Os babalaôs atendem a diversos clientes todos os dias. Esses clientes têm diferentes tipos de problemas estendendo-se desde um conselho sobre se ele/ela deve ou não fazer uma viagem até assuntos de vida e de morte envolvendo uma pessoa doente em favor da qual um parente consulta Ifá. Alguns clientes consultam Ifá em momentos críticos de suas vidas envolvendo matrimônio, divórcio, mudanças de profissão ou de residência. Quando o cliente entra na casa do sacerdote de Ifá, ele o saúda e expressa o desejo de "falar com o orixá". O sacerdote de Ifá, então, pega sua corrente divinatória e a joga na esteira ou numa bandeja de ráfia em frente ao cliente. O cliente sussurra seu problema numa moeda ou num búzio e o coloca junto aos instrumentos do sacerdote. Como alternativa o cliente pode pegar a corrente divinatória ou o ibò e soprar num deles diretamente. Em ambos os casos são os desejos do orí do cliente que foram comunicados a Ifá que irá, então, dar a resposta apropriada através do primeiro odù que o sacerdote de Ifá irá revelar ao arremessar a corrente divinatória.
O babalaô pega o após entoar algumas palavras de saudação a Ifá. Ele apressa Ifá para que dê a resposta apropriada ao cliente sem demora. O sacerdote de Ifá profere o ibà30 (permissão das autoridades)ao Ilè31 (a terra), a Olódúmaré (Olodumare) e aos seus mestres na arte de Ifá. Ele atira a corrente em frente dele mesmo e rapidamente lê e pronuncia o nome do odù cuja inscrição gráfica ele viu. A resposta ao problema do cliente será encontrada somente neste odù (ABIMBOLA, 1997).
O sacerdote de Ifá começa a cantar os do odù que ele viu enquanto o cliente assiste e ouve. O sacerdote canta tantos ele conhecer daquele odù até que ele cante um com uma história similar ao problema do consulente. Neste estágio o consulente o detém e pede explicações sobre aquele em particular que tem uma história de um problema semelhante ao dele. O sacerdote interpreta aquele e menciona o ebó que o cliente deve fazer. Às vezes durante o processo de leitura o cliente vai reconhecer certos problemas similares aos problemas de certos membros de sua família. Ele pode também reconhecer um que se relaciona a outro problema pessoal dele diferente do problema original que o levou a consultar Ifá. Pode também acontecer que o cliente não saiba qual escolher dentre aqueles cantados pelo sacerdote. Em todos estes casos, o ibò será usado para esclarecer e elucidar a real mensagem de Ifá.
30 Ibà constitui a primeira parte de um encantamento do sacerdote de Ifá. Ele saúda as autoridades do aiye tais como os mais
velhos e as ajés.
Se, entretanto, o cliente achar que nenhum dos cantados pelo sacerdote estão relacionados com o seu problema, o sacerdote vai continuar cantando mais e mais até que um deles satisfaça o cliente. Mas, se o sacerdote esgotar seu estoque de , ele pedirá educadamente ao cliente para voltar no dia seguinte ou outro dia marcado para continuarem a leitura. Enquanto isso, o sacerdote irá aprender mais do odù original em questão e quando seu cliente voltar, se voltar, ele irá cantar os novos poemas na esperança de que desta vez o cliente se satisfaça (EMANUEL, 2000).
Na sociedade tradicional iorubá, os sacerdotes de Ifá estão livres deste embaraço já que praticam o jogo de Ifá em grupos consistindo de dois ou mais sacerdotes. Quando os sacerdotes praticam Ifá desta forma, é fácil satisfazer seus clientes, já que um sacerdote substitui o outro quando seu colega já esgotou seu estoque de ou simplesmente não lembra mais nenhum naquela ocasião em paticular.
Quando o cliente está totalmente satisfeito, tanto com o que ele escolheu como o mais relacionado como o seu problema quanto com a interpretação feita pelo babalaô, ele deverá fazer o ebó (oferenda, sacrifício) estipulado. Se o material requerido para o sacrifício não puder ser encontrado nas vizinhanças do local de leitura ou se o cliente não tem dinheiro para comprar o material naquele momento, o ebó pode ser protelado até o momento em que o cliente esteja com o material em mãos. Em certos casos o cliente pode deixar uma quantia de dinheiro suficiente para comprar o material com o sacerdote. Se o cliente for uma pessoa pobre, ele poderá oferecer só uma parte do material. Um ponto importante é que não importando a situação o ebó deve ser realizado. O sistema de Ifá condena veementemente o indivíduo que evita o sacrifício prescrito para ele. O sacrifício é, portanto, fundamental para a dinâmica de leitura de Ifá. O sacrifício mantém o elo de ligação entre o cliente, o babalaô, os orixás e os ancestrais, juntos num sistema de profunda comunicação.
