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Begrensninger ved datagrunnlaget .1 Representativitet og skjevheter

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4.2 Begrensninger ved datagrunnlaget .1 Representativitet og skjevheter

Walter Benjamin (1987) em Experiência e pobreza, destaca a pobreza de experiências que caracteriza o mundo moderno, no qual as experiências não são mais compartilhadas como eram em tempos atrás pelos mais velhos, através de provérbios e histórias, que queriam transmitir uma certa experiência para filhos e netos.

Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência? (BENJAMIN, 1987, p.114).

Gagnebin (1987), no prefácio de Magia e Técnica, Arte e Política, de Benjamin (1987) escreve que o autor salienta o enfraquecimento da experiência tradicional (Erfahrung) para dar lugar à experiência vivida (Erlebnis). Destaca, também, que é preciso reconstruir ou reconfigurar a Efahrung para “garantir uma memória e uma palavra comuns” (GAGNEBIN, 1987, p.9) apesar da destruição e do esfacelamento social.

O anúncio do enfraquecimento da narrativa é claro no texto benjaminiano. Escreve o autor que entre 1914 e 1918, nem os combatentes que vieram da guerra tinham histórias para contar, uma vez que voltaram “mais pobres em experiências comunicáveis” muito embora, nunca houvesse se passado tantas experiências desencorajadoras, como a da guerra, a econômica pela inflação, etc, mas mesmo assim, a experiência é cada vez menos comum (BENJAMIN, 1987, p.115). Ao voltarem da guerra, os soldados pouco tinham a acrescentar ao que a indústria cultural já divulgara, o que de certa forma, esvaziara o desejo de compartilhar experiências.

Benjamin (1987, p.197), em O Narrador, afirma que a arte de narrar está sumindo. Cada vez mais, as pessoas não sabem narrar devidamente, porque estão ficando pobres de experiências. “E quando se pede a alguém em um grupo para narrar algo, o embaraço generaliza.” Atribui a isso, a falta de intercambiar experiências, e, ainda, prevê seu desaparecimento.

As narrativas originaram-se da experiência passada de geração a geração.

E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Entre estes, existem dois grupos, que se interpenetram de múltiplas maneiras. A figura do narrador só se torna plenamente tangível se temos presentes esses dois grupos. "Quem viaja tem muito que contar", diz o povo, e com isso imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições. Se quisermos concretizar esses dois grupos através dos seus representantes arcaicos, podemos dizer que um é exemplificado pelo camponês sedentário, e outro pelo marinheiro comerciante. (BENJAMIN, 1987, p.198).

Esse sistema corporativo medieval contribuiu para essa interpenetração, pois o saber das terras distantes, trazido para casa pelos migrantes, era associado com o saber do passado, recolhido pelo trabalhador sedentário, em que ambos trabalhavam juntos na mesma oficina.

Benjamin (1987, p.201) faz a distinção entre a narrativa e o romance, sendo a primeira de onde o narrador retira suas histórias a partir de suas experiências e o “romance nem procede da tradição oral nem as alimenta”.

Pensando em Benjamin, trago suas reflexões para a realidade atual que vivemos, onde a informação predomina. As notícias são rapidamente divulgadas no âmbito mundial, quase que concomitantes com o fato acontecido ou no momento exato que está acontecendo.

Mas quem narra a passagem do tempo na modernidade? As transformações que ocorreram na passagem das sociedades tradicionais, em que cada sujeito se representava como pertencendo a uma comunidade, com seu quadro de referências simbólicas, relativamente estável, e as sociedades modernas, nas quais o sujeito se inscreve numa ordem tão complexa e abstrata que não se dá conta de suas filiações simbólicas e passa a se considerar como um indivíduo isolado, acabaram com a figura do narrador. (KEHL, 2001, p.59).

Essa arte de contar histórias em um projeto de extensão seria uma maneira de resgatar no outro e em si próprio a vontade de comunicar suas experiências ou vivências? Resgatar a tradição de contar histórias, de contar as experiências, mediadas pela literatura infantil, que é o caso deste estudo, seria uma forma de tornar- se mais tarde um narrador tal como Benjamin caracteriza?

E sob o olhar de Bauman (2007), vive-se na modernidade líquida, época em que predomina a fluidez, a volatilidade, a liquidez, a incerteza e insegurança. Tudo

passa muito rápido numa sociedade em que “seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir”. Para o autor, a fixidez e os referenciais morais da época anterior, da modernidade sólida, são afastadas para dar lugar “à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade”. (BAUMAN, 2007, p. 7).

