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Behandling av konsesjonssøknader og prosessgjennomgang

Segundo Roudinesco e Plon (1998), foi após a revolução introduzida na ciência pela teoria da relatividade de Albert Einstein (na década de 1920), que a clássica oposição entre o real dado e o real construído transformou-se, e a palavra real passou ser usada pelos filósofos como sinônimo de um absoluto ontológico, um ser-em-si que escaparia à percepção. E foi em Émile Meyerson (1859-1933) que Lacan buscou sua primeira reflexão sobre a ciência do real. Para Meyerson existia uma semelhança entre os objetos criados pela ciência e aqueles cuja existência eram postulados pela percepção. Mas, foi de seu amigo Georges Bataille (1897- 1962) que Lacan, muito mais diretamente tomou emprestada a noção de real.

117 BELA, Maria. Disponível em: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/R/real.htm (acesso em 17/10/2009). 118 LACAN, Jacques. “Radiofonia”, in Outros Escritos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2003, p.405.

Ao descobrir a obra de Freud e se interessar principalmente pela pulsão e pela questão do sagrado, da identificação das massas com o líder e da origem das sociedades e das religi- ões, Bataille distinguiu dois pólos estruturais:

homogêneo heterogêneo

(ou campo da sociedade (lugar da irrupção do impossível útil e produtiva) de simbolizar)

Com a ajuda do termo heterogêneo, Bataille especificou a noção central de sua elabo- ração: parte maldita. Depois, entre 1935 e 1936, ele criou o termo heterologia – ciência do irrecuperável, que tem por objeto o “improdutivo” por excelência: os restos, os excrementos, a sujeira. Numa palavra, a existência “outra”, expulsa de todas as normas: loucura, delírio etc.

Foi combinando essas três noções ciência do real, heterologia e noção freudiana de

realidade psíquica que Lacan construiu sua categoria do real - a qual fez sua primeira apari- ção, ainda sem ser conceituada, na conferência intitulada “O Simbólico, o Imaginário e o Re-

al”, em 1953.

No contexto de sua retomada estrutural da obra de Freud, Lacan, 1953 e 1960, confe- riu a esse real um estatuto muito próximo do que lhe atribuíra Bataille.

Na categoria do simbólico alinhou toda a reformulação buscada no sis- tema saussuriano e levi-straussiano; na categoria do imaginário situou todos os fenômenos ligados à construção de eu: antecipação, captação e ilusão; e no real, por fim, colocou a realidade psíquica, isto é, o desejo inconsciente e as fantasias que lhe estão ligadas, bem como um „resto‟: uma realidade desejante, inacessível a qualquer pensamento subjetivo” (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 645).

No seminário de 1954-1955, após comentar o sonho de Freud, “injeção de Irma”, La- can afirma que o real está na origem de uma dúvida fundadora necessária à ciência. Na ori- gem de uma descoberta não existe um sujeito, e sim uma dúvida, já que toda descoberta é a expressão de um encaminhamento em que o erro se mistura à verdade. Essa dúvida fundado- ra é um equivalente do sexo feminino como coisa real, impossível de simbolizar. Daí seu ves-

tígio na concepção da sexualidade feminina: “Lacan faz desta um “suplemento” e lhe atribui um gozo que escapa à racionalidade” (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 646).

O conceito de real adquiriu uma outra dimensão quando, no seminário de 1955-1956. Na leitura da história de Schreber, Lacan reorganiza a estrutura do sujeito a partir da elabora- ção dos conceitos de foraclusão e do Nome-do-Pai. Foraclusão é um mecanismo específico da psicose, e que “consiste numa rejeição primordial de um significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito” (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 646). O Nome-do-Pai trata-se do conceito da função paterna, o significante fundamental, justamente aquele que fica foracluído na psicose. A clínica da psicose possibilitou ao conceito de real o lugar da loucura, pois

se os significantes foracluídos do simbólico retornam do real, sem serem inte- grados no inconsciente do sujeito, isso quer dizer que o real se confunde com um “alhures” do sujeito. Fala e se exprime em seu lugar por meio de gestos, alucinações ou delírios, os quais ele não controla. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 646).