ODÙ
Como mencionamos acima, existem 256 “categorias” de “versos” na coleção de enunciados orais de Ifá. Cada uma destas categorias é chamada de odù. Cada odù como será visto adiante tem sua própria inscrição gráfica (marca) e caráter. O trabalho do sacerdote de Ifá é reconhecer a marca de cada um dos odù
e a interpretação de suas características. Os odù são considerados orixás que foram enviados por Olodumare para substituir Orunmilá no aiye após o regresso deste para o orun (ABIMBOLA, 1977).
De acordo com os enunciados orais de Ifá, os , Orunmilá, antes de sua partida definitiva para o orun (realidade espiritual), prometeu aos seus filhos e seguidores que ele enviaria a eles alguns orixás que realizariam algumas das funções que ele mesmo realizava quando de seu tempo no aiye (realidade material). Esses orixás se chamariam odù e viriam do orun. Quando Orunmilá finalmente retornou ao orun, seus filhos e seguidores começaram a fazer os preparativos para a chegada dos odù. Para os dezesseis principais odù, os Ojú Odù, prepararam dezesseis tronos. Um dos tronos foi muito bem descorado e colocado em um lugar aberto; os outros quinze foram organizados ao redor daquele formando um círculo.
Segundo Abimbola, quando os dezesseis Ojú Odù começaram a chegar do orun, Òfún Méjì, também conhecido como , era o líder. A hierarquia dos odù no orun é como se segue (ABIMBOLA, 1997, p. 26):
Quando os odù chegaram à fronteira entre o Orun e o aiye, no entanto, eles inverteram a ordem. O primeiro odù seria o último e o último, o primeiro. Imediatamente Èjì Ogbè atravessou a fronteira e foi saudado pelas pessoas quando de sua chegada no aiye (EMANUEL, 2000). Elas o colocaram no trono central preparado para o líder dos odù. Desta maneira, a nova ordem foi:
A ordem de senioridade dos Ojú Odù, os dezesseis principais odù, permanece a mesma até os dias de hoje. Èjì Ogbè é considerado o odù mais velho, mas todas as vezes que um babalaô faz uma leitura com Òfún Méjì, ele o saúda como um rei dizendo héèpà (eu te saúdo).
Como mencionado anteriormente, os dezesseis principais odù (Ojú Odù) são mais importantes que
os odù menores ( . Os dezesseis principais odù contem os mais importantes de Ifá e se
considera uma obrigação de cada babalaô saber a maior quantidade de possíveis desses odù. Os também são considerados orixás. Como o próprio nome deles implica, eles são considerados filhos ( ) dos dezesseis principais odù. Eles também são conhecidos como Àmúlù Odù (odù de padrão misto) já que cada um deles recebe o nome de dois dos principais odù. Por exemplo, o primeiro e mais
importante é chamado de Este nome é a combinação dos nomes de dois odù,
Ogbè, o primeiro odù, e o segundo odù. Os duzentos e quarenta odù menores são organizados em doze grupos. Cada grupo é conhecido como Àpólà (seção). Os doze grupos recebem os nomes de doze dos principais odù. Eles são organizados na seguinte forma (ABIMBOLA, 1997, p. 28):
Cada àpólà consiste em certo número de odù. A primeira seção possui trinta odù enquanto a segunda seção possui vinte e oito. O número de odù em cada seção decresce em um padrão irregular, dando um total de duzentos e quarenta odù.
Cada odù possui, em média, seiscentos (poemas) que o identificam e lhe dão um caráter distinto32. É parte do treinamento do babalaô estar apto a distinguir entre os aqueles que pertencem a cada um dos odù sem cometer erros ou misturá-los. Os nomes dos duzentos e cinquenta e seis odù são baseados em dezesseis nomes genéricos dos quais os nomes dos odù são derivados. Cada um destes dezesseis nomes básicos corresponde a um dos dezesseis padrões possíveis de leitura em um dos braços da corrente divinatória ou um dos lados das marcas feitas no pó de Ifá. Já que ambos, o pó de Ifá e a corrente, são lidos da direita para a esquerda o padrão do lado direito é considerado básico e é nele que os dezesseis nomes genéricos estão baseados. A seguir temos os dezesseis padrões básicos das inscrições
32 Estamos usando uma média que a grande maioria dos babalaôs julga necessária para a formação de um sacerdote. No entanto,
esse número pode ser bem maior para os sacerdotes mais velhos já que durante sua vida no exercício de Ifá lhes conferiu as trocas necessárias com outros sacerdotes que ampliam os conhecimentos sobre cada odù.
