3. Indre Akershus Blad – en presse under press
3.1 Begynnelsen på et paradigmeskifte?
O cotidiano não seria apenas um grau inferior da reflexão e do vivido" em que essas duas formas da experiência se confundiriam ainda, em que tudo o que se verifica parece pertencer ao universo, em que o mundo é encarado e enfrentado como a soma das coisas? (LEFEBVRE, 1991).
A força da expressão filosófica de Lefebvre inquieta ao primeiro contato (e possivelmente, a cada novo contato) e faz refletir sobre a vida cotidiana, vida cotidiana ou estudo da vida cotidiana? Teriam ambos o mesmo significado? A luz da teoria e da interpretação as ciências parcelares produzimos estudos sobre a vida cotidiana, isto é, quando este limite não é o seu negligenciamento. Para o autor há uma relação simultânea entre a cotidianidade e a modernidade,
O cotidiano é o humilde, aquilo que vai por si mesmo, aquilo cujas partes e fragmentos se encadeiam no emprego do tempo. E isso sem que o interessado tenha de examinar as articulações dessas partes. É portanto aquilo que não tem data. É o significante (aparentemente); ele ocupa e preocupa e, no entanto, não tem a necessidade de ser dito, é uma ética subjacente ao emprego do tempo, um estética da decoração desse tempo empregado. É o que se une à modernidade. Por esta palavra é preciso entender o que traz o signo do novo e da novidade: o brilho, o paradoxal marcado pela tenacidade ou pelo mundano. É o audacioso (aparentemente), o efêmero, a aventura que se proclama e que se faz aclamar. É a arte e o estetismo, mal discerníveis nos espetáculos que o mundo dita moderno apresenta e no espetáculo de si que ele apresenta a si mesmo. Ora, cada um deles, o cotidiano e o moderno, marca e mascara, legitima e compensa o outro (LEFEBVRE, 1991, p. 31).
À luz da interpretação, cotidiano e modernidade estão associados a duas ordens que são inseparáveis a sua elucidação, o espaço-tempo. Buscamos compreender os processos inerentes a produção da cidade capitalista, reproduzida em seus distintos processos, constituída sob diferentes escalas espaciais, temporais, sociais, culturais. Nesta busca vê-se os laços estreitos entre produção e sociedade, produção que não está limitada a mercadoria, mas ao próprio sujeito e as relações sociais de seu tempo. A cidade como espaço de conflito de classes atravessa diferentes sociedades, ora denominada pela técnica, ora pela industrialização, outra pela urbanização, ora pelo consumo, para citar alguns de suas travessias, cada uma reproduzindo e provocando um modo de vida cotidiana, práticas socioespaciais e significados.
Lefebvre (1969, p. 10) conceitua cidade como obra e produto, "com efeito, a obra é o valor de uso e o produto é valor de troca", considerando sua época peculiar, como obra, a cidade apresenta seu uso principal "isto é, das ruas e das praças, dos edifícios e dos monumentos, é a Festa (que consome improdutivamente, sem nenhuma outra vantagem além do prazer e do prestígio, enormes riquezas em objetos e em dinheiro)" (LEFEBVRE, 1969, p. 11). Entendemos o uso da cidade não apenas como espaço de trocas e de produção de bens comerciais e simbólicos, mas também como
espaço de encontro, onde são manifestados os fenômenos que animam à cidade. A cidade industrial propagada por Lefebvre articulava relações materiais e simbólicas muito diferentes das relações sociais estabelecidas na cidade contemporânea. O que nos parece pertinente no pensamento do autor, é que nesta travessia, a cidade se mantém como produto/obra, no entanto, organizada por outras relações sociais.
De Certeau (2007) alude na relação entre a cidade e as práticas cotidianas, o ato de caminhar, como forma de imprimir traços e trajetos, de maneira mais ou menos densa, no espaço. Caminhada e caminhante vão determinando a vida social, as idas e vindas, o ato da improvisação vai irrompendo barreiras e projetando possibilidades de construção da prática espacial no cotidiano. O autor complemente que,
A caminhada afirma, lança suspeita, arrisca, transgride, respeita etc., as trajetórias que "fala". Todas a modalidades entram aí em jogo, mudando a cada passo, e repartidas em proporções, em sucessões, e com intensidades que variam conforme os momentos, os percursos, os caminhantes. Indefinida diversidade dessas operações enunciadores. Não seria portanto possível reduzi-las ao seu traçado gráfico (DE CERTEAU, 2007, p. 179).
