Equipment, Materials and Methodology
4.4 Batch 4, Design of Experiments
Romano (2001) propõe uma retomada conceitual de moral, com base na tradução do verbete, apresentado na Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, sobre a ciência moral:
Moral (ciência dos costumes) é a ciência que nos prescreve uma conduta sábia e os meios de a ela conformar os nossos atos. Se é apropriado para as criaturas racionais aplicar suas faculdades às coisas a que elas se destinam, a Moral é a ciência própria dos homens; isso porque ela é um conhecimento geralmente proporcionado à sua capacidade natural e da qual depende seu maior interesse (ROMANO, 2001, p. 3).
Na linguagem informal, os termos ética e moral são utilizados como sinônimos e abrangem as normas e princípios que ditam o comportamento humano e são expressos por meio de valores. “A ética consiste no estudo racional e sistemático da moral. Enquanto esta constitui a variável concreta, a ética representa o aspecto abstrato e teórico da mesma” (RODRIGUEZ, 2003, p. 8). A moral pode ser descrita como o comportamento validado pelos costumes e pela sociedade; e expresso por meio de normas. A moral ou conjunto de morais é o objeto de estudo da ética.
A respeito das definições de ética e moral, Marcondes (2007, p. 9) afirma que a palavra ética é originária do termo ethos e significa o “conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura. Os romanos o traduziram para o termo latino mos, moris (que mantém o significado de ethos), dos quais provém moralis, que deu origem à palavra moral em português”. Todavia, é necessário resgatar o sentido originário do ethos que significa proteção, guarida e hospitalidade. Se hoje se vislumbra uma crise do ethos é porque está desprotegido
na condição do cidadão, como o respeito, a justiça e a dignidade. Isso se reflete no cotidiano, principalmente, no ambiente organizacional.
Seguindo essa linha de análise da origem do termo ethos, Tugendhat (1996, p.35) afirma que a diferenciação pela origem dos termos ficou prejudicada, porque foram utilizados na tradição filosófica como sinônimos. A palavra ética foi traduzida de forma equivocada: “no latim, o termo grego éthicos foi então traduzido por moralis. Mores significa: usos e costumes”. Porém, não é este o entendimento sobre ética ou moral porque, segundo o autor, a tradução está incorreta, “pois, na ética aristotélica, não apenas ocorre o termo éthos (com e longo), que significa propriedade do caráter, mas também o termo éthos (com e curto) que significa costume, e é para este segundo termo que serve a tradução latina” (TUGENDHAT, 1996, p. 35-36). Já o termo moralis, em latim, “veio então a ser quase que um termo técnico, que não permite mais pensar muito em costumes, mas que foi empregado exclusivamente em nosso sentido de ‘moral’” (TUGENDHAT, 1996, p. 36).
a) Modelo de conduta socialmente estabelecido em uma sociedade concreta (“a moral vigente”)
b) Conjunto de convicções morais pessoais (“Fulano possui uma moral muito rígida”)
c) Tratados sistemáticos sobre as
questões morais (“Moral”) Doutrinas morais concretas (“Moral católica” etc.) Teorias éticas (“Moral aristotélica etc., embora o mais correto seria “ética aristotélica” etc.)
d) Disposição de espírito produzida pelo caráter e por atitudes adquiridas por uma pessoa ou grupo (“estar com o moral alto” etc.)
Usos de “moral” como
substantivo
e) Dimensão da vida humana pela qual nos vemos obrigados a tomar decisões e a explicá-las (“a moral”).
a) Usos estranhos à Ética: “certeza moral” etc.
Usos de “moral” como
adjetivo
b) Usos que interessam à Ética “moral” em contraposição a “imoral” “moral” em contraposição a “amoral”
Quadro 1 - Usos do “termo” moral
Cortina e Martinez (2005, p. 13-18) fazem uma abordagem das várias utilizações do termo moral como substantivo e como adjetivo. O quadro 1 esclarece os significados e demonstra a amplitude da utilização do termo moral e a utilização ora para nomear ora para qualificar determinadas ações.
