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4.7 Integración tecnológica: muros y puentes

4.7.1 Barreras de primer orden y sus facilitadores

A Clínica Médica do HOL localiza-se no terceiro andar do prédio central, onde estão distribuídos quarenta leitos utilizados para abrigar doentes com diferentes patologias. Em frente à saída do elevador, neste andar, há o posto de enfermagem onde ficam os técnicos e profissionais da área. Este posto está situado ao centro de um extenso corredor que possui ramificações laterais, nas quais se localizam dois apartamentos e as enfermarias, divididas por especialidade e por sexo. Cada médico é responsável pela supervisão técnica de uma ou mais enfermarias, o que traduz uma das formas de organização do trabalho desse profissional naquele ambiente. Os médicos posuem especialidades complementares37 à clínica médica e

trabalham em horários e turnos diferenciados, centralizando-se, a maioria das vezes, no período da manhã, quando o movimento é mais intenso com a presença de outros profissionais, certamente uma característica geral em todo o Hospital.

No corredor próximo ao posto de enfermagem há a sala da chefia da Clínica que também serve como uma referência espacial para o grupo de médicos, embora outros profissionais também transitem brevemente no local. Em todas as enfermarias e no corredor, há janelas que dão acesso ao pátio interno e às áreas externas, estando localizadas na direção ou acima dos leitos, predominando nas paredes a cor marfim, resultado de uma reforma recém- realizada naquele espaço38.

Na Clínica, são internados doentes que apresentam problemas de saúde na forma aguda ou crônica e que, por esse motivo, requerem acompanhamento para alívio e/ou esclarecimento dos sintomas. Como as causas do adoecimento nem sempre são conhecidas, esse espaço é considerado uma das portas de entrada para o início da construção diagnóstica. Muitos doentes ali ingressam sem diagnóstico preciso e dão início a uma jornada de exames e procedimentos, a fim de que os médicos cheguem ao enquadramento final dos sintomas, dentro do sistema classificatório médico, que culmina com a definição do diagnóstico. Após isso, alguns são hospitalizados por um período, a fim de que as hipóteses diagnósticas formuladas em contatos anteriores sejam confirmadas. Em algumas situações, o médico da Clínica, ao realizar consulta no ambulatório, encaminha o doente para hospitalização numa tentativa de agilizar os exames que servirão para concluir o enquadramento diagnóstico.

A realização e o resultado dos exames geralmente são demorados, por isso é comum que, em média, as internações se estendam por um mínimo de duas semanas, um período que não raras vezes influencia no estado emocional do doente. Ainda que o médico tenha o diagnóstico, cada nova hospitalização sempre supõe a possibilidade de alteração no conteúdo das informações até então fornecidas, especialmente quando surgem novos dados sobre a evolução da doença. O diagnóstico é, portanto, um processo dinâmico.

No caso das doenças crônico-degenerativas, por exemplo, há sempre a possibilidade de uma nova informação sobre a melhora, a manutenção ou o agravamento da condição clínica do doente, ou seja, há sempre um processo dialógico em andamento, envolvendo notícias que podem ser interpretadas de diferentes modos, muitas vezes gerando sentimentos de impotência e fracasso, tanto no médico como no doente.

No Hospital, semanalmente há duas rondas coletivas da equipe de médicos, sendo uma delas destinada aos doentes internados e outra à apresentação dos recém-admitidos. A presença de residentes na Clínica por um período maior de tempo contribui para que muitos

38 A modernização dos ambientes hospitalares, incluindo o uso de cores diferenciadas, tem se intensificado em

conseqüência da crescente preocupação com a humanização desses espaços, que tem na ambiência, um de seus principais dispositivos.

deles fiquem responsáveis pela formulação e enunciação de diagnósticos, ainda que sob a supervisão de um médico da equipe, uma realidade que reforça o clima acadêmico, por assim dizer, daquele espaço.

Como muitos doentes apresentam dificuldades para realizar suas atividades diárias sem auxílio de outrem, é freqüente a presença de acompanhantes naquele local. Eles permanecem ao lado do doente, normalmente sentados em cadeiras ou poltronas próximas ao leito. O movimento dessas pessoas também tende a se intensificar nos dois horários de visita, que dura uma hora pela manhã e duas à tarde.

Expressões que correlacionam a enfermaria a um determinado membro da equipe médica são recorrentes naquele ambiente, e incluem citações do tipo “a enfermaria 309 é do Dr. Fulano, a 310 é da Dra. Fulana”, usadas para definir uma espécie de território de abrangência, embora isso não exclua a troca de saberes e experiências, normalmente observada durante as visitas em equipe e nas discussões de apresentação de casos clínicos. Entretanto, mesmo nesses momentos coletivos costuma predominar o uso de termos técnicos próprios da Medicina que reforçam status e poder médico não só na relação com o doente, mas também com os outros profissionais.

A Clínica Médica, por atender a diferentes patologias, constitui-se em importante espaço para o ensino médico, sendo um local por onde transitam acadêmicos do curso de Medicina e profissionais recém-formados, que são residentes do Hospital39. Eles costumam se

reunir na sala de prescrição, o único espaço destinado à equipe de saúde. Há também um pequeno auditório para reuniões e outras atividades acadêmicas.

O vínculo da Clínica com a Academia também apresenta algumas particularidades em relação ao trabalho eminentemente assistencial desenvolvido no Hospital. Constantemente, são ministradas aulas, além de estudos de caso e discussões técnicas, contemplando muitas vezes a vinda de professores de outras instituições para ministrar palestras dentro da programação acadêmica realizada pela Clínica. Durante minha permanência no Hospital, tive oportunidade de participar do Programa de Educação Continuada em Psicologia e Saúde, direcionado aos médicos-residentes que realizavam pós-graduação na Instituição. O objetivo daqueles encontros era discutir temas relacionados à saúde numa visão mais sistêmica, por meio da incorporação de outros saberes e reflexões sobre o processo saúde/doença.

39 A Residência em Clínica Médica é um dos programas de pós-graduação oferecidos pela Instituição e está

regulamentado pelo Ministério da Educação (MEC). A procura por este programa é bastante concorrida entre os recém-formados, especialmente aqueles que não podem realizar o aprofundamento de seus estudos em outros estados, situação muito comum na realidade local.

De modo geral, a atividade acadêmica paralela ao exercício da Medicina é definida por muitos médicos que atuam no Hospital como um estímulo, especialmente para aqueles que também são docentes em universidades, pois por trata-se de um hospital-escola, permite conjugar assistência, pesquisa e ensino. Ressalto que a gratificação com essas outras atribuições do médico foi apontada como um fator que ajuda a compensar dificuldades, a exemplo da falta de medicamentos, problemas de funcionamento e manutenção de aparelhos que inviabilizam a realização de exames, entre outras.