1. INNLEDNING
1.3 Begreper
Assim como poderíamos dizer sobre o espaço e o território, o conceito de lugar tem diferentes abordagens na geografia. Ora aparece como aquilo que se opõe ao global, numa dicotomia entre parte e todo; ora como aquilo que define o enraizamento dos homens no mundo; ora como uma escala geográfica, para apontar somente algumas perspectivas.
O lugar, como aqui o pensamos, é um “encontro de trajetórias” (MASSEY, 2008, p. 190) das mais diversas, incluindo aí a trajetória dos sujeitos e da própria natureza. Dorreen Massey, dizendo sobre o sentido elusivo do lugar, nos convida a pensar que até as rochas
estão em permanente processo de mudança, “rochas migrantes”. Logo, o lugar nunca é o
mesmo, está em constante reconstrução com as tantas estórias que contém e o refazem. É no lugar onde a vida se manifesta de uma maneira única, onde se produzem os encontros e os diálogos. Lugares são “eventualidades espaço-temporais” (MASSEY, 2008, p. 191), o “aqui-e-agora” carregado de histórias. Mas os lugares, assim como os territórios, não se explicam por si só, senão que se articulam as diversas geometrias do poder, ou seja, “Cada
lugar é, à sua maneira, o mundo” (SANTOS, 1996, p. 250) – ainda que como forma de resistência. Ele é “um intermédio entre o sujeito e o mundo” (GOETTERT, 2004, p. 54).
Como fomos levados a crer com Geertz (1989, p. 17), “Fatos pequenos podem relacionar-se a grandes temas, as piscadelas à epistemologia, ou incursões aos carneiros à
revolução, porque eles são levados a isso”. O lugar, essa faísca eventual entre espaço e tempo
e as trajetórias distintas, carrega profundos sentidos. Está pleno de conteúdo; um convite à ação e reflexão. É uma expressão do único, que só existe em relação dialética com o todo, construindo-o. “No lugar é onde se dá a existência – vida cotidiana, econômica, cultural e política, onde o mundo se expressa de diversas maneiras” (HISSA et. al., 2011, p. 36).
Inspirados em Milton Santos (1996; 2002) devemos dizer que estes encontros são o acontecer da comunicação. Talvez aí esteja a força do lugar, nas horizontalidades recriadas nas ações de quem o constrói. A capacidade de promover a mistura, o diálogo, “o acontecer
solidário” (SANTOS, 2002, p. 151) que reinventa o mundo. Diálogo este que, diferentemente das “relações informacionais”, é mediatizado pelo “meio social ambiente”:
as relações técnicas e informacionais podem ser "indiferentes" ao meio social ambiente. As relações comunicacionais são, ao contrário, uma resultante desse meio social ambiente. As duas primeiras são mais
dependentes da esfera da materialidade, da tecnosfera, as últimas o são mais da esfera da materialidade, mesmo se, em todos os casos, tecnosfera e psicosfera interagem. Mas as relações comunicacionais geradas no lugar têm, mais que as outras, um geographic flavour, a despeito da origem, porventura distante, dos objetos, dos homens e das ordens que os movem (SANTOS, 1996, p. 258, grifo nosso).
Acontece que, sendo “o mundo à sua maneira”, o lugar é reinvenção, mas é também
onde se “a globalização materializa-se concretamente” (CARLOS, 1996, p. 14). Dessa forma
o lugar deve ser encarado de maneira não essencialista, ou seja, como algo pleno de porosidades; um ponto de articulação entre o todo e o único:
Isto é, o lugar guarda em si e não fora dele o seu significado e as dimensões do movimento da vida, possível de ser apreendido pela memória, através dos sentidos e do corpo. O lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial que se anuncia e a especificidade histórica do particular. Deste modo o lugar se apresentaria como ponto de articulação entre a mundialidade em constituição e o local enquanto especificidade concreta, enquanto momento. (CARLOS, 1996, p. 14)
Não se quer com essa afirmativa destituir o denso conteúdo do lugar, ou negar sua relação com a construção das identidades, tão visceral; somente ressalta-se a necessidade de se pensar o lugar como algo dinâmico, articulado, alimentado por/alimentando outros lugares, contrariando visões cristalizadas sobre o conhecimento local, como ressalta Arturo Escobar (2005).
