Na outra visão e interpretação acerca do Orógeno Brasília Meridional, esta porção da Província Tocantins é compartimentada em três domínios principais: domínio interno, representado por rochas de altas temperaturas representantes do arco magmático e
53 constituintes da Nappe Socorro-Guaxupé (CAMPOS NETO; CABY, 1999, 2000); domínio continental subductado, que é representado por rochas de altas pressões e constituintes do Terreno Andrelândia (CAMPOS NETO; CABY 1999, 2000; TROUW et al., 2000); e domínio externo de margem continental passiva representado pelo Sistema de Nappes Carrancas (TROUW et al., 2000) e Nappe Lima Duarte (CAMPOS NETO et al., 2004). Desta forma, a
Nappe Socorro-Guaxupé e o Sistema de Nappes Andrelândia seriam correlacionáveis ao Bloco Paranapanema, margem ativa, enquanto que o Sistema de Nappes Carrancas e a
Nappe Lima Duarte seriam representantes da margem passiva da paleoplaca São Francisco- Congo (CAMPOS NETO et al., 2011) (Figura 3-4). Xistos imaturos, semi-pelíticos a metawackes compõem uma série de depósitos sin-colisionais tipo flysch sobre a Nappe Carrancas, no domínio de margem passiva (WESTIN; CAMPOS NETO, 2013). Como embasamento destes domínios, ocorrem substratos alóctones arqueano-paleoproterozoicos que afloram em núcleos antiformais.
Figura 3-4. Mapa geológico do Orógeno Brasíla Meridional. Modificado de Campos Neto et al. (2010), Gengo (2014), Nunes et al. (2008), Paciullo et al. (2002), Quéméneur et al. (2002), Ribeiro et al. (2002), Trouw et al. (2008, 2002), Vinagre et al. (2014) e Westin et al. (2016).
Os complexos Amparo-Serra Negra, Heliodora-Minduri, Mantiqueira e Petúnia, correspondem a ortognaisses arqueanos, enquanto que o Complexo Pouso Alegre (CIOFFI et al., 2016), Paleoproterozoico juvenil, é representado por tonalito-granodiorito ortognaisses migmatíticos com associações de granitos porfiroclásticos e subordinadamente anfibolitos. Este complexo ocorre como substrato do Sistema de Nappes Andrelândia e cavalga o
54
Complexo São Vicente. O Complexo São Vicente corresponde às unidades Na1 e Na2 de Paciullo et al. (2002), e é composto por duas associações de litofácies principais, uma composta por paragnaisses e outra por intercalações de paragnaisses com quartzitos, xistos, rochas calciossilicáticas, anfibolitos e rochas metaultramáficas subordinadas (TEIXEIRA, 2015; WESTIN et al., 2016).
3.2.1 Domínio de Arco Magmático
A Nappe Socorro-Guaxupé corresponde a uma lasca de aproximadamente 15 km de espessura de crosta inferior e intermediária representada pelas raízes do arco magmático continental construído através da subducção da crosta oceânica referente à paleoplaca São Francisco-Congo. As suítes plutônicas cálcio-alcalinas e valores negativos de εNdt indicam ambiente de margem continental ativa e acrescionária, com idades entre 670 Ma e 625 Ma (CAMPOS NETO; CABY, 1999; GENGO, 2014; SALAZAR MORA; CAMPOS NETO; BASEI, 2014; VINAGRE et al., 2014). É considerada como representante da extensão mais meridional do Arco Magmático de Goiás (LAUX, 2004; LAUX et al., 2004, 2005; PIMENTEL; FUCK; GIOIA, 2000), e é dividida em Unidade Granulítica Basal, Unidade Diatexítica Intermediária e Unidade Metatexítica Superior (CAMPOS NETO; CABY, 2000). As condições de metamorfismo que afetaram a Nappe Socorro-Guaxupé resultaram em extensa fusão sin- orogênica observada em rochas migmatíticas presentes em diferentes níveis crustais. A existência de rampas laterais de alto ângulo separam a nappe em dois domínios principais: Guaxupé, ao norte, e Socorro, ao sul.
