talmente dedicado à teoria da Residualidade e às ideias em torno do que vêm a ser intertextualidade, mentalidade e residual, que servirão, nos dois capítulos pró- ximos, para indicar e para delimitar, nas novelas de cavalaria portuguesas (em especial n’A Demanda do Santo Graal88), os trechos que realizam uma clara
alusão a passagens de epopeias e de mitos da Antiguidade Clássica, bem como os excertos dessas narrativas greco-romanas e dessas prosas medievais que trazem, no seu bojo, muito dos modos de agir, de pensar e de sentir dos heróis das antigas Grécia e Roma e dos cavaleiros da Europa mediévica. Também será com base na teoria e nas ideias que serão apresentadas nesta parte do livro que os trechos das epopeias e dos mitos greco-latinos, no segundo capí- tulo, e que os excertos das novelas de cavalaria portuguesas (principalmente os d’A Demanda), no terceiro, terão sua classiicação (se portadores de mentali-
dade; se resíduos; se híbridos; se cristalizados; se intertextos endoliterários ou exoliterá- rios, hetero ou homo-autorais, implícitos ou explícitos, corroboradores ou contestatários)
e suas origens devidamente apontadas. Se estiverem no âmbito do intertexto, as origens dessas passagens poderão ser encontradas sem que para isso seja preciso muito esforço: bastará, para tanto, que se observe, por exemplo, a que personagem (ou a quais personagens) e/ou a que episódio (ou a quais episó- dios) o excerto da obra em análise (epopeia, mito greco-romano ou novela de cavalaria) está se remetendo. É evidente que, para que o pesquisador possa apontar determinados trechos das obras estudadas como intertextos, faz-se ne- cessário que ele não só saiba o que esse termo signiica, mas que também possua uma razoável bagagem literária; caso contrário, ele não conseguirá
perceber o fenômeno da intertextualidade presente nessas passagens e irá julgar que tudo o que encontrou escrito nos livros sobre os quais se debruçou, para ins de estudo, pertence mesmo às narrativas deles, ou seja, que nenhuma das passagens dessas obras remete-se a um trecho ou a um episódio doutro livro; ou então, sem essa carga de leitura necessária, não saberá, o investigador, em que obra deverá buscar os subsídios necessários para apontar como intertexto determinado excerto de um dos livros com os quais trabalhou. Já com re- lação às explicações das origens de determinados comportamentos dos he- róis greco-romanos e dos cavaleiros medievais que se encontram – de forma tipiicada ou arquetípica, é verdade, porque literária – dentro das epopeias e dos mitos greco-latinos e das novelas de cavalaria, a partir dos modos de agir, de pensar e de sentir das personagens que, quer nas obras literárias da Antiguidade Clássica, quer nas produções literárias do Medievo, empunham a espada em busca de glória, deve-se dizer que elas, essas origens (melhor: que as explicações acerca dessas origens), deverão ser buscadas, sobretudo e prin- cipalmente, na História, na Antropologia e na Psicanálise. Exatamente por isso, nos dois próximos capítulos, será possível perceber que aos trechos que giram em torno da teoria que servirá a esta pesquisa, a da Residualidade, serão sempre acrescentados comentários de teor psicanalítico, historiográico ou antropológico, retirados de ensaios reconhecidamente importantes no âmbito da Antropologia, da Psicanálise e da História. Como se pôde ver, quer por via da intertextualidade, quer pela da residualidade, esta pesquisa irá buscar, em obras literárias da Idade Média (novelas de cavalaria portuguesas; entre elas, a versão lusa d’A Demanda do Santo Graal), indícios (ou vestígios; ou, ainda, resíduos) do que as produções literárias da Antiguidade Clássica (principalmente as epo- peias e os mitos) outrora disseram, a partir de suas personagens, acerca dos comportamentos dos gregos e dos romanos antigos em geral e, em particular, dos modos de agir, de pensar e de sentir dos heróis greco-latinos.
