Partindo da perspectiva sociológica bourdieusiana, pode-se afirmar que as motivações decorrem de estratégias raramente assentadas em uma intenção racional, calculada ou consciente (BOURDIEU, 1996, p. 145). Sob essa óptica, as práticas dos agentes são dotadas de sentido e razões nem sempre conscientes para quem as pratica, já que o princípio das escolhas não tem continuamente por base o cálculo racional das probabilidades de sucesso:
(...) a maior parte das ações humanas tem por base algo diferente da intenção, isto é, disposições adquiridas que fazem com que a ação possa ser e deva ser interpretada como orientada em direção a tal ou qual fim, sem que se possa, entretanto, dizer que ela tenha por princípio a busca consciente desse objetivo (BOURDIEU, 1996, p. 164).
As ações encerram um paradoxo: são dotadas de uma lógica específica, “trazem a marca da razão sem serem produto de uma meta racionalizada” (BOURDIEU, 1998d, p. 83). Não resultam sempre de um cálculo racional, são dotadas de uma finalidade objetiva, de um “senso prático” sem se organizarem em direção a um fim explicitamente constituído. São inteligíveis e coerentes sem resultarem de uma ação deliberada e ajustada a um futuro ou de um projeto ou plano racionalmente projetado (BOURDIEU, 1998d, p. 83).
É possível que os agentes regulem as práticas em função do futuro e dominem os mecanismos econômicos pela previsão. Entretanto, a apropriação do futuro pelo cálculo racional também depende de condições objetivas para efetivá-las:
A competência econômica não é, portanto, uma aptidão universal e uniformemente distribuída: a arte de avaliar e perceber as chances, ver na configuração presente da situação o futuro “apprésenté” (como diz Husserl para opô-lo ao futuro imaginário do projeto), a aptidão para antecipar o futuro por uma espécie de indução prática ou até lançar o possível contra o provável por um risco calculado, são outras tantas disposições que não podem ser adquiridas senão sob certas condições, isto é, dentro de certas condições sociais. (BOURDIEU, 1998d, p. 91, destaques do autor).
Para Pierre Bourdieu, o habitus, sistema de disposições que carrega consigo a experiência anterior, engendra práticas e ações que visam, em última instância, a manutenção ou a melhoria da posição do agente na estrutura social ou em determinado campo. Assim, as estratégias são geradas pelo habitus, através da antecipação de práticas ao futuro:
Tudo se passa como se o futuro objetivo, que está em potência no presente, não pudesse advir senão com a colaboração ou até a cumplicidade de uma prática que, por sua vez, é comandada por esse futuro objetivo; como se, em outras palavras, o fato de ter chances positivas ou negativas de ser, ter ou fazer qualquer coisa predispusesse, predestinando, a agir de forma que estas chances se realizem (BOURDIEU, 1998d, p.111).
As práticas resultam da dialética entre o habitus, que repousa em práticas anteriores, e as significações prováveis que advêm do “mundo presumido”, pressentido e prejulgado (BOURDIEU, 1998d, p. 111).
O conceito de estratégia visa substituir as designações: regras, modelos e estruturas. Implica em situar o ponto de vista dos agentes sem, contudo, transformá-los em calculadores racionais (BOURDIEU, 2004b, p. 22).
As estratégias não se restringem àquelas explicitamente orientadas, decorrentes de um cálculo racional. Decorrem do habitus e se manifestam, por exemplo, pela limitação da taxa de fecundidade, pelo investimento econômico, através da opção pelo estabelecimento e pela modalidade de estudo, entre outros fatores.
São denominadas estratégias de reprodução porque são objetivamente orientadas para conservar ou aumentar o patrimônio e para manter ou melhorar a posição do grupo na estrutura social (BOURDIEU, 1998d, p. 113), ou seja, consistem em “seqüências objetivamente ordenadas de práticas que todo grupo deve produzir para reproduzir-se enquanto grupo” (BOURDIEU, 1998d, p. 115).
As estratégias resultam da disposição em relação ao futuro, determinada pela probabilidade objetiva de reprodução do grupo social ou por seu futuro objetivo e dependem do volume e da estrutura de capital a ser produzido – volume atual e potencial de capital econômico, cultural e social do grupo social e seu peso na estrutura do patrimônio. Da mesma forma, dependem do estado do sistema dos instrumentos de reprodução e das probabilidades de acesso aos instrumentos, que são permeados por relações de força entre as classes.
