6. Diskusjon og implikasjoner
6.3 Begrensninger og fremtidig forskning
A modernidade trouxe um sentimento mais forte de preocupação com o mundo infantil, mas o objetivo ainda era o de formar um adulto capacitado, bem sucedido e apto ao trabalho. Em relação a esse tema, visualizamos aí um paradoxo em relação à imagem de incapacidade da criança. Essa incapacidade valia apenas para a sua formação moral e educacional, porém muito mais cedo, mesmo antes da adolescência, ela já estava pronta para trabalhar, principalmente com o advento da Revolução Industrial, no século XVIII. Mesmo antes da industrialização, a criança já tinha um papel fundamental no trabalho da lavoura e em atividades domésticas.
O garoto Oliver Twist, do romance de mesmo nome, de Charles Dickens, publicado pela primeira vez em 1837, exemplifica bem a criança sofrida e trabalhadora. Numa cidadezinha da Inglaterra, uma jovem dá à luz um menino e morre em seguida. O pequeno órfão recebe o nome de Oliver Twist e vive seus primeiros nove anos em instituições de caridade. Não suportando os maus-tratos, ele foge para Londres, onde, sem saber, se junta a um bando de marginais. Oliver passa por grandes sofrimentos até receber a herança que o pai lhe deixou e uma família que nem sabia que existia. O trecho abaixo do romance mostra como
o trabalho infantil ainda era considerado de certo modo algo corriqueiro na formação da criança em meados do século XIX. Já em Londres, sobre os cuidados do velho judeu, líder do bando de crianças marginais, o garoto presencia a violência com que eram tratados os meninos preguiçosos:
Oliver estava tanto mais desejoso de trabalhar ativamente, quanto que já fazia idéia cabal da inflexível severidade do judeu. Cada vez que o Matreiro ou o Carlinhos Bates voltavam para casa, à noite, com as mãos abanando, proferia um longo e enérgico discurso acerca dos inconvenientes da preguiça e da ociosidade e, para melhor lhes gravar na memória a necessidade de serem ativos, mandava-os dormir sem ceia. Uma vez chegou a precipitá-los do alto da escada; mas eram raras as violências como esta (DICKENS, 2002, e-book).
Somente no fim do século XIX, reformadores começaram a preocupar-se com o
trabalho infantil, o que provocou uma retomada da “sacralização” da infância. “Como disse
um deles em 1950: lucrar a partir do trabalho de crianças era ‘tocar de forma profana em algo sagrado’” (HEYWOOD, 2004, p. 42). Essa “sacralização” da criança acabou por contribuir, por outro lado, para reforçar as repressões morais também contra as manifestações sexuais durante a infância.
O resultado dessa mudança de sentimento em relação ao trabalho infantil foi a ampliação do tempo da infância e da adolescência. Muito embora, em diversos países, como o próprio Brasil, o trabalho pueril ainda seja utilizado, mesmo que de forma ilegal. O tempo que a criança passa na escola deveria substituir o trabalho infantil, ainda que, apesar da mudança de contexto, os pequenos continuassem a sofrer pressões morais de diversas formas, como o controle de sua sexualidade.
Já ressaltamos que a incompetência infantil não valia para o mundo do trabalho, pelo menos até meados do século XX na maioria dos países ocidentais. E essa submissão a tarefas que seu corpo ainda em formação não estaria apto a executar é mais um exemplo de como a criança sempre esteve sujeita à vontade de terceiros. Seja para ajudar financeiramente com as despesas da família, seja por causa da crença de que trabalhando seria formada e se tornaria um cidadão de bem, longe da marginalidade e da vadiagem.
No Brasil e em outros países das Américas, a situação da criança enquanto sujeito social foi agravada pela escravidão. Como afirma Stearns (2006):
Crueldade, humilhação e privação relativa combinaram-se para criar uma infância diferente nas Américas, vivida por um número enorme de pessoas. (...). Sua infância ficaria impregnada pelo tratamento recebido, assim como as crianças negras das gerações subsequentes, mesmo depois da emancipação (STEARNS, 2006, p. 108).
A infância do indígena, depois do escravo na sociedade brasileira, e posteriormente dos negros e negras livres, era um período reduzido, bem mais do que a dos meninos e meninas de cor branca. José Roberto de Góes e Manolo Florentino, em “Crianças escravas, crianças dos escravos”, relata que há registros de crianças escravas trabalhando aos quatro anos de idade. Aos 12 anos já eram consideradas adultas, seu preço de mercado subia,
e seu nome trazia o da profissão no sobrenome: “Chico Roça, João Pastor, Ana Mucama”
(GÓES, 2009, p. 184). Durante a Guerra do Paraguai, no fim do século XIX, e mesmo antes, como relata Renato Pinto Venâncio, em “Os aprendizes da guerra”, texto também incluído em
História das crianças no Brasil (2009), crianças enjeitadas e meninos com passagem pela
polícia, com certeza a maioria negros, foram recrutadas para o Exército brasileiro.
