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A procura do diamante na bacia do rio São Francisco teve início em meados do século XVIII. De acordo com Sapucaia Jr (1986), os rios Abaeté, Indaiá, Santo Antônio e o córrego das Almas foram objeto e atividades garimpeiras de importância no passado, com exploração mais avançada a partir de 1800. Na região foram também assinaladas ocorrências de diamantes nas bacias da Prata e do Sono.

Na Província Diamantífera Noroeste São Francisco, as ocorrências de diamante estão ligadas aos depósitos aluvionares dos rios que cortam rochas cretáceas, onde não se sabe ao certo se kimberlitos ou os níveis conglomeráticos diamantíferos ali existentes são as fontes alimentadoras, tendo sido encontradas, até o ano de 1943, pedras com até 354 ct (Achão 1985). O fato é que nesses rios, ocorrem minerais indicadores do diamante, como o piropo, a ilmenita magnesiana e a perowskita (Francisco Ribeiro, GAR Mineração, inf. verbal, 2008).

5.2.1 - Contexto Geológico

A região da Província Diamantífera Noroeste São Francisco abrange representantes do grupo Bambuí, reportados ao Proterozóico Superior e componentes de uma unidade geotectônica denominada “Bacia Epicontinental Marinha” (Dardenne 1981). Sedimentos continentais atribuídos ao Cretáceo Superior, que constituem as formações Mata

da Corda e Areado, incluem-se na unidade Bacia do Tipo Sinéclise (Ladeira et al. 1971). Como tipos tectônicos não especificados (Cobertura Superimposta Final) foram englobados os sedimentos detríticos, laterizados ou não, assinalados como pertencentes ao Terciário- Quaternário; sedimentos elúvio-colúvio-aluvionares do Pleistoceno; e sedimentos aluvionares recentes (Holoceno) (Figura 12).

Grupo Canastra

O Grupo Canastra (Mesoproterozóico) aflora somente em pequena parte da região, a sudoeste. Consiste principalmente em quarztitos finos a médios, altamente recristalizados, com intercalações delgadas de filitos e formações ferríferas bandadas (Tuller & Silva 2003).

Grupo Bambuí

Os sedimentos do Grupo Bambuí depositaram-se sobre uma plataforma epicontinental estável, para uma bacia caracterizada por gradiente muito fraco de seu fundo e por águas rasas, permitindo assim explicar a consequência das litofácies sobre enormes distâncias e suas variações muito rápidas em função de modificações menores da paleogeografia (Dardenne 1981). Os diversos ambientes reconhecidos no Grupo Bambuí se manifestam por uma série de fácies características: (a) marinho sub-litorâneo, abaixo do nível da influência das ondas e correntes de maré, águas rasas, profundidade moderada, marinho sub-litorâneo, submetido à influência das ondas e correntes de maré, exposição temporária ao ar livre, frequente na zona de balanço do mar; (b) marinho litorâneo a supralitorâneo, alternante; e (c) fluvial continental (Dardenne 1981).

Segundo Marini et al. (1984), a análise da sequência sedimentar permite a identificação de três designados megaciclos regressivos sucedendo e um episódio glacial. Da base para o topo, distribuem-se na seguinte ordem: glaciação em escala continental; megaciclo I, argilo-carbonato; megaciclo II, argilo-carbonatado; e megaciclo III, argilo- arenoso. Os megaciclos I, II e III iniciam-se com uma rápida transgressão de amplitude regional, a partir da qual se desenvolvem fácies marinhas sub-litorâneas, passando progressivamente para fácies marinhas litorâneas e supralitorâneas, atingindo localmente, no caso da Formação Três Marias, fácies continentais (Marini et al. 1984).

A bacia Bambuí na região se desenvolveu sobre uma crosta continental estável. É dividida em compartimentos alongados segundo uma direção norte-sul por antigas falhas do

embasamento, cujo jogo durante a deposição dos sedimentos provocou a subsidência mais ou menos rápida dos diversos compartimentos uns em relação aos outros. A sua forma original seria mais ou menos concordante com os limites atuais de afloramento. Os limites da bacia e a posição dos altos fundos são nitidamente indicados pela distribuição das fácies dolomíticas. As variações de espessura observadas de oeste para leste indicam uma transgressão no mesmo sentido com a diminuição concomitante dos aportes detríticos, orientados preferencialmente de SW para NE, e adelgaçamento dos intervalos pelíticos em direção ao rio São Francisco.