Tugendhat (1996) refere-se ao emprego dos termos ética e moral como “intercambiáveis”. Para ele, a distinção é desnecessária e a pergunta a respeito da diferenciação entre ética e moral não tem sentido. “Ela soa como se a gente quisesse perguntar sobre a diferença entre veados e cervos” (TUGENDHAT, 1996, p. 35). Entretanto, posteriormente, o autor refere-se a uma aceitável diferenciação: “uma outra definição terminológica possível do termo ‘ético’ é, diferenciando-o do moral, compreendê-lo como a reflexão filosófica sobre a moral” (TUGENDHAT, 1996, p. 41).
Vázquez (2007, p. 23) apresenta similaridade com Matos (2008, p. 28), ao definir a ética como “a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano”. Alerta também que a função da ética é desenvolver conceitos, à luz do estudo e reflexão de uma determinada realidade. O autor esclarece que o que se encontra em muitas doutrinas éticas do passado é uma justificação ideológica de determinada moral, ao invés de uma investigação ou esclarecimento do vínculo entre moral e comportamento humano efetivo. Tais doutrinas produzem uma forma de tratamento “correspondente a determinadas necessidades sociais, e, para isto, elevam os seus princípios e as suas normas à categoria de princípios e normas universais, válidos para qualquer moral” (VÁZQUEZ, 2007, p. 20).
A moral fundamenta-se na ambiguidade entre a dimensão social e individual. “A moral, ao mesmo tempo que é o conjunto de regras que determina como deve ser o comportamento dos indivíduos do grupo, é, também, a livre e consciente aceitação das normas” (ARANHA, MARTINS, 1994, p. 302). Quer dizer que o ato só é considerado como moral, se a pessoa aceitar a norma de forma consciente.
A moral está vinculada diretamente aos valores, costumes e normas, que, em um determinado contexto, são válidas, dizendo o que deve ser realizado e o modo de agir em situações determinadas, de acordo com a liberdade de escolha de cada indivíduo. A moral é “um conjunto de normas que são transmitidas de geração
a geração, evoluem ao longo do tempo e possuem fortes diferenças, em relação às normas de outra sociedade e de outra época histórica” (CLAVO, 2008, p. 120). Essas normas direcionam o comportamento dos indivíduos dessa sociedade. A diferença entre ética e moral, com base em Clavo (2008, p. 120), pode ser sintetizada com as seguintes definições: “a moral é um conjunto de normas que uma sociedade se encarrega de transmitir de geração a geração, e a ética é um conjunto de normas que um sujeito adotou em sua própria mentalidade”.
A ética também preocupa-se com as normas, a partir da reflexão de seu significado, sendo que as normas devem ter como base os princípios universais. A ética proporciona as razões para determinadas escolhas, exigindo uma reflexão a respeito dos princípios fundamentais que criticam ou legitimam o agir humano. Para Clavo (2008, p. 120), a ética “é o fato real que se dá na mentalidade de algumas pessoas, é um conjunto de normas, princípios e razões que um sujeito compreendeu e estabeleceu como diretriz de sua conduta”.
A moral e a ética são discutidas por Leisinger e Schmitt (2002). Os autores alertam para a transformação da moral em moralismo: “a atribuição de valores pela pessoa ou pela sociedade tem que ser uma tomada de posição, em relação a determinados bens numa determinada situação, do contrário, a moral se transforma em ‘moralismo’” (LEISINGER; SCHMITT, 2002, p. 18), que provoca a vulgarização de tudo quanto é moral, prejudicando e tornando a ética irrelevante.
