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Em tempos de amadorismo, quando nem mesmo os atletas proeminentes conseguiam desfrutar de fama e bons salários, um jovem ala de grande condição atlética fazia brilhar os olhos dos que testemunhavam o nascimento da chamada Era Dourada do Basquetebol Brasileiro. Wlamir Marques nasceu em São Vicente em 16 de julho de 1936, e foi no litoral paulista que começou a praticar o basquetebol e outras modalidades, sob influência da família.

Chegou a ser recordista brasileiro em prova de natação, representou o Clube de Regatas Tumiaru como voleibolista e também praticou futebol e atletismo. Morava próximo a uma das quadras do clube, onde observava um grupo de garotos que frequentemente se reunia para jogar basquete; e foi numa dessas oportunidades que deu início a uma relação com o esporte que se estendeu por décadas, influenciando decisivamente sua vida pessoal e profissional.

Sua iniciação e formação na modalidade ocorreu no próprio Tumiaru, onde jogou até os 16 anos. Em seguida se transferiu para o XV de Piracicaba, onde passou a ganhar relativa visibilidade no cenário esportivo nacional. Atuando em clubes, também representou o Tênis Clube Campinas e o Palmeiras, onde sagrou-se campeão estadual e nacional por diversas vezes. Sua primeira convocação para a seleção brasileira ocorreu em 1954, quando participou da conquista do vice-campeonato do mundial de basquetebol realizado no Rio de Janeiro, ficando também entre os cinco melhores jogadores da competição, ao lado de seus companheiros de equipe, Zeny de Azevedo (o Algodão) e Amaury Pasos.

Wlamir ainda não havia completado os 20 anos de idade e já era assunto nas rodas de conversa entre os admiradores do basquete. Dono de uma impulsão incomum que lhe permitia enterrar a bola na cesta de diversas maneiras, ganhou apelidos que o acompanharam até o final da carreira atlética: “Disco Voador”, “Óvni” e o mais conhecido, “Diabo Loiro”.

Fonte: rede social

Embora o relativo sucesso nas quadras o tornasse quase que insubstituível dentro dos planos da seleção brasileira, não pode desfrutar de regalias. Eram tempos de amadorismo e de marginalização da prática esportiva profissional, em outras palavras, viver somente do esporte era imporssível. A estrutura arcaica e amadora do esporte naquela época exigiam do atleta o máximo de sua boa vontade que, alicerçada a um senso cívico e ao prazer proporcionado pelo jogo, mantinha-se viva.

Em companhia de seus colegas de equipe, Wlamir se alojava em baixo de arquibancadas e, nas semanas que antecediam competições, seguia regime militar de concentração em reservas militares, dormindo em camas de campana. Aos 19 anos, participou dos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, sua primeira edição olímpica. Nessa época a seleção brasileira passava por uma reformulação de elenco em que jogadores com diferentes qualidades físicas e técnicas surgiam, criando grande expectativa. Essa renovação influenciou significativamente os resultados da seleção nas competições que se seguiram entre os anos de 1958 a 1972. E foi nesse período que o basquetebol passou a ganhar prestígio no Brasil, admiração que só não superou a paixão nacional pelo futebol. Estados Unidos e União Soviética já apareciam como favoritos aos títulos dos torneios em que participavam, enquanto que o Brasil os seguia proximamente. Eram tempos de transmissão de jogos de basquetebol pelo rádio, bem como de ginásios recebendo grande público.

Conquistamos o primeiro título mundial em 1959. Em 1958 foi o futebol. Então fomos para Roma em 1960, também credenciados a ser medalhistas, mas perdemos duas medalhas de prata (1960 e 1964), sempre para a União Soviética por um, dois, três pontos. Estados Unidos, ninguém ganharia deles, já naquela época. Embora fossem universitários, eles treinavam muito. Eram jogadores ótimos, que mais tarde se tornariam grandes jogadores da NBA, como Oscar Robertson e Jerry West, famosos até hoje [Wlamir Marques]. Em 1959, Wlamir participou da conquista inédita do Campeonato Mundial do Chile e no ano seguinte ganhou sua primeira medalha olímpica, o bronze dos Jogos de Roma. Sua consagração viria três anos mais tarde com a conquista do bicampeonato mundial no Rio de Janeiro, para ele, o apogeu de sua vitoriosa carreira em seleção. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964 sua equipe só não conquistou a medalha de ouro por não conseguir superar o ascendente favoritismo dos norte-americanos e o semi-profissionalismo dos soviéticos; ficando mais uma vez com o terceiro lugar. Ao somar mais uma importante conquista na carreira atlética, Wlamir entrava para história do esporte como membro de uma das seleções de basquetebol mais vitoriosa do mundo, bem como um dos melhores jogadores do seu tempo.

