Lev Semionovitch Vigotsky nasceu na pequena cidade de Orsha, localizada próximo a Minsk, capital da Bielorrússia, no final do século XIX, em uma família judaica. Após seu nascimento, a família mudou-se para Gomel, outra cidade da Bielorrússia, em uma área destinada a judeus.
Filho de Semion Lvovitch Vigotsky, bancário e representante de uma companhia de seguros, e de Cecília Moiseevna, professora que dedicou sua vida à criação dos filhos e não exerceu a profissão, Vigotsky cresceu em um ambiente familiar intelectualizado e que lhe propiciava o contato com literatura, artes, diversos idiomas e assuntos dos mais diversos campos de conhecimento. Assim, a maior parte da educação formal de Vigotsky aconteceu em sua casa, orientado inicialmente por sua mãe e depois por professores particulares, garantindo-lhe uma solida formação intelectual.
Em 1911, aos quinze anos, ingressou em um colégio judaico, destacando-se por seu desempenho e sua capacidade intelectual. Formou-se em 1913 e nesse mesmo ano foi aprovado no curso de Medicina da Universidade Imperial de Moscou; contudo, o curso não lhe despertava interesse. Insatisfeito, transferiu-se para o curso de direito. Nesse momento, frequentou também a Faculdade de História e Filosofia da Universidade do Povo de Chaniavski.
A experiência nessa universidade teve um papel bastante destacado na formação de Vigostki. Embora não tenha ai recebido nenhum título acadêmico, a formação obtida nessa universidade permitiu que ele aprofundasse seus estudos em psicologia, filosofia e literatura, historiografia, estética e lingüística, o que foi de grande valia em sua vida profissional posterior. (OLIVEIRA; REGO, 2010, p.13)
Graduou-se nos dois cursos em 1917; no entanto, não obteve o diploma do curso realizado na Faculdade de Historia e Filosofia, pois a universidade, embora fosse
&%#
#
um instituto qualificado, não era reconhecida pelo regime Czarista por ter em seu quadro professores que foram expulsos da Universidade de Moscou por motivos políticos (TOASSA, 2007). Neste mesmo ano, após a revolução Russa, Vigotsky inicia sua carreira profissional retornando a Gomel permanecendo nessa cidade até 1924, ano em que volta a viver em Moscou. De acordo com Oliveira e Rego (2010):
No período de 1918 a 1924, além de escrever críticas literárias e resenhas sobre peças teatrais, lecionou e proferiu palestras sobre temas ligados à literatura, ciência e psicologia. Já nessa época preocupava-se também com questões ligadas á pedagogia. Em 1922, por exemplo, publicou um estudo sobre os métodos de ensino da literatura nas escolas secundárias (OLIVEIRA; REGO, 2010, P. 14)
Nesses anos, ministrou cursos e palestras em diversas instituições; foi um dos criadores do museu da Imprensa de Gomel; fundou uma editora e uma revista de literatura; participou ativamente da vida cultural de Gomel, coordenando a área teatral do departamento de educação do povo; e viveu nessa cidade os problemas de seu país, como nos lembram Oliveira e Rego (2010) :
(...) a queda do império czarista, o advento da revolução, vários partidos e ideólogos que saíram do ostracismo ou voltavam do exílio e que disputavam o poder e a adesão dos cidadãos, a ofensiva alemã que incorporou Gomel ao território da Ucrânia, a ameaça dos contrarrevolucionários (p.15)
Em 1920, assim como outros membros de sua família, contraiu tuberculose, dando inicio a quatorze anos de luta contra a doença. Casou-se em 1924 com Rosa Semerrova e seguiu para Moscou. Dessa união, Vigotsky teve duas filhas: Guita e Assia.
1924 foi um ano importante também para a vida profissional e intelectual de Vigotsky, pois “a partir dessa data se dedicou mais sistematicamente à psicologia e passou a ocupar um lugar de destaque na história da psicologia soviética” (OLIVEIRA; REGO, 2010, p.15). Proferiu uma palestra no II Congresso Russo de Psiconeurologia em Leningrado e, pela qualidade de sua apresentação, recebeu um convite para trabalhar no Instituto de Psicologia Experimental de Moscou. Foi lá onde conheceu Aleksandr Romanovitch Luria e Aleksei Nikolaievitch Leontiev; assim, formou-se o grupo de pesquisa conhecido como Troika na psicologia russa. (SMOLKA, 2009).
&&#
#
O quadro complexo da psicologia proposta por Vigotsky revela a multiplicidade de assuntos tratados em sua abordagem sócio-interacionista; a vida emocional constitui-se como um de seus interesses, embora, como revele Toassa (2007), encontremos esse assunto de maneira esparsa, exceto por poucos textos e “às vezes com breves referências que não poderão ser compreendidas senão no interior de seu projeto teórico” (p.106).
