Landry (2000) introduz o conceito de cidades criativas, sendo que para o autor a relação entre o empreendedorismo criativo e a cidade é óbvia. A melhoria de áreas industriais degradadas e de bairros pobres de forma inovadora, utilizando-se da criatividade para transformar essa situação, serviria como um impulsionador para um novo patamar de qualidade. Corrobora com isso a existência e/ou criação de amenidades culturais, como museus e teatros, que permitiriam o florescimento das atividades criativas.
O termo cidades criativas descreve um complexo urbano no qual as atividades culturais de vários tipos são componentes integrais do funcionamento econômico e social de uma cidade. Estas cidades acabam por desenvolver uma forte infraestrutura social e cultural, atraindo uma grande concentração de empregos criativos e por consequência recebem investimentos externos por causa de estruturas culturais já estabelecidas. (UNCTAD, 2010).
Para Landry (2000), o principal recurso destas cidades são as pessoas. A criatividade estaria substituindo na formação do dinamismo urbano a localização, os recursos naturais e até mesmo o acesso ao mercado. Para o autor, cada cidade ao redor do mundo tem suas próprias características, que são influenciadas pelos impactos da globalização e desta forma passam
por períodos de transição. Em regiões da Ásia, como na China, as cidades estão em
crescimento, enquanto na Europa, antigas indústrias estão desaparecendo. O “valor agregado
é criado menos pelo que é manufaturado e mais via capital intelectual aplicado aos produtos, processos e serviços.” (LANDRY, 2000: xiii). Para Landry (2001), as cidades criativas possuem determinadas características, que incluem:
Desenvolver com clareza a sua intenção e ambição;
Buscar indivíduos e organizações visionárias;
Ter uma mente aberta e tomar riscos;
Ter princípios estratégicos e táticos flexíveis;
Ser determinado em planejar em vez de determinístico, além de ser antecipatório;
Estar disposto a reconhecer e trabalhar com recursos culturais locais e diferenças locais;
Assegurar que a liderança seja generalizada;
Passar de uma cultura de culpa alta para uma de culpa baixa.
As cidades criativas são espaços onde as pessoas querem estar, ou lugares para serem vistos. (TAY, 2005). Os bares e restaurantes dessas localidades são as manifestações superficiais destes ambientes criativos (LEADBEATER; OAKLEY, 1999, p. 31) e sinais de um estilo de vida vibrante e dinâmico (TAY, 2005). Além destes ambientes, Tay (2005) afirma que as cidades criativas possuem diversas características, a saber: existência de setores vibrantes de arte e cultura, capacidade de gerar renda e empregos nas indústrias culturais e de serviços (SASSEN, 1995), e iniciativas políticas ligadas à distribuição de recursos entre as demandas locais e global (LEADBEATER; OAKLEY,1999).
As cidades criativas têm diferentes enfoques e potenciais. Algumas apresentam seus ativos culturais para seus habitantes e visitantes por meio de artes visuais, seus museus e locais turísticos. Outras o fazem mediante seus festivais, como Parintins e Edimburgo, enquanto outras cidades buscam concentrar indústrias culturais e de mídia que permitam a geração de renda e emprego e que ajam como centro para o crescimento urbano e regional.
Londres tem sido estudada e citada como um exemplo de cidade criativa. (LANDRY, 2001; UNCTAD, 2010). Os dados mostram que a indústria criativa é o segundo maior setor da economia londrina. Entre 1995 e 2001, o crescimento de empregos ficou entre 20 e 25 por
cento no período, sendo também o período em que ocorreu o segundo maior crescimento de renda, perdendo apenas para os serviços financeiros e de negócios.
O conceito de cidade criativa foi utilizado pela UNESCO em 2004 para criar o “Creative Cities Network”, em que as cidades podem, após se candidatar com base em suas
características inatas, partilhar experiências com outras cidades da rede em sete redes temáticas, a saber: literatura, cinema, música, arte popular, design, tecnologia da informação/artes midiáticas ou gastronomia. Nenhuma cidade brasileira estava participando das redes até junho de 2010. (UNCTAD, 2010).
O conceito de cidades criativas parece ter levado a uma interpretação de que apenas existe criatividade em centros urbanos. Estudos realizados em países como a Holanda mostram que existem concentrações de criatividade nas áreas rurais, e que não se deve diferenciar estas atividades das artes ou manifestações culturais entendidas como nobres. (HAGOORT, 2009).
2.4.1 Clusters criativos
Porter (2000) define cluster como sendo “concentração geográfica de empresas
interconectadas, fornecedores especializados, provedores de serviços, empresas em setores correlatos, e instituições associadas (por exemplo, universidades, standards agencies,
associações comerciais) em um determinado campo que compete e também coopera.” Essa
definição parece ser aceita mundialmente e o modelo do diamante de Porter, apresentado e discutido posteriormente, reforça sua interpretação.
O objetivo de desenvolver um cluster é aumentar a competitividade das empresas que estão vinculadas a este. Os impactos no cluster, segundo Porter (2000), se dão via aumento da
produtividade, acrescendo assim a “sofisticação” (por exemplo, tecnologia, habilidades) com
que a empresa compete. E esta sofisticação também é influenciada pelo ambiente competitivo que será analisado posteriormente neste trabalho, também via diamante de Porter (1993).