O resultado dessa infância diferenciada nas sociedades escravagistas é ainda hoje a mendicância e a marginalidade que encontramos nas ruas das principais cidades brasileiras. Sem dúvidas, a grande maioria desses meninos e meninas também é de cor negra e/ou mestiça. A criminalidade entre crianças passou a ser comum a partir do século XIX no Brasil e a culpa disso foi colocada na negligência das famílias sobre a educação dos filhos.
O aumento desse problema acabou por provocar o surgimento dos primeiros institutos disciplinares em São Paulo, que menos do que educar e tirar os jovens da criminalidade contribuíram para formar pessoas revoltadas, que saíam de lá sem nada aprender. Para além da educação, esses meninos detidos eram postos para trabalhar arduamente. Vale ressaltar que, até então, o trabalho era visto como forma de resgatar a infância e a adolescência imersas na marginalidade, no abandono e na delinquência.
Diante do que expusemos até aqui, cabe uma pergunta: na contemporaneidade, quais as expectativas que temos em relação à infância? Em tom um tanto pessimista, Postman (2011) acredita que a tecnologia das comunicações, em especial a invenção da televisão, está contribuindo fortemente para eliminar o que nós modernos entendemos por infância, um mundo que deve ser vivido e entendido como um universo à parte do mundo dos adultos. Tem-se aí o surgimento de dois novos sujeitos sociais: a criança-adulto e o adulto-criança.
Podemos concluir, então, que a televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta de três maneiras, todas relacionadas com sua acessibilidade indiferenciada: primeiro, porque não requer treinamento para apreender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comportamento; e terceiro porque não segrega seu público. (...). O novo ambiente midiático que está surgindo fornece a todos, simultaneamente, a mesma informação. Dadas as condições que acabo de descrever, a mídia eletrônica acha impossível reter quaisquer segredos. Sem segredos, evidentemente, não pode haver uma coisa como infância (POSTMAN, 2011, p. 94).
Na atualidade, por exemplo, o ato de brincar deixou de lado os brinquedos artesanais e mesmo industriais, mas que estimulavam a inteligência e a criatividade infantis, e os substituiu pelos jogos de computador e pelos programas de TV que em grande parte das vezes em nada contribuem para o intelecto das crianças, são feitos para qualquer pessoa, em qualquer idade. Esteban Levin, em Rumo a uma infância virtual? (2007), observa que a maneira como as crianças estão vivendo acompanha os avanços tecnológicos e mudam rapidamente. Ao invés de brincar as crianças pensariam cada vez menos e assimilariam o que a mídia produz por e para os adultos.
Quanto à sexualidade, a avaliação de Postman (2011) é que esse tema também, devido à homogeneização dos discursos midiáticos, estaria sendo banalizado, deixando de ser um segredo dos adultos. Por outro lado, como afirma Levin (2007), essa sexualidade estaria cada vez mais deixando de ser corporal para ser virtual, o que pode afetar, no futuro, a sensibilidade infantil. A forte erotização da televisão também estaria contribuindo cada vez mais para a formação de uma infância erotizada. As crianças, então, passariam a querer reproduzir a imagem do modelo adulto que a televisão apresenta, levando a sérios problemas
corporais, como “anorexia, bulimia, obesidade, estresse, violência, hiperatividade, déficit de
atenção, insônia, problemas no desenvolvimento psicomotor e no esquema corporal, (...)” (LEVIN, 2007, p. 123). A família teria perdido lugar para a televisão na orientação moral e sexual dos filhos.
Postman (2011) acredita que não há como escapar desse desaparecimento da infância que vem se processando desde meados do século passado, apesar de atribuir à escola uma espécie de papel salvador da infância perdida, aquela que tinha um mundo completamente separado dos adultos, em que a sexualidade era mantida em segredo e interditada ao menor sinal de manifestação. Já Corazza (2000) crê que a sociedade contemporânea não deixará de continuar submetendo as crianças, enquanto mercadorias, às normas sociais do mundo adulto:
(...) o processo cultural de produção da mercadoria infantil produz não apenas valor- de-uso, mas também valor, não apenas valor-de-troca, mas também a mais-valia de uma infância que não deve ter fim: para que a imagem adulta possa continuar obtendo os lucros de ser especularizada, esbatendo a promessa ameaçadora de sua própria desaparição e anunciando sua futura aparição, governando o infantil e a si- mesma (CORAZZA, 2000, p. 230)24.
Para nós, fica a pergunta: no que diz respeito à imagem da criança e sua sexualidade, como a contemporaneidade, mais especificamente a literatura, vem tratando o assunto e quais são suas expectativas?
CAPÍTULO 3
3.1 Homoafetividade e sua relação com a infância