Essa autora aponta que a emoção era um dos principais interesses nos últimos anos de Vigotsky: “(...) sua últimas preleções ressaltam o significado vital das emoções na sobrevivência, na consciência e na ação, idéias que, de algum modo, atravessam sua obra e se encaixam no novo quadro teórico por ele construído. (TOASSA, 2007, p.106)
Na concepção sócio-interacionista de L. S. Vigotsky, as emoções são tratadas numa perspectiva diferente das principais teorias mecanicistas de sua época; nestas, havia uma forte influência organicista e o entendimento de que as emoções não poderiam evoluir, limitando-se às mudanças e alterações orgânicas e fisiológicas.
Vigotsky apresenta uma perspectiva de desenvolvimento para as emoções, incluindo o psiquismo como um de seus componentes, e faz a tentativa de integrar a filosofia em seu entendimento, o que amplia a possibilidade de sua compreensão, reduzida nas teorias mecanicistas à base orgânica. Vigotsky analisa as emoções de acordo com a concepção sócio-histórica. Assim:
(...) admite que a manifestação inicial da emoção parte da herança biológica, mas junto com outras funções psicológicas, nas interações sociais, ela perde seu caráter instintivo para dar lugar a um nível mais complexo de atuação do ser humano, consciente e autodeterminado. (TASSONI, 2008, p.58)
Dessa maneira, percebemos que Vigotsky estabelece e problematiza a relação entre a manifestação orgânica das emoções, o psiquismo, fatores históricos, filosóficos e culturais, ampliando a possibilidade de entendimento dessa questão. Nessa concepção desenvolvimentista, “(...) destaca que não há uma redução ou desaparecimento das mesmas, mas na verdade sugere que existe um deslocamento para o plano do simbólico, da significação e do sentido” (TASSONI, 2008, p.58). Segundo Tassoni (2008):
Vigotsky defende que uma abordagem ancorada puramente nos processos corporais, além de ignorar as qualidades superiores das emoções, única e
&'#
#
exclusivamente humanas, também não considera as transformações qualitativas que sofrem ao longo do desenvolvimento (p.59).
No livro “Psicologia pedagógica” (2004), texto em que Vigotsky inicia o estudo das emoções (TOASSA, 2007), encontramos uma preocupação do autor acerca dessa temática. Ele aponta que a educação pode realizar mudanças na vida emocional dos educandos, configurando-se essa como uma elemento importante para o trabalho pedagógico e devendo ser considerada e aceitável pelo educador. Dessa maneira, indica:
As reações emocionais exercem a influência mais substancial sobre todas as formas do nosso comportamento e os momentos do processo educativo. Queremos atingir uma melhor memorização por parte dos alunos ou um trabalho melhor sucedido do pensamento, seja como for devemos nos preocupar com que tanto uma quanto outra atividade seja estimulada emocionalmente. A experiência e estudos mostraram que o fato emocionalmente colorido é lembrado com mais intensidade e solidez do que um fato indiferente. Sempre que comunicamos alguma coisa a algum aluno devemos procurar atingir o seu sentimento. Isso se faz necessário não só como meio para melhor memorização e apreensão mas também como objetivo em si. (VIGOTSKY, 2004, p.143)
Como se pode observar, para Vigotsky, o processo educativo não deve ser reduzido aos fatores cognitivos; pelo contrário, o autor considera as emoções como um elemento fundamental para a ação educativa desde o seu início, com a mesma importância que tem a cognição para esse processo.
Assim, as emoções se configuram como ponto de partida para o trabalho educativo e devem ser entendidas e consideradas, pois possibilitam a efetivação do processo ensino-aprendizagem. Dessa maneira:
A emoção não é um agente menor do que o pensamento. O trabalho do pedagogo deve consistir não só em fazer com que os alunos pensem e assimilem geografia mas também a sintam. Por algum motivo essa idéia não costuma vir á cabeça, e o ensino de colorido emocional é entre nós um hóspede raro, o mais das vezes relacionado a um amor impotente do próprio professor por seu objeto, professor esse que desconhece os meios para comunicar essa matéria aos alunos (...). Por outro lado, são precisamente as reações emocionais que devem constituir a base do processo educativo. Antes de comunicar esse ou aquele sentido, o mestre deve suscitar a respectiva emoção do aluno e preocupar-se com que essa emoção esteja ligada a um novo conhecimento. Todo o resto é saber morto, que extermina qualquer relação viva com o mundo. (VIGOTSKY, 2004, p.144)
&(#
#