Um dos problemas de se definir um cluster consiste na delimitação de suas barreiras ou
limites. Definições muito amplas, como “alta tecnologia” ou mesmo indústrias criativas,
podem gerar análise e conclusões macro muito genéricas devido a conexões fracas entre os setores que formam o cluster. Já definições vinculadas a uma só indústria não permitem trazer
a tona os impactos de outros setores relacionados que afetam a competitividade de determinados negócios. (PORTER, 2000).
O estudo e entendimento de cluster pode ajudar na definição de estratégias que emergem da análise de potencialidades apenas interna da organização, para uma análise mais ampla envolvendo mais do que o(s) setor(es) aos quais a empresa está ligada. O resultado são políticas públicas e estratégias empresariais que incentivem mais competitividade, sem abrir mão da competição entre as empresas.
Allan Scott argumenta que, ao estarem próximas, as empresas podem economizar com as interconexões espaciais, tirar proveito das múltiplas vantagens do mercado de trabalho, participar do fluxo abundante de informação e potenciais para inovação que estão presentes
onde “producers” especializados, mas complementares, se encontram. (SCOTT, 2005). Como
o autor mostra em seu trabalho, a presença de um cluster em Hollywood permitiu o desenvolvimento e liderança dos estúdios, lá localizados, ao redor do mundo.
A proximidade de empresas de diversas indústrias criativas, mesmo que de setores diferentes, proporcionaria ganhos, pois cada vez mais se observa uma convergência entre estes setores. Em um filme são utilizados profissionais de música, da área de design e moda, entre outras atividades. Assim, a proximidade destes setores contribuiria para o crescimento e sobrevivência das empresas. (UNCTAD, 2010).
O que se tem observado globalmente é que alguns governos, exemplo da China, têm incentivado, por meio de subsídios, a criação de clusters locais, mais especificamente com a criação de redes de empresas ou mesmo de distritos criativos. Podem ser citados quatro exemplos de distritos criativos: o Jockey Clube Creative Arts Centre e o West Kowloon Cultural District em Hong Kong e o Daishanzi Art District (Factory 798) e Dahuan (Great Circle) em Beijing. Utilizando recursos governamentais, todos eles recuperaram áreas deterioradas e implantaram distritos onde estão presentes alguns museus, como o Guggenheim e o próprio Museu Chinês de Cinema.
Países como Cingapura também têm se dedicado a criar condições para atrair empresas para os chamados novos setores criativos, videogames e novas mídias. Isto sugere que a criação de um cluster tem impacto positivo no desenvolvimento das indústrias criativas, gerando renda e
emprego dentro dos países, já que uma das maiores desenvolvedoras japonesas, a Koei, se instalou em Cingapura.
A discussão sobre cluster criativo, apesar de próxima à ideia de cidades criativas, não pode ser confundida com esta última. É possível, via investimento e apoio governamental, replicar um cluster, o que não garante o seu sucesso, uma vez que criatividade e inovação, principalmente a primeira, dependem de outros fatores que não possuam todos os meios de produção. (TAY, 2005). Um cluster fora de uma cidade criativa pode não gerar produtos e serviços criativos, como esperado, já que as pessoas que são a locomotiva da Economia Criativa podem não se interessar, ou não estarem disponíveis, pela concretização dos negócios nesta região.
Estudo realizado por Fingleton et al (2007), e referente aos efeitos dos clusters sobre a criação de empregos no Reino Unido, mostrou que existe uma relação entre a geração de emprego e a existência de clusters das indústrias criativas. Utilizando modelos econométricos, os autores apontaram que existem externalidades positivas na geração de empregos quando há presença de um cluster. No entanto, o modelo igualmente mostrou que essa criação de emprego tem um limite, já que a partir de um número muito grande de empresas pode haver um congestionamento, que resultaria em perda de eficiência do cluster e uma queda na geração de empregos em determinado cluster.
O estudo apresentou um resultado divergente quanto à existência de centros de tecnologia (universidades) pertencentes ao espaço geográfico do cluster. Os autores constataram que a criatividade não está ligada a cursos de tecnologia, no entanto, como não foi utilizada como variável independente a existência de cursos de artes, não se poderia afirmar se há, ou não, uma relação entre a geração de empregos e a presença de universidades no cluster.
A respeito de cluster nas indústrias criativas, pode-se discutir qual será o real impacto desta proximidade na produtividade das empresas desenvolvedoras, visto que o processo criativo de algumas atividades é quase 100% capital humano, em alguns casos quase um trabalho individual. A autoria de um livro pode se dar em uma viagem exploratória pela Europa, por um autor brasileiro, utilizando um software americano em um computador japonês. Ou seja, apesar de o autor poder se beneficiar da existência de cluster para as próximas fases da cadeia, publicação e distribuição, pouco se agregou ao trabalho de criação/concepção, uma vez que, na atualidade, poder-se-ia abrir mão das últimas fases da cadeia via distribuição digital.
Para melhor identificar e entender esse processo passa-se agora a apresentar o desenvolvimento da indústria criativa de videogames e sua configuração atual.