Miranda Monteiro de Barros, a Escola contava com 216 alunos, sendo 183 externos e apenas 33 internos. Esses estavam distribuídos nas aulas de primeiras letras, ensino de música, desenho aplicado a artes e nas oficinas. Segundo a exposição do presidente da província, assim estavam distribuídos os alunos nas aulas: Ensino primário com 81 alunos, ensino de música com 22, desenho aplicado as artes com 14. Nas oficinas, os alunos se distribuíam em 7 delas: marcenaria 28, alfaitaria 26, sapataria 26, tornearia 7, assim como na de tipografia, bauleiro 3 e apenas 2 na oficina de tamanquearia.
Essa distribuição dos alunos mostra que nem todos frequentavam as aulas de instrução primária; possivelmente os que não estavam nas aulas primárias já poderiam ter algum tipo de instrução. Conforme Lima Junior (1974), os meninos negros geralmente aprendiam ler por meio das senhoras da sociedade. Segundo o presidente da província, a instituição, desde a sua instalação até março de 1888, apresentava um desempenho satisfatório:
Com muito proveito para o ensino profissional, e mais ainda para a educação dos menores orphãos, que são assim arrancados á ociosidade e aos vicios que della nascem, está funccionando mui regulamente a Escola Central da Sociedade Libertadora, que mantém uma bem organisada escola primaria e diversas officinas. (FALA PRESIDENTE DA PROVÍNCIA, 1888).
Nota-se pela fala do presidente da província o papel moralizador e civilizatório da instituição, relacionava-se, em geral, ao ensino de primeiras letras, de ofícios e/ou agrícola. A elite brasileira, fosse ela dirigente ou intelectual, abolicionista ou não, mantinha, desde o início do Império, a mesma concepção sobre o tipo de educação que deveria ser dada aos negros, qual seja: promover uma educação escolar que não aspirasse galgar ascensão social. Assim, bastaria para essa classe o ensino de ofícios, os quais também estavam atrelados ao controle da população. Os ofícios garantiriam o sustento dos alunos, como os ajudaria a permanecer no bom caminho. Além disso, após a Abolição da Escravatura, os abolicionistas e o governo tinham a preocupação de formar esses trabalhadores para a mão de obra livre.
Pelo bom serviço prestado, o presidente da província argumenta que esta deveria contar com a ajudar do governo. No mesmo ano, a diretoria da instituição pede para o governo contribuir na formação de colônias agrícolas, bem como Francisco de Paula Leite e Oiticica na citada carta à população do Rio de Janeiro. O empreendimento não chega acontecer. A intenção dos fundadores era fundar uma colônia agrícola para abrigar os alunos que chegassem à idade de sair da Escola60.
Para manter a instituição, a Sociedade Libertadora Alagoana organizava várias frentes visando arrecadar fundos destinados à Escola Central, desde verbas provenientes das loterias concedidas pelo governo, às doações de donativos da elite piedosa e às vendas de artefatos fabricados pelos próprios alunos.
Segundo Leite e Oiticica, as oficinas da instituição produziram, em 1890, as mobílias para as escolas públicas: ―As mobilias para as escolas publicas do Estado estão ultimamente sendo feitas nas officinas da escola, onde os alumnos trabalham com perfeição no fabrico de malas, bahus, perfeitamente semelhante às malas inglezas‖. Com essa atividade, a Escola estava aplicando o que permitia a Lei do Ventre Livre, ou seja, a utilização gratuita do trabalho do menor. Possivelmente, o governo estadual não pagava pelas mobílias, uma vez que, nesse período, a Escola Central já estava sob o poder do governo republicano de Alagoas (SANTOS, 2008).
60 Não foi possível identificar a idade de saída dos alunos da Escola Central, por não termos acesso ao seu regulamento.
Figura 6 – A foto revela o trabalho dos alunos na oficina de marcenaria, com o auxílio do mestre daquele ofício
Fonte: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – foto reproduzida em 2008.
