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- O senhor sabe quem faz o Ciranda?

- Uai, é a TV lá de Goiânia ( a Organização Jaime Câmara), né, não? Eu acho qui é ... mas aquela

lá da saída (Tv Riviera, a emissora da Organização Jaime Câmara em Rio Verde) pra Itumbiara tamém ajuda. Eu vi o Marcelo carregando umas praca lá na entrada.

- O senhor conhece o Marcelo de onde? - Uai, é que eu moro lá perto do

posto, hum sabe, e aquele homê que morava lá dentro, naquela casinha

( o zelador da TV Riviera ), hum sabe, um dia me percurou pra dá

uma capinada lá (...) aí eu tava arranjado lá quando o

seô Marcelo ( supervisor da TV Riviera ) passo num carrão bunito demais, sô... aí o homê

me falô que ele era o patrão de lá ... procê vê, né, o homê é da chiqueza, mais tá aqui carregando praca... mode os nosso fio brincá... é chasquento

dimais, né? ( Teodolindo de Jesus, 44 anos, serviços Gerais, presença constante no Ciranda

Com seus filhos: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Teodolindo de Jesus Filho ( por que “um tinha que levá Minha marca, né sô! .)

Encontrei Teodolindo pela primeira vez quando ele estava “bestano” na última edição do Projeto Ciranda em Rio Verde, em outubro de 2004. Fiquei encantado. Seus olhos, serelepes, a tudo viam. Ao perceber um senhor meio corcunda “sapiano” dispara: “Aquele ali deve tê matado a mãe. Tá tão encurvado que agorinha ele vai ralá os beiço no chão. Apruma, sô!”. Para uma senhora, negra, gordinha, que vez por outra

entrava na fila da pipoca, ele destilava: “A bichona ali já comeu uns trocentos saquin de pipoca. Agorinha vai dá um trimilico nela e nóis vai tê que carregá a escungada. Se não pará vai impansiná!”. Perguntei-lhe se eu podia, numa outra oportunidade, conversar com ele e os filhos em sua casa: “Se ocê não repará as aparênça, é muito bem-vindo!”. Peguei um telefone de recado de uma borracharia onde ele dava uma “demão”. Em janeiro de 2005, liguei para ele. “Ah, aquele brancão lá do Ciranda, pois não!” E assim marcamos um horário, num sábado, pela manhã. Quando encostei a camionete da empresa em sua humilde casa da Promissão, um dos bairros mais pobres de Rio Verde, ele já me esperava na porta: “Vamo entrá, sentá, não repara que casa sem muié não tem tratamento!”. A casa, de dois cômodos e uma casinha no fundo para “as necessidades”, era nua e triste. Num dos cômodos havia uma cama de casal, sem cabeceira, e outra de solteiro, cheia remendos. O cheiro de urina e mofo recendia por todo o barraco. Sobre um móvel velho, num canto, um radinho de pilha Phillips, muito antigo, mas que ainda tocava em mono uma triste canção sertaneja. Nas paredes sujas, riscadas, dois pôsteres: um do Santos e outro da Jataiense, time de futebol da vizinha Jataí, adversária ferrenha das equipes de Rio Verde. Abro um sorriso e, antes de perguntar qualquer coisa, ele responde: “É que eu morei em Jataí e sô cumpadi do Mazinho, o cuidadô da grama da Jataiense!”. Na cozinha, um fogão de quatro bocas sujas, algumas panelas encardidas e velhas. Sobre uma mesa de pernas bambas, alguns pães e um pouco de salame. Do lado de fora da casa, um tanquinho que ele achou na rua servia de lavatório para vasilhas. Mais adiante, um jirau com algumas peças “corando”. Na casa de seu Teodolindo não tem televisão, sofá, quase nada. O que tem é feito de bricolagem. Sorridente, querendo agradar, ele pega um tamborete, passa a mão para limpar porque “essas praga senta de bunda suja!”, e iniciamos uma conversa multicor, mesmo no cinza daquela casa humilde. “Seo” Teodolindo vive de bicos. Mesmo sendo “benquisto” por seus casos e sua alegria em determinadas regiões da cidade, nem sempre tem serviço. Diz que fatura uns trinta, quarenta reais por semana. Recebe mensalmente uma cesta básica do governo estadual. Outras pessoas, geralmente clientes, dão roupas, brinquedos, de vez em quando alguma comida e “muita lixaiada que eu trago pra vê se aproveita!”. A mulher, mãe dos três filhos, o abandonou há oito anos. Quem cuida da casa e dos irmãos é o mais velho, Roberto Carlos, de treze anos, mas com aparência de nove. “Esse aí é franzinin, mas é

batuta, si não fosse ele cume que eu ia fazê, né?” Pergunto se ele não gosta de televisão, das “notícias”. Ele responde que gosta, mas que de notícias ruins bastam as dele. Diz que todas as noites enfrenta problemas com os filhos, que querem ver televisão na casa dos vizinhos. “Procê vê, eu num dô conta de comprá uma e tamém fico avejado de amolá os vizin”. Inesperadamente interrompe a conversa, fita o vazio e dispara: “Uai, quem sabe lá na televisão não tem uma sobrinha!”. Quando pergunto como ele toma conhecimento da realização do Ciranda, ele me olha incrédulo: “Ué, todo mundo sabe dos dia. Os minino na rua incapeta e fica zunino no ouvido da gente o tempo inteirin pra gente levá! Pro senhor vê, aquele dia que nóis incontremo eu inté tinha que carpiná um mundo véio de trem lá na misubis (Mitsubishi). Aí eu falei pro patrão lá que tinha a Ciranda, aí ele mi dispenso e inté me adiantô uns trocado!”.

