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Kollektiv-matrisen

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4. UNDERS0KELSER OG REGISTRERINGER

5.4 Kollektiv-matrisen

Na primeira metade do século XX, os Xukuru expressavam sua religião com influência do catolicismo. Porém, os mais velhos, praticavam o rito antigo conhecido por segredo e o faziam às escondidas, pois a polícia alegava que essas práticas eram catimbó35 e, portanto, danosas à sociedade. A respeito desse rito

antigo, o Padre Rafael de Meira Lima (in BARBALHO, 1977: 32), no início do

século XX, em 1912, diz o seguinte:

Estes índios conservam a tradição de uma dança religiosa, chamada o toré, a qual eles executam todos os anos, na vila, nas vésperas de São João e de São Pedro. Apresentam-se vestidos com um enfeite de palha e ramos, trazendo a mais uma grande cana-de-açúcar nos ombros. Assim passam a noite com uma dança monótona, repetindo a mesma cantiga, acompanhada ao som de dois ou três pífanos. Eles, não há dúvidas, dão ou pretendem dar tais divertimentos como uma cerimônia religiosa, tanto mais que há quem faça promessa para dançar o toré em honra de Nossa Senhora das Montanhas, a quem eles têm muita devoção. Dizem eles que essa imagem apareceu no tempo da catequese dos religiosos de S. Felipe Néri que, lá, tinham um convento [...].

Todos os anos, nas festas de São João e Nossa Senhora das Montanhas (02 de julho), os índios se reúnem na Vila de Cimbres para louvar esses santos e dançar o Toré. Muitos usam roupas próprias para o evento, feitas de palha de milho que são amarradas nos braços, nos ombros, na cintura, nos joelhos e nas pernas. Para adornar a cabeça, eles usam um barrete de palha enfeitado de manjericão, rosas ou outras flores.

São João, também chamado pelos Xukuru de “Seu São João” ou “Senhor São João” ou ainda “Caô”36, é comemorado na Vila de Cimbres no dia vinte e três de junho. A festa começa pela manhã, com fogos de artifício, a banda de pífanos e

35 Catimbó: culto de feitiçaria que combina elementos da magia branca europeia com elementos negros, ameríndios e católicos; liderado por um “mestre” que defuma os assistentes com seu cachimbo, e a quem se recorre para resolver problemas diversos, seja para o bem, seja para o mal. (HAUAISS: 2001, p. 653)

36 “Caô”: influência da presença africana com os escravizados negros na Serra do Ororubá. (Artigo do professor Edson Silva intitulado São João/Caô: festa religiosa dos Xukuru do Ororubá (Pesqueira – PE).

a dança do Toré. À tarde, eles saem em procissão, partindo da frente da Igreja, com a bandeira de São João levada pelo cacique e lideranças indígenas para fazer a busca da lenha, ou seja, recolher madeira para fazer a grande fogueira que é acessa no início da noite juntamente com as demais fogueiras feitas pelos moradores da Aldeia. A missa é realizada às dezenove horas e, após, os índios dançam o Toré.

À meia-noite, os índios se dirigem a uma pedra plana chamada Lage do Conselho e esperam o conselho dos Encantados e dançam o Toré. Segundo os Xukuru, aqueles que escorregarem na lage morrerá durante o ano. Após esse ritual, retornam à Vila e dançam até às quatro da manhã.

Nossa Senhora das Montanhas, chamada pelos índios “Mãe Tamain”, é a protetora dos Xukuru e da Vila de Cimbres, a Padroeira da Serra do Ororubá, que foi introduzida pelos missionários cerca de 280 anos. Alguns índios divergem quanto ao aparecimento da imagem da Santa. Segundo D. Maria Quitéria, da Aldeia Capim de Planta, os índios,

Diziam assim que, quando acharam ela, foi uma menina que andava caçando lenha, num sabe? Tava procurando lenha. Aí quando chegaram num pé dum toco, aí acharam ela. Aí a menina volto pra casa e disse ô mãe, aculé eu achei uma santa. “Santa?” “Sim, no toco”. Aí foram. A menina achou Nossa Senhora das Montanha num toco. Aí chegou, aí truceram ela. (Anexo 10, entrevista nº 18)

Já Seu Melquíades, da Aldeia Lagoa, falou o seguinte a respeito de Nossa Senhora das Montanhas:

