A escolarização das crianças libertas na província começou a ser proposta após a promulgação da Lei do Ventre Livre de 1871. Essa escolarização, definida pela mentalidade da época, seria de primeiras letras, com ensino agrícola e uma educação moral. Para contemplar essa finalidade, assim como para libertar escravizados, o governo de 1872, presidido por Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, nomeia comissões em nove cidades e vilas das províncias, entre elas, Maceió, Penedo, Atalaia, Porto Calvo, Cidade das Alagoas (atual Marechal Deodoro), cada uma formada por cinco membros, esses sendo homens de destaque na sociedade alagoana da época, como Thomas Espíndola e o senador Jacinto Paes de Mendonça.
Sendo a Idea capital desta lei emancipação do ventre, as vistas do governo e do paiz devem volver-se para a geração nascente, preparando-lhe estabelecimentos d‘ educação. Compenetrado deste elevado pensamento, e interpretando fielmente as vistas magnânimas do Governo Imperial, tomei a resolução de reunir no dia 2 de Dezembro proximo findo neste paço o maior numero de cidadão de todas as opiniões politicas, afim de, entre outros nobres commettimentos, despertal-os no da construção de asylos apropriados á criação e educação dos libertos da nova lei. Para isto nomeei uma commissão de cinco membros em cada comarca, encarregada de organisar a respectiva associação, que deverá conter um duplo fim – emancipação dos escravos, criação e educação dos libertos. (RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA - 1872)
Para atender a esse propósito, o presidente pediu que a Assembleia Provincial autorizasse o governo a ofertar uma quantia no valor de até 20.000 réis para a formação dessas associações. Em 1876, o então presidente da província, Caetano Estellita Cavalcanti Pessoa, propõe a criação de uma colônia para atender às crianças pobres e órfãs, nas quais estavam inseridas as livres, os ingênuos, índios e colonos estrangeiros e brasileiros.
Os fins da creação da Colonia era estabelecer um asylo para a educação da infância desvalida, sejam orphão ou filhos livres de mulher escrava que passarem ao patrimônio do Governo, ou filhos de presos pobres que estejam em abandono. Era também um dos fins principaes a iniciação da emigração nacional e estrangeira, chamando a si não só os índios dos extinctos aldeiamentos, como a população dispersa, sem propriedade. Ahi dar-se-hia, além da instrucção elementar, o ensino das artes e officios, e os aperfeiçoamentos modernos da agricultura, da industria
fabril e manufactureira, assim como regras para o melhoramento do gado de qualquer raça, necessario ao uso da lavoura e domestico, geometria applicada ás artes e desenho linear.(RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA – 1876) Diferente do asilo proposto pelo governo de Silvério, o presidente Caetano pretendia estabelecer não apenas um ensino primário e agrícola, mas também de ofícios, indústria fabril e da manufatura. O ensino destes dois últimos estava associado ao processo de industrialização. A modernidade da nação estava atrelada ao progresso industrial. Na província existiam apenas pequenas indústrias, entre elas as fábricas de sabão e de tecido, como apontou Espíndola (2001).
A inclusão desses ensinos também estava associada ao projeto nacional e provincial de colonização de emigrantes estrangeiros para ocupar o lugar dos escravizados, que passariam a ser libertos cedo ou tarde. Segundo o governo local, a Colônia que iria ser criada seria igual ao modelo implantado pela Colônia Isabel, em Pernanbuco, apenas em menor proporção, e como a referida, a colônia de Alagoas seria administrada por frades capuchinhos. Devido à falta de recursos, a instituição não foi criada, embora o governo já tivesse local apropriado para estabelecê-la.
A Colônia Isabel foi criada em Pernambuco, em 1874, para receber meninos órfãos e desvalidos, entre eles os libertos, ingênuos e índios. Segundo Arantes (2009) a instituição recebeu poucos ingênuos, devido ao fato da Lei do Ventre Livre permitir que os proprietários ficassem com o menor até 21 anos de idade. Nessa instituição, a educação estava voltada para o ensino agrícola, de primeiras letras e ofícios, além da educação moral.
Quanto aos estabelecimentos de colônia na província, temos conhecimento de duas, mas que foram de povoamento: a Colônia Leopoldina, fundada ainda na primeira metade do século XIX, e a colônia de São Francisco, situada em Porto Real do Colégio, esta criada para receber os retirantes da seca, que vinham do norte do Brasil. Nesta, o governo implanta em 1878, duas aulas de primeiras letras, uma para cada sexo. No mesmo ano ela fora extinta. A maior parte dos retirantes, segundo a fala do presidente da província, de 1879, Cincinato Pinto, retornaram para sua terra. Entretanto as aulas continuaram, mas depois foram fechadas ainda na presidência de Cincinato Pinto, alegando que eram frequentadas por poucos.
As propostas do governo da província evidenciam que o governo até se preocupou em estabelecer uma escola para os menores livres, o que não houve foi a criação de uma instituição. Embora tenhamos conhecimento de que na história da educação brasileira houve mais intenção que, de fato, a efetivação de projetos para atender à população.
Mesmo considerando esse fato, é importante ressaltar que antes tínhamos a visão de que o governo da província ficou ausente da responsabilidade da escolarização dos menores livres. Segundo Felix Lima Junior (1974), o governo provincial e municipal nada fizeram pelas crianças negras e pardas com relação à educação formal:
Que fizeram os governos imperial, provincial e municipal por esses pobres pretos e pardos? Nada, infelizmente. Não abriram escolas e nem oficinas onde eles aprendessem a ler e a trabalhar. E os senhores dos pais deles? Menos ainda. Os genitores desses rapazes, cativos, sem recursos, sem tempo, sem orientação, sem capacidade para ajudar os filhos que desejassem estudar eram forçados a mandá-los ‗aprender o seu ofício, trabalhando como burro de lavrador pobre, sem remuneração, debaixo de pauladas e de palmatoadas, nas oficinas de ferreiro, marceneiro, sapateiro, alfaiate, tonoeiro, sofrendo o diabo; e a trabalhar como empregados domésticos ou como serventes em armazéns de açúcar, casas comerciais e construções de prédios e em obras publicas. As meninas e mocinhas iam para as cosinhas; ou então ‗bater roupa‘ nos fundos dos quintais, as mais afortunadas. Outras, com gamela ou taboleiro na cabeça, percorriam as ruas vendendo peixe, sururu, fressuras, frutas, etc. as mais jeitosas, mais simpáticas, essas tiveram o bilhete da sorte grande; iam trabalhar como copeiras, uma; outras aprendiam a costurar e a bordar, servindo diretamente as Sinhas Moças, como mucambas. (LIMA JUNIOR, 1974, p. 9)
Além das propostas das referidas colônias, o governo provincial, em 1875, autorizava a frequência dos menores libertos pela Lei do Ventre Livre nas aulas primárias diurnas. Entretanto, o único espaço criado para atender exclusivamente a esses menores apenas seria implantado em 1887, com a fundação da Escola Central, fundada pelo movimento abolicionista local.