Quando em 1987 Mário Barroca apresentou o seu estudo “Necrópoles e sepulturas
medievais de entre Douro e Minho (Séculos V a XV) ”, constatou que as necrópoles do Entre
Douro e Minho contrastavam fortemente com as grandes necrópoles espanholas, sendo
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BROWN, 1999, p. 179.
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maioritariamente constituídas por um número reduzido de sepulturas, muitas vezes apenas uma, e que raras vezes encontrou “núcleos de enterramentos rupestres que, pelo número total de
sepulcros, possam ser classificados verdadeiramente como cemitérios.”88. Esta realidade é comum a outras áreas do território nacional e por isso os estudos subsequentes ao de Mário Barroca optaram por analisar as estações com sepulturas escavadas na rocha a partir de três tipologias distintas: as que eram compostas exclusivamente por sepulturas isoladas, as de pequenos núcleos de 2 ou 3 sepulturas e os grupos constituídos por mais de três sepulturas89. A análise dos trabalhos sobre sepulturas escavadas na rocha mostra-nos a preponderância das sepulturas isoladas e dos núcleos de 2 ou 3 sepulturas sobre as necrópoles. O quadro que apresentamos de seguida constitui uma tentativa de resumo das tipologias de espaços funerários localizados nas proximidades da nossa área de estudo90.
Autor Região Sepulturas isoladas
Núcleos de 2/3 sepulturas
Necrópoles Total de estações
BARROCA,1987 Entre Douro e Minho 41 20 16 77
TEIXEIRA, 1996 Chaves 12 13 6 31
MARQUES, 2000 Viseu 53 84 30 167
LOPES, 2002 Alto Douro 32 30 26 88
VIEIRA 2004 Alto Paiva 15 10 7 32
TENTE, 2007 Encosta Noroeste da Serra da Estrela
14 15 12 41
LOURENÇO, 2007 Entre os rios Dão e Alva
17 54 34 105
RAMOS, 2012 Montemuro 4 4
Total de estações arqueológicas 188 (34.5%) 226 (41.5%) 131 (24%) 545 (100%) Tabela n.º 1 - Tipologias das estações arqueológicas com sepulturas escavadas na rocha.
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BARROCA, 1987, p. 133; BARROCA, 2010-2011, p. 140.
89
É o caso, entre outros, dos trabalhos de MARQUES, 2000; VIEIRA 2004; LOURENÇO 2007; TENTE, 2007.
90
Para a elaboração deste quadro utilizamos as informações disponibilizadas pelos autores nos seus estudos. Não contabilizamos as estações cujas notícias ou referências às sepulturas são vagas e inconclusivas.
Num trabalho recente, Iñaki Martín Viso avançou com uma análise dos espaços funerários baseada em três tipologias distintas91. A primeira tipologia de espaço funerário é a mais abundante e é constituída por sepulturas isoladas ou por pequenos grupos inferiores a 10 sepulcros. Este modelo, pela sua variabilidade, poderá subdividir-se em dois subtipos: os sítios compostos por um túmulo ou por pequenos núcleos de 2 a 5 sepulturas, que o autor associa a enterramentos de caráter familiar que se perpetuam no tempo, e os sítios compostos por 6 a 10 sepulturas, que podem incluir vários pequenos núcleos ou dispersar-se por áreas mais extensas do que o primeiro subtipo92. Como segundo modelo de organização do espaço funerário as “necrópoles desordenadas”, compostas por mais de 10 enterramentos, em que as sepulturas se distribuem pelo espaço de forma aleatória, implantando-se isoladas ou em pequenos núcleos. Esta tipologia poderá corresponder, segundo o autor, a espaços funerários de iniciativa comunitária, cuja autonomia das famílias em escolher as áreas de inumação, originaria núcleos diferenciados e uma aparente desordem da organização da necrópole93. A última tipologia de espaço funerário é composta pelas necrópoles de mais de 10 sepulturas em que os túmulos se encontram alinhados e agrupados, com uma tendência para a orientação comum e sem que se observem núcleos isolados bem definidos. O autor atribui estas características a uma paisagem hierarquizada em que há uma memória comunitária gerida por uma instância de poder que restringiu ou eliminou a capacidade de gestão da memória familiar94.
A proposta de Inãki Martín Viso constitui um interessante modelo de organização do espaço sepulcral e é certamente reflexo da amostragem de sítios que o autor utilizou para a desenvolver. Porém, em nossa opinião, a aplicação deste modelo com os critérios estipulados pelo autor, deverá adaptar-se às características específicas de cada região para não incorrermos no risco de leituras distorcidas.
O facto de, em alguns locais, não conhecermos o número total de sepulturas existentes, uma vez que muitas se encontram ainda soterradas e encobertas por edifícios, ou porque foram total ou parcialmente destruídas, mostra-nos as dificuldades em obter leituras precisas. Por outro lado, temos também que considerar que os índices de povoamento e o número de aglomerados populacionais poderão variar consoante as áreas geográficas onde se inserem. As matrizes de
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MARTIN VISO, 2012, p. 170. O autor baseou-se num total de 639 sítios com sepulturas escavadas na rocha localizados nas províncias espanholas de Salamanca e Zamora e no território da beira alta portuguesa. 92 MARTIN VISO, 2012, p. 171. 93 MARTIN VISO, 2012, pp. 171-172. 94 MARTIN VISO, 2012, p. 172.
povoamento e os índices populacionais das regiões de montanha serão, muito provavelmente, distintos das regiões orograficamente menos acidentadas.
Se atentarmos na tabela 1 constatamos que, do total de estações arqueológicas identificadas, a grande maioria, 76%, integraria a tipologia composta por sepulturas isoladas ou por pequenos grupos inferiores a 10 sepulcros. Esta percentagem será na realidade muito maior, uma vez que, todas as estações com 4 ou mais sepulturas foram consideradas necrópoles, integrando-se assim nos 24% remanescentes. Esta leitura permitir-nos-ia afirmar que mais de 76% dos sítios com sepulturas escavadas na rocha seriam enterramentos de caráter familiar que se perpetuaram no tempo. Por outro lado, teríamos que considerar a divisão dos remanescentes 24% em três leituras distintas: os núcleos compostos por 3 a 10 sepulturas, que passariam a integrar a primeira tipologia; as necrópoles desordenadas e as necrópoles alinhadas. Esta divisão acentuaria de uma forma ainda mais clara o reduzido número de estações arqueológicas compostas por mais de 10 sepulturas. Será legítimo afirmar que estaríamos perante uma ampla região em que quase não se observavam espaços sepulcrais compostos por sepulturas rupestres de iniciativa comunitária, organizados ou não em torno de um espaço público de memória coletiva?