5. Drøfting
5.2 Bemanning og kompetanse
A história da juventude do homem comum ainda não foi escrita.
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Walter Jaide
O enfoque desta seção será a dimensão mística e religiosa do Contestado. Praticamente toda a bibliografia básica existente, relacionada ao tema “Contestado”, não é constituída por trabalhos científicos em Ciências da Religião, ou seja, produzida por cientistas da religião, mas, sim, por múltiplos escritos de militares, religiosos, teólogos, médicos, sociólogos, políticos, antropólogos, advogados, jornalistas, filósofos, poetas, psicólogos, romancistas, entre outros. Cada um, com maior ou menor formação acadêmica e providos ou não de métodos científicos, procurou oferecer sua contribuição para a compreensão do Contestado. Muitas informações e reflexões valiosas estão contidas em toda essa produção.
As contradições internas destas obras são constantes. Sendo assim, esta pesquisa não procurou, na sua revisão bibliográfica, em princípio, questionar as tais contradições, mas, sim, pincelar certas informações e reflexões consideradas mais oportunas e próximas ao objetivo aqui proposto.
Mais de cinquenta pesquisadores já apresentaram suas reflexões sobre o Contestado. Existe mais de uma centena de obras, entre livros, livretes, monografias, peças de teatro e vídeos que trabalham o tema do Contestado, isso sem contar as páginas na internet, que são milhares. Pode-se afirmar que, dentro da historiografia, as obras hoje mais citadas e estudadas são: Os fanáticos, crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos, de Aujor Ávila da Luz (1952); A campanha do Contestado, de Oswaldo Rodrigues Cabral (1960); Messianismo e conflito social, de Maurício Vinhas de Queiróz (1966); Messianismo
no Brasil e no mundo, de Maria Isaura Pereira de Queiróz (1965); Os errantes do novo século, de Duglas T. Monteiro (1974); Guerra do Contestado: a organização da Irmandade Cabocla, de Marli Auras (1995), que serviram de fundamentação teórica para muitos pesquisadores.
Como já foi afirmado acima, dentro da perspectiva das ciências da religião, pouco foi escrito. A mística do Contestado não foi, até o momento, objeto de estudo dos pesquisadores. É um tema que se encontra diluído em boa parte das obras, mas em praticamente nenhuma, até o momento, mereceu centralidade. Pode-se afirmar que praticamente não há estudos aprofundados sobre a mensagem original de João Maria e menos ainda sobre aquela que foi sendo assimilada e ressignificada pela cultura e religiosidade dos descendentes do Contestado. Eis uma das razões desta tese!
A novidade desta tese está no fato de que o Contestado e a mensagem de João Maria serão “visitados” desde uma perspectiva mística e religiosa. Este olhar epistemológico é que fará a diferença. Tudo o que já foi dito pelos militares, padres, teólogos, historiadores,
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sociólogos, antropólogos e outros mais, não é tudo, há muito ainda que não foi e nem será escrito. A experiência vivida é sempre maior do que tudo aquilo que pode ser escrito sobre ela.
Para fazer uma rápida revisão bibliográfica, procurando dialogar com alguns pesquisadores e interpretes do Contestado, vale iniciar, dizendo que, diferentemente de Canudos, que logo cedo entrou para a história do Brasil, para o Contestado talvez tenha faltado uma obra como Os sertões, de Euclides da Cunha. O Contestado foi maior que Canudos, tanto em termos de abrangência geográfica, como de tempo e do número de pessoas envolvidas, porém, mesmo assim, ainda hoje é um assunto muito mais catarinense que brasileiro. No estado do Paraná, que foi envolvido diretamente no conflito, esse assunto foi praticamente apagado de sua história.
No início do século passado, a busca de superação de um Brasil arcaico, mágico e sacral era um dos grandes objetivos dos círculos intelectuais. O objetivo fundamental das oligarquias políticas, do mundo da ciência e da intelectualidade erudita era construir um Brasil moderno, secular, científico e educado.66 Sua grande meta era um humanismo leigo, logo a religião não poderia ser um fenômeno prioritário ou digno de ser estudado. A pesquisa sobre a religião ou sobre a mística era um trabalho inútil para as ciências, uma vez que a própria religião estaria condenada ao desaparecimento, na medida em que aquelas avançassem.67
No que concerne às crenças populares, a elite intelectual da época costumava usar, normalmente de forma pejorativa, termos como religiosidade, crendices, misticismo, fanatismo, entre outros, no intuito de desconsiderá-las ou relegá-las ao esquecimento, desprezá-las como alienação, conservadorismo ou resquícios de um passado remoto, pré- moderno, sustentado pela ignorância e falta de racionalidade de pessoas ou povos ainda não suficientemente evoluídos e civilizados.