O cotidiano é portanto essa expressão do vivido, o espaço da festa (Lefebvre, 1969), o espaço da prática (De Certeau, 2007) que estabelece o espaço de reprodução da vida (Carlos, 2001). Neste tempo contemporâneo, os espaços da cidade vão sendo resignificados, valorizando-se os espaços privados em detrimento do espaço público, as possibilidades e limitações organizam novas práticas socioespaciais, assim como acentua rupturas sociais da vida cotidiana.
É no plano do vivido e a partir do lugar do vivido que são estabelecidas as práticas socioespaciais do cotidiano, a rua, o bairro e a cidade são dimensões materiais para o desenvolvimento das relações subjetivas da vida. Carlos (2001) esclarece que não é possível se apropriar integralmente de todos os espaços da metrópole, os códigos institucionais e culturais regulam e limitam usos e práticas socioespaciais. Para a autora,
Esses usos se referem a uma prática que vai e direção à segregação socioespacial, apesar de, politicamente, as estratégias de classe visarem a segregação no espaço (os elementos da vida urbana se dissociam, por exemplo, em lugares para jovens ou para adultos, para pobres ou para ricos, etc.). Isto porque se o privado se refere ao plano individual, o uso está submetido às leis de mercado, em decorrência da existência da propriedade privada, que delineia uma hierarquia socioespacial explicitada nos lugares de moradia diferenciados, delimitando o acesso pelo preço do solo urbano. O público, por sua vez, está ligado ao plano do poder do Estado e de suas estratégias, daí a existência de conflitos permeando o uso dos espaços. O bairro tem
uma coerência e uma existência, e é nesse nível que o espaço e o tempo dos habitantes tomam forma e sentido (CARLOS, 2001, 221). No dizer de Corrêa (2013, p. 44) "a espacialidade é um atributo da ação da natureza e da ação humana", para Carlos (2001, p. 213) "a espacialidade da relações sociais lê-se no plano da vida cotidiana, e a partir dela, articulada e redefinida no plano da reprodução das relações sociais". A nosso ver, em seu sentido objetivo a espacialidade da segregação pode ser percebida a partir da localização da habitação, no entanto, em sua condição subjetiva, as dificuldades e/ou rupturas produzidas no âmago da segregação são apreendidas a partir das relações e práticas cotidianas. Carlos (2001) diz que o movimento revela a prática socioespacial,
A apropriação se revela em atos e situações que podem ser o andar pela rua do bairro, onde apareça a calçada como o trajeto diário (até o ponto do ônibus, onde se toma a condução para o trabalho, por exemplo); pode ser o caminhar que todos os dias leva as pessoas às compras; pode ser o passo dos estudantes que se dirigem à escola. Pode ser o ato de andar de bicicleta ou o uso da rua como lugar para as brincadeiras infantis; pode ser a prosa com o vizinho que passa, ou que está em sua porta, ou olhando pela janela. Essas possibilidades se ligam ao caráter diário, e são marcadas por um tempo determinado, em espaços circunscritos. O uso se realiza por meio do corpo (o próprio corpo é a extensão do espaço) e de todos os sentidos humanos, e a ação humana se realiza produzindo um mundo real e concreto, delimitando e imprimindo os "rastros" da civilização (CARLOS, 2001, p. 213).
A reflexão sobre segregação, práticas socioespaciais e o cotidiano estão de forma inerente associadas a habitação, fragmentada na atualidade em subsistemas institucionalizados por legislações que a definem como de interesse social ou de mercado, segmentação que reflete diretamente o modo de produção do espaço urbano e como consequência influi sobre as práticas socioespaciais, visto que, como expõe Carlos (2007),
O plano da habitação revela o nível do vivido, nesta direção, as relações sociais na metrópole podem ser lidas no plano da vida cotidiana, enquanto prática sócio-espacial concretizadas no modo como as pessoas se apropriam de um espaço fragmentado pelas estratégias dos empreendedores imobiliários, posto que a propriedade privada do solo urbano condiciona o uso à realização do valor de troca e é desta maneira que a casa apresenta-se como mercadoria (CARLOS, 2007, p. 93).