[...] a Santa Nossa Senhora das Montanha, lá começô quando tinha índio lá na vila. Os índio botaram a santa lá num pezinho de pau e os índio ficaram tudo admirado. Aí disse: “Nossa! uma mulhé!” e ficavam com medo, né? Ficaram com medo e... aí foram amansando, amansando e com pouco os índio já tava tudo se chegando aos pés de Nossa Senhora das Montanha na Vila. (Anexo 15, Entrevista nº 32)

Por outro lado, Seu Cassiano, da Aldeia Cana Brava, falou que a Santa foi trazida pelos portugueses, na época da colonização, como podemos observar a seguir:

Meu pai dizia, meu avô dizia. O povo português quando vieram, trouxeram ela. Não tinha casa, não, era arraiá. Eles vieram por dentro dos mato. Eles vieram procurá os índio. Por dentro dos mato, de rio afora. Que não tinha estrada não. Rio Ipojuca, eles sabia que as aldeia era aqui em riba, né? Aí vieram. Aí trouxeram a Santa. Ficaram lá. Acharam o arraiá deles. [...] Depois deixaram a Santa lá. Deixaram a Santa. Se resguardaram. Depois os índio chegaram, acharam a Santinha, acharam, ficaram alegre, rezava a reza deles: “Ave Maria, Manjericão...” sabia que era uma Santa. O índio não é besta. (Anexo 19, Entrevista nº 44)

No dia da Festa de Mãe Tamain, pela manhã, os índios dançam o Toré e, em seguida, eles vão, em fila indiana, para a igreja assistir à missa. Na igreja, alguns Xukuru se colocam em pé, no altar, e outros ficam no corredor e nas laterais. Após a missa, os Xukuru dançam novamente o Toré.

Segundo Neves (2005, p. 138), “os bacamarteiros são responsáveis pela recepção dos Xukuru. São formados por Xukuru e não-índios. Além de anunciarem a chegada dos Xukuru na Vila, eles fazem as honras à Mãe Tamain através dos tiros.”

À tarde, há a procissão de Nossa Senhora das Montanhas ao redor da Vila, que termina em frente à igreja. Apenas os Xukuru carregam o andor. De acordo com Neves (2005, p. 140), “a festa de Mãe Tamain sempre teve um caráter de apregoar a coragem dos índios.”

Durante a festa da Santa, o Toré também é dançado dentro da igreja, o que demonstra força e poder.

Não podemos deixar de ressaltar a Festa de Santo Antônio que é comemorada na Aldeia Cana Brava. Lá, Seu Cassiano é o responsável por ela, encarregado de organizar a novena e a missa no dia 13 de junho. Há muitos anos, ele vem fazendo isso, mas só no ano passado que conseguiu construir uma capela em homenagem ao Santo, na qual houve a primeira missa. Vejamos o que ele diz:

Esse santo, é Santo Antônio. O dono dele foi pra Guerra do Paraguá, teve pra lá, voltou. Festejando ele. Rezando novena. Então, foi morrendo, morrendo, morrendo e eu fiquei com ele. [...] esse santo sempre é festejado nas casa dos outro. Um dia vou fazê uma casa pra esse santo. Aí fiz mesmo aquela igreja. [...] Graças a Deus aqui já houve a primeira missa. Agora dia de Santo Antônio vai ter de novo. Treze noite de novena, toda noite, toda noite com os noitero, né? Desde o outro tempo

eu ainda tô sustentando e assim vou sustentar até quando Deus quiser. Não é? (Anexo 19, Entrevista nº 44)

O Toré é uma dança ritual que mobiliza grupos indígenas no Nordeste. Por meio dos cantos sagrados do Toré, os índios fortalecem a união e a força para afirmar suas expressões socioculturais e lutar por seus direitos. Os rituais envolvem a Natureza, os animais e as plantas. Segundo Maria Aldenize, da Aldeia Capim de Planta,

Muitas perseguições acontecem pro povo Xukuru, entendeu? E através do ritual é que a gente consegue se sair, consegue vencer, consegue ter força pra lutar, e vencer cada vez mais as perseguições [...] Então a gente não diz que eles morreram, eles só trocaram de lugar, trocaram de morada. Saíram das casas quando faleceram e foram morar nas matas. Então quando a gente canta ou puxa o ponto no ritual eles vêm, eles escutam lá da mata e volta, incorpora em alguém e vem nos dá força, às vezes até aconselha como era que eles faziam antes pra vencer. Então a gente é um povo muito unido através do toré também. (Anexo 11, Entrevista nº. 19)

Segundo Neves (2005, p. 133) o Toré Xukuru é dançado em fila indiana, formando um círculo e, à frente desse círculo espiralado, vão seis homens sendo um deles chamado de bacurau, que é o responsável pelo início de cada canção do toré. É um ritmo marcado pela pisada mais forte de um dos pés, bem como pelas batidas dos jupagos37 ou das bordunas38 no chão. Só os homens Xukuru carregam os jupagos durante o toré. Um outro instrumento utilizado durante o Toré é a gaita, também chamada de “mibim”. É feita de cano plástico, PVC, considerada o instrumento musical mais importante dos rituais.

