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A primeira relação a ser abordada será a relação de criação, dando ênfase maior aos animais de criação presentes no Assentamento, as relações que os assentados têm com esses animais, como ela foi sendo moldada e as percepções em geral dos animais de criação, nas relações de afeto e tensões.

Ao se falar de animais de criação, é precisa primeiro definir o que é este termo na visão dos assentados. São vistos como animais de criação os que propiciam produtos que podem ser comercializados ou consumidos, como os frangos, bois e vacas. Porém, mesmo os animais que não oferecem esses serviços, mas estão sempre presentes e próximos aos assentados, oferecendo outras funções, como a caça de pragas ou companhia, são também considerados como criação. O que difere esses dois tipos, é a questão da proximidade, os que estão mais próximos, são os familiares, considerados parte da família, já os mais distantes, são os não familiares, mas é importante frisar que nem por isso não exista uma relação de amizade

e alegria com esse segundo tipo, como será mostrado mais a frente. Há alguns assentados que tem essa relação de amizade tanto com os familiares como os não familiares, cada pessoa tem sua relação com base na sua identidade e trajetória.

Há tensão e conflitos na relação do ser humano com os animais, desde a produção animal e de alimentos, passando pelos animais de estimação e, nos dias atuais, as mudanças na utilização de animais como alimento. Essa mudança se deve, principalmente, ao aumento de uma relação de proximidade com os animais. Outro elemento de tensão está relacionado às formas de criação de animais que servem de alimento, existe uma lógica do nosso sistema de produção em que quanto menos gastar nesta produção, melhor. Nessa lógica, gastar com o animal de criação é um custo, e quanto maior o custo, menor o lucro, então, o que se visa é evitar gastos “desnecessários” com esses animais (DAL FARRA, 2003).

Com o passar dos anos, quatro temas chaves serviram para caracterizar a relação do ser humano com os animais: a sentimentalização; o papel do Estado, regulando esta relação; demanda pelos direitos dos animais; e a importância dos animais nas atividades de lazer e fruição com os humanos (FRANKLIN, 1999, p. 34 apud DAL FARRA, p. 31).

Essas mudanças foram importantes por definir essa nova visão para com os animais, com eles exercendo e participando mais da vida dos seres humanos, era natural que os direitos deles também fossem alterados, garantindo vida digna aos animais domésticos e regulamentando as criações, de modo que não fosse possível criar animais de maneira inadequada.

A partir dessas novas regulações, a noção da importância dos animais foi crescendo, e para os assentados, que sempre estiveram em contato com eles, tanto no lazer, como na criação, quando perguntado sobre o que significam os animais para eles, as respostas se deram em duas palavras: fartura e alegria. A fartura está ligada aos animais não familiares, que produzem os alimentos. A alegria está ligada aos familiares (mas podendo ser, também, não familiares), em que os animais oferecem companheirismo e realizam também um trabalho (função) de caça a pragas, como os gatos fazem (caçando ratos), e os cachorros auxiliando na segurança e aviso.

Ao perguntar os diferentes tipos de criações encontrados no Assentamento, o seguinte foi respondido;

“Aqui tem frango, galinha, tem pato, tinha galinha de angola mais sumiram (Assentada, 42 anos).”

“Aqui boi temos pouco, pra ter bastante tem que ter uma cerca boa, por que senão escapam, perturbam vizinho, ai não dá. Tem uma vaca só pra leite e pra fazer queijo (Assentada, 68 anos).”

“Tem porco, suíno, bovino e ave (Assentada, 55 anos).”

“Tem gado, carneiro e frango. Tem um tanquinho de peixe também, as vezes eu pego e vendo (Assentado, 52 anos).”

“Aqui tem minhas galinhas, porquinho pra comer, tem leite né e tem carneiro (Assentado, 70 anos).”

“Tem cachorro, gato e as galinha, não crio porco por que nao com a carne de porco. Tenho um garrote ali do lado também (Assentada, 55 anos).”

