Vimos, no quadro sobre o mapeamento funcional do futuro do pretérito por século e gênero, que a função de posterioridade temporal cronológica, que é vista nas narrações cujos acontecimentos se processaram no passado, aparece em maior número de dados, em relação às outras funções elencadas. Percebemos, no exemplo 65, retomado abaixo, que existe uma situação factual posterior que se apresenta na forma verbal do futuro do pretérito relacionada a uma situação ocorrida anteriormente, que é a “votação apurada”.
65. “Apurada a votação destes, serião eleitos: Manoel do Nascimento e Pe. Carlos Augusto P. Alencar”. (A Vida de Antônio Rodrigues Ferreira, 1876).
Passemos, então, à análise dos dados a partir dos fatores linguísticos controlados (modalidade, estrutura temporal e tipologia verbal). Antes de começarmos a análise da tabela 01, relembremos os níveis de irrealis trabalhados nessa pesquisa:
Irrealis 1 – pressuposição; volição.
Irrealis 2 – verdade concretizada; polidez.
Irrealis 3 – verdade possível de ser concretizada; ideia de possibilidade e
condição.
Irrealis 4 – incerteza; possibilidade remota de ser uma verdade possível.
Começaremos pela atuação da modalidade na função temporal cronológica, esquematizada na tabela 01.
Tabela 01: Atuação da Modalidade na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito49
Fatores Aplicação/Total Percentual
Irrealis 1 01/60 1.7
Irrealis 2 120/140 85.7
Irrealis 3 00/83 0
Irrealis 4 00/53 0
Diante dos resultados expostos, vimos que, no que concerne à atuação da modalidade na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito, a noção de
49 Em todas as tabelas, a função em análise é vista em relação ao conjunto das outras, por exemplo, neste caso da
tabela 01, a função cronológica é analisada em relação ao conjunto das demais funções (polifônica, condição, possibilidade, polidez, desejo). A análise é, portanto, binária.
irrealis 2 é a que mais se destacou, sendo, portanto, apresentada com um percentual de 85.7%
das ocorrências coletadas no corpus, seguida da noção de irrealis 1, cujo percentual foi de 1.7% das ocorrências. Dessa forma, ao correlacionarmos com nossas hipóteses, vimos que, com relação a esses contextos de uso, a informação proposicional (que relaciona eventos, estados e processos) juntamente com os atos de fala, está ligada à modalidade epistêmica ao indicar certeza – no caso do resultado da eleição (exemplo 65).
Averiguamos que o maior número de ocorrências com o futuro do pretérito é o de
irrealis 2, nível este que demarca um ponto cujo tempo é visto como o referencial para que a
noção de certeza seja evidenciada no enunciado, designando um valor que mais condiz com a realidade, já que ele assinala a sequencialidade dos eventos no “tempo do mundo real”.
Já a noção de irrealis 1,conforme os resultados obtidos na análise estatística, ocorre em 1.7% dos dados. Para os outros dois fatores de análise – irrealis 3 e irrealis 4, não houve dados em nosso corpus, o que refuta nossa hipótese inicial, a qual abordava que o usuário da língua escolhe o futuro do pretérito por oferecer a noção de irrealis (verdade
possível), em contextos condicionais não-realizáveis, numa situação que envolva dúvida e em
um contexto comunicativo de polidez, caracterizado por um grau mínimo de manipulação do falante em relação ao ouvinte.
Com relação à estrutura temporal, a qual exporemos a seguir, o fator
posterioridade é o que prevalece, com 38.0% das ocorrências (conforme tabela 02 abaixo), o
que nos faz remeter à classificação de Travaglia (1991) já aqui apresentada: o futuro do pretérito é escolhido quando a estrutura temporal é, preferencialmente, de posterioridade ao momento de referência. Ao compararmos com a hipótese inicial que retrata uma possível variação do futuro do pretérito com outra forma verbal, salientamos que não houve dados suficientes para desenvolver a contentouma análise estatística.
Tabela 02: Atuação da Estrutura Temporal na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito
Fatores Aplicação/Total Percentual
Anterioridade 8/38 21.1%
Simultaneidade 20/53 37.7%
Posterioridade 93/245 38.0%
Partimos da assertiva que tempo verbal envolve a união ordenada da relação entre dois pontos ao longo da classificação linear: tempo de referência e tempo do evento como diz Givón (2001, p. 285-286). No exemplo a seguir, vemos, em relação a “logo que chegasse do Assu”, a noção de posterioridade expressa pelo futuro do pretérito. No gráfico a seguir, reforçamos essa ideia.
66. “... e logo que chegasse do Assu o outro criminoso seguiria também para ali fazer-se companhia...” (Registros Da Memoria Dos Primeiros Estabelecimentos na Villa de Santa Cruz de Aracaty, 1782).