De acordo com essa concepção, que era hegemônica na intelectualidade da primeira metade do século XX, estão os escritos, sobre o Contestado, de militares e de freis franciscanos da época. A participação do exército brasileiro na guerra, com a frequente substituição de seus chefes, talvez por consequência de um elevado número de mortos, assim como devido às suas vitórias em certos combates, levou os seus comandantes a escrever, muitas vezes, longos relatos sobre a guerra. Suas publicações normalmente defendem a ideia
66 Cf. ALVES, R. A volta do sagrado, p.114. 67 Cf. OTTEN, A. Só Deus é grande, p.61.
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de terem procurado cumprir um dever patriótico e justificam os seus “necessários” ataques e massacres, contra os rebeldes, por eles serem fanáticos, jagunços, bandidos ou “inimigos da Lei”, da república e da nação.
Os principais relatos publicados logo depois de concluída a guerra são: Episódios e
impressões, de Demerval Peixoto; A campanha do Contestado, de Herculano Teixeira D´Assumpção. Também o militar Lucas Alexandre Boiteux, na obra Pequena História
Catarinense, (1920), apresenta a Guerra do Contestado, vista sob o título: Os Fanáticos. Ao falar dos monges, este autor apresenta João Maria como “um indivíduo de aspecto rude” e José Maria como um “certo monge continuador das supersticiosas práticas do antecessor”. O entendimento que os militares, que participaram da guerra, tinham do povo da região, pode ser resumida numa afirmação do Tenente Pinto Soares:68“A região inhospita éra habitada, em grande parte, por indivíduos criminosos e foragidos á acção da lei penal, do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catharina, formando uma população perigosa.” Ele diz ainda noutro momento que “no Contestado, porém, o inimigo era um mixto de fanáticos, bandidos e exploradores de todos os matizes.”
Para o militar catarinense da época, prevaleceu a hipótese de que a desordem no planalto fora implantada pelas “supersticiosas práticas” dos seguidores dos dois monges, porém, por mais que os militares vissem com total desprezo e de forma errônea as práticas “supersticiosas” dos seguidores dos monges, fato é que perceberam e não deixaram de registrar o grande potencial que estas mesmas práticas ofereciam aos seus adeptos.
Dentre os padres franciscanos e outros padres católicos que escreveram sobre o Contestado, destacam-se: Frei Rogério Neuhaus69 que foi biografado por Frei Pedro Sinzig, sendo que este transcreveu as Reminiscências daquele, sendo publicada a obra de nome Frei
Rogério Neuhaus (1934); Geraldo José Pauwels, que escreveu Contribuição para o Estudo do
Fanatismo no Sertão Sul-brasileiro (1933); Benno Brod S.J., autor de O Messianismo no
Brasil (1974) e Frei Aurélio Stulzer, de A Guerra dos Fanáticos 1912-1916: a contribuição dos Franciscanos (1982). Também Frei Menandro Kamps deixou registrado no Livro Tombo da Paróquia de Canoinhas a sua interpretação dos fatos da guerra. Mais recentemente destacam-se os padres Thomás Pieters e Helcion Ribeiro, que deram importantes
68 SOARES, J. O. P. Subsídios para a história: o Contestado, p. 07.
69 Frei Rogério nasceu em 1863, na Alemanha, sendo ordenado sacerdote em 1890, vindo no ano seguinte para o Brasil, ficando alguns meses na Bahia, e em 22 de fevereiro de 1892, assumiu a paróquia de Lages-SC. Exerceu seu ministério, na região do Contestado, até o ano de 1922, atuando também nas paróquias de Curitibanos, Canoinhas, Porto União/União da Vitória e Palmas.
55 contribuições para a compreensão do Contestado.
