A lua possui, em Iracema, uma intensa e significativa carga semântica. Representa a alegria, e sua chegada é festejada como se fora a de uma mãe, o que verdadeiramente é para os selvagens:
O ALVO disco da lua surgiu no horizonte.
A luz brilhante do sol empalidece a virgem do céu, como o amor do guerreiro desmaia a face da espôsa.
- Jaci!... Mãe nossa... exclamaram os guerreiros tabajaras.
E brandindo os arcos, lançaram ao céu com a chuva das flechas o canto da lua nova:
“Veio no céu a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para ver seus filhos. Ela traz as águas que enchem os rios e a polpa do caju.
“Já veio a espôsa do sol; já sorri às virgens da terra, filhas suas. A doce luz acende o amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da jovem mãe” (Alencar, 1965, p. 116).
É marcante a influência da lua entre os brasileiros, que receberam tanto dos portugueses, dos negros, como dos indígenas do tempo do Brasil colonial, tradições a respeito da mesma; daquela que, enquanto senhora e mãe dos vegetais, protege e preside seu crescimento. Câmara Cascudo (2001, p. 337) escreve que “Entre os indígenas brasileiros ela recebe o nome de Jaci, ou Ia-ci, mãe dos frutos, e sua influência se reflete na vida de um grande número de pessoas”. Alencar (1965, p. 116) também apresenta, etimologicamente, o significado do nome Jaci: “A lua. Do pronome já – nós, e cy – mãe. A lua exprimia o mês para os selvagens, e seu nascimento era sempre por êles festejado”.
Ao dizer que “A lua exprimia o mês para os selvagens...” (Alencar, 1965, p. 116), a nota alencariana faz alusão às constantes alterações de forma e posição que a lua assume no céu e que, certamente, sempre impressionaram o homem. É só atentar para o calendário lunar, representativo de suas respectivas fases, e que leva ao “... hábito de se apoiarem na “força da lua” as práticas na agricultura, pesca, pecuária” (Cascudo, 2001, p. 337).
O renomado folclorista afirma ainda que “Os indígenas mais bravios eram devotos da Lua” (Cascudo, 2001, p. 337), e apresenta, de Pero Carrilho de Andrade (século XVII), essas informações acerca dos índios cariris: “... alegram-se muito quando vêem a lua nova porque são
muito amigos de novidades, contam os tempos pelas luas, têm seus agouros...” (Andrade apud Cascudo, 2001, p. 337); já de Couto de Magalhães mostra canções votivas de indígenas à lua cheia (Cairé) e à lua nova (Catiti):
Eia, ó minha mãe (lua cheia)! Fazei chegar esta noite ao coração dele (amado) a lembrança de mim!...
Lua nova! Lua nova! Assopra em fulano a lembrança de mim; eis-me aqui, estou em tua presença; fazei com que eu tão-somente ocupe o seu coração! (Magalhães apud Cascudo, 2001, p. 338).
A lua representa também, na obra em questão, um marco sintetizador de todas as rupturas, de todas as quebras de conduta e de respeito aos seus irmãos vivenciadas por Iracema. Marca o instante em que a jovem indígena, como uma autêntica heroína romântica, resolve trair o seu povo, e sabe bem como fazê-lo, em prol do seu amado:
- A lua das flôres vai nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado e recebem do Pajé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos de Ipu, e os olhos de Iracema, mas sua alma, não (Alencar, 1965, p. 111).
Entre os tabajaras não era permitido às mulheres e aos meninos, nem mesmo aos “... mancebos, que ainda não ganharam nome na guerra por algum feito brilhante...” (Alencar, 1965, p. 116) participar das festividades à divindade lunar; bem diferente da tradicional festa da lua entre os chineses, que assim é comemorada:
O sacrifício consiste em frutas, doces açucarados que se fabricam e vendem nessa ocasião e num ramo de flores de amaranto-vermelho. Os homens não participam
da cerimônia. É obviamente uma festa das colheitas: a Lua é aqui o símbolo da fecundidade. A Lua é de água, ela é essência do Yin: como o Sol, é habitada por
um animal, que é ou uma lebre, ou um sapo (Chevalier e Gheerbrant, 2005, p. 562, grifos meus).
A lua simboliza, ainda, “... um símbolo da passagem da vida para a morte, bem como da morte para a vida” (Tresidder, 2003, p. 208), pois, para Iracema, seu surgimento vai indicar uma modalidade nova de existência:
- Iracema não pode mais separar-se do estrangeiro. ...
- Araquém já não tem filha. ...
Curvou a virgem a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se espargiam pelo colo, cruzando ao grêmio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o róseo cacto, que já desabrochou em linda flor, cerra em botão o seio perfumado.
- Iracema te acompanhará, guerreiro branco, por que ela já é tua espôsa. ...
- O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem. A filha do Pajé traiu o segrêdo da jurema (Alencar, 1965, pp. 120-121).
Iracema é, assim, toda divindade lunar; e seu simbolismo só se manifesta em correlação ao de Martim, que estaria ligado à divindade solar. O Sol e a Lua formam uma dualidade necessária como marido e mulher, quente e frio, fogo e água, masculino e feminino. Mas Iracema, enquanto Lua, estaria representando os dois princípios lunares mais característicos: primeiro, o fato de a Lua ser privada de luz própria e não passar de um mero reflexo do Sol, simbolizando, assim, a sua dependência e o princípio feminino em relação ao masculino: “- Como a estrêla que só brilha de noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os olhos do espôso podem apagar a sombra em seu rosto” (Alencar, 1965, p. 181); segundo, o caráter de a Lua atravessar fases diferentes e mudança de forma, o que representaria periodicidade e renovação, ou seja, Iracema é símbolo de transformação e de crescimento, até minguar completamente:
...
Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os aflitos braços de Martim. O terno espôso, em quem o amor renascera com o júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua alma de alegria, mas não a puderam tornar à vida; o estame de sua flor se rompera.
...
O doce lábio emudeceu para sempre; o último lampejo despediu-se dos olhos baços (Alencar, 1965, pp. 185-186).
Mas não se pode escurecer o fato de a heroína indígena de Alencar ser detentora de poder na sua tribo. Ela é a virgem de Tupã, é quem prepara a sua bebida, o sortilégio dos deuses. Com relação a Martim, é ela quem o seduz. Então não é possível se afirmar, categoricamente, que a mesma é desprovida de luz própria.
As imagens poéticas com as quais Alencar a descreve refletem sua luz. A melancolia que a reveste, sim, sugerem o seu lado sombrio. Ela ocupa, dessa maneira, o espaço tênue entre a luz e a sombra.