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Barne- og ungdomsarbeideren

Neste tópico, são apresentados os dados acerca do que os pesquisados pensam sobre pessoas que cometem irregularidades para não ter que pagar ou mesmo para reduzir as contas de serviços essenciais ou sinal de TV. Além disso, verificou-se como avaliam tal comportamento, qual é o conhecimento que detêm acerca de casos de fraude, dos riscos e perigos envolvidos com tal prática, a facilidade em encontrar um técnico capaz de realizar o serviço, o preço cobrado para tal e também a aceitação em relação ao fraudador e a propensão em fazer uma fraude no medidor de energia elétrica.

Imediatamente após ser lançada aos pesquisados a questão que averiguava o conhecimento sobre ações que as pessoas adotam para não ter que pagar ou para reduzir algumas contas do domicílio, como a de TV a cabo, água ou energia elétrica, surgiu como resposta espontânea e imediata o ―gato‖, também indicado nessa pesquisa como ―miau‖. As primeiras menções à fraude surgiram nos grupos focais como histórias de domínio público, porém elas foram descritas embaladas por disfarçado riso e, de certa forma, camufladas pela imagem de crime que lhe é inerente. Por isso, os primeiros relatos foram um pouco tímidos, contidos, e sempre fazendo referência a realizações de terceiros. Alguns pesquisados escutaram os casos dos demais entrevistados exibindo semblante de desconhecimento acerca do assunto. Outros, antes falantes e participativos, passaram a calar-se diante do tema. O silêncio estratégico em meio à discussão deixou evidenciar algum temor. Seriam esses pesquisados fraudadores? Embora não se tenha a resposta para tal atitude,

pode-se dizer que a fraude no medidor de energia elétrica foi avaliada espontaneamente pelos pesquisados como uma ação recriminada e criminosa. Embora muitos tenham relatado a prática da fraude como comportamento incorreto, não a censuraram com veemência e ainda afirmaram que isso seria atualmente uma ação comum e verificada tanto em bairros periféricos como nas zonas mais ricas da cidade.

Acho errado, é crime, mas eu não critico, nem julgo. TV a cabo é luxo e a pessoa tinha que ser punida. Água e luz eu sou contra, mas não julgo, pois no Brasil a situação é muito ruim. (Fraudador residencial – EP)

Na minha vizinhança já me ofereceram gato. As pessoas vão passando, todo mundo sabe, indicação. Na casa da minha sogra tem e da minha patroa que tem dinheiro também tem. (Adimplentes E – GF)

Tem cada leãozão assim que você passa, você tem fio de luz assim... Uns ‗gatão‘ da água... Existe até dentro de supermercado. (Adimplentes E – GF) Na casa dos ‗ricão‘ no Mangabeiras, a água. Porque o meu primeiro marido, ele trabalhou na Copasa, ele fazia para os ‗grandão‘ lá no Mangabeiras. (Adimplentes E – GF)

No que se refere a conhecerem pessoas que cometem ou cometeram a fraude de energia elétrica, foram observadas muitas respostas positivas, sendo que alguns, inclusive, souberam descrever como a infração fora feita. Outros pesquisados admitiram ter convivido com a fraude em suas residências, e houve aqueles que se disseram vítimas de inquilinos ou até mesmo de parentes que teriam realizado a fraude sem consentimento ou aviso ao pesquisado. Mas observaram-se também aqueles que disseram ter sido assediados por profissionais do gato ou por vizinhos que os convidaram a fazer a fraudes e aqueles que se disseram investigados injustamente pela concessionária de energia por suspeita de fraude. Com base nos depoimentos dos pesquisados, as irregularidades nas instalações elétricas não constituem uma ação restrita ou dominada pelos moradores de aglomerados e favelas, elas são relatadas em todas as classes sociais.

Observou-se entre os pesquisados, à exceção de um ou outro relato, que a maioria daqueles que indicaram terem sido flagrados com irregularidades em suas instalações reiteraram na pesquisa que tal ação teria sido realizada em imóveis de sua propriedade por inquilinos ou parentes. Alguns reiteraram que alugaram um imóvel que já tinha a fraude no medidor e conviveram com ela por algum tempo até a concessionária notificá-los. Outros indicaram que o seu inquilino teria feito a fraude

e, após sair do imóvel, teria feito denúncia à concessionária para que o locador fosse multado. Considerando os grupos focais e as entrevistas, foi possível notar que poucos assumiram a realização da fraude como uma ação planejada e presumida. Na maioria dos casos, a ilegalidade é descrita como uma ação de um terceiro que, por azar, teria vitimado o pesquisado. Além disso, notou-se que, entre os empresários, não houve sequer menção ao fato de terem realizado a fraude, embora estivessem elencados no cadastro de fraudadores.