O Domínio Guaxupé apresenta, em sua base, rochas granulíticas enderbíticas à charno-enderbíticas com intercalações locais de gnaisses gabro-noríticos, referentes à Unidade Granulítica Basal (CAMPOS NETO; CABY, 2000). A porção intermediária, Unidade Diatexítica Intermediária, é representada por biotita-hornblenda diatexitos e biotita-granada diatexitos com fontes metaluminosas a peraluminosas e com enclaves de gnaisses kinzigíticos. E no topo da sequência, compondo a Unidade Metatexítica Superior, são encontrados metatexitos pelíticos e semi-pelíticos (CAMPOS NETO et al., 2004). Os eventos metamórficos gravados pelas rochas acima descritas, sob condições de ultra-alta temperatura, ocorreram a 625 ± 5 Ma, datado através de U-Pb em zircão provenientes de granitos sin-orogênicos (JANASI, 1999; MARTINS; VLACH; JANASI, 2009; SALAZAR MORA; CAMPOS NETO; BASEI, 2014), com relaxamento térmico associado à colisão entre 615 ± 16 Ma e 612 ± 3 Ma (CAMPOS NETO et al., 2004). No Domínio Socorro, as delimitações entre as unidades mapeadas encontradas no Domínio Guaxupé nem sempre são perceptíveis e a Unidade Granulítica Basal comumente ocorre como lascas. As rochas que ocorrem nesse domínio podem ser divididas em dois principais grupos: ortognaisses metatexíticos e gnaisses diatexíticos (GENGO, 2014).
55 3.2.2 Domínio de Crosta Continental Subductada
O Terreno Andrelândia ou Sistema de Nappes Andrelândia é representado por uma pilha metamórfica composta por três estruturas alóctones (CAMPOS NETO et al., 2007). O alóctono superior é constituído por metapelitos e metawackes metamorfisados sob condições de fácies granulito de alta pressão (CAMPOS NETO; CABY, 1999, 2000; CAMPOS NETO et al., 2007, 2010, 2004; DA MOTTA et al., 2010) da Nappe Três Pontas-Varginha (Pouso Alto e klippen associadas). O alóctono intermediário, Nappe Liberdade, é composto por uma sequência de mica xistos pelíticos com quartzitos e gnaisses calciossilicáticos subordinados, com blocos de rochas metabásicas retroeclogíticas. A Nappe Andrelândia, alóctono inferior deste sistema de nappes, é composta por metapelitos na base, seguidos por metawackes e, no topo, por uma sequência metapelito-psamítica.
As Nappes Três Pontas-Varginha, Pouso Alto e klippen associadas (Carvalhos, Aiuruoca e Serra da Natureza) correspondem aos segmentos que registraram as maiores temperaturas, e são representadas por granulitos de alta pressão. São rutilo-cianita-granada- feldspato potássico granulitos com níveis de plagioclásio e biotita e bancos de quartzitos, e subordinadamente ocorrem faixas de rochas máficas representadas por granada- clinopiroxênio quartzo granulitos, enstatita-granada-hornblenda granulitos, granada-biotita- plagioclásio gnaisses e escapolita-hornblenda-biotita gnaisse (CAMPOS NETO et al., 2010). As rochas metabásicas da Klippe Carvalhos comumente apresentam texturas importantes do metamorfismo retrogressivo marcadas por cristais de granada com coronas de intercrescimento entre hornblenda + plagioclásio ± quartzo ± minerais opacos, substituição parcial ou total de clinopiroxênio por hornblenda e intercrescimento de hornblenda e plagioclásio em torno de cristais de zoisita (CIOFFI, 2009). No entanto o pico metamórfico calculado é de no mínimo 850-900 ºC e 12 kbar de pressão, o que indica que estas rochas foram submetidas a condições de, ou próximas de, profundidades mantélicas relacionada a um ambiente de subducção. A trajetória P-T de descompressão de sentido horário, apresenta pico bárico em 15 kbar com temperatura de 800 ºC. Esta condição de metamorfismo em alta pressão apresenta idade de 618 Ma (idade U-Pb por TIMS em monazita proveniente de paragnaisses) (CAMPOS NETO et al., 2010; CIOFFI, 2009; CIOFFI et al., 2012).