Benjamin (1987) pensa a narrativa como uma forma artesanal de comunicação, pois para ele, ela floresceu num meio de artesãos. “Ela não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele” (BENJAMIN, 1987, p.205). A narrativa conversa com o próprio narrador, que ao narrar vai conversando consigo mesmo e atribuindo-lhe significados e sentidos. Dessa forma, a narrativa é a comunicação que dialoga com o próprio pensar do indivíduo que narra e com o outro que escuta. O ouvinte ao escutar a história, também se apropria dela e quiçá desejará contá-la, mas, a partir desse momento, a contará a partir de sua percepção da história, da maneira que a recebeu e a entendeu. Para Benjamin (1987, p.205), a marca do narrador fica registrada na narrativa “como a mão do oleiro na argila do vaso”.

Se na proposta desta dissertação, atrevia-me a indagar acerca da aproximação da figura do narrador, do qual fala Benjamin, ao acadêmico extensionista, agora, tendo escutado aos meus interlocutores, posso dizer que ao chegar à escola para contar a história apresentada em um livro, esse contador que veio de longe não se omite de inscrever-se na tessitura do texto. Por mais que as histórias contadas estejam ancoradas no suporte material de um livro, nunca deixam de ser atravessadas pela subjetividade de cada contador, o que faz com que cada vivência de contação possa ser considerada singular.

Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se distancia de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. (Benjamin, 1987, p.205). Conforme Benjamin (1987, p. 201), “o narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes”. O acadêmico extensionista ao estudar, no

livro, a história a ser contada, às vezes, mesmo não sendo procedente da tradição oral, vai apropriando-se da mesma e, subjetivamente, vai buscando palavras que melhor lhe convém para mostrá-las ao seu ouvinte, palavras que ao mesmo tempo dão indícios de que tipo de sujeito é esse, o narrador, o que escolheu para ambos, de acordo com sua faixa etária, etc. Pensa no enredo da história, desde seu início ao fim. Na hora da apresentação, propriamente dita, através de sua memorização, performance, entonação há de passar ou transmitir essa emoção que lhe passa, através das palavras.

Benjamin (1987, p. 215) afirma que o “conto de fadas é o primeiro conselheiro das crianças, porque foi o primeiro da humanidade, e sobrevive, secretamente, na narrativa”.

Atualmente, as histórias não são mais preservadas e contadas nas famílias. Os idosos são esquecidos em asilos, não mais considerados e escutados como eram antes.

É possível afirmar, também, pela prática no projeto de extensão, que são poucas crianças que escutam histórias contadas por alguém, seja na família ou na escola. É unânime a resposta afirmativa, quando perguntadas se gostam de ouvir histórias: - Simmmm! Ou: – Gostaaamos!!!

Porém, é a minoria que diz da existência de alguém que lhes conta uma história. Com certeza, é um dos motivos pelos quais as crianças recebem o acadêmico contador de histórias com imensa alegria e algazarra. Algazarra no mesmo sentido que Ana Maria Machado (2011), atribuiu ao título de sua obra Silenciosa Algazarra, “imagem de alegria espontânea, de todo mundo falando ao mesmo tempo em momentos de brincadeira e descontração. Feito bando de pardais nas árvores, ao entardecer”. Silenciosa, quando pensou nos milhares de vozes mudas querendo falar de dentro dos livros nas estantes “à espera de serem ouvidas, todas com algo a dizer, mas sendo ignoradas” (MACHADO, 2011, p.8). Para mim, os contadores de histórias são como livros abertos que comunicam a algazarra das histórias e quebram o silêncio dos livros nas estantes esquecidas.

Ou, ainda, como afirma Prieto (1999, p. 41), que um professor, sentado no meio de um círculo de alunos, ao narrar uma história, está cumprindo uma vontade ancestral. Nessa ocasião, o professor passa a ocupar “o lugar do xamã, do bardo celta, do cigano, do mestre oriental, daquele que detém a sabedoria e o encanto, do

porta-voz da ancestralidade e da sabedoria. Nesse momento ele exerce a arte da memória".

Dessa forma, tem-se a contação de histórias como uma estratégia, embora pequena, de resgatar o hábito de narrar histórias, escovando “a história a contrapelo” (Benjamin, 1987). Faz-se necessário proporcionar outra forma de narrar, possibilidades de diferentes experiências e vivências e contribuir para que a juventude conheça uma possibilidade de construir vínculos afetivos, dialógicos e presenciais.