Chapter 2. Theoretical Framework
2.3 Serious Games
2.3.1 Basic Knowledge about Games
No desenvolvimento dos ensaios clínicos, a participação e a presença do médico são constantes na pesquisa. Na experiência de ser um voluntário da vacina contra a Ancilostomíase, percebemos nas entrevistas uma ênfase à figura médico.
“Eu acredito muito no médico. Assim, o médico examinou a gente. Ele estudou pra isso. Ele sabe se a gente pode ou não pode e eu confiei nele e tomei a vacina e não senti nada não”. (J)
Na relação médico/paciente, manifesta-se o sentimento de confiança no profissional qualificado por seus estudos, portanto merecedor dessa confiança. Para o entrevistado, o saber médico está acima de suas dúvidas pois “[...] ele estudou pra isso”. Percebemos que nesse momento a decisão de participar dos testes da vacina foi influenciada por essa confiança.
Ao afirmar “não sentir nada”, ou seja, não ter reações adversas ou outro inconveniente com a vacina, o entrevistado considerou que tal fato deve-se ao conhecimento do médico.
Podemos perceber a forte relação que a confiança no profissional médico teve com a experiência do sujeito como voluntário nos testes da vacina, pois ele acredita que não sofreu danos à saúde somente devido à ação correta do profissional. Poderíamos aqui discutir que, se algo de errado acontecesse, qual seria a atitude desse sujeito? Da mesma forma que creditou o fato de “não sentir nada” ao médico, refletimos que uma reação à vacina seria considerada falha do médico? Essas reflexões demonstram a estreita relação que o médico tem com o desenvolvimento dos ensaios clínicos e que essa relação pode surtir bons resultados na experiência do sujeito ou o insucesso da participação do voluntário.
A confiança no médico pode ser algo positivo para os voluntários de ensaios clínicos uma vez que reflete uma percepção de segurança. Mas é também problematizadora pois pode influenciar os sujeitos a participarem da pesquisa confiantes nas atitudes do profissional, como se somente o médico fosse capaz (e o único responsável) de assegurar uma participação livre de riscos.
Confirmando nossa hipótese, Ellington (2003) evidenciou em seus estudos que muitas vezes os voluntários decidem participar da pesquisa apoiados somente nessa relação de confiança com os médicos sem compreender as reais implicações do estudo.
Tal atitude pode ser mais presente em populações vulneráveis, em especial as com menor escolaridade, fato que sabemos ser uma realidade nas regiões rurais. Jenkins (2000) nos mostra que existe uma tendência à maior adesão aos ensaios clínicos em pessoas com menor escolaridade.
De fato, a participação de voluntários em ensaios clínicos influenciada pela confiança nos médicos pode estar relacionada com baixos níveis educacionais mas ainda não é consenso entre pesquisadores se essa influência é positiva ou negativa. Outros estudos mostram que pessoas jovens, em determinadas populações com maior escolaridade, também podem apresentar maior adesão aos ensaios clínicos. Em contrapartida, estudos realizados na Ásia evidenciam que pessoas mais velhas e com menor escolaridade apresentaram adesão e engajamento. Esses dados levam a crer que somente a influência da escolaridade não é determinante na atitude favorável do voluntário. Podem ter papel relevante as características sociais, históricas e culturais de cada lugar, assim como as percepções do sujeito acerca da pesquisa e da doença que está sendo estudada (BRUYN, 2005, GAMBLES, 2004).
Nesse estudo, não colhemos informações objetivas dos entrevistados, como idade, sexo, profissão, escolaridade e outros. Os entrevistados fazem parte da Coorte I – Fase I do estudo da vacina e foram escolhidos pelos critérios de inclusão já descritos anteriormente. Portanto não podemos afirmar se a pouca escolaridade foi uma variável que influenciou a decisão dos voluntários favoravelmente à pesquisa assegurados pela confiança que tem no médico. Por se tratarem de populações vulneráveis, possivelmente com baixa escolaridade e outros fatores de risco, é esperado que as pessoas em geral tenham essa postura de confiar nos médicos acima de suas próprias certezas, não somente por seu baixo nível educacional, mas porque essa confiança, é uma representação hegemônica do senso comum em relação ao saber médico.
Alves (2002, p. 10) relata que a atitude das pessoas em decidir sobre uma conduta médica baseada na confiança que tem no profissional – no conhecimento que acreditam que ele tem – está consolidada na imagem do médico como um mito e afirma que todo mito é em si perigoso pois induz o comportamento das pessoas e inibe o pensamento.
Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas) os outros indivíduos são liberados de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando um médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Será se você se pergunta se o médico sabe como funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes para pensar. (Alves 2002, p. 10)
Nessa mesma perspectiva, o sentimento de confiança no médico, durante a realização dos testes da vacina, traduz o significado dessa relação para a experiência do sujeito.
“No dia (teste da vacina) tinha muito médico lá. Tinha uns quatro médicos lá e eu não fiquei com medo não! A gente vai na segurança. A gente tava lá na segurança. Não precisa preocupar” (Z)
Percebemos que a presença dos médicos foi considerada um fator que tornava o procedimento seguro e não merecia desconfiança ou medo. Para o voluntário em ensaios clínicos da vacina contra Ancilostomídeos, o médico despertou um sentimento de segurança e confiança nos trabalhos da pesquisa. A decisão de “estar lá” participando de um teste/pesquisa foi influenciada pela confiança que o voluntário teve no médico.