• No results found

Barnetrygd

In document Trygd over landegrensene NOU (sider 196-200)

105

Deparamo-nos novamente com a possibilidade de um referente59? Não, uma vez que não se trata de uma relação entre um referente e a sua constituição subjectiva, mas antes de uma relação entre a imagem e uma constituição pré-objectiva e não-tética60 do mundo, e que ocorre no seio de uma subjectividade sem ser, para já, subjectiva.

3.6 Dialética

Segundo Pedro Janeiro, a transformação do real em imagem começa no nosso corpo, que constata e transporta as coisas para a nossa consciência a fi m de comporem o nosso mundosob a forma de imagens61. Uma vez parte desse mundo, através de um processo de semiotização62, as imagens passam a signifi car a realidade, a substituir aquilo que para a consciência é o real. Ao conter novas imagens, a própria consciência é transformada63, partindo para os objectos com um novo olhar e atribuindo-lhes novas dimensões64. E se anteriormente referimos que o repertório do possível infl uencia aquilo que a priori somos capazes de ver no mundo, podemos agora perceber que, depois do processo de semiotização, ocorre um desdobramento desse a priori65. Porque renovou a sua metodologia do ver, a consciência vê outras coisas.

Quando Merleau-Ponty percebe a mesa em que escreve, o seu acto de percepção ocupa-o de tal forma que não consegue perceber-se a perceber a mesa66. Para se perceber, teria de interromper o acto perceptivo e voltar-se para si. Reencontraria então a mesa, agora inserida na sua história individual67, enquanto síntese das sensações que decorrem do seu acto perceptivo68. À imagem de Sartre, veria a mesa emergir (imergir?) no interior da sua consciência enquanto complexo de imagens. Quando Merleau-Ponty estava absorto no acto perceptivo a sua consciência deixou de estar desdobrada diante de si69 e como que interrompeu a atitude crítica do entendimento, que é o que lhe permite a consciência das imagens70. Conseguiu assim “coincidir verdadeiramente com o acto de percepção”71 e possibilitar uma unidade do sujeito com a unidade intersensorial da coisa72. Quando tenta perceber-se a perceber a coisa, a consciência como que interrompe o acto perceptivo para dele conceber um sentido objectivo, que será fi nalmente aquilo que designa por “mesa”73. Quando voltar a dedicar a sua atenção ao acto perceptivo, a consciência suspenderá novamente o entendimento, permitindo-se ser invadida por um conjunto de dados74. Porque se trata de uma síntese, a constituição do objecto encontra-se desfasada da sua percepção75. A mesa vai então sendo reaprendida76 sucessivamente por um perpétuo movimento de análise e síntese levado a cabo pela consciência.

Também Norberg-Schulz e Jean Piaget encontram uma relação constante entre a percepção e a produção de esquemas. Defi nido como “uma reacção típica (estereotipada) perante uma situação

[ou] como um sistema coerente característico de pólos intencionais”77, o esquema aproxima-se da noção de semema que referimos anteriormente. Consiste portanto no conjunto de propriedades que atribuímos a certa situação ou objecto78, que é determinante para a nossa reacção a uma situação ou objectos similares.

3.7 Tempo

Partindo da relação entre entendimento e percepção, debrucemo-nos novamente sobre a questão do tempo. Quando se interroga sobre a forma como a consciência constitui o tempo, Merleau-Ponty revisita o rio heraclitiano – analogia do tempo que sempre fl ui - agora visto da perspectiva de um observador situado na sua margem79. Assim, em vez de considerar que a água corre em direcção ao futuro, o observador indica que elas escoam para o passado, empurradas pelas águas trazidas de montante, da nascente de onde jorra o porvir80. Constatará também que, tanto as águas que passaram e aquelas que passarão, estão presentes consigo no mundo81, apenas em lugares distintos.

Assim será o tempo constituído pela a consciência: uma sequência de momentos disposta do mais longe para o mais perto, ou seja, do mais antigo para o mais recente. Segundo Merleau- Ponty, é através desta constituição, elaborada a partir da relação com as coisas, que a consciência pensa o tempo82. O resultado é o registo que o entendimento elabora depois da sua passagem83, e portanto uma duplicação que a consciência cria para si dos acontecimentos passados. Abstraída do presente84, a consciência constrói o tempo como um rio que corre à sua frente: colocada na sua margem, a consciência observa todos os momentos, do mais longe para o mais próximo, do porvir que se aproxima ao passado que se afasta.

107

Para a consciência o tempo é uma construção espacial85. Porque constrói o tempo, ela é contemporânea a todos os tempos86. Porém, o seu vínculo à margem do rio e a uma posição específi ca nesse espaço, que confere uma distorção perspéctica à sequência temporal de imagens, indica que a consciência apenas se consegue abstrair do presente em que se encontra. Ela não deixa de estar associada a um campo de presença87, nem de estar ligada ao tempo verdadeiro88.

Se não estivesse mergulhada num outro tempo, um que não constitui mas que percepciona, e se não existisse um presente onde ela coincide com o ser89, a consciência seria alheia aos sentidos de passado, presente e porvir, e incapaz de conferir uma temporalidade aos acontecimentos90.

3.8 Corpo próprio

Merleau-Ponty diz-nos que “o homem não é um espírito e um corpo, mas sim um espírito com um corpo, e (...) [que] só acede à verdade das coisas porque o seu corpo está como nelas implantado”91. Fala do corpo fenoménico, aquele que movemos92 e que é para nós o meio geral de ter um mundo93, e não ao corpo objectivo94, formado por músculos e orgãos e matéria do conhecimento científi co. Para o autor, é no corpo que fundamos as noções de tempo e espaço. Não um espaço homogéneo e absoluto do pensamento clássico, da psicologia e da geometria95, mas sim um espaço corporal

45. Mão de uma criança aborígene,

In document Trygd over landegrensene NOU (sider 196-200)