... de uma maneira assustadoramente concreta, a violência entra pelas casas e corpos, ameaça a vida em todas as suas dimensões e vai deixando, por onde passa, um rastro de morte e destruição. Maria Clara L. Bingemer
Olhar para o passado, focando um dos acontecimentos mais marcantes da história catarinense que foi o Contestado, da mesma forma como o motorista olha para o retrovisor ou então no entendimento de que é preciso cuidar da memória de um povo porque nela está a sua própria coluna vertebral, sendo o passado importante como mola propulsora para o futuro, é a motivação deste primeiro capítulo da tese. Todo o grupo humano possui uma memória e outras heranças que influenciam o seu comportamento e dão elementos para o seu proceder em direção ao futuro.34 Todas as descobertas do ser humano, suas invenções e seus mitos, em geral, ele os transmite aos seus descendentes. Aquilo que sobrevive e é mantido vivo, de geração em geração, vira cultura. A cultura não explica tudo, mas é uma referência fundamental na construção de identidades e estilos de vida.
O ser humano desenvolve a sua personalidade e transforma a sociedade sob as heranças e possibilidades ou condições que lhe são oferecidas culturalmente. Mesmo aqueles jovens que se apresentam rebeldes, discrepantes e até mesmo individualistas em relação à cultura e à sociedade,35 eles só conseguem fazer alguma diferença a partir da própria
34 Cf. BORAN, J. O Futuro tem nome: juventude, p.17.
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sociedade e da história que lhes é transmitida das gerações anteriores. Acontecimentos de menor relevância histórica nem sempre passam a ser incorporados na cultura de um povo, porém, um fato marcante como foi o Contestado não somente é lembrado depois de várias gerações como também é ressignificado, a fim de que lhes sirva como referência, lição e sentido para a vida individual e coletiva.
É inegável que questões de ordem econômica e política, assim como a questão das fronteiras entre Santa Catarina e Paraná, influenciaram decisivamente na Guerra do Contestado. Também é verdade que a participação de adolescentes e jovens nessa guerra foi muito expressiva. Tais questões, assim como a própria guerra, serão abordadas apenas nos seus aspectos mais relevantes, porque um dos objetivos desta tese é resgatar o Contestado como uma das referências importantes para a vida, o protagonismo e a práxis transformadora de muitos jovens na atualidade.
O Contestado foi um episódio bélico que deixou cicatrizes profundas na alma e na cultura cabocla do Sul do País e dívidas sociais a serem creditadas às novas gerações. Pode-se dizer que nele aconteceu, de certa forma, o encontro e o confronto de mitos, ritos, culturas e instituições, advindos desde a antiguidade até a modernidade. Houve um intercruzamento e um confronto entre cosmogonias, teologias, sociologias e artes, de alguma forma, mencionados na importante herança bibliográfica a respeito. Tanto a historiografia, quanto a tradição oral, passam por um processo de ressignificação permanente. Esta seção parte de uma análise bibliográfica sobre o Contestado, contextualizando-o historicamente, e aprofunda alguns aspectos da herança cultural ressignificada pelas novas gerações.
O termo “Contestado” remonta a meados do século XIX, quando teve início a disputa dos limites territoriais entre os estados de Santa Catarina e Paraná. Tal disputa só foi concluída em 1916, ano em que foi assinado o acordo definitivo sobre os limites entre os dois estados. Foram 48 mil quilômetros quadrados de terras disputados, que compunham o “chão Contestado”, isso significaria quase metade do atual estado catarinense, porém praticamente metade desse território é paranaense.
Praticamente não há estudos aprofundados sobre a participação de jovens no Contestado e nem sobre a ressignificação dessa experiência junto às gerações dos descendentes dessa guerra. Faz-se necessário compreender a mística que moveu outrora muitos jovens à luta contra diferentes formas de violência, para facilitar a compreensão dos avanços, limites, desafios e rumos dos atuais processos de organização popular e juvenil. Sem
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isso, os “vencidos” de outrora continuarão “vencidos” hoje e a sua sabedoria continuará sendo desprezada, sua memória continuará sendo apagada e seus sonhos abafados. E, deste modo, os descendentes do caboclo que outrora foram membros da irmandade do Contestado, e por isso foram tachados de “fanáticos”, “bandidos”, “lunáticos”, “incultos”, “alienados”, que ainda hoje carregam as heranças desse estigma, quiçá possam um dia sentir-se novamente protagonistas de sua própria história, a seu modo, e conforme as suas crenças, mitos e sonhos.