Rolnik (1994) completa esta reflexão à medida que compreende a segregação espacial como movimento de separação das classes sociais no espaço urbano,
demarcado por fronteiras físicas e imaginárias, delimitando o lugar das coisas, dos moradores, da separação expressa entre o trabalho e habitação, entre o trabalho e o local de estudo, regido pelo deslocamento cotidiano em transportes coletivos superlotados e gerenciado pelo tratamento desigual das administrações locais, "a segregação espacial começa a ficar mais evidente à medida que avança a mercantilização da sociedade e se organiza o Estado Moderno" (ROLNIK, 1994, p. 47).
A partir destes discursos encontramos maior significado nas palavras de Maricato (2009), a produção do espaço ganha novas formas, a construção de habitações, requalificação e revitalização de áreas, mas contraditoriamente a "segregação urbana fica intocada". Vê-se a atuação do Estado no lançamento do programa habitacional MCMV, em 2009, onde foram financiadas habitações com o propósito de minimizar impactos produzidos pela crise internacional de 2008. O investimento na área da habitação que inclui (de modo precário) as classes média e principalmente população de baixa renda teve como foco a geração de emprego e o movimento na economia a partir de investimentos na área da construção civil. A crítica da autora é direcionada para a parte do programa habitacional que permanece intocada, a matéria urbanística, as localizações inadequadas e a política urbana,
Diferentemente de pão, automóvel, medicamentos, a habitação é uma mercadoria especial. Parte dessa complexidade deriva da sua relação com a terra. Cada moradia urbana exige um pedaço de terra para sua realização. E não se trata de terra nua. Trata-se de terra urbanizada, isto é, terra ligada às redes de água, energia, esgoto, drenagem, transporte coletivo além de equipamentos de educação, saúde, abastecimento, etc. (MARICATO, 2009).
O espaço urbano produzido sobre o alicerce da segmentação por renda, dos diferentes padrões construtivos de habitação, da presença/ausência de infraestrutura, de serviços e equipamentos públicos e privados materializa o processo de segregação socioespacial, para a população de baixa renda o acesso a habitação tem significado a desarticulação urbana e acirrado as desigualdades sociais,
Os conjuntos habitacionais, edificados e financiados pelo Estado, "destinados à chamada população de baixa renda", foram construídos em descontinuidade com o tecido urbano, em áreas sem infra- estrutura e equipamentos de consumo coletivo. A organização dos moradores possibilitou a implantação de serviços urbanos necessários à reprodução da vida. Contraditoriamente, assim, os conjuntos construídos para trabalhadores, num mercado específico e financiados com recursos públicos, acentuam a desigualdade social e espacial (RODRIGUES, 2007. p 77).
Na cidade, esse espaço de contradições e de luta de classes, são manifestadas as demandas por moradia, trabalho, saúde, mobilidade, educação, segurança, saneamento básico, cultura, lazer, esporte, diversão, entretenimento e consumo. A nosso ver, essa luta pode ser apreendida em dois momentos, o primeiro refere-se a luta por acesso as essas demandas, em um segundo momento são estabelecidas as lutas por melhores condições de acesso, esse movimento dialético produz as relações e práticas socioespaciais que dinamizam e articulam a vida urbana e o viver cotidiano. Em que medida estas relações e articulações são rompidas? Consideramos a dificuldade em mensurar, não negamos emitir nossas considerações, apenas estamos cientes de que se no plano conceitual a segregação pode ser conhecida é no plano subjetivo das práticas socioespaciais e da vida cotidiana que a segregação é apreendida. A respeito dessa subjetividade, Negri (2008) exolica que,
Morar num bairro periférico de baixa renda hoje significa muito mais do que apenas ser segregado, significa ter oportunidades desiguais em nível social, econômico, educacional, renda, cultural. Isto quer dizer que um morador num bairro periférico pobre tem condições mínimas de melhorar socialmente ou economicamente. Implica, na maioria dos casos, em apenas reproduzir a força de trabalho disponível para o capital (NEGRI, 2008, p.136).
