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“O júbilo é busca, quer dizer, é meta. Eu estou buscando. E esse júbilo, o que é? Seria a união com Deus, a superação da condição humana. A linguagem por excelência desse júbilo é a poética.” (Prado, 2000, p. 22)
É o canto que celebra a palavra na poética adeliana, seja em forma de louvor e ação de graças, ou de súplica silenciosa, permitindo tantas religações quantas forem desejadas: da palavra com a coisa nomeada, do ser com o Outro Ser, da
palavra com o ser. É especificamente sobre esse terceiro aspecto que nos
deteremos na parte final dessa pesquisa.
Debruçando-nos sobre a celebração cantada, tanto na experiência religiosa, quanto na poética, poderemos flagrar, essa terceira forma de religação (da palavra com o ser) que perpassa as outras duas sobre as quais já falamos anteriormente (da palavra com a coisa nomeada e do ser com o Outro Ser), configurando, enfim, um projeto estético perceptível na poesia de Adélia Prado: “poesia que se ouve com os ouvidos, mas se vê com o entendimento. Suas imagens são criaturas anfíbias: são idéias e são formas, são sons e são silêncios.“(PAZ, 1993, p. 143).
Se, como dissemos na parte introdutória deste capítulo, o ritmo está presente nas primeiras manifestações lingüísticas artísticas do homem e é parte integrante de seu ser, agora podemos afirmar, da mesma forma, que o canto está presente na origem da palavra poética. Segundo Paz (1993), “reduzido à sua forma mais simples e essencial, o poema é uma canção” (p. 13).
Ainda segundo o autor, no início das civilizações ocidental e oriental, os poemas eram recitados e cantados pelos aedos - de aoidos, que significa cantar:
Rapsodo era o cantor errante que recitava cantos épicos, particularmente os de Homero. Também a poesia lírica se recitava, com o acompanhamento de um instrumento musical, tanto entre os gregos, como entre os romanos. Este costume era geral e aparece em todas as sociedades. Na Europa se conservou durante mais de 1500 anos e basta lembrar os trovadores, os malabaristas e os madrigalistas ou a leitura em voz alta de poemas, nas casas da nobreza, diante de um grupo seleto de familiares e cortesãos (1993, p. 83-84).
De lá para cá, o canto foi reinventado em cada uma das fases literárias vividas pela humanidade, mas nunca deixou de estar presente, sendo marcante ainda nos poemas contemporâneos: “A singularidade da poesia moderna não vem das idéias ou das atitudes do poeta: vem de sua voz, do sotaque de sua voz. É uma modulação indefinida, inconfundível e que, fatalmente, a torna outra. É a marca, não do pecado, e sim da diferença original” (PAZ, 1993, p. 140-1).
O canto que torna a poesia “a outra voz”, conforme Paz, é o mesmo que resgata o Outro Ser em cada ser, como ocorre na experiência religiosa. Nesta, assim como na poesia, o canto confere aos seres humanos outra marca, diferente da atribuída pelo pecado original: a busca da religação com a essência do ser.
Essa busca, seja ela em forma de oração, salmo, súplica, louvor ou silêncio, aproxima a natureza das experiências poética e religiosa. Buscar mediante o canto é inevitavelmente encontrar: seja o encontro com o próprio desejo, seja com outros desejos, seja com o Outro Ser, ou com o impenetrável:
A poesia é canto, louvor. Só por meio do canto chega-se ao ser do que é cantado. Renunciando sabiamente ao caminho discursivo, o celebrante irrompe no essencial, cedendo frente à sua co-naturalidade afetiva, estimulando uma possibilidade exaltada, musicalizada, para fazê-la servir essências e ir direta e profundamente ao ser (CORTÁZAR, 1999, p. 266).
O canto-encontro aparece nos poemas “A cantiga” e “Solar”:
A cantiga
“Ai cigana, ciganinha, ciganinha meu amor.” Quando escutei essa cantiga era hora do almoço, há muitos anos.
A voz da mulher cantando vinha de uma cozinha, continua tinindo, esganiçada, linda,
viaja pra dentro de mim, o meu ouvido cada vez melhor. Canta, canta, mulher, vai polindo o cristal,
canta mais, canta que eu acho minha mãe,
meu vestido estampado, meu pai tirando a bóia da panela, canta que eu acho minha vida.