Enquanto converso com Teodolindo, Roberto e Erasmo Carlos cochicham, riem entre si. Teodolindo Filho, indiferente, tenta fazer um carrinho de lobeira ( fruta do cerrado, muito apreciada pelos lobos. No interior de Goiás, as crianças transformam a fruta redonda em carrinhos. Coloca-se um pedaço de pau de uns quinze cm , centralizada no eixo da fruta. Depois, basta pegar uma “arvinha” que possui uma forquilha de mais ou menos um metro. Utiliza-se esse “eixo” como se fosse um volante). Volto-me para eles e pergunto sobre o que gostam de fazer. Roberto, o mais velho, é o “cuidador” da casa. Divide as tarefas do lar com os irmãos menores, que lhe devotam uma obediência cega, incomum para crianças naquela situação. Seus prazeres: soltar pipa, ver futebol na televisão e ir ao Ciranda:

Puxo conversa com Erasmo Carlos, ele permanece mudo. De vez em quando movimenta alguma parte do corpo. Sua linguagem é absolutamente corporal. A cabeça balança para um lado e para outro, concordando ou não. Os ombros, quando se levantam, informam que Erasmo não concorda, nem discorda, muito pelo contrário. Pergunto sobre o que gosta, mudo permanece. Roberto, o irmão mais velho, Eu gosto de lá porque nóis isquece os trem ruim (...) cê vai prum lugá, depois pro outro, quando cê vê o dia já acabô. Eu só acho que tinha que tê mais, tinha que tê toda semana (...) Quando eu crescê eu quero ser motorista de caminhão... deve cê bão dimais da conta saí pelas estrada, né não?

responde por ele: “É que ele não gosta muito de conversá não, nem comigo ele falá muito!”. Mostro-lhe umas fotos do Ciranda. Um tanto arredio, olha as imagens coloridas uma a uma, timidamente, demorando-se em uma delas de maneira especial. É uma foto que mostra uma “tia” contando histórias para um grupo de crianças. Pergunto se ele gosta de histórias, a cabeça afirma que sim. Começo a inventar uma tendo o lobo mau e os três porquinhos como personagens. Seus olhos sonham, espantam-se, entristecem-se e, felizmente, alegram-se. Pergunto novamente sobre o Ciranda. Depois de segundos intermináveis surge um “É bão!”. Não consigo avançar no diálogo e tampouco tento.Num canto, Teodolindo, o pai, espia enquanto vai enrolando um paieiro. Erasmo Carlos finalmente termina o seu carrinho de lobeira e sai dirigindo, buzinando caminhos afora. O pai tenta chamá- lo para conversar comigo, não permito. Os horizontes lá foram são cirandas inimagináveis e infinitas. Pergunto a Teodolindo se ele é feliz: “Uai, sô, feliz, feliz eu num sô não. Mais cê sabe, tem gente pió que ieu qui cê nem imagina. Só de possuí essa casinha aqui que o Íris (Programa do ex-governador Íris Rezende Machado, que na década de 1980 construiu milhares de casas em Goiás através desse método) me deu ieu já me garanto de tá acobertado, né sô. Si num fosse ele, onde ieu tava? Ieu já falei pros mininos que posso inté fartá, mas a casinha tá qui, firme e forte, né dôto?”.

Nessa história, uma única certeza: o doutor não sou eu!

Entrar na casa de bricolagem e miséria de Teodolindo não foi apenas uma intromissão física. Comigo, também, entrou um universo imenso de autores que me acompanhou nos últimos anos. Em cada canto que olhava via um Morin, um Barbero, um Freud. Vi a cultura de Geertz, quando ele sugere que a participação de um indivíduo numa cultura é sempre limitada; que nenhuma pessoa é capaz de participar de todos os elementos de uma cultura, sejam elas complexas, sejam simples. Deparei-me, na esquina da pedagogia, com as vivências libertadoras de Paulo Freire, quando nos conta que a leitura do mundo antecede e acompanha a leitura da palavra. E se assim é, o que nos diria o velho mestre quando fôssemos ler esse mundo globalizado em que as mídias ocultam ou elevam as ideologias? Valoram ou destroem possíveis redes de solidariedade mundial? Viajei em meio à miséria de Teodolindo para encontrar Reinaldo Fleuri, quando enfatiza que uma relação intercultural pode ser pensada como sendo aquela situação em que

pessoas de culturas diferentes interagem ou ainda como uma atividade que requeira tal interação:

Nessa dialética, torna-se importante incluir Kotler quando discute a alteração da forma de viver das pessoas e dos grupos pela transformação de práticas negativas ou prejudiciais em modelos positivos, através da mudança de valores e atitudes nas comunidades e em sociedades inteiras, e pela criação de novas tecnologias sociais que suscitem as mudanças desejadas e elevem a qualidade de vida das pessoas.

Para além da oposição reducionista entre o monoculturalismo e o multiculturalismo surge a perspectiva intercultural. Esta emerge no contexto das lutas contra os processos crescentes de exclusão social. Surgem movimentos sociais que reconhecem o sentido e a identidade cultural de cada grupo social. Mas, ao mesmo tempo, valorizam o potencial educativo dos conflitos. E buscam desenvolver a interação e reciprocidade entre grupos diferentes como fator de crescimento cultural e de enriquecimento mútuo. Assim, em nível das práticas educacionais, a perspectiva intercultural propõe novas estratégias de relação entre sujeitos e entre grupos diferentes. Busca promover a construção de identidades sociais e o reconhecimento das diferenças culturais. Mas, ao mesmo tempo, procura sustentar a relação crítica e solidária entre elas ( Fleuri, 1998:113).