gráficas colocadas em ordem cronológica e hierárquica. Essas inscrições são sempre feitas à direita do babalaô:
(1) OGBÉ (2) ÒYÉKÚ (3) IWÒRI (4) ÒDÍ
I II II I I II I II I II I II I II II I (5) ÍROSÙN (6) ÒWÓRÍN (7) ÒBÀRÀ (8) ÒKÀNRÀN I II I II I II II II II I II II II I II I (9) ÒGÚNDÁ (10) ÒSÁ (11) IKÁ (12) ÒTÚRÚPÒN I II II II I I I II I I II I II I II II (13) ÒTÚÁ (14) ÍRETÈ (15) ÒSÉ (16) ÒFÚN I I I II II I II I I II I II I I II I
Os duzentos e cinquenta e seis odù de derivam dos dezesseis padrões genéricos. Eles estão organizados em dois grupos, como já discutimos. O primeiro grupo é o Ojú Odù (principal ou maior), são ao todo dezesseis e são baseados na duplicação de cada um dos dezesseis padrões genéricos. Portanto, a palavra èjì ou méjì (dois) acompanha cada um dos seus nomes como prefixo ou sufixo. Assim, teremos Èji Ogbè (dois padrões de Ogbè) que é uma duplicação do padrão ( I ) acima. Em outras palavras, quando
vemos o mesmo padrão genérico na esquerda e na direita, a inscrição gráfica é de um Ojú Odú para o qual o nome Èjì + X ou X + Méjì será escrito, sendo X um dos padrões genéricos. Vejamos dois exemplos:
(A) Èjí-Ogbè é formado pelo padrão básico Ogbé que é sempre inscrito à direita do babalaô: I
I I I
Se duplicarmos o padrão na coluna da esquerda, adicionamos èjí ao nome do padrão duplicado: I I
I I I I I I Assim, temos um dos dezesseis principais odù, Èjí-Ogbè.
(B) é formado pelo padrão básico que é sempre inscrito à direita do babalaô:
II II II II
Se duplicarmos o padrão na coluna da esquerda, acrescentamos méjì ao nome do padrão duplicado:
II II II II II II II II Assim, temos outro dos dezesseis principais odù,
Essa regra de formação dos odù é a mesma para a composição de todos os dezesseis principais odù. Todos os outros principais odù recebem méjì depois do padrão duplicado. A lista completa dos nomes dos 16 principais odù e suas respectivas inscrições gráficas, em ordem de antiguidade, é a seguinte (ABIMBOLA, 1977, p. 15): (1) (2) (3) (4) I I II II II II I I I I II II I I II II I I II II I I II II I I II II II II I I (5) (6) (7) (8) I I II II I I II II I I II II II II II II II II I I II II II II II II I I II II I I (9) (10) (11) (12) I I II II II II II II I I I I I I II II I I I I II II I I II II I I II II II II (13) (14) (15) (16) I I I I I I II II II II I I II II I I I I II II I I II II I I I I II II I I
O segundo grupo de odù, os , são baseados na organização de qualquer um dos padrões básicos à direita e qualquer um dos quinze que sobram à esquerda. Não há repetição de nenhum dos padrões. Se fizermos isto em cada um dos dezesseis padrões básicos, de maneira que nenhum padrão
apareça mais que uma vez do lado direito, nós chegaremos a duzentos e quarenta odù menores. Vejamos dois exemplos:
(A) Se colocarmos à direita o padrão básico Ogbè: I I I I
E à esquerda colocarmos o padrão básico :
II II II II Teremos um chamado : I II I II I II I II (B) Se colocarmos à direita o padrão básico Ìwòrì:
II I I II E à esquerda colocarmos o padrão básico :
II I I I
II II I I I I II I
Como no caso dos dezesseis odù principais, há uma ordem de senioridade entre os odù juniores. E
como já vimos, os estão agrupados em doze àpólà. Apresentamos, como exemplo, os nomes dos
trinta do primeiro àpólà, o Àpólà Ogbè (ABIMBOLA, 1977, p. 17):
Cada um dos 256 odù tem uma característica específica associada a ele. Por exemplo, Èjì Ogbè, o primeiro e mais importante odù, significa boa sorte, enquanto que , o décimo quarto odù, significa morte. O décimo terceiro odù, , por outro lado, conta a história do Islã e a introdução daquela religião em contexto iorubá. A maioria dos em cada odù contém histórias relacionadas ao caráter ou tema do odù a que pertence. Logo, existem 256 características principais na coleção de enunciados orais de Ifá. No entanto, há alguns em cada odù que não se relacionam com o tema principal do odù concernente. Assim, em Èjì Ogbè nem todos os vão conter o tema de "boa sorte" e em Ótúrá Méji nem todos os falarão sobre o Islã.
Podemos dizer que o odù ajuda a dar sentido e esclarecimento aos milhares de (256 x 600, em média) do sistema de Ifá. Sem o odù seria difícil categorizar os importantes temas encontrados nesses numerosos poemas. Além disso, ao associarmos cada odù a um orixá particular, a coleção de enunciados
orais fica mais próxima das dinâmicas sociais e espirituais dos iorubás. Neste sentido, o sistema de Ifá dá a palavra aos orixás iorubás.
Apresentamos nesse primeiro item as características gerais do sistema de Ifá a partir de seus elementos materiais: os enunciados orais (odù) e todo o aparato do jogo de Ifá. Essas características são fundamentais para a compreensão dos elementos da segunda parte já que elas estão envolvidas na práxis de Ifá. Seguimos, agora, com um (“verso”, “poema”) de Ifá que nos narra a origem do jogo de Ifá pelas nozes de palma, em outras palavras, é a versão do próprio Ifá sobre sua origem.