Após a Abolição da Escravatura, a instituição passou a receber menores desvalidos, como informa o Almanaque do Estado de 1890 – ―Escola Central (Ensino profissional e litterario gratuito a engenuos e menores desvalidos)‖. Provavelmente eram filhos de escravizados, pois autores como Felix Lima Junior (1974) e Diegues Junior (1847) enfatizam que a escola era para os filhos de ex-escravizados, e, mesmo sob a proteção do Estado, a escola continuava a ser dirigida por Francisco Domingues. As fotos das oficinas aqui mostradas, como também a de sapataria revelam a presença maciça de alunos negros e em sua maioria de cor preta. É importante ressaltar que as fotos da Escola Central apresentadas não têm uma data precisa.
Figura 7 – os alunos nas aulas da Oficina de sapataria.
Fonte: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas – foto reproduzida em 2008
No Almanaque do Estado, de 1891, consta que a instituição matriculara apenas 128 alunos; 46 internos e 82 externos. Em tal período, a instituição contava com as disciplinas: Educação Artística, Prática de Geometria, Ensino de Desenho, Ensino Teorico - Prático de Artes e Ofícios, Noções Práticas de Química, Física e Botânica com aplicação a artefatos fabris. Ainda havia as oficinas para a fabricação de malas, calçados e marcenaria.
Figura 8 – Oficina de artefatos fabris.
Em relação aos alunos da Escola, não encontramos referências sobre nomes e origens, como nome dos pais e dos proprietários de seus pais. Apenas localizamos o nome de três alunos. Uma nota do jornal Gutenberg, de 23 de abril de 1890, menciona que o ―menor Joaquim Casemiro, da Escola Central, recitou uma bonita poesia‖, o qual também viria a ser um dos redatores de um dos impressos da escola, junto com os alunos João Vieira e Antonio Esteves. A poesia era em homenagem à festividade de Tiradentes. Nas festividades cívicas, religiosas e de comemoração ao aniversário da instituição, era comum a participação de seus alunos, bem como da banda de música da escola. Nos tempos do Colégio de Educandos Artífices, a banda dos alunos também estava presente nas festividades cívicas (SILVA, 2010)
Quanto aos professores, localizamos os instrutores que ministravam as aulas nas oficinas de 1888, informação que consta no jornal União de 4 junho de 1888, impresso este produzido pelos alunos da própria instituição.
Quadro 7 – Mapa dos mestres das oficinas
Mestres de Ofícios da Escola Central no ano de 1888
Oficinas Mestres
Tipografia Pedro Nolasco Maciel
Alfaitaria José Antonio de Araujo e Silva
Marcenaria Manoel Antonio Tavares61
Tornearia Manoel Leite
Sapataria Manoel Praxedes
Bahuleiro Norberto
Colcheiro Manoel do Carmo
Cesteiro João das Neves
Tamanqueiro Francisco
Fonte: A União, Maceió 4 de junho de 1888 – Acervo da Biblioteca Nacional
Com relação às disciplinas, encontramos seu diretor, Francisco Domingues da Silva, que ministrava as aulas de ciências. Quanto a Francisco Domingues da Silva, Augusto Vaz Filho, em seu livro Alagoanos Ilustres (1962), lembra que ele foi um incansável diretor da escola e que nela ―ensinou com dedicação, pondo em prática os mais modernos métodos pedagógicos daquele tempo‖.
61 O nome semelhante ao do professor também aparece no mapa referente aos alunos que estavam na aula do ensino secundário, mas não sabemos se este professor corresponde ao aluno. O mapa se encontra em anexo.
O Almanaque do Estado, de 1891, menciona os professores da Escola também nomeados de auxiliares do ensino literário: Cícero Tavares Wanderley do Rego, Illydio da Silva Braga, Francisco Domingues Junior, Philemon da Silva Jucá e Pedro Nolasco Maciel, já mencionado como professor de tipografia.