MR → ME → MF
Chegasse seguiria
A simultaneidade ao momento de referencia teve um percentual de 37.7% e a
anterioridade ao momento de referência, 21.1%, o que demonstra que a ideia de não-passado
surge quando o falante determina um modo de ser da ação, e não uma noção de tempo, como aparece no exemplo 67:
67. “... mas com que moeda pagaria os d’aquelle?” (A Vida de Antônio Rodrigues Ferreira, 1876)
MR/ME → MF
momento, com algum tipo de dinheiro, aos que estavam devendo. (aqui, a noção de ação simultânea ao momento da referência é evidenciada no cotexto).
A seguir, na tabela 03, apresentamos os resultados para tipo de verbo.
Tabela 03: Atuação do Tipo de Verbo na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito
Fatores Aplicação/Total Percentual
Accomplishment 9/6 66.7%
Estado 23/89 25.8%
Achivement 28/104 26.9%
Atividade 64/134 47.8%
Conforme a tabela 03, temos, na tipologia verbal aplicada ao uso do futuro do pretérito, o fator aspectual accomplishment com 66.7%, o que evidencia a ação durativa, que atinge a completude. Os accomplishements constituem situações que envolvem telicidade, em que a realização da ação é por inteira. É o que acontece no exemplo 68:
68. “A Corte de Lisboa cerraria os ouvidos ás lamentações e aos protestos si os latrocinios, de que havia queixas, fossem provados...” (Ligeiras considerações sobre as lutas de 1824, 1864).
Notemos que a ação de cerrar os ouvidos denota uma duração que pode ser
totalizada por completo (verdade possível), mediante uma constatação: os latrocínios.
Em seguida, vem o fator atividade, com 47.8% das ocorrências. As atividades são caracterizadas por eventualidades atélicas, como vemos no exemplo 69:
69. “... e a confiança em que Ferreira, quando não o apoiasse, não guerrearia o seo antigo companheiro de luta contra o equilibrismo...” (A Vida de Antonio Rodrigues
Ferreira, 1876).
No exemplo, vemos que a ação de guerrear carrega a ideia de acontecimento, ocorrendo em um determinado tempo no enunciado, não definindo seu término.
Os estados e os achivements não possuem fases. Esses últimos apresentam telicidade, cuja ação é realizada por inteira; já os primeiros, possuem características atélicas, as quais podem vir acompanhadas por expressões indicativas de duratividade, consoante exemplos 70 e 71, respectivamente:
70. “... E’ porque deve sel-o; é porque, si não fosse, seria universalmente acclamado (...)” (A Vida de Antonio Rodrigues Ferreira, 1876)
71. “...mas, e então pensou que tudo encontraria si podesse attingir as margens do S. Francisco...” (Escritos sobre o Ceará de Antonio Jose Vitoriano da Fonseca, 1849).
Dessa forma, de acordo com as hipóteses antes levantadas, podemos concluir que, ao tratarmos da forma verbal futuro do pretérito e seus valores funcionais, as categorias verbais de Tempo, de Aspecto e de Modalidade influenciam na escolha da forma verbal quando a noção expressa pelo indivíduo for temporal cronológica, pois, ao conferirmos os resultados obtidos nas tabelas acima, o futuro do pretérito é escolhido quando a estrutura temporal é, preferencialmente, de posterioridade ao momento de referência; e com relação à escolha do falante, dá-se quando o aspecto é não-durativo;o tipo de verbo é accomplishment e a modalidade caracterizar o irrealis 2.
Apresentaremos, na sequência, os resultados referentes aos grupos de fatores extralinguísticos século e gênero textual. Dessa forma, como o tempo é um fator decisivo para o registro de uma língua, é que analisamos o fator século. Com relação ao fator gênero
textual, acreditamos que as manifestações desse registro formal da língua obedecem a
critérios referentes à materialização das situações comunicativas existentes de socialização, obedecendo a uma relação social e histórica como fonte de produção comunicativa. Passemos, então, à análise e aos resultados obtidos.
Tabela 04: Atuação do fator Século na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito
Séculos Aplicação/Total Percentual
XVIII 42/71 59.2%
XIX 59/212 27.8%
XX 20/53 37.7%
Pelo exposto, verificamos que, no que se refere à função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito, é no século dezoito que mais se apresenta o uso dessa forma verbal, com 59.2%, seguido de um decréscimo no século dezenove e, em relação a este, um leve acréscimo no século vinte. Nesse caso, o índice pode ser maior no século XVIII em virtude de encontrarmos mais textos narrativos nesse período, o que condiciona o uso do futuro do pretérito na função temporal cronológica.
Tabela 05: Atuação do fator Gênero Textual na função temporal cronológica codificada pelo futuro do pretérito
Gêneros Aplicação/Total Percentual
Documentos oficiais 118/293 40.3%
Cartas 2/4 50.0%
Discursos políticos 1/39 2.6%
No que diz respeito à predominância do gênero carta, com 50.0% do total, nossa hipótese foi refutada, pois supunha que o gênero que mais influenciava o uso dessa forma verbal seria os documentos oficiais, haja vista a formalidade do registro da língua, seguido do gênero carta. Dessa forma, esse resultado revela que, baseando-nos nas observações que fizemos a respeito do corpus, o gênero textual carta influencia o uso do futuro do pretérito quando a função exercida é a temporal cronológica.