Tendo em vista as informações fornecidas no presente Capítulo referentes às características geográficas, climáticas e socioeconômicas da região, torna-se evidente que o território onde está localizado o Corredor Seco da América Central corresponde a uma área de grande vulnerabilidade, o que representa também uma significativa susceptibilidade para a ocorrência de crises ou desastres humanitários26.
26 De acordo com dados disponibilizados pela FAO, existem atualmente cerca de 3,5 milhões de pessoas
na região do Corredor Seco que necessitam de assistência humanitária, o que corresponde a 1,5 milhões de pessoas na Guatemala, 1,3 milhões em Honduras e 700 mil pessoas em El Salvador. Esses números refletem, com grande preocupação, a significativa vulnerabilidade da região, tendo em vista que quase 40% das pessoas que residem na área do Corredor Seco demandam assistência humanitária (FAO, 2016).
Dessa forma, importa destacar as informações constantes no Programa de Riscos de
Desastres para fortalecer a resiliência no Corredor Seco (FAO, 2015, p. 2), no qual foram
quantificadas as probabilidades de ocorrência de crises e desastres humanitários com base em três aspectos – ameaça, vulnerabilidade e capacidade de resposta. De acordo com os dados do Programa, El Salvador, Honduras e Nicarágua demonstram altos níveis de risco, ao passo que Guatemala demonstra níveis de risco altíssimos (ou muito altos).
Nesse contexto, a classificação e a análise de riscos mostram-se como uma importante ferramenta tanto para pesquisadores, como para as comunidades e o poder público local, como forma de subsidiar o desenvolvimento e a implementação de políticas de gerenciamento de riscos e desastres.
Em vista disso, torna-se fundamental destacar aqui a classificação de risco elaborada pela FAO, para a região onde se localiza o Corredor Seco, adaptada e representada através da Figura 13:
Figura 13. Classificação de riscos na região da América Central.
Fonte: Adaptado da tabela de classificação de riscos do Programa de Riscos de Desastres para fortalecer a resiliência no Corredor Seco (FAO, 2015, p. 2).
É possível perceber, a partir da análise dos diferentes tipos de riscos que atualmente envolvem a região em estudo, que as ameaças ambientais se constituem em fatores primordiais e de significativa relevância, tendo em vista que os demais riscos e ameaças podem surgir como um desdobramento, a partir da ocorrência dos riscos naturais. Ou seja, as ameaças relacionadas aos riscos econômicos e aos que envolvem a cadeia alimentar, que afetam profundamente a disponibilidade de alimentos, podem ocorrer em uma conjuntura que já está caracterizada pelos riscos e ameaças ambientais, o que contibui para agravar o cenário de crise.
E em um contexto como o da região do Corredor Seco, que se caracteriza pela existência de pequenas comunidades e produtores rurais que cultivam principalmente milho, feijão e capim em pequenos espaços de terra (normalmente nas encostas, onde estabelecem sistemas associados de duas ou mais culturas), que adotam práticas agrícolas mais tradicionais, sem tecnologias mais avançadas (FAO, 2015, p. 3) e tendo em vista o problema da escassez de recursos hídricos e os intensos períodos de seca que têm assolado a região, torna-se evidente a relação que há entre as ameaças naturais, a baixa produtividade agrícola e todos os demais riscos que podem suceder a partir desta conjuntura.
A análise dos diferentes aspectos que compõem a classificação do risco evidenciam, portanto, a fragilidade da região do Corredor Seco, além de demonstrar a correlação existente entre os diferentes tipos de riscos e ameaças e o significativo potencial que os fatores ambientais possuem para agravar uma situação de crise, em um cenário já vulnerável. Este quadro analítico mostra-se muito importante, tendo em vista que possibilita o desenvolvimento de ações (como já tem sido feito), principalmente as relacionadas com políticas de gestão de riscos, com o própósito de alavancar e aprimorar cada vez mais a capacidade de resiliência das comunidades rurais que residem na localidade.
E considerando que o conjunto de riscos e ameaças que assolam a região do Corredor Seco impactam principalmente a disponibilidade de alimentos e o acesso à água potável, a FAO27 tem sido uma das principais Agências da ONU a atuar no território28.
Pecebe-se, portanto, que a classificação e a análise dos potenciais riscos e ameaças, aliados a dados quantitativos e qualitativos (a serem apresentados na próxima Secção), podem auxiliar no desenvolvimento e na implementação de ações, com o própósito de melhorar a
27 Desde 2009, a FAO vem promovendo ações de gerenciamento de riscos para melhorar a capacidade de
resiliência nas áreas rurais da América Central, com o propósito de criar, proteger e restaurar a sustentabilidade dos meios de subsistência das comunidades que dependem de atividades relacionadas à agricultura, à pecuária e de outras atividades que utilizem recursos naturais, para que não sejam ameaçadas diante da ocorrência de desastres e crises. Para tanto, a Agência adota uma dupla abordagem: ao mesmo tempo em que desenvolve e implementa ações imediatas para proteger os sistemas de agricultura e manter a segurança alimentar e nutricional, também investe em ações de longo prazo com o propósito de identificar a ocorrência de riscos, desastres e se antecipar aos cenários de crises (FAO, 2015).
28 Tais questões serão abordadas com mais detalhes no Capítulo 3 desta dissertação. Entretanto, vale
destacar alguns projetos que já vêm sendo implementados na região, a exemplo do quadro regional estratégico para a gestão de riscos climáticos no setor da agricultura no Corredor Seco, desenvolvido em 2012, além da Agenda de Resiliência adotada no âmbito do Programa Mundial de Alimentos e também dos Programas Nacionais, que são acordos realizados entre os governos com problemas considerados prioritários e a FAO, para o fornecimento de suporte técnico (FAO, 2015, p.4).
capacidade de resiliência e de enfrentamento das comunidades diante das vulnerabilidades naturais, sociais e econômicas.