Para que se possa compreender o enquadramento de determinados excertos das novelas de cavalaria medievais – em especial os d’A Demanda
do Santo Graal portuguesa –, das epopeias (Ilíada,89 Odisseia90 e Eneida91) e dos mitos clássicos (presentes em Metamorfoses92), realizado nos dois pró-
ximos capítulos deste livro, no grupo dos intertextos, no dos trechos porta- dores de mentalidade clássica ou no dos resíduos greco-romanos, bem como a forma como foi operada a classiicação desses excertos nesses dois capí- tulos, faz-se necessário, antes, o domínio conceitual dos seguintes termos:
intertextualidade e intertexto; mentalidade; residual; Residualidade, substrato mental, resíduo, hibridação cultural e cristalização.
A primeira parte deste capítulo (Da história da intertextualidade e do conceito e da classiicação do intertexto) girará em torno das palavras de Vítor Manuel de Aguiar e Silva, retiradas de Teoria da Literatura,93 sobre a história
da intertextualidade – das primeiras considerações realizadas por Saussure em torno da deinição de anagrama até a conceitualização de intertextualidade dada
por Kristeva, passando pelo termo hipograma, de Riffaterre, e pela ideia de
texto polifônico, de Bakhtin – e sobre o conceito e as formas de classiicação
do intertexto: endoliterário ou exoliterário; homo-autoral ou hetero-autoral; explícito ou implícito, oculto ou dissimulado; corroborador ou contestatário. Nela também será possível observar o posicionamento de Aguiar e Silva quanto aos diversos estudos realizados pelos linguistas e pelos críticos literários sobre o fenômeno da intertextualidade; sobretudo quando esta se estabelece entre textos literários. A existência, neste livro, de um subcapítulo dedicado à conceituação de inter-
textualidade e de intertexto pode ser justiicada pela presença do fenômeno da in- tertextualidade em trechos das novelas de cavalaria portuguesas da Baixa Idade
Média: algumas passagens dessas narrativas medievais fazem alusões a perso- nagens e/ou a episódios das epopeias e dos mitos da Antiguidade Clássica, como mostrará o terceiro capítulo deste livro quando forem apontadas e de- vidamente classiicadas as intertextualidades que A Demanda do Santo Graal e o
Amadis de Gaula estabelecem com certas obras literárias das antigas Grécia e
Roma. Justiica-se, também, pela importância dessas intertextualidades para a pesquisa que aqui foi empreendida em torno dos resíduos clássicos presentes nas novelas de cavalaria e, por extensão, no Medievo, uma vez que foram essas relações intertextuais estabelecidas entre as narrativas medievais em questão e as epopeias e/ou os mitos da Antiguidade Clássica que chamaram a atenção para algo maior e mais importante: para um imaginário greco-romano – o do herói das antigas Grécia e Roma, bem representado pelas lendárias persona- gens de espada que povoam as antigas narrativas em verso – que se encontra presente também na Idade Média – principalmente na igura do cavaleiro medieval (o real, não o ictício), cujas formas de agir, de pensar e de sentir foram muito bem representadas pelas personagens das novelas de cavalaria –, período histórico em que os valores (sociais, religiosos, morais) apresen- tam-se, na sua maioria (pelo menos é essa a ideia que se tem), opostos aos da Antiguidade greco-latina. Sendo assim, o fenômeno da intertextualidade (pelo menos a partir do ângulo em que ele será visto neste trabalho: o das alusões que as novelas de cavalaria fazem, de maneira bem direta, a personagens e/ou a episódios de obras literárias dos antigos gregos e romanos) representaria uma das formas mais evidentes de residualidade clássica no Medievo. Entretanto, no meio acadêmico, há quem não tenha chegado a essa conclusão quanto à relação entre o fenômeno intertextual e o residual presentes nas novelas de ca- valaria (ou, ainda pior, quanto às semelhanças e às diferenças existentes entre
intertextualidade e residualidade): ora equiparam o fenômeno da residualidade ao
da intertextualidade, ou seja, tomam um pelo outro, ora menosprezam o fenô- meno da residualidade frente ao da intertextualidade, quando, na verdade, tudo indica, como mostrará o terceiro capítulo, que, no que concerne às novelas de cavalaria portuguesas da Baixa Idade Média, o fenômeno da intertextualidade, a partir da ótica da retomada dos valores clássicos existentes nas epopeias e/ ou nos mitos dos antigos gregos e romanos pelas narrativas cavaleirescas, está
mesmo subordinado ao da residualidade, pelo fato de a intertextualidade, como já foi dito, mostrar essa retomada dos valores clássicos operada pelo Homem medieval (ou pelos homens mediévicos) de forma mais direta (através de alu-
sões), mais evidente. Assim, a necessidade de deinições corretas, precisas, para intertextualidade e intertexto, com vista a distanciar e a aproximar o que está por
trás desses termos do que vêm a ser residualidade e resíduo, serve também para justiicar a presença deste subcapítulo neste livro.