Aranha e Martins (1998, p. 117) definem moral como “o conjunto de regras de condutas assumidas pelos indivíduos de um grupo social, com a finalidade de organizar as relações interpessoais, segundo os valores do bem e do mal”. As autoras conceituam a ética como a parte da filosofia “que se ocupa com a reflexão sobre as noções e princípios que fundamentam a vida moral”. Moraes et al. (2008, p. 123) defendem que “... o ato moral, por meio da ética, nos remete à questão da responsabilidade, que está ligada, de forma inseparável, ao problema da determinação, da vontade de agir”. Serão considerados atos éticos e moralmente responsáveis aqueles que privilegiem e propiciem o bem-estar social aos indivíduos.
A moral engloba os valores presentes na sociedade e, com base nesses valores, classifica o comportamento como certo ou errado, enquanto a ética se preocupa em refletir sobre os fundamentos das ações, conforme é atestado por Srour (1998, p. 270): “a ética estuda as morais e as moralidades, analisa as escolhas que os agentes fazem em situações concretas, verifica se as opções se
conformam aos padrões sociais”. Nesta definição, é preciso esclarecer que a expressão “as moralidades” significa “as morais praticadas por organizações ou públicos e se aplicam a problemas do cotidiano” (SROUR, 1998, p. 271).
Ao abordar a ética empresarial, Srour (2003, p. 39) utiliza os termos ética filosófica e ética científica e apresenta as suas diferenças:
Em síntese, a ética filosófica – ou filosofia da moral – tende a ter um caráter normativo e de prescrição, ansiosa por estabelecer uma moral universal, cujos princípios eternos deveriam inspirar os homens, malgrado as contingências de lugar e de tempo. No polo oposto, a ética científica – ou ciência da moral – tende a ter um caráter descritivo e explicativo porque centra sua atenção no conhecimento de regularidades que os fenômenos morais apresentam, malgrado sua diversidade cultural, apesar da variedade de seus pressupostos normativos. Na medida do possível, procura prever a ocorrência desses mesmos fenômenos (SROUR, 2003, p. 39).
Para Srour (2003, p. 62), as diferenças entre ética e moral podem ser descritas, de forma simplificada, nos seguintes termos: Ser ético significa “refletir sobre as escolhas a serem feitas, importar-se com os outros, procurar fazer o bem aos semelhantes e responder por aquilo que se faz. Ser ‘moral’ significa, em contrapartida, agir de acordo com os costumes e observar as normas coletivas”. O autor também faz uma abordagem a respeito das origens da dupla moral brasileira e sobre as morais empresariais.
Vázquez (2007, p. 19) também diferencia ética e moral; porém, ressalta que “os problemas teóricos e os problemas práticos, no terreno moral, se diferenciam, portanto, mas não estão separados por uma barreira intransponível”. É difícil fazer essa separação, porque as questões morais e éticas estão relacionadas: uma sempre recorre à outra, seja por meio da prática ou da reflexão. Ética, para Morin (2007, p. 15), define “um ponto de vista supra ou meta-individual”, a moral relaciona-se ao “nível da decisão e da ação dos indivíduos”. E a ética, como exigência moral, manifesta-se de três fontes interligadas: interior - ao indivíduo; externa - representada pela cultura; anterior - definida pela genética (MORIN, 2007, p. 19).
Alonso, Castrucci e López (2006, p.3) definem a ética como ciência cujo estudo é voltado para a qualidade da conduta do ser humano. Referem-se à boa e à má conduta e à correlação entre boa conduta e felicidade. Consideram a
ética como uma ciência prática, por estar vinculada aos atos e às ações dos indivíduos. Os autores acrescentam que é comum utilizar os termos ética e moral “como adjetivos de conduta”; porém, quanto à diferença, “predomina a corrente de utilizar o primeiro para denominar a ciência ou a filosofia da conduta humana (a Ética) e o segundo para se referir à qualidade da conduta humana (a moralidade)” (ALONSO; CASTRUCCI; LÓPEZ, 2006, p. 3).
