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6 Case Study

6.2 Results

6.2.2 Balancing in Hydro Area (NO2)

A seguir, apresentamos a tabela que sistematiza os conteúdos que os jovens ricos trouxeram sobre a categoria “Esforço pessoal”. Destacamos que outras pesquisas que trabalharam com projetos de futuro de jovens ricos encontraram, entre esses sujeitos, a presença da ideologia do esforço pessoal (LIEBESNY, 1998; BOCK; LIEBESNY, 2003)

Tabela 16 – Conteúdos que aparecem nos projetos de futuro dos jovens ricos – Esforço pessoal (continua)

Sujeito (Sexo)

Conteúdo no seu futuro Conteúdo no futuro do outro (pobre)

3 (F) - “Sua mãe sempre dizia pra ele que ele faria

faculdade e melhoraria de vida. Por isso, Pedro finalizou o colegial e sonhava em entrar

na faculdade, porém sabia que seria muito difícil. Começou a fazer cursinho de manhã,

trabalhava a tarde junto com seu irmão no supermercado e, nos finais de semana, trabalhava em um restaurante. Leu todos os livros do vestibular e, quando desanimava nos estudos, pensava que um dia poderia melhorar

a vida de sua mãe.”

“Todos sabem que é muito difícil chegar onde ele chegou, principalmente ele, sabem o

quanto ele se esforçou para isso.”

5 (F) - “Um tanto frustrante saber que nosso lugar

como classe influencia tanto nosso futuro. Os sonhos são, quase em todos os casos, esquecidos ou abandonados em prol de um futuro mais realista e palpável. Consegui, com

muito esforço, entrar em uma faculdade pública. Mas muitos, diferentemente de mim,

não conseguiram. Nem sempre ‘querer’ é sinônimo de ‘poder’, especialmente se não

fizermos parte de uma classe social privilegiada.”

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Tabela 16 – Conteúdos que aparecem nos projetos de futuro dos jovens ricos – Esforço pessoal (continuação)

Sujeito (Sexo)

Conteúdo no seu futuro Conteúdo no futuro do outro (pobre)

6 (F) “...começaria uma hortifrúti de produtos orgânicos. Empreendimento com que trabalho

e estou colocando muito esforço para que sobreviva, com essa economia de hoje.”

“Depois de muito esforço, para conciliar os serviços de casa e a escola, ele se formou mesmo com tanta pressão imposta sobre ele para abandonar os estudos e iniciar a ajuda na

renda da família mais cedo.” “A vida era cansativa, era necessário pegar 3

onibus cheios para chegar em casa as 23h e ainda cuidar de seu irmão pequeno.”

7 (F) - “Tentou entrar em alguma universidade

pública e assim conseguiu, depois de muito esforço. Estudou durante a noite e trabalhou de dia durante toda a sua vida universitária,

para ajudar a sustentar a sua família.”

8 (F) - “...sua força de vontade faz com que consiga

um emprego em uma grande empresa e ele pode largar os outros dois.”

12 (M) - “Pedro é um exemplo a ser seguido de um

homem que, mesmo em uma sociedade completamente injusta, conseguiu obter sucesso, apesar das condições precárias de ensino que o governo lhe deu quando estudou

em escolas públicas. Esse garoto rompeu barreiras muito difíceis para um estudante de escola pública, mas é exemplo de que, mesmo

com as péssima qualidade de ensino propiciada pelo governo em escolas públicas,

é possível ter sucesso.”

“...teve de lutar para conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo.”

13 (M) - “Pelo sistema de cotas, mas não sem o meu

esforço, consegui passar na USP, no curso de Direito. (...) Eu sabia que não seria fácil, que

mesmo os filhinhos de papai com boas escolas e fazendo cursinho, custavam a

passar. Consegui, enfim.”

“...na São Francisco conheci algumas pessoas que, como eu, estudaram para agarrar a nossa

oportunidade de estudo.”

16 (M) - “Assumo que não era um aluno dedicado (...)

Ia para a escola e esperava o tempo passar. (...) trabalhei como mecânico, ajudando o meu

pai...”

17 (M) - “Como teve que entrar cedo no mercado de

trabalho, teve de se esforçar mais para conciliar sua profissionalização com seu

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Tabela 16 – Conteúdos que aparecem nos projetos de futuro dos jovens ricos – Esforço pessoal (conclusão)

Sujeito (Sexo)

Conteúdo no seu futuro Conteúdo no futuro do outro (pobre)

18 (M) “Tudo isso [conquistas nos estudos, no trabalho, financeiramente], sem dúvida, foi uma grande conquista. No entanto, ainda não

me dou por satisfeito...”

“O jovem começou a trabalhar mais de dez anos atrás enquanto ainda estava na escola. Tal esforço lhes permitiu pagar uma faculdade

na qual ele se formou quatro anos atrás.” “Ao contrário de mim, esse jovem é muito diferente de seus colegas de classe, que em sua maioria, sequer concluiram o ensino

médio.”

Total de sujeitos - 10

Total de respostas - 2 Total de respostas - 15

Significações dos jovens ricos sobre si mesmos:

Há pouquíssimas respostas dos jovens ricos sobre a presença de esforços individuais em seus futuros. Esse não é um elemento necessário para que eles alcancem suas metas. Quando falam dessa categoria em relação ao seu futuro, os jovens ricos falam de um investimento de esforços nos seus empreendimentos profissionais. Lembramos que na pesquisa de Kulnig (2010) com jovens da camada alta apareceu uma pouca valorização do esforço pessoal como meio de colocação social: para os sujeitos com que ela trabalhou, a inteligência e a competência são mais importantes. Seria o caso de nossos sujeitos também?

Significações dos jovens ricos sobre o outro (jovem pobre):

Quando falam sobre a vida imaginada para o jovem pobre, a referência é a um superesforço. É um jovem que, diferentemente de outros de sua classe social, conseguiu melhorar sua vida pelo esforço nos estudos e no trabalho. Mesmo vítima de uma realidade social injusta, de condições econômicas adversas, ele supera isso, rompe barreiras, luta e consegue. Supera a pressão contrária da sociedade e do seu próprio grupo social; a necessidade de contribuir na renda da família mais cedo; a rotina cansativa que conjuga trabalho e estudos. Sua força de vontade e o seu esforço pessoal o fazem diferente, fazem com que tenha sucesso.

Chama atenção o fato de haver tantos relatos de jovens pobres que são exceções a seu grupo social por ascenderem socialmente. Por que nossos sujeitos ricos construiriam o personagem pobre como alguém excepcional? Seria porque o enunciado dá como condição de partida o fato de esse jovem pobre estar terminando o 3o ano do ensino médio e porque a

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escola, percebida como instituição salvadora e corretora das desigualdades sociais pelas elites (REIS, 2000; SCALON; CANO, 2005; KULNIG, 2010), alçá-los-ia a condições melhores, diferenciando-os de outros de seu grupo? Seria por uma cordialidade com esse personagem pobre que constroem, salvando-os do destino que é pensado para todos os outros de sua classe social?

Há apenas uma menção de um jovem que não se esforça e, por isso, acaba virando mecânico como o pai. Mas ainda aí a lógica da ideologia do esforço pessoal prevalece: aquele que não se esforça individualmente para superar as adversidades está condenado a perpetuar a sina de sua família, de sua classe social.