Observa-se, com esse comportamento, que a vergonha pelo crime ainda impera e parece impedi-los de relatar abertamente que sucumbiram à desonestidade. Esse dado favorece duas interpretações: a irregularidade seria mais facilmente cometida quando a titularidade da conta está no nome de um terceiro, pois ela não angariaria prejuízos para o idealizador da fraude, e a culpa seria facilmente terceirizada. E a outra interpretação sugere que a população já sabe como se livrar da multa aplicada pela concessionária ou amenizá-la e que usa tais desculpas para tentar eximir-se da cobrança do consumo irregular.

O cara fez o gato na minha loja e saiu me devendo três meses de aluguel. A Copasa foi, arrancou o hidrômetro, porque ele devia 120 reais de água. E as contas de luz atrasadas. Porém, eu não sabia que ele tinha feito gato na minha loja. (Fraudador – GF)

E eles fazem tão perfeito que nem a [...] descobre. A gente vai lá, fica sabendo, passa [...] Porque é assim, o que é bom para você, você vai passando [...] Olha, eu conheço um bom, que fez lá no Epa. – Esse é bom, fez dentro do supermercado. Traz para cá. (Adimplente E – GF)

Um dia, nesses miauzinhos que o meu marido costuma fazer, um dia ele fez e aí durante os dois primeiros meses foi uma beleza. No terceiro mês, o trem pegou fogo. O padrão pegou fogo lá, o negócio derreteu todo. Aí a... veio e deu a maior confusão e a multa foi enorme. Aí o que acontece? Ele que chamou para fazer o miau, mas como a água e a luz está tudo no meu nome, então a multa sobrou para quem?... Diz ele que fez o que fez na tentativa de me ajudar. Porque ele estava desempregado e só eu estava trabalhando, então ele queria diminuir a conta. Só que eu falei com ele: inteligente demais você, né? Diminuir a conta, você aumentou foi em dois mil. (Adimplente E – GF)

Nesse aspecto, é importante destacar que muitos pesquisados pertencentes ao segmento ―fraudadores‖, selecionados por meio de cadastro específico gerado pela concessionária de energia, não se assumiram na pesquisa como fraudadores e, muitas vezes, chegaram a definir os fraudadores como ladrões, em uma clara tentativa de manter seu status de pessoa honesta e ilibada. Esse resultado indica que, muito embora a fraude no medidor de energia elétrica não seja desconhecida, poucos são os que assumem publicamente e diante de estranhos tudo o que fazem

a esse respeito. Os poucos que conseguiram expor que caíram na tentação da fraude, em geral, como dito, ―terceirizaram‖ a responsabilidade por ela. Aqueles que assumiram ter convivido com a fraude em seus imóveis e ter ciência de que a ilegalidade teria sido praticada pelos seus cônjuges, assumiram que essa atitude teria sido tomada primeiramente por ser comum em seu meio de moradia e ainda pela busca da economia mensal.

O resultado aqui obtido evidenciou que a fraude é um tabu e é definida como um ato ilegal. Porém parece ser vastamente comentada entre pequenos grupos de amigos, vizinhos e conhecidos e, na maioria das vezes, plenamente aceita por tal grupo, como será descrito a seguir. Vale ainda destacar que alguns pesquisados que assumiram conviver com a fraude em seus domicílios nunca foram autuados pela concessionária por fraude, sendo participantes do cadastro de adimplentes.

São ladrões. (Fraudador residencial – EP)

Mas nós vemos, sabemos e omitimos. Eu conheço pessoas que fazem isso e não tenho coragem de falar que está errado, isto prejudica a sociedade. E também não vou ligar pra falar que meu vizinho está fazendo um gato. (Adimplente A/B – GF)

O brasileiro é um povo passivo, acomodado. Se não está mexendo no que é meu, tudo bem. Se está roubando é porque é da concessionária. (Adimplente A/B – GF)

A fraude no medidor de energia foi comparada aos gatos comumente verificados em aglomerados e favelas, favorecendo algumas ponderações: se o pessoal dos morros pode usar energia indiscriminadamente e sem se preocupar com a economia, por que os moradores que pagam impostos abusivos teriam que arcar com o alto custo cobrado pela energia? Esse ponto de análise parece favorecer a abertura para a aceitação da ilegalidade. É como se a exceção abrisse espaço para a banalização da atitude desonesta, e a fraude, primeiramente tida como uma ação puramente incorreta, passasse a ser suportada e, em alguns casos, até aceita. Deve-se reforçar que, de modo geral, a fraude foi mal avaliada pela maior parte dos pesquisados, sendo até mesmo descrita como crime. Porém alguns demonstraram pensar que, em determinados casos, como os de dificuldade financeira, a fraude poderia ser aceita e perdoada. Ou seja, inicialmente, nos primeiros momentos de pesquisa, os pesquisados até verbalizaram que a fraude é um ato incorreto,

criminoso e desonesto, mas quando mergulharam um pouco mais no assunto, acabaram por abrandar suas críticas e a tecer as razões para a aceitarem.