Logicamente, não há um consenso ou uma compreensão homogênea entre os diversos padres católicos que pesquisaram sobre o Contestado. Os primeiros escritos, seguindo o processo de racionalização ocidental e, por sua vez, a mesma linha de compreensão das elites intelectuais e dos militares da época, referiam-se aos caboclos em guerra como “fanáticos”, “ignorantes” e “supersticiosos”, dados a misticismos ou a crendices religiosas desprovidas de sentido e de racionalidade.
Frei Menandro Kamps70, que trabalhou na paróquia de Canoinhas nos anos da guerra, fala de “um tal José Maria, homem de pouca reputação” (...) que chegou na região “com reclames de médico e remédios infallíveis”, chamando assim, “a attenção do povo ignorante”. Ele também afirma que José Maria se dizia irmão de João Maria. Deste que
há annos fez as suas peregrinações por todos os sertões, fazendo, como elle diz, a penitencia, dando bons conselhos ao povo, fallando muito da Religião em seus discursos religiosos, occupou-se das palavras da Sagrada Escritura e com preferência das profecias do Apocalypse de João Apóstolo.
Segundo frei Kamps, a luta do Contestado foi “provocada por um punhado de fanáticos aventureiros que desgraçadamente conseguiram iludir o povo bom e simples dos nossos sertões.” A interpretação do frei Kamps parece simpática ao monge João Maria e manifesta uma ruptura provocada posteriormente por José Maria e os seus seguidores que se aproveitaram da fama do monge que os precedeu. Era essa a concepção hegemônica dos padres católicos da época: a de que o povo era ignorante e por isso se deixava iludir por lobos vestidos com pele de ovelha. Sendo assim, entendiam que se fazia necessário um trabalho árduo e permanente por parte deles, dos missionários católicos, para evangelizar e educar esse povo, de acordo com a fé católica.
Observando os seus escritos, pode-se afirmar que para aqueles padres que atuaram na região onde aconteceu e no período mais próximo da Guerra do Contestado, faltou-lhes uma mística ou uma sensibilidade evangélica e por isso não puderam ou não quiseram compreender a causa cabocla do Contestado como uma causa cristã, assim como, a sua mística como uma forma inculturada de vivenciar e experimentar a própria mística cristã e católica. João Maria, tido como santo pelo povo, foi tolerado, mas não foi bem recebido pela maioria dos freis que atuavam na região. Faltou-lhes a memória histórica da Igreja primitiva,
70 Cf. Relato anexo, 01. Vale dizer que não é objetivo desta pesquisa destacar o trabalho missionário ou a atuação dos freis franciscanos junto ao Contestado. Para isso pode-se ver, entre outras obras, a de MELIM, P. C. Símbolos e práticas religiosas no planalto catarinense. (2002); a de SILVA, E. A. Identidades franciscanas no Brasil. (2000).
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em relação ao processo de santificação, que passava necessariamente pelo culto popular. Não podia ser elevado a santo quem não aglutinasse devotos que lhe prestassem culto.
Ao contrário, aqui, João Maria foi julgado como causador de grandes males por “desviar” o povo “dos seus legítimos dirigentes e representantes da Igreja”, destruindo a autoridade destes, chamando este povo simples e que “possui um profundo sentimento religioso” para junto de si, para as teias da superstição e do fanatismo. Como afirmou o padre Geraldo Pauwels, João Maria teria causado
um enorme, um grande mal, que só Deus sabe, por ter disposto o povo a aderir a qualquer explorador ou embusteiro que se afivelasse à máscara de monge, como o fez o esperto e dianesco (sic) José Maria, poucos anos depois, levando a caboclada à revolta. 71
Já os escritos mais recentes, como os do padre Helcion Ribeiro, compreenderam que a religiosidade cabocla é e foi uma maneira de viver a religião católica. E que esta religiosidade não era desprovida de sentido ou de racionalidade e, sim, uma ferramenta indispensável dos caboclos na sua luta pela terra e por mais vida e dignidade. Segundo ele, foi essa mesma religiosidade, fundamentada nos evangelhos, que lhes ofereceu meios e motivações para resistirem contra a opressão e a violência em que estavam submetidos. Segundo Ribeiro,72
a força política dos monges e a profunda religiosidade do sertanejo caboclo se fecundaram crescentemente. [...] Fundada em comportamentos religiosamente intuídos, a fé popular daqueles homens e mulheres, ávidos do divino, encontrava nas palavras, e sobretudo nas atitudes dos monges, respaldo para suas vidas sofridas e marginalizadas.
Outros autores e obras que precederam Hélcion Ribeiro e que merecem destaque, não só pela sua fundamentação histórica, pelas informações que oferecem, mas também por considerarem o aspecto religioso do Contestado, são os médicos catarinenses Aujor Ávila da Luz, que produziu Os Fanáticos: crimes e aberrações da religiosidade dos nossos caboclos (1952) e Oswaldo Rodrigues Cabral com A Campanha do Contestado (1960). Ambos atuaram na região do Contestado e ali coletaram importantes informações sobre os monges e sobre a guerra, entre outras. Estes pesquisadores, especialmente o segundo, abriram o leque das reflexões e ofereceram informações diversas sobre o Contestado.
No que tange ao tema da religiosidade, estes autores manifestam posicionamentos divergentes. Ávila da Luz bateu pesado contra os crimes e aberrações cometidos pelos
71 PAUWELS, G. Contribuição para o estudo do fanatismo no sertão sul-brasileiro, pp.190-193. 72 RIBEIRO, H. Da periferia um povo se levanta, p.85.
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caboclos fanatizados, assim como contra os seus líderes João Maria e José Maria. Quanto a João Maria, ele percebe que a devoção do povo para com ele, é grande, ao ponto de levá-lo aos altares da canonização, porém também afirma que este monge, de constituição misticopática e ascética, e sendo um messias brando, manso e pacífico, levou à excitação, à exaltação e ao fanatismo do caboclo em sua religiosidade73 e isso permitiu que José Maria pudesse ser o “incubo da tragédia dos fanáticos nos sertões catarinenses”. Também critica as “crendices absurdas”, as “praticas religiosas extravagantes,” as “superstições pueris”, próprias do homem primitivo e que estão muito presentes na vida do caboclo do Contestado. Falta-lhe portanto o senso de respeito e sensibilidade para com a cultura e a religiosidade popular dos caboclos do Contestado, assim como uma compreensão mais ampla em relação às causas estruturais, socioeconômicas e políticas da guerra. Sua análise responsabiliza o misticismo caboclo, excitado pelos monges e elevado ao fanatismo, como responsáveis pela tragédia. Era a tese que exército, coronéis, fazendeiros, empresas de colonização, entre outros, precisavam para se legitimar em seus feitos contra os indígenas e caboclos rebelados.
Já, Oswaldo Rodrigues Cabral, seu primeiro grande oponente, procura valorizar a luta dos “jagunços” em defesa de seu pedaço de terra, de sua linguagem, de seus costumes, dos seus hábitos e da sua própria existência. Quanto ao “monge” João Maria, ele avaliza aquilo que está na memória popular, colocando-o como uma espécie de “guardião do bem”, do correto.
Quanto ao monge José Maria, este autor o considera em oposição aos monges que o antecederam, pois se aqueles eram santos, este era um “impostor”, um “espertalhão” ou um pseudo-asceta, todavia ele entende que este foi recebido pela comunidade cabocla do Contestado como um “continuador” da obra dos monges anteriores, alguém que soube “aproveitar-se” da tradição deixada por João Maria e com isso aglutinar muitas pessoas em torno de si, e não só em vida, mas também depois de ter sido morto no primeiro combate no Irani. Foi então que, depois de um ano de sua morte, um crescente número de revoltosos organizara-se em torno do seu chefe místico, a lutar contra o abandono a que estavam condenados, porém, segundo o autor, este não alcançou os altares da santificação popular e, sim, aquele monge que o antecedeu, o João Maria.74
Este autor também constata que o sertanejo não se afastou do cristianismo, porém o
73 AVILA DA LUZ, A. Os fanáticos, pp.148 e 149.
74 Cf. CABRAL, O. R. A campanha do Contestado, pp.190-207. A expressão monge é absolutamente questionável, não há provas de que eles fossem monges ou que assim se auto-denominassem, e o povo da região em geral também não conhecia monges para ver nestes alguma semelhança com aqueles.