A Nappe Liberdade (TROUW et al., 2000) é predominantemente composta por rochas metassedimentares pelíticas com lentes de quartzitos, anfibolitos, metawackes, gnaisses calciossilicáticos, rochas máficas e ultramáficas. Boudins de rochas retroeclogíticas ocorrem restritas na base da estrutura e indicam metamorfismo em 680 ºC a profundidades de até 60 km (CAMPOS NETO et al., 2011). Segundo Santos et al. (2004), as rochas metapelíticas e os retroeclogitos provavelmente experimentaram as mesmas trajetórias P-T a partir de 650 ºC a 12 kbar, durante a descompressão. Alguns metapelitos apresentam metamorfismo em
56
profundidades mais rasas, a 5,6 kbar de pressão, e temperaturas mais altas, de 834 ºC, enquanto que o pico metamórfico dos retroeclogitos ocorreu em temperaturas de ca. 675 ºC e 17,5 kbar de pressão (CAMPOS NETO; CABY, 1999).
A Nappe Andrelândia é compartimentada em três unidades litoestratigráficas, que da base para o topo são: Xisto Rio Capivari, composto por uma série predominantemente metapelítica com raras intercalações de rochas metapsamíticas e metamáficas, sendo sua litologia principal granada-cianita xistos porfiroblásticos; Xisto Santo Antônio (TROUW et al., 1983) que é composto por metawackes onde o litotipo predominante é um granada-biotita- plagioclásio-quartzo xisto homogêneo de textura predominante granoblástica; e o Xisto Serra da Boa Vista, onde ocorrem rochas metapsamíticas compostas por muscovita quartzitos e muscovita-quartzo xistos, com lentes de quartzitos e cianita-muscovita-quartzo xistos porfiroblásticos (Figura 3-5).
Figura 3-5. Estratigrafia do Sistema de Nappes Andrelândia (CAMPOS NETO et al., 2007). XRC-Xisto Rio Capivari; XSA-Xisto Santo Antônio; XSBV-Xisto Serra da Boa Vista.
3.2.3 Domínio de Margem Continental Passiva
O domínio de margem continental passiva é representado pelas rochas do Sistema de
Nappes Carrancas e pela Nappe Lima Duarte, que é cavalgada a SE pela Nappe Andrelândia e ambas cavalgam o Grupo Carrancas. Sobre as unidades do Sistema de Nappe Carrancas ocorre a Unidade Biotita Xisto (TROUW et al. 1980) tipo flysch, originalmente mapeada como continuação do Xisto Santo Antônio, unidade intermediária da Nappe Andrelândia (TEIXEIRA, 2011; WESTIN; CAMPOS NETO, 2013).
A Nappe Lima Duarte é composta por quartzitos miloníticos de granulação bastante grossa, onde ortoquartzitos são mais comuns que quartzitos imaturos, representados por lascas de aproximadamente 750 m de espessura, imbricados com sillimanita-granada-biotita
57 gnaisses migmatíticos com intercalações raras de gnaisses calciossilicáticos. Na retaguarda da estrutura são predominantes os biotita gnaisses e granada-biotita gnaisses homogêneos. A unidade basal da Nappe Lima Duarte é composta por gnaisses finamente bandados com intercalações de quartzitos micáceos, granada-estaurolita-muscovita xistos e sillimanita xistos. A unidade intermediária é representada por biotita gnaisses bandados, granada-biotita- muscovita xistos homogêneos e hornblenda gnaisses, localmente com intercalações de quartzitos micáceos, mica xistos, sillimanita xistos e gnaisses bandados. O topo da estrutura é composta por níveis basais mais quartzosos que gradam para termos mais micáceos no topo. É constituída por quartzitos micáceos, gnaisses bandados com níveis anfibolíticos, quartzo xistos e raramente rochas calciossilicáticas (ROCHA, 2011).
O Sistema de Nappes Carrancas é composto por quatro escamas de cavalgamento:
Nappe Luminárias, Klippe Carrancas, Alóctone Serra da Bandeira e Alóctone Madre de Deus, que compõem a pilha metassedimentar do sistema. Na região de Carrancas-Itumirim o sistema é composto por uma Unidade Quartzítica Inferior (Formação São Tomé das Letras), Formação Campestre e Unidade Quarztítica Superior (COUTINHO, 2012; WESTIN; CAMPOS NETO, 2013). A unidade basal é composta por muscovita verde quartzitos que variam de quartzitos puros à muscovita xistos. A unidade intermediária é composta por quartzitos intercalados a filitos/xistos com cloritóide, cianita e localmente granada em presença de grafita e muscovita (fácies xisto verde) ou em presença de granada e estaurolita (fácies anfibolito).
58
CAPÍTULO 4