A segunda parte (1.2 – Da proposta da École des Annales para a cons- trução de uma Nova História e dos conceitos de mentalidade, imaginário e ide-
ologia) abordará não só a proposta da École des Annales para a renovação do
método de pesquisa historiográico utilizado em ins do século XIX e no alvorecer no século XX – o político – mas também os conceitos de mentalidade e imaginário apresentados por Georges Duby e por Jacques Le Goff/Hilário Franco Júnior que foram retirados do livro A História Continua94 e do ensaio
“O Fogo de Prometeu e o Escudo de Perseu. Relexões sobre Mentalidade e Imaginário”.95 Conforme mostrará esta parte, a deinição dada pela Escola
dos Anais para o vocábulo mentalidade coaduna com a acepção primeira dessa palavra em língua francesa (mentalité, de 1842), de acordo com o Dicionário
Houaiss da Língua Portuguesa.96 Justiica a existência deste subcapítulo neste
livro a necessidade de divulgação – que ainda há – dos pensamentos da École
des Annales – sobretudo quanto ao conceito de mentalidade – no universo aca-
dêmico dos cursos de Letras (as ideias dessa corrente de pensamento francesa já são largamente difundidas pelos cursos de História), de modo a mostrar que a Literatura e a História podem e devem caminhar juntas, com vista à construção duma História mais viva, rica e crítica. Além disso, esta segunda parte faz-se necessária porque, mesmo nos dias de hoje, há uma enorme di- iculdade, no ambiente acadêmico, em se fazer a distinção correta entre os termos mentalidade, imaginário e ideologia. A deinição de imaginário far-se-á im- portante, também, para a compreensão do que vem a ser residual, uma vez que não há como conceitualizar este vocábulo sem tratar daquele, e para que seja possível um melhor entendimento dos conceitos operativos da Teoria da
Residualidade, que serão apresentados na quarta parte deste capítulo.
A terceira (1.3 – Dos conceitos de dominante, residual, arcaico e emergente) trará a deinição de residual da forma como esse fenômeno cultural foi pen- sado por Raymond Williams em seu livro Marxismo e Literatura.97 E, para que
se possa compreendê-la devidamente, será necessário também confrontá-la com os conceitos de dois outros fenômenos culturais abordados por Williams na sua já referida obra: com o de emergente, ao qual a conceitualização de resi-
dual opõe-se diametralmente; e com o de arcaico, do qual a deinição de residual
distingue-se basicamente pelo aspecto da (in)consciência psicológica. Esses conceitos estão intimamente ligados entre si, bem como à conceitualização de
dominante, pois, na falta desta, os três icam sem sentido. Exatamente por isso,
a ser dominante, em termos de cultura, ainda com base nas ideias de Raymond Williams. É de grande importância, a terceira parte deste capítulo, não só pelas relexões que Williams realizou em torno dos diversos fenômenos que formam a complexa malha da cultura dos povos, entre os quais foram assi- nalados o residual, o arcaico e o emergente, mas também, e principalmente, pelo fato de essas ideias também terem inluenciado – como aconteceu às da École
des Annales no que diz respeito à proposta de renovação da História enquanto
área do conhecimento e ao conceito de mentalidade formulado por essa agre- miação francesa – Roberto Pontes na elaboração de sua teoria.