Para Escobar o lugar perdeu interesse com a construção epistemológica e política do discurso da globalização. Portanto, é necessário repensar o lugar como recorte analítico estratégico, ponto de articulação da vida e do conhecimento em sua diversidade. É preciso resgatar e revalorizar o conteúdo político e epistêmico27 dos lugares:
O desaparecimento do lugar é um reflexo da assimetria existente entre o global e o local na maior parte da literatura contemporânea sobre a globalização, na qual o global está associado ao espaço, ao capital, à história e à ação humana, enquanto o local, contrariamente, é vinculado ao lugar, o trabalho e as tradições, assim como sucede com as mulheres, as minorias, os pobres e poder-se-ia acrescentar, às culturas locais (ESCOBAR, 2005, p. 76).
Disso devemos ressaltar dois pontos, com os quais sintetizaremos nossa visão sobre o lugar: primeiro, afirmá-lo como possibilidade, como algo aberto, onde se ancoram nossas
27“as mentes despertam num mundo, mas também em lugares concretos, e o conhecimento local é um modo de
consciência baseado no lugar, uma maneira lugar-específica de outorgar sentido ao mundo” (ESCOBAR, 2005, p. 74).
esperanças no projeto de uma outra globalização (SANTOS, 2002), uma globalização alternativa (SOUSA SANTOS, 2005, p. 15); segundo, que, ao compreendê-lo como uma relação, não nos vemos somente analisando lugares, senão que construindo-os coletivamente nas pesquisas e extensões.
Apostamos nesta pesquisa, dentro dessa visão, na força do lugar como “força motriz” da transição agroecológica em São Pedro de Cima. É no lugar onde a transição de fato ocorrerá, a partir das interações, dos encontros, das solidariedades e das resistências construídas coletivamente.
Pensar o lugar como um encontro de trajetórias é enxergar que em nossas pesquisas estamos não a estudá-lo, mas sim refazê-lo, dialogicamente, com os sujeitos que encontramos. Assim, passamos de expectadores à participantes. Nossa concepção de lugar ratifica uma ciência que se crê na ação, que se envolve com os sujeitos do mundo, como exploramos no debate metodológico.
O esforço teórico da compreensão do espaço em movimento e do lugar como encontro de trajetórias é, sob nosso olhar, o esforço também de uma pesquisa em movimento, pesquisa participante (BRANDÃO, 1981a). O encontro com as gentes quilombolas ou as da periferia, além de mediatizado pelo espaço, sempre será o encontro das experiências de vida destes sujeitos com as nossas próprias histórias e geografias. A dialogicidade desse encontro deve ser a própria abertura de uma ciência que se pretende democrática e inclusiva.
O processo de valorização dos lugares, pela via do atravessamento entre ciência e saberes locais, ao redesenhar o pensamento utópico, concede voz e visibilidade – emergência – às cidades feitas de ruelas e de becos, de vilas e de quintais que, no interior das cidades de avenidas iluminadas, edificam espaços de radical transformação (HISSA, 2010, p. 68)
Somente assim podemos conceber uma ruptura com o pensamento moderno-colonial: (re)valorizando os lugares e passando a compreender nossa presença como parte constituinte. É dessa forma que nos propusemos apresentar a pesquisa e extensão na comunidade quilombola de São Pedro de Cima.
Todo esse empenho em afirmar a geografia em movimento carrega, em suas
entrelinhas, a esperança. Como disse Paulo Freire em sua última entrevista “toda realidade está aí, submetida a nossa possibilidade de intervenção nela” (FREIRE, 1997). É assim que,
como aqui já dito, nosso trabalho carrega a “fé nos homens”, “no seu poder de fazer e refazer” (FREIRE, 1979, p. 95).
Nossas próprias trajetórias, inevitavelmente, passam a ter a comunidade de São Pedro também como lugar de narrativas, lugar que retornamos. Pesquisa e cotidiano se misturam, dando vida aos nossos trabalhos. É assim que afirmamos nossa esperança na transição agroecológica e em outro projeto de globalização: com os pés no lugar.