Na grande maioria dos lotes o normal de se encontrar é porco, boi, vaca e frango, em pequenas quantidades, mas que garantem uma boa alimentação e produtos derivados também. É, novamente, a relação de respeito com os animais, a criação também é tratada como parte importante da família, não há excessos nem exageros na produção. Há também algumas especificidades de alguns assentados, como o que não cria porco pois não come a carne, devido a religião, a que tentou criar galinhas da angola, mas que acabou não dando certo, e um lote onde há uma pequena criação de peixes, que acaba sendo consumida, vendida na cidade ou trocada por outros alimentos no próprio Assentamento. Essa pequena quantidade de animais de criação se dá pelo tamanho do lote e por não haver também um mercado formal para os produtos de origem animal, sendo uma estratégia produtivo focada no autoconsumo.

Esse sistema de produção do Assentamento não segue à risca a lógica capitalista atual de que quanto menos gastar melhor, por mais que o lucro seja importante para que os assentados consigam se manter e produzir mais, eles buscam dar as melhores condições para os animais, bons alimentos e cuidados. A lógica vista ali é, quanto maior o bem-estar e felicidade do animal, melhor é, o animal ali não é apenas um número provedor de recursos, mas sim um ser com emoções e particularidades, em que o apego e a amizade influenciam muito nesse outro tipo de relação. Os dois, seres humanos e animais, estão em pé de igualdade nessa relação, um depende do outro.

Historicamente, a criação de animais foi muito importante na vida dos assentados, desde quando criança, quando viviam com suas famílias cuidando dos animais e construindo essas relações.

“Sempre tive esse contato, morava na fazenda e com 7 anos já comecei a trabalhar na roça, ai meu vô tinha animal de criação, ai eu já ajudava (Assentada, 55 anos).”

Até a vida adulta, em que passaram por diversos trabalhos, locais e acampamentos, mas sempre buscando ter alguns animais de produção, até o dia em que foram assentados. Os animais auxiliaram no início para o crescimento do Assentamento, pois as plantações levaram tempo até se estabilizarem com o solo empobrecido e até a chegada da água. Neste tempo, ter uma criação era importante para se manter e prosperar, como visto a seguir:

“Antes como a terra não tava tão boa, não tinha certeza que ia colher, ai era bom ter os animais pra criar (Assentado, 52 anos).”

Desde o início os animais foram importantes, e isso se reflete na visão que eles têm hoje, com os animais ocupando um espaço produtivo e uma função na dinâmica social do local. Como o Assentamento é caracterizado pela produção de orgânicos, a criação de animais é menor, como visto acima, mas ainda sim influencia em outros aspectos da dinâmica no campo, abrangendo várias questões;

“Tem suínos, tem um pouco de frango, agora o foco é mais em produção pra mercado, feiras, aí não queremos misturar muito sabe? Então deixou um pouco só pra consumo mesmo. Mas futuramente eu vou ser obrigada a voltar com mais frangos, pra ajudar no insumo pro plantio, o esterco de frango, aí vai que não encontra mais na cidade, tem que ter as matérias primas de tudo que vai usar, semente a gente já produz aqui, a do milho é crioula. A maioria agora é tudo transgênico, aí não da pra usar mais (Assentada, 55 anos).”

A influência aqui vista é nos insumos, o frango, assim como os bovinos, oferecem uma boa matéria prima para ser usada nas plantações, não necessitando da compra desse produto. É um ciclo de relações, passando por todos os recursos estudados, a produtividade na terra depende de nutrientes, matérias primas obtidas dos animais e água, influenciando na diversidade e crescimento dos alimentos. Como visto também no capítulo

sobre plantas, a produção das próprias sementes acontece em paralelo a tudo isso e com a possibilidade da perda das características originais com a inserção dos transgênicos.

A relação de criação e sua compreensão se fazem importante por trazer essas visões, às vezes distintas, às vezes iguais entre os assentados, mostrando como eles lidam com as diversas situações envolvendo os animais, as peculiaridades de cada espécie e sua interação com o meio, bem como as diferentes visões para o que seria um animal de criação e a lógica ali presente. Além de garantir alimentos saudáveis e continuar contribuindo com esse modo de vida vindo das gerações passadas. Contribuição essa que não acontece pela entrega de um conjunto e informações que adquiriu autonomia em relação ao mundo da experiência, mas sim pela criação, envolvidos em suas atividades e inseridos em contextos ambientais característicos, as gerações do presente desenvolvem suas próprias habilidades (INGOLD,2010).