A quarta parte do presente capítulo (1.4 – Dos conceitos de
Residualidade, resíduo, hibridação cultural e cristalização) tratará da Teoria da Residualidade. Assim, este subcapítulo trará desde importantes e interessantes
informações quanto à formulação dessa teoria (os motivos que levaram Roberto Pontes a elaborá-la, os conceitos e as ideias que primeiramente o inluenciaram e as principais propostas ou objetivos da Residualidade) até co- mentários sobre os seus lindes teóricos e sobre os seus conceitos operativos:
mentalidade, resíduo, hibridação cultural e cristalização. Esta quarta parte deste
capítulo mostra-se de suma importância para esta pesquisa, pois será com base nos conceitos operacionais da Teoria da Residualidade, elaborados por Roberto Pontes a partir doutros já existentes no âmbito da Antropologia, da História e até da Química, e nas leituras de determinados ensaios antropo- lógicos, historiográicos e psicanalíticos que giram em torno dos universos grego, romano e medieval (já apontados na introdução deste livro), que irão ser feitas a seleção, a delimitação (portanto a construção do corpus) e a classi- icação dos trechos das narrativas em verso da Antiguidade greco-romana e dos excertos das novelas de cavalaria portuguesas da Baixa Idade Média (A
Demanda do Santo Graal e Amadis de Gaula) que trazem, através de suas per-
sonagens, os comportamentos, os imaginários, do Homem (ou dos homens) das antigas Grécia e Roma e do Homem da Europa mediévica (mormente o herói mítico greco-romano e o cavaleiro medieval), bem como explicadas as origens dessas maneiras de agir e de pensar. Este subcapítulo mostra-se im- portante também para a comunidade acadêmica em geral e, em especial, para o universo acadêmico dos cursos de Letras, uma vez que lhes apresenta uma nova proposta teórico-metodológica que já se mostrou bastante eiciente na articulação de conceitos de diferentes áreas do conhecimento – bem como na reformulação desses (conclusão a que facilmente se pode chegar, bastando, para tanto, apenas cotejar os conceitos operativos da Teoria da
Residualidade com aqueles que inluenciaram Roberto Pontes na elaboração
de sua teoria e que podem ser encontrados nos dois subcapítulos anteriores), de modo a aclimatá-los a uma nova realidade: a brasileira –, sempre com vista à explicação de como se dão certos fenômenos literários e culturais, sob a ótica da inluência dum período histórico sobre outro, duma cultura sobre outra, dum momento histórico-literário sobre outro.
Ao cabo deste capítulo, serão tecidas as últimas considerações sobre o referencial teórico que norteará a análise histórico-literária que será empre- endida nos dois capítulos seguintes (1.5 – Das últimas considerações sobre o referencial teórico). Procurar-se-á, com base nos conceitos apresentados ao longo deste, mostrar em quais aspectos a intertextualidade e a residualidade aproximam-se e em quais pontos distanciam-se, bem como apresentar argu- mentos capazes de defender uma convivência harmoniosa entre conceitos elaborados pela École des Annales e por Raymond Williams, crítico literário de formação marxista. Essa comparação, ao im do capítulo, visa pôr im, deini- tivamente, às dúvidas que, mesmo após a leitura das quatro partes em que este se subdivide, porventura ainda tenham permanecido nos leitores deste livro quanto, principalmente, às características e aos objetivos dos fenômenos inter-
textual e residual; sobretudo quando esses se encontram presentes nas novelas
de cavalaria portuguesas da Baixa Idade Média (A Demanda do Santo Graal e
Amadis de Gaula). Agora, o primeiro subcapítulo: