2 The Nordic Power Market
2.4 Balancing markets
A filosofia é lógica, científica, porque sistemática, constituída a partir da fala do homem concreto, que produz o discurso. No entanto, o homem concreto não apenas fala, não apenas produz o discurso, ele também tem atitude, entendida aqui como a maneira de viver de uma pessoa ou de um grupo, considerando o seu contexto histórico, ou seja, seu tempo, seu espaço, sua cultura, os valores, as coisas, todo o sentido de seu mundo material e espiritual. Isso tudo está interligado com uma determinada maneira de ser do homem, o que justifica a igualdade e a diferença das pessoas, povos e culturas28.
A atitude do homem nem sempre é expressa em seu discurso. Na maior parte do tempo, as pessoas se ocupam com os seus trabalhos, com o lazer e com o viver momentâneo. Essas pessoas normalmente rejeitam o discurso coerente em conhecimento de causa. Elas sabem da existência da razão, mas preferem permanecer na violência.
A História do homem se mostra como a História da violência. Weil, com Kant, tem notado a forte presença da violência na História da humanidade. É nesse sentido que a História humana é a História do mal, enquanto a História da natureza é a História do bem (CF. PK: 117). O discurso nasce na História e, a princípio, ele carrega junto de si a violência como parte da História da humanidade. Isso quer dizer que a violência sempre esteve presente nos acontecimentos históricos da humanidade em forma de guerras, revoluções e outros.
O filósofo, recorrendo à tradição Histórica da Filosofia, procura por um discurso que seja coerente e que combata o discurso violento. Porém, o filósofo não é um ser de outro mundo, ele se encontra neste mundo, mundo dos homens, mundo da violência. O seu discurso deverá, num primeiro momento, ter a violência positiva como meio de vencer a violência negativa. O que o filósofo quer é realizar o mundo humano no lugar do mundo violento. Com isso, Weil afirma que “é necessário, então, saber o que é o homem para que se possa realizar o mundo humano, mundo no qual não tem mais que se revoltar contra as condições exteriores ou as condições interiores” (LP: 75).
Todos os discursos humanos são produzidos na História, tanto aqueles que contêm a coerência quanto aqueles que não a contêm. A Filosofia, portanto, procura unir todos esses discursos numa unidade, e os transforma em categorias. O discurso filosófico forma uma unidade em que todas as categorias se valem, porque cada uma, dentre elas, deve chegar a todas as outras (LP: 86).
É importante destacar que as categorias da Logique de la philosophie não segue uma sucessão linear, mas circular. A primeira categoria é a Verdade e a última é a Sabedoria. Na ordem sucessiva das categorias, cada categoria procura superar aquela que a antecedeu, no entanto, essa ordem lógica não é linear, ao contrário, ela é circular.
Por isso, na análise de uma categoria recente, é fundamental fazer as retomadas das categorias que antecederam a atual. É uma retomada histórica para a compreensão da categoria que está sendo analisada no momento atual. Assim, a
Logique trabalha um sistema de categorias e atitudes em que cada uma parte de
sua própria compreensão e faz as retomadas das que a antecederam na perspectiva de dar as bases fundamentais do discurso coerente representado pela categoria em que se está analisando no momento atual.
O discurso, do ponto de vista filosófico, a princípio, só interessa ao filósofo, não ao homem comum que vive na violência do cotidiano. Cabe ao filósofo compreender a vida desse homem, compreender a sua atitude, e, com isso, transformá-la em discurso. O que Weil propõe é uma filosofia que, sistemática e coerente, não se distancie da vida concreta do homem e de sua história.
Vimos, acima, que o homem não apenas fala, não apenas produz o discurso, mas também age. E é importante considerar esse homem como ser histórico. O filósofo deve recorrer à história da filosofia não com o intuito de ser reconhecido como historiador, mas com a intenção de produzir novos discursos a partir da compreensão de seus mestres da tradição filosófica.
O específico de Weil se encontra nos dois caminhos que ele traça entre a filosofia e a violência. Para ele, a violência se apresenta na História do homem, na sua recusa à Filosofia, na sua recusa ao contentamento da razão. No entanto, segundo Weil, “a história não é completa no sentido em que a violência não é expulsa da realidade, que os homens sempre podem ter recurso a ela e que sempre a coerência pode ser esquecida, recusada, pode não mais ser compreendida como possibilidade concreta do homem” (LP: 83).
O indivíduo pode sempre optar pela violência e recusar o discurso coerente. E é perfeitamente possível que o discurso coerente seja destruído ou se torne insensato para uma humanidade que vive na violência. No entanto, o discurso coerente é para o homem apenas uma das possibilidades da linguagem. E, nesse sentido, a linguagem não se resume apenas ao discurso que prima pela coerência.
A linguagem pode se apresentar ao homem de diversas maneiras, em forma de linguagem poética, artística, ou em forma de linguagem violenta, ou em forma de linguagem filosófica. Cabe ao homem fazer a escolha da que melhor lhe convém para sua vida. O mundo do homem, que opta pela ação razoável segundo o discurso, transforma-se num mundo verdadeiramente humano onde a violência tende a desaparecer. Mundo onde o homem torna-se verdadeiramente homem com os outros homens (LP: 85).
Compreendemos que, na perspectiva weiliana, a escolha pelo razoável não é uma tarefa fácil. É sempre dito que o homem é livre para fazer sua escolha entre a razão e a violência, no entanto, o peso maior recai para o mal e para a violência. O homem no seu cotidiano, na vida diária do seu trabalho, do seu lazer, do seu negócio e da sua luta pela sobrevivência, convive com um mundo de violência muito comum no contexto social em que vive.
Ele nota o caos social causado pela violência, mas nem sempre consegue sair desse caos e muito menos banir a violência do seu meio. Ele não consegue nem mesmo compreender as causas que geraram a violência e como conseguir vencê-la. Por isso, ele necessita da educação que lhe dê uma formação moral e humana, para que ele conduza a sua vida pelo caminho do bem e se afaste do mal e da violência. Com isso, a educação e a moral se constituem como uma necessidade humana que precisa ser valorizada pelo Estado.
Caso o Estado e a própria sociedade vejam a necessidade de uma transformação social, é preciso que invistam na educação. E quando falamos em educação não é uma referência tão somente à necessidade de instrução. A instrução é importante, mas não é tudo. Atualmente, observamos uma grande preocupação das escolas do ensino básico, médio e superior, com a formação do conhecimento dos seus alunos voltado para a instrução. Em grande parte, a formação humana é deixada de lado ou quase não existe.
Chegamos à conclusão de que não basta apenas à instrução para que o homem deixe de “ser violento” e passe a “ser razoável”. A instrução é necessária,
mas não o suficiente. O aluno precisa ir além do simples fato da aquisição do conhecimento. É preciso que a escola prepare o aluno para uma boa convivência social, baseada no respeito mútuo, na responsabilidade e na solidariedade. Só assim será possível vencer as paixões egoístas, o mal social e a violência que destrói a própria possibilidade do homem de “ser homem”.