O fio que liga ações entre artistas e ativistas que trabalham com mobilidade nas redes nos auxiliou na coleta de dados e deu-nos inspiração para a possibilidade de uma forma de rádio mais arejada, como um resgate dos espaços da rua, com tecnologias capazes de rede que permitam ao audinteragente ir além e ser capaz de exercer influência. Sobre isso, André Lemos (2007, p. 14) acrescenta: “Andar com dispositivos móveis permite leituras e escritas do espaço com informação digital muito próximas da arte do andar dos situacionistas, dadaístas e surrealistas”. De qualquer forma, não se deve esquecer que o uso do GPS está vinculado a processos de controle e vigilância, fato que precisa ser reforçado sempre.
Trabalhos artísticos que envolvem os meios e áudio são interessantes para dar a noção do estado da arte, como os exemplos aos quais Karla Brunet aponta em seu estudo das práticas de intervenções artísticas no espaço urbano, que se utilizam do meio móvel de forma colaborativa, como o Sonic City, por meio do qual o usuário sai pela cidade vestido com sensores e, dependendo de seu movimento, escuta determinados
sons, ou o Tactical Sound Garden (TSG), em que participantes “plantam” e “colhem” sons pela cidade com seus PDAs, computadores portáteis e celulares.
Exemplos de mapeamentos criados com fotos, áudios, vídeo e anotações são as colaborações em práticas como “Mapeando Lençois” <www.lencois.art.br>, “Peripato Telematikos” <www.peripato.net>, “Urban Sensoria” <www.urbansensoria.com>. Nestes projetos os dados, tanto de GPS quanto dados contextuais, são coletados para descrever um local. São mapas de lugares que, através da colaboração aberta, contam a história deste lugar. A colaboração é feita pela ação do público em se movimentar pela cidade descobrindo novos percursos, lugares, pessoas e objetos muitas vezes antes não conhecidos. Além da mobilidade, como caminhar pela cidade, a colaboração também é feita pelo fato deles coletarem material, desde juntar algo do chão a gravar vídeos com pequenas entrevistas. Esta coleta envolve uma disponibilidade a trabalhar, fazer algo talvez inusitado, não seu percurso do dia a dia. (BRUNET, 2008, p. 9).
Ao se falar de cartografias no cyberspace, os estudos da pesquisadora e net- artista Lucia Leão são úteis:
A atividade de produção de mapas relaciona-se intrinsecamente com pulsões subjetivas e repertórios culturais. Na nossa viagem, cada um de nós chegou a Paris com mapas únicos e pessoais, e cada um de nós mapeou a cidade a partir de interações com o espaço urbano e repertórios anteriores. Assim, as pessoas que se prepararam para a viagem e estudaram aspectos da história e da arquitetura chegaram com mapas mais complexos do que aqueles que nada conheciam. Esses conhecimentos são específicos e compõem as cartografias individuais. No entanto, com a nossa viagem, novos mapas gerados pela experiência vivida foram incorporados. Podemos concluir que toda experiência de geração de mapas, a que denominamos cartografia, é contínua e envolve mutações, sobreposições e reatualizações. (LEÃO, 2003, p. 84).
Giselle Beiguelman e seu trabalho de net-art com uso de dispositivos móveis demonstram que é possível unir criação artística com informação em trânsito. A autora constata que
A popularização dos dispositivos portáteis de comunicação sem fio com possibilidade de conexão à internet e a implantação de hotspots que permitem acesso à rede via ondas de rádio (wi-fi, wireless fidelity) apontam para a incorporação do padrão de vida nômade e indicam que o corpo humano se transforma, rapidamente, em um conjunto de extensões ligadas a um mundo cíbrido, pautado pela interconexão de redes e sistemas on e off-line. (BEIGUELMAN, 2005, p. 160).
Entre outros exemplos que serão comentados a seguir, o trabalho artístico “Suite4MobileTags – QaRtCode – Escrituras nômades para escutas expandidas”, de Gisele Beiguelman, baseado em QR- Code21 (Quick Response Code) provoca estranhamento quando os participantes apontam seus celulares para o display e, repentinamente, surgem a audição de um sample e a possibilidade de realizar composição coletiva e anônima. Isso mostra bem uma mestiçagem entre o high e o low
tech, a música e o noise, o público e o privado etc., tudo um pouco misturado, mas com
efeito alargado de sensações instáveis e inusitadas. A partir do site da artista, é possível entender e ouvir alguns desses ready-made mobile dissonantes e acessar o resumo do trabalho:
Suíte para Mobile Tags propõe um exercício de composição musical coletivo. Para a realização de seu primeiro movimento, parte-se de um conjunto de oito mobile tags que trazem embutidas um número de telefone. Cada um desses números de telefone é alimentado por um
ringtone. O público mira seu celular, ou um dos celulares
disponibilizados no recinto expositivo, para um dos displays que contêm um número de celular codificado em QR-Code.
Em Suíte para Mobile Tags, mais de 16 milhões de combinações são possíveis. Seu funcionamento pode ser observado na figura 6.
21
O QR Code (ou Código de Barras em 2D) é uma matriz ou código de barras bi-dimensional, criado pela empresa Japonesa Denso-Wave, em 1994. O QR vem de Quick Response, pois o código pode ser interpretado rapidamente, mesmo com imagens de baixa resolução, feitas por câmeras digitais em formato VGA, como as de celulares. Definição da Wikipedia: <http://pt.wikipedia.org/wiki/QR_Code> Acesso em 10 jul. 2009.
Figura 6. Suíte para Mobile Tags
Um exemplo de áudio aumentado que nos interessa como ilustração ocorre no projeto Áudio Graffiti22, que apresenta novas formas de interação do som e do espaço, alterando os áudios disponíveis ou mesmo empastelando-os. Uma instalação ocorreu em 21 de agosto de 2009 na International Computer Music Conference (ICMC), que montou um ambiente com uma base de codificação de áudio e remixing, em Montreal (CA). Usuários de dispositivos móveis puderam criar e explorar uma evolução gradual da “parede” de áudio grafitada. Equipado com handsets e pequenos computadores móveis, cada participante pode taguear ou usar o spray na parede com o seu áudio, misturando-se com material musical pré-existente.
Figura 8. Overview of the Audio Graffiti system