Observamos regularmente uma correlação muito estreita entre as probabilidades objetivas cientificamente construídas (as chances de acesso a tal ou tal coisa), e as esperanças subjetivas (as <<motivações>> e as <<necessidades>>), mas não que os agentes ajustem conscientes suas aspirações e chances como um cálculo exato, como faz um jogador que regula seu jogo em função de uma informação perfeita das chances de ganhar (BOURDIEU, 1980, p. 90, tradução nossa, destaques do autor).
Mudanças do volume e da estrutura de capital, ou do estado do sistema dos instrumentos de reprodução – probabilidade de acesso aos instrumentos – podem acarretar na
reestruturação das estratégias de reprodução, repercutindo na alteração ou manutenção da
estrutura de um patrimônio. Por exemplo, o que Bourdieu e Passeron (1979) denominam “explosão escolar”, ou seja, a expansão do acesso às instituições escolares, trouxe como conseqüência a inflação dos diplomas e uma intensificação escolar, uma imposição que surte efeito em todas as camadas sociais, que passam a buscar o sistema escolar para manter ou melhorar a posição social. Exemplo significativo ocorreu na década de 1930 em nosso país,
quando com a crise de 1929, vindo a ocasionar a falência de comerciantes de camadas médias, integrantes desta classe, que anteriormente tinham sua reprodução assegurada pelo capital econômico, intensificaram a busca por maior escolarização, empregando estratégias de reconversão do capital econômico em capital escolar. E, como procuramos mostrar no capítulo anterior, a educação almejada não foi a que conferisse habilitação técnica requerida pela intensificação da industrialização, mas a propedêutica, associada às elites e símbolo de
status social.
As estratégias podem ser muito variadas. São denominadas estratégias negativas
de reprodução, quando visam evitar o esfacelamento do patrimônio e podem ser
concretizadas, por exemplo, através da limitação do número de filhos (BOURDIEU, 1998d, p. 115).
Já as estratégias positivas de reprodução abarcam: estratégias sucessoriais, quando o patrimônio é transmitido com baixa degradação; estratégias educativas, compreendidas como investimento em longo prazo e que não se reduzem à sua dimensão estritamente econômica; estratégias profiláticas, que visam a preservação do patrimônio biológico – preservação da saúde; estratégias econômicas, destinadas a reproduzir o patrimônio econômico; estratégias de investimento social, voltadas para instaurar ou manter relações sociais úteis; estratégias matrimoniais, para assegurar a reprodução biológica da fração social sem comprometer a reprodução social pelo casamento desigual; e estratégias
ideológicas, que visam a naturalização dos privilégios (BOURDIEU, 1998d, p. 116).
As estratégias de fecundidade estão relacionadas às chances de ascensão social objetivamente oferecidas aos membros de um segmento social. A esse respeito, Bourdieu (1998d, p. 99) afirma que “As classes populares, cujas chances de acesso à classe dirigente em duas gerações são praticamente nulas, têm taxas de fecundidade muito elevadas que decrescem ligeiramente quando aumentam as chances de ascensão intergerações”. Como foi mencionado anteriormente, as camadas populares tendem a realizar baixos investimentos educativos e a não vislumbrarem para os seus filhos um futuro substancialmente diferente de seu próprio.
Os integrantes de camadas dominantes podem ter elevado número de filhos, porém conforme uma lógica peculiar: o custo do filho é baixo comparando-se com a elevada renda e altos investimentos. Já os segmentos médios, caracterizados pela ambição de ascensão social, tendem a limitar o número de descendentes e são impelidos a realizar investimentos educativos muitas vezes desproporcionais aos seus recursos.
As camadas médias, que aspiram à ascensão, muitas vezes denominadas por Bourdieu de “pequena-burguesia”, são definidas pelas “chances objetivas que não teriam se não tivessem a ‘pretensão’ de obtê-las e se não acrescentassem, por conseguinte, aos seus recursos em capital econômico e cultural, ‘recursos morais’” (1998d, p. 100). O aspecto moral é percebido pela restrição ou pelo poder de limitação, como na redução de despesas, limitação de nascimentos e em outros casos que impliquem em formas de economia. Assim sendo, nota- se que o habitus não é baseado somente nas chances objetivamente associadas à posse de um capital. Em alguns casos, está relacionado com o sentido da trajetória individual e coletiva:
Mais precisamente, as disposições frente ao futuro e, por conseqüência, as estratégias de reprodução, dependem não só da posição sincronicamente definida da classe e do indivíduo na classe. Mas do sentido da trajetória coletiva do grupo do qual faz parte o indivíduo ou o grupo (e.g. fração de classe, linhagem) e, secundariamente, do sentido da trajetória particular de um indivíduo ou a um grupo englobado em relação à trajetória de um grupo englobante (BOURDIEU, 1998d, p. 101).