Existe uma linguagem própria da mística, e poder-se-ia dizer mais, uma linguagem própria da mística do Contestado. O Contestado tem sido denominado de muitas formas, inclusive de movimento religioso, místico, guerra de fanáticos de irracionais, entre outras. Falar de mística não é falar de coisas, mas de significados, de algo que dá sentido à vida. A lógica da mística não passa necessariamente pela lógica do pensamento lógico, mas em boa parte pelo indizível, pelo imaginário, pelo sentimento, pela intuição, pelo inconsciente e pelo inefável. Falar de mística é, então, “tentar falar das coisas indizíveis”, daquelas que sugerem um “silêncio respeitoso”; é procurar falar de uma experiência humana complexa e cheia de possibilidades, é a tentativa de um falar atento às aspirações, desejos e necessidades humanas, é uma vontade de exprimir um horizonte simbólico, permanecendo aberta para aquilo que permanece além do enunciado.36
Ao lembrar do Contestado como uma experiência religiosa vivida por caboclos que acabaram na cruz, massacrados, e seus corpos deixados como alimento aos urubus, faz-se interessante a reflexão de Franco Crespi37que fala da experiência religiosa como um interrogar-se a respeito da possibilidade de assumir a atitude de quem se dispõe a escutar, a prestar atenção àquilo que, na própria linguagem dos símbolos religiosos, é revelado e, ao mesmo tempo, ocultado. Trata-se de uma experiência no sentido de que não se configura tanto como um processo de tipo cognitivo, mas como algo mais ligado ao aspecto vivencial, com seus componentes emocionais e intuitivos. Segundo ele, a experiência religiosa também não é consoladora e certificante, pois não exclui a possibilidade do erro e do fracasso final e vive no trágico paradoxo entre a esperança e o desespero.
Ao falar de mística do Contestado, o que se quer é apontar para uma experiência religiosa que, no pensamento de Crespi,38 sugere o reconhecimento dos limites do pensamento e do saber, bem como uma crítica radical a todo tipo de absolutizações, a não rejeição do
36 Cf. WITTGENSTEIN, L. Tractatus logico-philosophicus, 1994. 37 CRESPI, F. A experiência religiosa na pós-modernidade, pp.48ss. 38 CRESPI, F. A experiência religiosa na pós-modernidade, pp.82; 62s.
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impensado, do inefável e divino como “totalmente outro”, e uma forma de procurar transcender, contestar e transformar a realidade existente. Assim, Deus, desprovido de qualquer poder, manifesta-se-nos através de sua ternura, amizade e solidariedade para com a fraqueza e a precariedade da criatura humana. Desta forma, as atitudes de quem assume uma posição de poder, de quem pratica a violência, de quem se garante na posse da verdade ou se alegra com a própria riqueza são o resultado de uma vontade de negar a precariedade da existência, de ocultá-la através da absolutização daquilo que, na realidade, não pode ser senão parcial.
No entanto, as ambiguidades são inevitáveis, quando se procura compreender movimentos messiânicos, milenaristas, apocalípticos ou utópicos como o Contestado. Constata-se logo a presença genuína de um povo com uma profunda fé em Deus, com uma certeza de que Deus estava do seu lado e que, sendo assim, sairia vencedor da guerra para a qual foi levado. Foi Deus que o reuniu contra a opressão e a exploração em que se encontrava e também foi Deus que, através dos seus mensageiros o conduziu para a guerra ou ao menos permitiu que fosse ao seu encontro, porém, a realidade e a história nos mostraram que este mesmo povo foi aniquilado ou foi reduzido ao silêncio. É nesse sentido que se torna oportuno observar a proposição de Sergio Quinzio,39 sobre a “fé e a derrota de Deus”, sobre a possibilidade de um fracasso do desígnio de Deus, sobre o fato de que “confiar numa promessa de salvação significa o mesmo que suspender a própria vida sobre um abismo.” Para ele, a fé é algo que dá sentido à vida, sustenta uma referência a um sentido, porém não é fonte de segurança e de triunfo, mas, sim, “um caminhar rumo ao limite do impossível”, um “viver na angústia do silêncio de Deus”, é um “sim que o homem diz ao silêncio de Deus”. É participar do mistério do aniquilamento divino. Em nossa época, a fé é purificada de qualquer segurança fácil. O próprio Deus que se encarna é um Deus que se despoja da própria onipotência e aceita a possibilidade da própria derrota. Quinzino mantém a esperança da salvação que, porém, parece realizar-se através do aniquilamento de Deus, na cruz. E tudo o que é fraco e precário participa deste mistério da agonia de Jesus na cruz.
Pode-se concluir a introdução, deste capítulo, afirmando que ao observar o Contestado e, especialmente, a violência projetada contra os caboclos que viviam na região onde o Contestado aconteceu, percebe-se logo precisamente o reverso da história, não o fio do progresso e da emancipação, mas a alienação e exploração de uma pequena parcela da sociedade contra outra grande parcela desta mesma sociedade, então, a eloquência da “mística
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do Contestado” e das “heranças dessa mística nos jovens de hoje” deve também apresentar o inapresentável, recuperar a memória do oprimido, do sem-voz, do submerso, do não-pessoa, que é por sua vez portador de uma imaginação criativa capaz de culminar numa prática libertadora, uma prática que nasce de uma experiência fundamentalmente religiosa..., uma experiência mística.
É evidente que poderiam ser citados diversos movimentos parecidos e até mais importantes do que o Contestado, cuja participação de jovens fora relevante, porém, as opções e os limites dessa abordagem, ao dar destaque ao movimento do Contestado, quer apresentá- lo não como sendo o movimento mais importante ou o único movimento no qual se pode reconhecer uma atuação significativa de jovens e, sim, como uma experiência, a partir da qual e tal como ela foi sendo ressignificada, pode-se compreender melhor os jovens na atualidade.
Antes de entrar nas heranças religiosas e culturais dos jovens do Contestado, faz-se necessário contextualizá-lo e fazer referência a um homem chamado João Maria, que viveu na região antes da Guerra do Contestado, mas que é considerado uma referência importante e de alguma forma conectada a essa guerra.