O Toré, segundo os Xukuru, é um momento de purificação de tudo que os cerca. Durante o Toré, alguns índios tomam uma bebida sagrada chamada de Jurema. D. Lia, da Aldeia Capim de Planta, afirmou o seguinte:

Quem bebe a Jurema Sagrada tem aquela corrente. Muitos se desenvolve, né? Eu mesmo tenho corrente mas nunca me desenvolvi. [...] Mas eu tomo, eu danço toré, eu assisto à pajelança, [...] bebo da Jurema e nunca me desenvolvi. [...] Mas graças a Deus nunca

37 Jupago: pau comprido, com uma espécie de raiz em formato de bola em sua base.

38 Borduna: arma indígena de ataque, defesa ou caça, geralmente cilíndrica e alongada feita de madeira dura; tacape, clava. (HAUAISS: 2001, p. 491)

desenvolvi, não. Nem tenho medo. Eu acho é bonito. Quando um toré é... é... é forte, tem força, é quando acontece aquelas coisa. [...] Quando um toré é forte mesmo é quando acontece essas coisa, os Encanto, os Encanto de Luz. (Anexo 12, Entrevista nº. 22)

A palavra “jurema” se origina do Tupi iuréma e nomeia uma árvore leguminosa brasileira, cuja casca tem propriedades adstringentes e narcóticas. Bebida sagrada, preparada com a casca, raiz ou fruto dessa planta, usada como alucinógeno, é servida em reuniões especiais e secretas, rituais religiosos, benéfica apenas para quem tem sangue índio.

A jurema é uma planta que faz parte da família das acácias que são plantas consideradas sagradas por diversos povos ao longo da história. Segundo Santos (2007, p. 13),

Os egípcios e os hebreus cultuavam a acácia nilótica; os hindus, a acácia suma; os árabes, a acácia arábica; os incas, a acácia cebil; os nativos do Orinoco, a acácia niopo; os índios do Brasil, particularmente os do Nordeste, a acácia jurema.

A espécie que originou o culto da Jurema Sagrada no Nordeste tem como nome científico Mimosa Hostilis Benth. É uma árvore que possui espinhos em seus troncos e galhos, com folhas compostas e flores esbranquiçadas ou esverdeadas, muito pequenas e tem pequenos frutos em forma de vagens. Podemos encontrar a jurema em forma de arbusto ou trepadeira, porém é na forma de árvore que a jurema detém a energia capaz de mobilizar os elementos da Natureza trabalhados na prática da jurema (prática xamã39 com características brasileiras).

O Pajé é uma das pessoas de destaque entre os Xukuru. Não apenas como líder e conselheiro na luta do dia-a-dia, mas também como um sábio que herdou do “Rei Tupã” o dom da sabedoria e do conhecimento sobre todas as ervas medicinais da região e sobre os seus antepassados, ou seja, sobre os encantos das vidas passadas, pois só ele sabe como trazer e como levar seus antepassados na hora do ritual. Por ser um índio que entende de tudo sobre cura,

através das rezas e das ervas medicinais, ele é considerado um “enfermeiro natural” que cura os índios com o poder do “Deus Tupã” que lhe deu esse dom por meio da religião e da Natureza. Ele tem o poder de colocar e tirar o cacique. Vejamos o que disse Seu Dedé, da Aldeia Santana:

A gente tem uma festa que é a festa do Rei do Ororubá, na Pedra do Reino do Ororubá, que lá é onde é consagrado o cacique. Quando acontece de morrer um cacique, falece um cacique, um cacique ser assassinado como o Cacique Chicão foi, a Pedra do Rei é... é o local sagrado da consagração do cacique, isso junto com o pajé. O pajé é a pessoa mais velha que tem da nossa aldeia. (Anexo 07, Entrevista nº. 11)

De acordo com Santos (2007, p. 118), “os pajés são mais poderosos que os próprios caciques e algumas vezes acumulam essa função. Eles não chegam a esta condição por vontade própria, mas por inspiração.” Para comprovar que recebeu algum sinal, o iniciado tem que se comunicar com os mortos, exercer o poder da cura e de adivinhações.

In document NORD BANEN (sider 52-81)