A relação prática com a instituição escolar é orientada pelo sentido da trajetória da linhagem de duas ou três gerações e pela sua relação com a instituição escolar transmitida por meio de julgamentos, conselhos ou preceitos.
As estratégias educativas consistem em investimentos a longo prazo, que não se reduzem à sua dimensão estritamente econômica. Dentre as estratégias educativas, enfatizamos as estratégias de investimento escolar. Quanto maior o capital cultural de um grupo social e o peso relativo deste capital cultural em relação ao econômico, maiores as chances de investimento das famílias em educação escolar de seus filhos. Por outro lado, há também uma tendência de as famílias investirem em educação escolar quando outras estratégias de reprodução forem menos eficazes.
A partir dos estudos de Bourdieu, verificamos que, com a não-disponibilidade de informações atualizadas para vislumbrar em tempo as “apostas” possíveis (BOURDIEU, 1998d, p. 94), desprovidas de capital econômico, importante para esperar o incerto retorno financeiro a longo prazo, e de capital social para encontrar alternativas diante do fracasso, as camadas médias e populares tendem a fazer “maus” investimentos escolares. O momento em que ocorre a orientação para determinado ramo de ensino tem grande peso na continuidade da trajetória escolar e nos resultados passíveis de serem obtidos:
Em um domínio no qual, como em outros, a rentabilidade das aplicações depende consideravelmente do momento em que estes são efetuados, os mais desprovidos não são capazes de descobrir os ramos de ensino mais cotados – estabelecimentos, seções, opções, especialidades, etc. – senão com atraso, quando já estariam desvalorizados se, porventura, tal desvalorização não veio a acontecer pelo simples fato de terem tornado acessíveis aos menos favorecidos (BOURDIEU, 1998d, p. 94, destaques do autor).
O capital de informações sobre o sistema de ensino consiste em uma das partes mais rentáveis do capital cultural. Os benefícios da escolha por um estabelecimento de ensino podem ser antecipados por meio de exemplos na família, pais, irmãos, e/ou da disponibilidade de informações sobre as diferentes formações e o rendimento atual e potencial diferenciado destas. Substancialmente, esses fatores tendem a definir “bons” investimentos escolares e são exemplos de que o sucesso escolar e social vincula-se à origem social (BOURDIEU, 1996, p. 42).
Quanto às estratégias econômicas, também há uma tendência de as camadas populares e médias realizarem investimentos mais baixos, de menores riscos, enquanto os investimentos das camadas dominantes apresentam maiores riscos, porém maior lucratividade.
Apesar de as estratégias serem apresentadas separadamente, na realidade social “todas as estratégias são objetivamente orquestradas” (BOURDIEU, 1998d, p.117) na medida em que resultam da compatibilidade de práticas de determinado segmento social, isto é, estão inter-relacionadas.
As mudanças de estratégias e de instrumentos de reprodução resultam de uma avaliação subjetiva das condições de manutenção ou ascensão de uma posição social e das probabilidades de acesso a essas condições. A orientação nos rumos possíveis de escolarização dos filhos e, particularmente, na “escolha” profissional exprime as esperanças e estimativas sobre o futuro do grupo social. A percepção do futuro mantém uma relação dialética com a evolução da atividade econômica e com as estratégias de reprodução. (BOURDIEU; BOLTANSKI; SAINT-MARTIN, 1979, p. 162).
Cabe mencionar que não somente as chances de reprodução explicam as estratégias, mas também o que se denomina sistema das chances diferentes de lucro que os diferentes mercados – mercado de trabalho, mercado escolar – oferecem aos possuidores de um patrimônio41. O mercado de trabalho e o mercado escolar são entendidos como universos sociais onde se encontram, respectivamente, diferentes postos de trabalho e instituições escolares com características econômico-socioculturais peculiares e disponíveis a atender diferentes clientelas.
Ao recorrer ao léxico da economia pensando a escola e até mesmo a família em paralelo a um mercado, Bourdieu explicita que não pretende seguir o uso habitual desta noção, segundo o qual as condutas são orientadas pela racionalidade econômica e objetivam o
maior lucro possível. Para Bourdieu, os lucros nem sempre são buscados como tais, resultando mais de um senso de aplicação. Este termo é empregado para conotar que a oferta e procura por diferentes “produtos” variam conforme a posição ocupada no campo e que há uma relação de atribuição de valor. Nas relações escolares e familiares, vigoram sanções positivas e negativas, controlando o desempenho. As famílias tendem, desse modo, a fortalecer o que é “aceitável” e desincentivar o que não o é (BOURDIEU, 2007, p. 82).