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6 METHODOLOGY

6.1 Method of estimating spread

6.1.1 An extended Merton model

"Desejo é o infinito que trabalha o interior das paixões e da razão. É o

Desejo que leva o ver a se transformar em ação de ver, dando às paixões e

ao intelecto movimento infinito".

C. A relação dos profissionais com a instituição:

Compreender a relação dos professores com a instituição significa entender qual é a representação que tem de si enquanto profissional. Oferece, ainda, instrumentos para um me- lhor entendimento sobre o encadeamento das ações dentro da estrutura educacional.

Podemos dizer que na creche filantrópica há uma relação cooperativa entre as funcio- nárias, pois elas demonstram uma grande disponibilidade em auxiliar umas as outras durante o desenrolar das atividades cotidianas.

(...) Quando o grupo do BII se juntou ao BI, tornaram-se mais freqüentes as disputas por brinquedos, mas as educadoras apresentam uma grande cum- plicidade ao desempenhar a tarefa de cuidar dos bebês, de forma que uma auxilia a outra no momento em que as crianças choram, acolhendo todos os bebês indistintamente. (Diário de Campo – Observação 9 – 31/05/04)

Além disso, segundo o que consta da entrevista com a educadora, do tempo de serviço das funcionárias (entre 8 e 15 anos) e também das observações cotidianas da creche, existe uma certa abertura da instituição para diálogos e discussões sobre as práticas de trabalho com as crianças. No ambiente cotidiano, revelou-se, à pesquisadora, uma relação amistosa entre a assistente social (mais diretamente ligada ao gerenciamento das funcionárias) e as educadoras e cozinheiras:

(...) aqui a gente tá... vai lá a gente passa tudo pra assistente social, é aber-

to, a gente tá discutindo... (Gabriela, educadora da creche filantrópica)

Em alguns momentos de nossas observações, passamos a nos questionar acerca desta relação amistosa existente entre a assistente social e as funcionárias e levantamos a hipótese de que a própria filosofia da instituição – que valoriza o respeito ao próximo, a igualdade en- tre ricos e pobres, mais e menos instruídos, etc. – conduz a uma postura menos rígida quanto à

estrutura hierárquica, o que traz em seu bojo o estabelecimento de uma relação mais familiar entre as funcionárias e, talvez, possamos dizer menos profissional.

Quando relacionamos esta hipótese com a história das instituições filantrópicas e cari- tativas, somos levados a pensar que ainda hoje as creches filantrópicas se colocam na posição de famílias-substitutas e, como tal, comportam-se de maneira menos formal e/ou menos pro- fissional. Entretanto, faz-se necessário ressaltar que estamos ilustrando o que ocorre par- ticularmente na instituição onde realizamos nossa pesquisa e, em se tratando de um estudo de caso, a mesma postura dos profissionais com as crianças e entre si pode ou não ocorrer exa- tamente da mesma maneira em outros locais.

A forma de contratação – através de seleção realizada pelo presidente da instituição e pela assistente social – revela uma preocupação marcante em unir uma boa formação, o gosto pelas crianças e a pertença à religião católica, pois desta forma a instituição consegue atender às exigências legais unindo-as aos seus objetivos (de guarda e formação moral) evidenciando, conforme já apontamos, resquícios historicamente construídos sobre as instituições de cunho filantrópico.

Na tentativa de atender às demandas por formação profissional que têm se tornado ob- jeto de interesse e preocupação inclusive para os pais das crianças, a instituição – representada pela assistente social – busca cursos e profissionais voluntários visando preencher ou, ao me- nos amenizar as lacunas ocasionadas pela falta de uma pedagoga.

(...) isso daí é aberto [busca por cursos de formação], o que a gente quiser

buscar lá fora, mesmo particular, se a gente quiser buscar lá fora... a gente passa, né... isso não importa, quanto mais a gente buscar, melhor, né, pra entidade. (Gabriela, educadora da creche filantrópica)

Não há como negar, assim, que o objetivo educativo desta instituição é compreendido pelo viés dos propósitos religiosos, não tendo sido totalmente desenvolvido em termos de prática pedagógica.

Na creche da rede pública de ensino, a relação entre empregador e empregado acaba aparecendo de forma mais diluída pelo tipo de vínculo legal estabelecido entre funcionário e órgão público.

Embora na entrevista realizada com a educadora não tenhamos obtido respostas pon- tuais sobre a relação entre profissionais e instituição, a vivência que tivemos no ambiente co- tidiano nos permite inferir que tais funcionárias expressam-se mais claramente suas posturas e suas críticas acerca de assuntos como: proposta pedagógica, espaço físico da creche, número de crianças por educador, etc. Talvez isto ocorra devido à estabilidade que tais educadoras possuem, pois, tendo ingressado na Prefeitura por meio de concurso, não podem ser demiti- das.