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recebeu de uma forma muito particular, conforme seus costumes e sua cultura. O autor julga ser esdrúxula a tese que considera o Contestado como luta religiosa, porém também afirma que faltou uma ação capaz de afastar o fator religioso da luta que se desencadearia. Como se isso fosse possível! Para ele, o perigo para a ordem pública não poderia residir nas práticas religiosas, por mais absurdas que pudessem parecer, e, sim, no ajuntamento de pessoas, devido aos vários problemas sociais que estavam enfrentando.
Para o autor, o homem do Contestado e o de hoje é o mesmo e a sua crença também é a mesma. Logo, se hoje o perigo não existe, é porque as condições sociais que levaram ao desencadeamento da luta desapareceram.75 Com isso, parece que o autor entende o fator religioso como consequência ou resultado das condições sociais e não como causador de tragédias e desordens. Pode-se deduzir disso que o ator entende que o “perigo” está nas condições sociais desfavoráveis e violentas e não na mística que consola e pacifica. Ele esquece que existem outras crises para além das condições materiais, sociais e objetivas, que também podem vir a se constituir em “perigo” para uma determinada “ordem” social, política ou econômica. Falta-lhe maior clareza sobre qual foi a função e a influência da religião no Contestado. Ao rejeitar a tese de que a religiosidade cabocla pudesse ter tido uma significativa influência na mobilização, na organização e na luta dos caboclos do Contestado, seja por reconhecimento ou na busca de seus direitos e utopias, o autor esquece que eles se moviam, lutavam e morriam, animados por uma compreensão de mundo marcada profundamente por uma mística religiosa e por um imaginário religioso,76 que justificava, dava sentido e sustentação aos seus propósitos e às suas vidas.
Além destes escritos mais ligados à perspectiva da criminologia, da psiquiatria e da historiografia, aos poucos foram ganhando campo os escritos antropológicos que, numa primeira fase, voltavam-se mais para a busca de compreensão do homem e sua religiosidade, especialmente nos aspectos mais exóticos e folclóricos, e os escritos sociológicos que estavam mais interessados nos aspectos estruturais e da realidade socioeconômica, na análise do Contestado; neste caso, as questões religiosas passam para o campo das ideologias ou dos mecanismos compensatórios e reflexos de um modelo econômico. A cultura popular e, por sua vez, a religiosidade passam a ser tratadas com indiferença ou, então, são consideradas
75 Cf. CABRAL, O. R. A campanha do Contestado, pp.341-348.
76 As “representações” (ou o “imaginário”) são fundamentais para a compreensão do universo em que se inserem. Segundo CHARTIER, R. A história cultural, p.17, “as lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio.”
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como forças pré-modernas, de conservadorismo e tradicionalismo, de natureza subjetiva, ilusória e desprovida de um objeto que pudesse ser estudado cientificamente.
A partir da década de 1960, com Maria Isaura Pereira de Queiroz e Maurício Vinhas de Queiroz, a Guerra do Contestado e o seu caráter místico e messiânico tornam-se mais conhecidos nacional e internacionalmente. Ambos, numa perspectiva sócio-antropológica, consideram e valorizam a dimensão religiosa do Contestado, mas o foco agora não é mais o fanatismo religioso irracional, como concebeu Aujor Ávila da Luz, e, sim, a força messiânica que levou milhares de sertanejos a se organizarem em um movimento de luta pelo acesso à terra e contra a exploração e a dominação em que estavam submetidos. Eles abriram uma importante discussão do Contestado, dentro de uma visão ampla dos movimentos messiânicos, onde realçam a importância política dos movimentos rústicos e a sua capacidade de adaptação ao mundo moderno. Seguindo uma linha da tradição marxista, eles combatem as discussões anteriores que viam nos líderes do Contestado pessoas fanáticas e desequilibradas e sustentam a tese de que estes movimentos são normais nas sociedades tradicionais, são tentativas de adaptação ao mundo moderno e de transformação.
Segundo eles, os movimentos rústicos, como foi o caso do Contestado, acontecem no intuito de reorganizar e reordenar as relações sociais, assim como na tentativa de preservar a essência da sociedade rústica, a sua moralidade e as relações comunitárias, religiosamente sancionadas, porém é possível perceber, nas reflexões dos autores, que a religião tem uma