Para Passos (2006, p. 22), a ética é conceituada como ciência da moral. A autora explica que
... a moral, enquanto norma de conduta, refere-se às situações particulares e quotidianas, não chegando à superação desse nível. A ética, destituída do papel normatizador, ao menos no que diz respeito aos atos isolados, torna-se examinadora da moral. Exame que consiste em reflexão, em investigação, em teorização. Poder-se-ia dizer que a moral normatiza e direciona a prática das pessoas, e a ética teoriza sobre as condutas, estudando as concepções que dão suporte à moral. São, pois, dois caminhos diferentes que resultam em status também diferentes; o primeiro, de objeto, e o segundo, de ciência. Donde deduzimos que a Ética é a ciência da moral.
Cortina e Martínez (2005, p. 20) adotam a diferenciação entre moral e ética, sendo a moral o “conjunto de princípios, normas e valores que cada geração transmite à geração seguinte, na confiança de que trata-se de um bom legado de orientações sobre o modo de se comportar para viver uma vida boa e justa”. .Já a ética é definida como a responsável em promover a reflexão a respeito das questões morais. Para sintetizar a diferença, os autores afirmam que a moral preocupa-se em responder à pergunta “’O que devemos fazer?’, ao passo que a questão central da Ética seria antes: ‘Por que devemos?’, ou seja, ‘Que argumentos corroboram e sustentam o código moral que estamos aceitando como guia de conduta?’ (CORTINA; MARTINEZ, 2005, p. 20).
Os autores citados anteriormente definem ética e moral com significados diferentes. Por outro lado, Arruda, Whitaker e Ramos (2003, p. 41) não diferenciam ética e moral e abordam os termos “com um mesmo sentido, substancialmente idêntico, como ciência prática que tende a procurar pura e simplesmente o bem do homem”. Os autores adotam a definição de ética “como a ciência voltada para o estudo filosófico da ação e conduta humana, considerada em conformidade ou não com a reta razão”. O posicionamento desses autores é comum na literatura sobre o tema, apesar de usualmente serem tratados como sinônimos,
os termos possuem significados diferentes. “A moral é definida como conjunto de valores, de princípios, de regras que norteiam o comportamento humano. [...] A ética é a reflexão crítica sobre a moralidade. Não tem a pretensão de definir normas, mas indicar princípios” (RIOS, 2008, p. 84).
Percebe-se as diversas utilizações do termo moral, com o emprego de termos como “a moral”, ou o “juízo moral”, o “código moral”, entre outros. Dentro deste contexto, Cortina e Martinez (2005, p. 20) destacam que a utilização de ética e moral, como sinônimos, já está enraizada e que, muitas vezes, utiliza-se o termo ética, quando, na verdade, o que se está dizendo está relacionado à moral. Comumente, fala-se em “comportamento ético” para designar o comportamento adequado ao padrão moral vigente, mas o correto seria o “comportamento moral”.
Esta visão também é compartilhada por Srour (2009, p. 96-99). Segundo o autor, a utilização do termo ética no lugar de moral pode ser explicada, além da questão da origem dos termos, como: a oferta da disciplina educação moral e cívica, criada no regime militar; o “falso” moralismo e a ambivalência moral dos países latinos; e o relativismo moral por causa da sua variação com o tempo. “Esses fatores todos tornaram o termo ‘moral’ simplesmente rebarbativo! Daí o uso da expressão ‘ética’, que ainda se mantém incólume, à margem da contaminação, intocada pela sua pureza” (SROUR, 2009, p. 99).
As diferenças conceituais existentes entre os termos ética e moral são evidentes; porém, de acordo com o descrito e com as justificativas apresentadas, os termos também serão adotados neste trabalho como sinônimos, uma vez que esta utilização já faz parte do cotidiano das organizações. Após esta delimitação, é preciso também compreender a dinâmica da ética, a partir da abordagem de Edgar Morin (2007).