(PRADO, 1991, p. 107)
Os versos de uma cantiga ouvida há muito tempo, como alimento na hora do almoço, “continua(m) tinindo, esganiçada(os), linda(os)”, viajando para dentro do ser e fazendo o ouvido cada vez melhor. A cantiga que ressoa, atravessando tempos e espaços, vem da voz de uma mulher, cantando na cozinha.
A cozinha, como a própria autora já afirmou, é “lugar bom de escutar o guardado na memória do afeto” (2003). É também espaço onde elementos se transformam e adquirem sabor. Por isso, o que ali é apreendido refulge em belas ressonâncias.
Mais importante que os versos da cantiga é o próprio ato de “cantar, cantar, cantar”, “polir o cristal” e trazer de volta o “guardado na memória do afeto”: pai, mãe, juventude, a vida. Aproximar o ato de cantar do ato de polir o cristal é conferir-lhe característica lapidar. Lapidando lembranças se apreende o próprio tempo, cristaliza- se uma emoção em forma de saudade, um desejo em forma de canto.
“Achar” é o verbo escolhido. Resultado de uma intensa procura que tine “esganiçada”, “linda” e “para dentro” - espaço em que a cantiga silencia e os ouvidos são burilados para a escuta afetiva da essência do ser.
O ritmo que anuncia o canto é, ele próprio, canto. A repetição do verbo no imperativo, “canta”, convida a cantar. “Canta mais”, até achares o que buscas – é o que entoa a cantiga do poema.
A transcendência se dá em espaço cotidiano e corriqueiro, mais uma vez, imanente, como em Solar: “Um poema que dá bem a medida de ambos, tanto do quotidiano mesquinho, prosaico, humilde, como do salto para a transcendência, curtíssimo, tem a força da essencialização de um haicai” (SPERBER, 1996).
Solar
Minha mãe cozinhava exatamente: arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas. Mas cantava.
(PRADO, 1991, p. 151)
Como Suzi Sperber aponta em seu ensaio, embora “Solar” tenha a “força da essencialização de um haicai”, diferente deste, seu ponto de partida não é a contemplação distante, mas a “memória afundada na experiência”.
Novamente na cozinha, os primeiros versos do poema expressam a atitude diária da mãe que prepara o alimento com os ingredientes mais comuns: arroz, feijão, batata. Os diminutivos, em rima interna, os fazem ainda mais familiares e próximos.
Em outra rima, os verbos “cozinhava” e “cantava” aproximam-se sonora e semanticamente, entremeados pela adversativa “mas”. Como já observou Sperber (1996), “o último verso é apenas freqüentado pela vogal -a- brilhante, alegre, aberta, sonora. Este terceiro verso produz o milagre: interrompe o fluxo narrativo e concreto com a adversativa e tatala sua plena sonoridade”.
A plenitude sonora é sinônima da transcendência pelo canto. Canto que, como indica o título, tem propriedades diversas: irradia luz e calor, é solo entoado à beira do fogão, é voz, ar, som e sentido. Poesia.
Conclusão
Adélia Prado: uma poética que religa o ser à sua “outridade”
“Fico sem poder ligar ser, idéia, alma de nome a mim, à terra e aos céus... e súbito, encontro Deus.” (PESSOA, 2000, p. 43) Estudando os três elementos composicionais da poética adeliana – metáfora, metalinguagem e ritmo – e suas relações com o universo religioso, em especial com os sacramentos, os cânticos e os salmos, pudemos apreender a essência da chamada “poética de religação” que, afinal, dá título a presente pesquisa.
Com relação à metáfora, pudemos entendê-la como tradução poética do pensamento analógico e da lógica imaginativa que acompanham o ser humano e o constituem para além de uma lógica racional redutora. Verificamos que, nos poemas adelianos, esse elemento estrutura todo o enunciado poético, e não apenas versos isolados, batizando literariamente sua linguagem.
Como sacramento de iniciação cristã, o batismo aproxima-se do conceito de metáfora definido anteriormente, já que, uma de suas principais propriedades é o privilégio de instaurar uma nova existência ao homem batizado na trindade. A unidade da trindade é a própria tradução da metáfora: une diferentes e semelhantes, respeitando o que é próprio de cada um e conferindo-lhes a propriedade essencial e sagrada, ainda que em uma situação criatural dessacralizada.