Em direção ao topo do Grupo Bambuí, ocorre uma fácies de transição síltico- arenosa, de natureza arcoseana, que passa gradualmente lateral e vertical para uma sequência psamo-pelítica denominada Formação Três Marias. Esta sequência caracteriza-se por estruturas primárias mais evidentes, do tipo estratificação plano-paralela e cruzada de corrente, tipo acanalada, e tabular, marcas de ondas e de carga e gretas de ressecamento. Estruturas como marcas de ondas e estratificação plano-paralela contribuem para a demarcação do ambiente marinho raso a continental, revelando, desse modo, condições regressivas.

Grupo Santa Fé

O soerguimento do Alto Paranaíba consiste em um alto do embasamento que expõe as rochas proterozóicas, sendo facilmente identificado pelos grandes lineamentos que atravessam o continente desde a plataforma oceânica (Megalineamento 125AZ). A flexura gerada pela subsidência termal propiciou a deposição das unidades componentes da bacia sanfranciscana. O Grupo Santa Fé (Permo-Carbonífero, constitui a porção basal da bacia restringindo-se às suas paleodepressões, definidopor uma sucessão de sedimentos glaciogênicos, com diamictitos associados a sequências glácio-lacustres a flúvio-glaciais formadas de folhelhos, arenitos, conglomerados, ritmitos e grauvacas (Sgarbi et al. 2001).

Figura 12: Mapa geológico abrangendo a Província Diamantífera Noroeste São Francisco.

Modificado deCampos Neto et al. (2003).

Grupo Areado

Nos domínios da Folha João Pinheiro (1:250.000) a bacia do tipo sinéclise teve início com a deposição do Grupo Areado, no Cretáceo Inferior (Aptiano-Albiano) (Braun, 1970), e término com o Grupo Mata da Corda, no Cretáceo Superior. O Grupo Areado foi dividido em três membros ou fácies por Barbosa (1965), de acordo com as características de seus depósitos: Abaeté (conglomerático), Quiricó (argiloso) e Três Barras (arenoso). Repousa sobre a superfície de pediplanação Pós-Gondwana (King, 1956) do Cretáceo Inferior, depois elevados a categoria de formações (Sgarbi 2000).

A Formação Abaeté, sua unidade conglomerática e arenosa basal possui uma distribuição relativamente contínua sobre um pedimento antigo da superfície pós-gondwana. Ocorrem vários níveis de ruditos intercalados com arenitos e argilitos. A presença de seixos (ventifatos ou dreikanters) no conglomerado Abaeté é indicativa de um domínio climático árido a semi-árido também na área fonte, posteriormente arrasada pelo cilco denudacional Sul-Americano; a sedimentação sub-aquática, fluvial, da fácies Abaeté engloba tais materiais, mas representa, outrossim, uma mudança climática para condições mais úmidas. Ao invés de ser considerado essencialmente um preenchimento de paleocanais, é possível que as zonas mais elevadas correspondam a um fanglomerado (Heineck 1983).

Na Formação Quiricó, as litologias características desta unidade são folhelhos argilosos e arenosos, por vezes betuminosos, argilitos, siltitos e arenitos argilosos a quartzosos, que assumem proporções preponderantes nas zonas marginais da bacia. O registro estratigráfico inclui ainda margas e calcários finos, que no ambiente lacustrino em que se depositou a fácies Quiricó representam uma sedimentação carbonática relacionada a águas tropicais de fundos salinos. Em função da ritmicidade imposta aos sedimentos da bacia, além de intercalações arenosas maiores, é possível deduzir grandes e rápidas oscilações na energia do ambiente, com influências até mesmo sazonais nas condições de circulação. No sentido do topo ocorre uma transição para a Formação Três Barras, tão mais complexa quanto mais areno-argilosa esta se apresentar, uma vez que podem ocorrer dezenas de alternâncias entre arenitos e lutitos (Heineck 1983).