A partir de 1970, o crescente interesse pela ciência faz Lacan tentar formalizar sua própria visão conceitual: de um lado, uma mathesis (ou matema), dos discursos e de outro uma topologia (o nó borromeano)119 destinada a substituir antiga tópica (Simbólico, Imaginá- rio, Real). Essa vontade de construir uma ciência do real traduziu-se então, numa reorganiza- ção dos elementos da antiga tópica: o lugar determinante foi ocupado pelo real, e não mais pelo Simbólico (que até então havia exercido a primazia sobre o Imaginário e o Real). Com o real colocado na posição dominante, a psicose (forma teorizada da loucura e lugar da simboli- zação impossível) passa a questionar todas as certezas da ciência.

Utilizado no contexto de uma tópica, o conceito de Real é inseparável dos outros dois, Simbólico e Imaginário. Nessa trilogia RSI, o real é assimilado a um “resto” impossível de se transmitir, e que escapa à matematização.

Comentando Radiofonia, Jairo Gerbase aponta que o “real é difícil de apreender por- que induz de imediato uma petição de princípio, um dialelo, um círculo vicioso: exige uma

119 “Lacan inventou, simultaneamente, o matema e o nó borromeano: de um lado, um modelo da linguagem, articulado com uma lógica da ordem simbólica; do outro, um modelo estrutural, baseado na topologia e efetuan- do um deslocamento radical do simbólico para o real” (Roudinesco e Plon, Dicionário de Psicanálise, p. 502).

demonstração que se apóia sobre a tese que quer demonstrar”120- supõe justamente o que está em causa, isto é, o valor da razão. O real é um léxico (vocabulário de um língua) que não funciona sem evocar imediatamente o simbólico e o imaginário (instrumentos de apreensão do real entendido como o impossível de ser visto e ouvido). O significante (a imagem, a pala- vra) nem sempre dá conta de dizer o real e, quando dá, ele deixa de ser real. É no ponto em que o simbólico e o imaginário tomam corpo (em que dão conta do real) que a estrutura da psicanálise se engancha.

Ao inscrever a pulsão numa abordagem do inconsciente em termos de manifestação da falta e do não realizado, Lacan considera a pulsão na categoria do real.

Lembrando o que Freud diz sobre a independência do objeto em relação à pulsão, e sobre o fato de que qualquer objeto pode ser levado a exercer para ela a função de um outro, Lacan sublinhou que o objeto da pulsão não pode ser assimilado a nenhum objeto concreto. Para apreender a essência do fun- cionamento pulsional, é preciso conceber o objeto como sendo da ordem de um oco, de um vazio, designado de maneira abstrata e não representável: o objeto (pequeno) a. Para Lacan, portanto, a pulsão é uma montagem, carac- terizada por uma descontinuidade e uma ausência de lógica racional, medi- ante a qual a sexualidade participa da vida psíquica, conformando-se à “hi- ância” do inconsciente. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 632).

A idéia do objeto é a idéia da falta e a falta constitui o real.

Em Freud o real estava dividido entre o interior (psiquismo) e o exterior. Em Lacan (cf. “Radiofonia”, questão 4, in Outros Escritos, 2003), esse real é unívoco e impossível de ser representado, mas não anula o saber que há no real, pois há fórmulas que não se imagina. Ao menos por um tempo elas estão conectadas ao real. Quando imaginamos as fórmulas, isto é, quando as realizamos como sentido, quando a ficha cai, o saber deixa de ser real. Não quer dizer que o real não possa ser conhecido, pois a função do simbólico e do imaginário é a de dar conta do real. “Quer dizer apenas que ele resiste a ser reconhecível porque não se trata de entender alguma coisa, mas de mostrá-la.” 121

120 GERBASE, Jairo. Comentário sobre “Radiofonia” (LACAN, in Outros Escritos, 2003). Inédito. 121 Ibidem.

Em sua escritura última do nó borromeano, Lacan define o real não como impossível, mas fora do simbólico, o que quer dizer também fora do sentido. No real fora do simbólico há corpos, viventes, gozo. O sintoma é a via de acesso ao real.