Quando isso ocorre nos poemas adelianos, há o predomínio da “função poética da linguagem”, como já apontou Jakobson (2003) e a “dilatação da memória”, como afirmou Vico (1999), brindando a palavra poética com o “impossível verossímil” proveniente das regiões mais recônditas do ser humano e também de suas experiências cotidianas. Brota, então, uma realidade transcendente no universo da linguagem: as palavras adquirem singularidade e plurissignificação, instauram
novas realidades, ao invés de re-apresentar as já existentes.
No que se refere à metalinguagem, é o poder de presentificação do discurso centrado no próprio código que o aproxima do sagrado, uma vez que se debruça sobre sua própria origem, em busca da coisa que nomeia. Essa aproximação, como
vimos, é paradoxal, uma vez que, revelada a origem, desvenda-se o mistério, num movimento de dessacralização desse mesmo código.
O paradoxo não redime, no entanto, o aspecto sacramental da linguagem metalingüística, uma vez que, também no sacramento, há o imanente e o transcendente, num movimento de sacralização e dessacralização simultâneo. É o que ocorre com o sacramento da eucaristia. O pão e o vinho contêm, em sua imanência, a transcendência que os consagra corpo e sangue de Cristo no ritual católico.
É justamente esse duplo movimento que confere ao discurso poético metalingüístico sua peculiaridade. Como já afirmou Bosi (2000), citando Gramsci:
“A poesia não gera poesia; não há aqui partenogênese; requer-se a intervenção de tudo quanto é real, passional, prático, moral. Os mais altos críticos da poesia aconselham- nos, neste caso, a não recorrer a receitas literárias, mas como dizem, a ‘refazer o homem’”. Uma vez refeito o homem, refrescado o espírito, uma vez surgida uma nova vida de afetos, surgirá, então, se surgir, uma nova poesia (p. 171).
Portanto, é ao se refazer enquanto linguagem que o discurso poético metalingüístico também “refaz o homem”, pois lhe apresenta novas
possibilidades de nomeação, de presentificação pela palavra e de busca pela essência.
Por fim, o ritmo atua como elemento agregador entre imagem e pensamento, inserindo o aspecto sonoro primordial. O canto poético e religioso, seja profético, de louvor ou de súplica, presente já nas primeiras manifestações artísticas do ser humano, funda a existência humana oferecendo-lhe a possibilidade de celebrar
e, assim, dar prosseguimento à busca pela essência.
Também no canto encontramos um contraponto: o silêncio. Como vimos, se o canto expressa o desejo humano de encontrar sua essência, o silêncio expressa a impossibilidade desse encontro, o indizível. No entanto, nos poemas adelianos, a expressão do indizível é dita, sentida, manifesta, revelando, mais uma vez, a busca incansável pelo encontro, ainda que diante da impossibilidade.
Se em todos os elementos composicionais da poética adeliana, o paradoxo se fez presente, é por meio dele que chegaremos à poética da religação. Religare, como já vimos, está na raiz etimológica da palavra religião e na raiz semântica da poética adeliana. Religar a palavra à coisa nomeada é desejo expresso em muitos
dos versos trabalhados na presente pesquisa, assim como religar o ser ao Outro Ser.
O que encontramos, portanto, foi a expressão do desejo e da busca desse religare “lírico, bíblico e existencial”, como já apontara Drummond (1975).15 Um sinal imanente dessa transcendência sugerida perpassou os três capítulos da presente pesquisa. O desejo e a busca intermitentes se não religam efetivamente nome e
coisa nomeada, ser e Outro Ser, religam essencialmente, a palavra ao ser, uma vez que o reino que habitam é o da linguagem poética.
É esse o aspecto de religação que chegamos ao concluir essa pesquisa. A palavra poética, em toda sua singularidade, força presentificadora e intensidade celebrativa, religa a linguagem à essência humana e vice-versa, configurando ‘o outro ser’ capaz de ascender na descendência, transcender na imanência, sacralizar-se mesmo em situação de criatura dessacralizada.
É o que Octavio Paz (1982) chama de “outridade”:
Religião e poesia tendem a realizar de uma vez para sempre essa possibilidade de ser que somos e que constitui nossa própria maneira de ser; ambas são tentativas de abraçar essa ‘outridade’, ‘essencial heterogeneidade do ser’. A experiência poética, como a experiência religiosa, é um salto mortal: um mudar de natureza que é também um regressar à nossa natureza original (p. 166).