A Formação Três Barras é formada predominantemente de arenitos. Segundo Grossi Sad et al. (1971) sua característica mais marcante é a estratificação em bancos e a freqüência de estratificações cruzadas internas a eles. Sua maior espessura foi registrada no ribeirão Três Barras, onde atinge 140 m. As estratificações cruzadas referidas revelam-se em amplos foresets com ângulos superiores a 30°. É comum o tratamento dos foresets por camadas horizontais ou topsets. À medida em que se processou a colmatagem da depressão lacustrina, a mesma foi se tornando palco de eventos regressivos e transgressivos cada vez mais frequentes, culminado com a instalação definitiva de uma ambiente fluvial e uma consequente dessalinização dos sistemas. Tais condições prevalecem a partir das cotas 850- 875 m nas porções central e norte da bacia, com a exposição de arenitos feldspáticos médios a grossos, homogêneos, muitas vezes referidos (Heineck 1983) como “arenito superior”.

No contato com os tufos da Formação Mata da Corda (940 m de altitude), os arenitos feldspáticos encontram-se silicificados e com deformações penecontemporâneas. Conforme Heineck (1983) ocorrem delgadas intercalações de arenitos nos tufitos, podendo ser

inferida uma idade cretácea superior (Coniaciano-Santoniano) para o término da sedimentação Três Marias e, consequentemente, para a Formação Areado.

Grupo Mata da Corda

Este grupo engloba três unidades faciológicas distintas: formações Patos (ausente na área), Capacete e Urucuia. Ele recobre o Grupo Areado sem que os separe discordância reconhecível.

Na Formação Capacete, à medida que se afasta das áreas vulcânicas, a contribuição piroclástica diminui sensivelmente, cedendo lugar a arenitos e conglomerados cineríticos. Sua cor característica é verde, incluindo outras tonalidades que correspondem a cores secundárias. São características as estratificações cruzadas, indicando ambiência sub- aquática. Níveis de conglomerados são comuns. Inclui quartzo, feldspasto e material piroclástico. A cor verde é derivada da alteração do material vulcânico em nontronita (Grossi Sad et al. 1971). A Formação Urucuia representa uma sedimentação mais distal, não inclui material cinerítico. Braun (1970) definiu seus limites pela presença de magnetita, cujo percentual diminui em quantidade granulométrica do sul para o norte.

A idade do Grupo Mata da Corda vincula-se a um ciclo magmático maior, que inclui basaltos, carbonatitos e tufos. As datações empreendidas por Hasui & Cordani (1968), estabelecem idades em torno de 80 Ma para o vulcanismo tufáceo, o que assegura idade cretácea superior (Cenomaniano-Turoniano) para a formação.

Sedimentos Cenozóicos

Esses depósitos de materiais detrítico-lateríticos, são representados por uma seqüência de três unidades, que receberam a denominação de “Cobertura Superimposta Final” (Grossi Sad et al. 1971). A sequência inicial, de origem continental e idade terciária- quaternária, reúne areias, cascalhos e material síltico-argiloso, inconsistentes ou parcialmente laterizados. A sequência acima é essencialmente continental, de idade quaternária (Pleistoceno) e constituída de areias, lateritas e mesmo produtos de eluviação profunda. Estas unidades são representativas de coberturas remanescentes do ciclo de aplainamento Velhas, identificando as cotas entre 750 e 650 m.

A sequência inicial, de origem fluvial e idade quaternária (Holoceno) ocorre de maneira bastante reduzida, todavia apresentando maior concentração na sua porção noroeste.

Essa unidade é constituída por detritos aluviais inconsolidados (cascalhos, areias, siltes e argilas); mantêm-se temporariamente inundados e parcialmente estabilizados. Incluem-se na mesma os depósitos de várzea, terraços aluviais ligeiramente mais elevados, porém alcançáveis pelas eventuais cheias, aluviões abandonadas por recentes mudanças de cursos dos rios intermitentes, depósitos palustres e lacustres.