Jairo Gerbase122 assim discorre sobre a estrutura quadripartite RSI (Real, Simbólico, Imaginário e Sintoma):

 O Real (R) enuncia há, e não o que há. Apenas existe; é juízo de existência; é sem conteúdo; é a repetição indefinida. Enuncia que algo jamais deixa de exis- tir. Nada pode existir senão a partir do Real. A partir dele se pode dizer que não há todo, não há relação, não há semelhante, não há representação, não há possibilidade... Real não escreve, não se diz, é o impossível, no entanto não pode ser pensado sem SI

 O Simbólico (S) enuncia que algo jamais deixa de se escrever. O dizer é seu atributo; é juízo de atribuição. Ele diz: há nomes, há o discernível, há Um. Na- da se pode escrever a não ser a partir do Simbólico.

 O Imaginário (I) enuncia que algo jamais deixa de se representar. Enuncia há o semelhante; há relação, há a realidade, há todo. O outro é seu atributo. É também juízo de atribuição. Nada se pode imaginar ou representar a não ser a partir do Imaginário.

 O Sintoma ( enuncia: há o gozo, há laço social; enuncia que algo jamais deixa de gozar. A satisfação pulsional é seu atributo. Ele é também juízo de a- tribuição. é o modo de gozar do inconsciente.

Nada do Simbólico ou do Imaginário dá acesso ao Real, daí a necessidade do Sintoma - presente na estrutura neurótica.123

A busca pela realidade objetiva por trás das aparências é falsa, funciona como o estra- tagema definitivo para evitar o confronto com o Real, afirma Žižek (2003). O século XX, se-

122 Cf. GERBASE, Jairo. Encontro do Real. Estilete, Boletim da Associação Fóruns do Campo Lacaniano, nº 8, maio 2004.

gundo ele, é caracterizado principalmente pela paixão pelo real, ou seja, paixão por penetrar a Coisa Real (em última instância, o Vazio destrutivo) através de uma teia de semblantes que constitui a nossa realidade. O séc. XX expressou seu momento último na experiência direta do real como oposição à realidade social diária – o real em sua violência extrema como o preço a ser pago pela retirada das camadas enganadoras da realidade. A dureza da violência pura en- tendida e aceita como um sinal de autenticidade. “Se a paixão pelo Real termina no puro sem- blante do especular efeito do Real, então, em exata inversão, a paixão pós-moderna pelo sem- blante termina numa volta violenta à paixão pelo real.” (ŽIŽEK, 2003, p. 23).

Ao situar os destinos da pulsão (inversão, reversão, recalque e sublimação), Freud (1914) apontou a sublimação como forma de “fazer diferente” com o retorno do recalcado. E Lacan formula o conceito de sublimação nos termos da “elevação do objeto à dignidade da Coisa”. Segundo a leitura de Pereña sobre tal postulação, não se trata de pôr um objeto imagi- nário diante da Coisa, mascarando seu vazio com a mera substituição ou repetição a partir de uma fixação decorrente do encontro com o real do gozo, mas trata-se de “dar ao objeto uma invenção, de uma criação que não encobre a Coisa, mas sim a faz surgir, mostra-a” (PEREÑA, in O sinotma Charlatão, 1998, p. 150). Isso vai além de sua função de anteparo, de contenção do gozo, que, operando como proteção, facilita a tarefa de civilizar a pulsão. Para Lacan, o objeto a está implicado em todas as formas de gozo. Não há o gozo, há gozos, e todos condicionados pelo objeto.124