O pensamento de Paz exige a compreensão de que tanto a experiência poética, quanto a religiosa, permitem ao homem regressar à sua natureza original. Ele não se refere a uma idéia de “mentalidade primitiva” no sentido de algo antigo, anterior, concebido de forma historicamente linear. Do mesmo modo, não está tratando o aspecto sagrado em oposição ao profano, pois não concebe a divisão da sociedade em apenas duas esferas e nem a possibilidade de existirem separadamente.
15 “[...] Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: essa é a lei, não dos
homens, mas de Deus. [...] Nascida à beira da linha, o trem-de-ferro para ela ‘atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento’. E diz, entre outras: ‘Eu gosto é de trem-de-ferro e de liberdade’. ‘Eu peço a Deus alegria pra beber vinho ou café, eu peço a Deus paciência pra pôr meu vestido novo e ficar na porta da livraria, oferecendo meus livros de versos, que pra uns é flor de trigo, pra outros nem comida é’[...] Adélia já viu a Poesia, ou Deus, flertando com ela ‘na banca de cereais e até na gravata não flamejante do Ministro’. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita, aquilo de vender livro à porta da livraria é pura imaginação, e só uns poucos do país literário sabem da existência dessa grande poeta-mulher à beira-da-linha? [...]”
A relação entre religiosidade e poesia, proposta por Paz (1982), tem como referências teóricas tanto o conceito de “outridade”, de autoria de Antonio Machado, quanto o da “presença do Outro”, de autoria do teólogo alemão, Rudolf Otto. A sensação da “presença do Outro”, ou de estarmos diante do “sobrenatural”, segundo Paz, ocorre tanto na experiência poética, quanto na religiosa e ainda na amorosa, uma vez que todas elas provocam sentimentos de estranheza e maravilhamento, atração e repulsa, culminando “na experiência primordial da Unidade” (p. 153). São os opostos unindo-se na construção do sentido totalizante da experiência humana, busca incansável dos poetas, religiosos e amantes.
Mas o poeta e ensaísta mexicano não apresenta apenas pontos de proximidade entre os universos religioso e poético. Embora entenda ambas como experiências de revelação do real, afirma que se tratam de formas diferentes de expressão. A palavra poética, segundo Paz, está sustentada na imagem que dispensa a autoridade divina e alicerça-se em si mesma, sem limitar-se às demonstrações racionais ou ao poder sobrenatural; já a palavra religiosa, pretende revelar um mistério alheio ao ser humano, a partir de uma intervenção divina. E é a partir daí que o autor começa a conceber sua própria idéia sobre as relações entre a religiosidade e a poesia:
A experiência religiosa e a poética têm uma origem comum; suas expressões históricas são às vezes indistinguíveis; as duas, enfim, são experiências de nossa “outridade” constitutiva. A religião, porém, interpreta, canaliza e sistematiza a inspiração (...) A poesia nos abre a possibilidade de ser que todo nascer contém; recria o homem e o faz assumir sua verdadeira condição, que não é a separação, mas uma totalidade: vida e morte num só instante de incandescência (p. 189-190).
Concordamos que tanto a experiência poética, quanto a religiosa, revelam a “outridade” constitutiva do ser humano. A religião o faz, principalmente, por meio dos sacramentos e da celebração e a poesia, a partir do que Julio Cortázar (1999) chama de “expressões poéticas da urgência existencial” (p. 264). Referindo-se aos chamados “recursos formais da analogia” e entendendo-os como tradutores da tal sede ontológica do homem, sobre a qual já falamos, o escritor argentino destaca principalmente o ritmo e a metáfora como exemplos dessas expressões, já que o poeta é, para ele, “um fazedor de intercâmbios ontológicos” (p. 264).
Embora entendamos que tanto uma experiência, quanto outra busquem expressões primordiais, concordamos com Paz que a palavra poética em muito se diferencia da religiosa por não conter, necessariamente, o aspecto da inspiração divina que essa última pressupõe.
Concluímos, enfim, que a linguagem poética, por sua natureza ontológica, é espaço privilegiado de encontro entre o humano e o divino e que a poética adeliana insere-se nessa perspectiva, uma vez que se estrutura em “expressões poéticas de urgência existencial” – entendidas aqui na dimensão da metalinguagem, metáfora e ritmo - que possibilitam ao ser humano a religação com sua “outridade”.
ANEXOS
BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO - ABRIL/2004