O lugar de habitação e o local de trabalho, geralmente localizados em áreas diferentes da cidade, revela para além das distâncias, as dificuldades relacionadas a mobilidade e articulações inerentes a vida cotidiana. Rolnik (1994) expressa sobre a realidade cotidiana de quem vive o processo de segregação,
A cena clássica cotidiana das grandes massas se deslocando nos transportes coletivos superlotados ou no trânsito engarrafado são a expressão mais acabada desta separação - diariamente temos que percorrer grandes distâncias para ir trabalhar ou estudar. Com isto, bairros inteiros das cidades ficam completamente desertos de dia, os bairros-dormitórios, assim como algumas regiões comerciais e bancárias parecem cenários ou cidades-fantasmas para quem as percorre à noite. Finalmente, além dos territórios específicos e separados para cada grupo social, além da separação para cada grupo social, além da separação das funções morar e trabalhar, a segregação é patente na visibilidade da desigualdade de tratamento por parte das administrações locais (ROLNIK, 1994, p. 42).
É na dimensão do lugar do vivido que o tratamento desigual (para não dizer indiferente) do Estado se revela,
Existem, por exemplo, setores da cidade onde o lixo é recolhido duas ou mais vezes por dia; outros, uma vez por semana; outros ainda,
onde o lixo, ao invés de recolhido, é despejado. As mesmas periferias sem água, luz ou esgoto são evidências claras desta política discriminatória por parte do poder público, um dos elementos produtores de segregação (ROLNIK, 1994, p. 42-43).
A segregação como processo que dificulta e interrompe práticas socioespaciais e relações com a vida urbana se retroalimenta na contradição, à medida em que mesmo em condições precárias, de longas distâncias possibilita que a "mão de obra" circule pela cidade. Essas dificuldades são agudizadas quando as práticas socioespaciais são direcionadas para as atividades culturais, ou seja, aquela destinada ao tempo do não trabalho. A escala teórico-conceitual dos processos e formas parece potencializada quando revela as condições da vida cotidiana. Neste sentido, Maricato (2003) expõe que,
A segregação urbana ou ambiental é uma das faces mais importantes da desigualdade social e parte promotora da mesma. À dificuldade de acesso aos serviços e infra-estrutura urbanos (transporte precário, saneamento deficiente, drenagem inexistente, dificuldade de abastecimento, difícil acesso aos serviços de saúde, educação e creches, maior exposição à ocorrência de enchentes e desmoronamento etc.) somam-se menos oportunidades de emprego (particularmente do emprego formal), menos oportunidade de profissionalização, maior exposição à violência (marginal ou policial), discriminação racial, discriminação contra mulheres e crianças, difícil acesso a justiça oficial, difícil acesso ao lazer. A lista é interminável (MARICATO, 2003. p. 152).
Na vida cotidiana os habitantes/moradores vão construindo suas práticas socioespaciais, no plano da habitação se estabelecem o elos com os diversos espaços da cidade. A segregação esvazia o sentido destas relações, estimula as práticas individuais e o espaço privado da casa tende a modificar o sentido do habitar. A casa terminar por apresentar maior significado que o ato de habitar e das relações socioespaciais.
COMIDA Bebida é água! Comida é pasto!
Você tem sede de que? Você tem fome de que?...
A gente não quer só comida
A gente quer comida Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída Para qualquer parte...
A gente não quer só comida
A gente quer bebida Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida Como a vida quer...
Bebida é água! Comida é pasto!
Você tem sede de que? Você tem fome de que?...
A gente não quer só comer
A gente quer comer E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer Prá aliviar a dor...
A gente não quer Só dinheiro
A gente quer dinheiro E felicidade
A gente não quer Só dinheiro
A gente quer inteiro E não pela metade...
Bebida é água! Comida é pasto!
Você tem sede de que? Você tem fome de que?...
A gente não quer só comida
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A gente quer saída Para qualquer parte...
A gente não quer só comida
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A gente não quer só comida
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A gente não quer só comer
A gente quer comer E quer fazer amor A gente não quer só comer
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A gente não quer Só dinheiro
A gente quer dinheiro E felicidade
A gente não quer Só dinheiro
A gente quer inteiro E não pela metade...
Diversão e arte
Para qualquer parte Diversão, balé
Como a vida quer Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh! Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...
(VELOSO,2003)