(...) Sabendo meu propósito ali na creche – pesquisadora – as educadoras começaram a me dizer de sua condição profissional e puderam expressar toda sua insatisfação: com a remuneração recebida; com a relação de tra- balho estabelecida entre elas e a prefeitura, na qual estagiárias e ADIs e- ventuais não possuem os mesmos direitos a cursos e reuniões de formação, que, por exemplo, são oferecidos às funcionárias concursadas; e falaram ainda sobre a condição de stress que sua rotina com as crianças acaba tra- zendo, pois, segundo elas, muitas ADIs se envolvem demasiadamente com as crianças de forma que ficam preocupadas com o que ocorre com elas fo- ra do espaço da creche. (Diário de Campo – Observação 2 – 23/03/04)

A “preferência” por turmas com idades mais elevadas também é manifestada e nos le- va a pensar na questão do status obtido quando se trabalha com faixas etárias superiores:

(...) fica evidenciado o descontentamento tanto da professora eventual do BII, quanto da estagiária [Janice], que chega a afirmar que gostaria de es- tar na EMEI, pois não faz Pedagogia para cuidar de criança e trocar fral- das – em suas próprias palavras ficar “limpando bumbum de criança”.

(Diário de Campo – Observação 2 – 23/03/04)

A fala da estagiária nos faz pensar na formação profissional que está sendo oferecida a estas futuras pedagogas, questionamos, então: como trabalhar para a promoção de um desen- volvimento integral da criança, se as educadoras não se vêem no dever de cuidar, inclusive, da higiene pessoal de crianças tão pequenas? Tais profissionais parecem acreditar que sempre haverá monitoras, auxiliares ou qualquer denominação que se queira dar às pessoas com esco-

laridade menor e que, por esta razão, ficam incumbidas do trabalho considerado de menor valor – limpar bumbum de criança. Parece haver uma crença de que os cuidados devem ser realizados pelas “babás” e a parte intelectual deve ser reservada ao pedagogo.

Tal postura traz implícita a idéia de que as crianças pequenas – que necessitam de muito mais cuidados – devem continuar sob a atenção de pessoas menos qualificadas, sendo o professor “reservado” para desenvolver os aspectos intelectivos. Esta crença pode, então, constituir mais um entrave para a superação de posturas ultrapassadas e para o cumprimento do que propõe a LDB n° 9394/96, quanto à formação de profissionais para atuar na educação infantil.

As relações informais que se estabelecem entre as educadoras revelam uma estrutura mais rígida e menos familiar do que aquela que identificamos na creche filantrópica: cada educadora tende a se responsabilizar exclusivamente pelo seu grupo, resguardando-se, assim, um certo distanciamento das crianças pertencentes aos outros agrupamentos. Ao verificar uma criança de outro agrupamento fazendo algo de censurável ou perigoso, a tendência das educa- doras é avisar a responsável pelo grupo, ao invés de dirigir-se diretamente à criança.

A hierarquia entre ADIs e diretora também é algo distinto da creche filantrópica, pois a presença da diretora na unidade deflagra um clima diferenciado daquele que estabelece na sua ausência (conforme já apontamos, a diretora divide seu tempo entre creche e pré-escola alternando sua permanência nos dois espaços).

Em síntese, as educadoras da creche pública permitem-se fazer críticas em relação a salários, estrutura física da creche, direitos e benefícios trabalhistas, etc. porque possuem es- tabilidade obtida através de concurso e um certo distanciamento do alvo de suas críticas: na verdade, criticam problemas de uma conjuntura maior que tem se configurado como entraves para que os objetivos previstos na legislação possam ser atingidos plenamente.

Entendemos que a estrutura hierárquica formalizada encontrada nas creches públicas favorece uma atuação mais profissionalizada32 do educador, pois quando as relações são mui- to familiares e informais, corre-se o risco de perder de vista o profissionalismo e operar se- gundo uma antiga visão de educador como substituto materno – “tias” - e instituição escolar como “segunda casa da criança”.

32 Quando dizemos “atuação mais profissionalizada”, estamos nos referindo à superação de uma visão do educa-

dor como substituto da presença materna, que se confunde com o privado, com as funções da família, entende- mos como “ profissionalizado” um educador que possui formação específica para atuar ou mediar as relações entre criança-criança, criança-adulto ou criança-mundo provendo meios para que elas alcancem um desenvolvi- mento integral.