Das memórias que guarda do grupo com o qual conviveu, ele destaca a relação harmoniosa e livre de maiores conflitos que acompanhava treinamentos, concentrações e viagens de competição; caracterizando-o como uma reunião de jovens cujo principal interesse era jogar basquete. A participação voluntária que guiava a carreira atlética em tempos de amadorismo não era apenas uma atitude patriótica, mas a única opção que o atleta tinha, se quisesse continuar fazendo o que gostava. Servir à seleção brasileira implicava em ficar longos períodos distante da família, dos estudos e do trabalho; situações que não isentava Wlamir de arcar com as consequências. Diferentemente de seus contemporâneos, preferiu priorizar o esporte, deixando os estudos, a priori, em segundo plano. Segundo seu colega de equipe, Vitor Mirshawka, Wlamir era um tipo de profissional dos tempos de amadorismo no que se refere à dedicação ao esporte, ainda que não fosse reconhecido em termos financeiros.

Por mais que seus feitos tenham elevado os emblemas dos clubes que representou, bem como a bandeira nacional, sua carreira não foi avaliada sob a lente da televisão e do reconhecimento financeiro, como ocorre nos dias atuais. O grande Wlamir Marques dependia do trabalho remunerado para sobreviver e da capacidade de conciliar carreira atlética com carreria profissional. Em Piracicaba, trabalhava no Departamento de Correios e Telégrafos, atividade por ele mesmo reivindicada ao Governo Federal em 1956. Quando contratado pelo Corinthians, transferiu o trabalho para a capital paulista, somando mais de dez anos de serviços prestados aos Correios. Foi a necessidade do trabalho um dos principais fatores que o levaram a encerrar a carreira atlética, embora só tivesse tomado essa decisão após ter respondido ao quinto processo por abandono de emprego.

Ele conta que em sua época havia uma lei que protegia o atleta convocado de sofrer qualquer prejuízo por ter se ausentado do trabalho. No entanto, como as convocações para a seleção exigiam a apresentação quase que imediata do atleta à comissão técnica, não havia tempo hábil para que o documento do afastamento da empresa/faculdade fosse viabilizado. Assim, sempre quando retornava das competições, não podia mais voltar ao trabalho sem antes responder às ordens de demissão e recorrer aos descontos salariais que o esperavam.

Cansado da burocracia e da falta de reconhecimento, deixou o emprego nos correios e passou a construir carreira profissional dentro do esporte. Conhecia o então prefeito da cidade de São Paulo, José Vicente Faria Lima, amigo que o convidou para trabalhar na coordenação de uma escola de basquetebol. A partir de 1966 preocupações acerca do futuro pós-carreira atlética passaram a influenciar sua frequência na seleção brasileira. Na condição de técnico de uma equipe feminina de basquetebol em Piracicaba, pediu dispensa da seleção que ia para o Campeonato Mundial de Montevidéu em 1967. No ano seguinte, participou da conquista do quarto lugar nos Jogos Olímpicos do México. Enfrentando problemas de relacionamento com o técnico Kanela e resolvendo questões pessoais, recusou ir ao Campeonato Mundial da Iugoslávia em 1970, mas voltou atrás na decisão por insistência de amigos e foi assim que defendeu pela última vez a seleção brasileira, sagrando-se vice- campeão.Em 1973 formou-se em Educação Física e, já no último ano de curso, passou a dar aulas no Colégio São Luís, onde ficou durante quatorze anos. Nesse mesmo período, compôs o corpo docente das Faculdades Integradas de Santo André (Fefisa) e em seguida foi professor na Universidade Estadual Paulista Julho de Mesquita Filho (Unesp). Como técnico, também dirigiu equipes das cidades de Cerquilho, Rio Claro, e dos clubes Palmeiras e São Paulo.

Em meados dos anos 1970, após passagem pelo Corinthians, Wlamir dava por encerrada a carreira como atleta. No início dos anos 1980, passou a ser convidado por emissoras de TV para atuar como comentarista de basquetebol. Conforme explicou em

Fonte: GEO-USP

entrevista, as primeiras experiências neste papel o fizeram descobrir competências relacionadas à comunicação e à análise de partidas, condição que o motivou a se especializar em rádio e televisão e a se dedicar profissionalmente à função de comentarista. Desde 2001 os canais ESPN contavam com seus comentários e análises em transmissões nacionais e internacionais de basquetebol.