Desde o início da colonização portuguesa no Brasil, foi constatado que os índios tinham certos conhecimentos práticos e empíricos na cura das doenças. Seus conhecimentos eram subordinados à ação do sobrenatural. A doença era vista como um castigo ou provação. Os índios não adoeciam com frequência, pois eram fortes e sadios. De acordo com Holanda (2003, p. 164) faziam parte da patologia indígena as seguintes doenças:
A bouba, o bócio endêmico, certas parasitoses e dermatoses, febres inespecíficas, disenterias, afecções do aparelho respiratório, ferimentos de guerra e acidentais, envenenamentos e mordeduras por animais venenosos, afecções resultantes de desvio alimentar.
39 Xamã: em povos da Ásia setentrional e central, especialmente os siberianos e uralo-altaicos, indivíduo que, por meio de estados estáticos e invocações ritualísticas, manifesta supostas faculdades mágicas, curativas ou divinatórias. (HAUAISS: 2001, p. 2892)
Os colonizadores introduziram outras doenças, como a varíola, que contribuíram, sem dúvida, para a dizimação dos nativos, além do apresamento e extermínio empreendidos pelos brancos. A terapêutica indígena baseava-se nas virtudes medicinais de numerosos espécimes da flora nativa.
O pajé era a pessoa que curava, um misto de sacerdote, feiticeiro e curador. Segundo Holanda (2003, p. 165), o pajé,
Apalpava, cheirava e defumava o enfermo. Sugava ferimentos, sangrava, amputava e prescrevia o medicamento, ou puçanga40, por via oral ou local. Era obedecido e temido. Contra ele moveram os colonizadores, principalmente os padres incubidos da catequese, tenaz campanha de descrédito. Perdida a influência, desmoralizado, foi aos poucos substituído, em suas funções e entre o seu povo, pelo catequista, o padre jesuíta.
Os padres Jesuítas aproveitaram e vulgarizaram as propriedades terapêuticas de diversos vegetais que foram incorporados à farmácia, entre eles o
jaborandi41 e a copaíba42. A assistência médica da Companhia de Jesus ajudou
na catequização dos índios. Com a chegada dos primeiros Jesuítas em 1549, eles fizeram o aldeamento dos indígenas para a doutrinação, o ensino de ofícios manuais e a prestação de assistência médico-farmacêutica.
Hoje em dia, a situação da saúde nas áreas indígenas é pior do que nas zonas urbanas. Segundo dados da FUNASA em Pernambuco (2007), os índios sofrem com doenças crônicas, como hipertensão, diabete e câncer, como também doenças parasitárias por falta de saneamento básico. Nas aldeias indígenas de Pernambuco, há pouco acesso à água tratada, com esgotos que escorrem pelas ruas, moradias de taipa e inadequadas, risco de doenças de todos os tipos, como
40 Puçanga: remédio caseiro, mezinha; remédio ou método de cura dos pajés; beberagem, feitiço, poção. (HOUAISS, 2001, p. 2330)
41 Jaborandi: pequena árvore nativa do Brasil, de folhas penadas, folíolos coriáceos, flores em pétalas róseas e amarelas, frutos com três a cinco cocas e sementes pretas brilhantes; arruda- do-mato. (HAUAISS, 2001, p. 1664)
42 Copaíba: comum às árvores do gênero Copaifera, da família das leguminosas, nativas do Brasil, de boa madeira, e cujo córtex encerra óleo medicinal; copaibeira, óleo, pau-de-óleo. (HAUAISS, 2001, p. 830)
também os problemas econômicos e sociais que levam muitos índios ao alcoolismo.
O Distrito Sanitário Indígena de Pernambuco (DSEI) é coordenado pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) que atua na área de dez etnias. A FUNASA assumiu no final da década de 1990 a saúde indígena que ficava a cargo da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A FUNASA levou médico, enfermeiro e dentista às comunidades indígenas, como também agentes de saúde formados nas próprias aldeias, porém o atendimento se restringe à atenção básica e ainda não é completo. Há carência de médicos, enfermeiros e materiais adequados para os profissionais da saúde.
Segundo Antônio Fernando (chefe do Distrito Sanitário Indígena de Pernambuco) a assistência especializada é mais complicada porque é disputada no SUS (Sistema Único de Saúde) tanto pelo índio quanto pelos não-índios. Por isso, a FUNASA paga exames e consultas complementares na rede particular porque, em certas especialidades, não consegue vaga no SUS.
Com a existência de casa de taipa, há um aumento em casos de transmissão da doença de Chagas. Em 2007, houve quinze casos dessa doença entre os Xukuru. Também a falta de saneamento básico, esgotos expostos, refletem as doenças infecciosas e parasitárias.
Na área indígena Xukuru, na Aldeia São José, funciona desde 1995 um grupo de Alcoólicos Anônimos (AA), que é coordenado pelo índio Ilário Gomes de Melo, atualmente com 63 anos de idade. Esse grupo reúne cerca de cinquenta pessoas. Segundo o índio Ilário, que parou de beber em 1977, a criação do AA foi do Cacique Chicão, assassinado em 1998.
O sistema de cura Xukuru também está baseado nos recursos terapêuticos que vêm da Natureza e no contato com os Encantos de Luz, os Encantados43. As plantas são entidades vivas e sagradas que constituem a morada dos Encantados e lugar de oração. A partir delas, são elaborados os remédios do mato, feitos artesanalmente, obedecendo a rituais e a normas específicos, em forma de chás, lambedores, águas, unguentos e defumadores. Seus especialistas nativos são: o
pajé, as lideranças espirituais, os rezadores, as rezadeiras, as parteiras e os produtores de garrafadas. Segundo Souza (2007, p. 137), além dos especialistas nativos, os Xukuru contam com outros que não são nativos,
Os profissionais biomédicos, que atendem essa população nos cinco postos de saúde indígena, situados no território indígena e também nos hospitais em Pesqueira e a medicina popular não-indígena representada por curandeiros errantes, rezadores, pais-de-santo e herbalistas, encontrados em sítios, vilarejos e municípios próximos à Serra do Ororubá.
Quando ocorre um sinal de que o corpo não anda bem, o doente e os membros da família procuram primeiro um especialista de cura nativa. Doenças como, mau-olhado44, espinhela-caída45, etc., são tratadas pelo rezador, pelo Pajé, pelas lideranças espirituais e produtores de garrafadas. Se o problema de saúde é mais amplo, o doente é orientado a procurar o posto de saúde mais próximo. Há dois pólos-base de atendimento médico indígena: um localizado no município de Pesqueira e outro na Aldeia São José, fruto de uma ação empreendida pelo CISXO (Conselho Indígena de Saúde Xukuru do Ororubá) junto ao DSEI – PE para melhorar o atendimento médico às famílias indígenas.
43 Encantados: de acordo com os Xukuru, são os espíritos dos antepassados invocados nos
rituais do Toré e da pajelança.
44 Mau-olhado: olhar a que se atribuem poderes de causar malefícios, infortúnios; afito, jetatura, olhado. (HAUAISS: 2001, p. 1871)
4 ANÁLISE SEMIÓTICA DAS ENTREVISTAS