5.2.2 - Depósitos Diamantíferos

A bacia do rio do Sono, afluente do rio Paracatu, ainda é considerada uma das principais áreas diamantíferas do noroeste de Minas Gerais, havendo notícias de antigas e atuais atividades garimpeiras em alguns de seus trechos. Essa tradição se explica pelo fato de que o rio do Sono bem como alguns de seus tributários (rios Santo Antônio e das Almas) drenam regiões dos municípios de São Gonçalo do Abaeté e João Pinheiro, onde, do Cretáceo ao Terciário fizeram-se presentes eventos vulcânicos, possivelmente com corpos kimberlíticos associados, e um prolongado ciclo de sedimentação representado pelos grupos Areado (detritos fluviais e lacustrinos) e Mata da Corda (material piroclástico). Salienta-se que os aluviões quaternários são particularmente expressivos ao longo do baixo curso do rio do Sono, no sentido da localidade do Paredão de Minas, trecho este onde as planícies de inundação são marcadas pela presença de meandros abandonados e larguras, às vezes, superiores a 700 m (Vieira & Heineck 1983).

O rio Abaeté é famoso por sua produção diamantífera, onde ocorrem consideráveis quantidades de gemas coloridas, a maioria com formas arredondadas e dissolvidas (Cookenboo 2005).

Como até o momento não foram reconhecidas pipes kimberlíticos intrusivos na Formação Três Marias (Grupo Bambuí), unidade estratigráfica mais antiga aflorante na bacia do rio do Sono, é possível que uma apreciável parcela dos diamantes ali ocorrentes seja proveniente das coberturas cretáceas situadas nos atuais altos topográficos das cabeceiras de drenagem como o córrego das Almas. Já foram identificados vários afloramentos de conglomerados correlacionáveis à Formação Abaeté do Grupo Areado (Cretáceo Inferior). As ocorrências desses conglomerados são freqüentes na região compreendida entre o córrego das Almas e o ribeirão das Gaitas, mas o caráter diamantífero desses ruditos não foi comprovado até o momento (Vieira & Heineck 1983).

Ainda segundo Vieira & Heineck (1983), outra possível matriz secundária dos diamantes reside na fácies basal, psefítica, do Grupo Mata da Corda (Cretáceo Superior), que

ocorre, por exemplo, ao longo do chapadão dos Gerais, onde se encontra bastante lateritizada, sendo constituída por um conglomerado de tendência oligomítica.

5.2.3 - Aspectos Econômicos

As áreas que se apresentam com relativa potencialidade para a concentração de diamante limitam as aluviões recentes ou antigas ao longo dos rios da Prata, do Sono, das Almas e Santo Antônio, nos quais são citadas atividades de garimpo. As que abrangem os sedimentos aluviais dos rios do Sono, Santo Antônio e das Almas, apresentam-se como as zonas mais favoráveis e de maior potencialidade para concentração de diamantes tendo em vista alguns garimpos e indícios aí existentes. Reporta-se que o rio do Sono vem sendo garimpado para diamante no trecho compreendido entre a confluência com o rio Santo Antônio e sua desembocadura no rio Paracatu. Os rios Santo Antônio e das Almas foram objeto de atividades garimpeiras importantes no passado, com explorações mais avançadas a partir de 1800 (Vieira & Heineck 1983).

Atualmente apenas uma mineradora encontra-se em atividade de lavra de diamante no rio Abaeté (Figura 13 e Foto 5). Segundo informações verbais de Francisco Ribeiro, proprietário da GAR Mineração que atua na região de São Gonçalo do Abaeté, são recuperados cerca de 35m3 de cascalho por dia, totalizando em uma semana com cinco dias de atividade 175m3 de material lavado.

A produção analisada de 30/08 à 04/09/2009 mostrou um lote com 30 pedras, totalizando cerca de 30ct. Essa produção em peso é variável, nem tanto pelo número de pedras recuperadas, mas pelo tamanho dos cristais que por vezes, sãomaiores.

A B

C D

F

E

Figura 13:Diversos estágios dos serviços executados pela GAR Mineração. Cascalho sendo

retirado e transportado para o jigue (A); lavagem e seleção do material (B e C); parte inferior do jigue (D); peneiramento manual da fração fina do material e apuração (E e F).

Foto 5:Rio Abaeté, na região de São Gonçalo do Abaeté, área onde encontra-se em atividade