Dada a sua natureza complexa, e uma vez que abrange uma multiplicidade de disciplinas, existem várias definições para o termo globalização, dependendo do ponto de vista da análise. Na Tabela 2.1 podem ser consultadas algumas perspectivas sobre este fenómeno.
Tabela 2.1: Definições da globalização.
Fonte Descrição
(IMF, 1997)
Crescente interdependência económica dos países através do aumento do volume e variedade de transacções transfronteiriças de bens e serviços e de fluxos internacionais de capital e também através
da difusão mais rápida e generalizada da tecnologia. (Bordo,
2002) Integração internacional dos mercados de bens, serviços e factores de produção, trabalho e capital.
(UN et al., 2002)
Uma crescente internacionalização dos mercados de bens e serviços, meios de produção, sistemas financeiros, concorrência, corporações, tecnologia e indústrias. […] O que conduz ao aumento da
mobilidade do capital, à rápida propagação de inovações tecnológicas e a um aumento da interdependência e uniformidade dos mercados nacionais.
(Deardorff & Stern,
2002)
Aumento das transacções internacionais nos mercados de bens, serviços e alguns factores de produção, mais o crescimento e expansão do alcance das instituições e organizações não-governamentais. […] Crescimento do comércio internacional. [E também a expansão] do investimento estrangeiro directo, das
multinacionais, da integração dos mercados de capital e fluxos de capital resultantes, do alcance extraterritorial das políticas governamentais, da atenção das organizações não-governamentais para assuntos globais, das restrições nas políticas governamentais impostas por instituições internacionais. (WHO,
n.d.)
[A inclusão de dois elementos interligados:] a abertura das fronteiras para fluxos crescentes de bens, serviços, pessoas e ideias através das fronteiras internacionais, e as mudanças nos regimes institucionais
e políticos aos níveis nacional e internacional que facilitem ou promovam esses fluxos.
(WBG, n.d.).
Crescente integração de economias e sociedades em todo o mundo. Fenómeno inevitável na história da humanidade que foi aproximando o mundo através da troca de bens e produtos, informação, conhecimento e cultura.
Apesar da multiplicidade de definições propostas, ainda assim é possível identificar características transversais às mesmas. De acordo com Steger (2003) são visíveis quatro características: a criação de novas redes sociais e actividades que superem cada vez mais a política tradicional e as fronteiras económica, cultural e geográfica; a expansão e alongamento das relações sociais, actividades e interdependências; a intensificação e aceleração das trocas e actividades sociais e por último a criação, expansão e intensificação das interligações e interdependências sociais em níveis que não apenas o objectivo e material.
Entre outras dimensões, como a política, social, cultural, a presente dissertação abordará a dimensão económica da globalização. A dimensão económica refere-se à crescente interdependência das economias mundiais, consequência da integração do CI de serviços e mercadorias, dos fluxos de capital e da proliferação de tecnologias.
De acordo com Frankel (2000), nos últimos cinquenta anos o CI e o fluxo de capital estrangeiro têm-se tornado cada vez mais importantes, sendo os principais factores que conduziram à integração económica. As principais causas por trás do crescimento do comércio e sua contribuição para o desenvolvimento mundial, e da integração das economias estão relacionadas com a diminuição das barreiras ao comércio, o investimento directo estrangeiro (através de acordos comerciais e de investimento), as medidas de apoio (por exemplo as preferências comerciais) e o uso estratégico de políticas (UNCTAD, 2008).
As principais forças motrizes apontadas como responsáveis pela proliferação do fenómeno da globalização são as inovações tecnológicas e a restruturação das políticas de foro económico. Ao nível das inovações tecnológicas estão as invenções que permitiram o aumento da rapidez de transporte e comunicação e o decréscimo dos custos associados. Shangquan (2000) afirma que o actual custo de transporte marítimo é metade do verificado em 1930, o de transporte aéreo 1/6 e o de comunicações 1%; outros dois aspectos referidos por WTO (2008) são a alteração nos métodos de produção (permitiu o desenvolvimento de novos produtos comerciáveis) e o aperfeiçoamento do processo produtivo (tornando-o mais eficiente) e a passagem do carvão para o petróleo (fonte de energia abundante e barata que permitiu a integração dos países do Médio Oriente na economia mundial). No que toca à reforma das políticas económicas, estas resultaram na desregulamentação e na redução/eliminação das restrições ao CI e às transacções financeiras.
UN (2004) aponta quatro factores como potenciadores da globalização nos últimos anos, comércio, capital, comunicações e transporte, ressaltando ainda o facto de haver uma forte sinergia entre os mesmos. De facto, a expansão do comércio cria maior procura de capital, transporte e meios de comunicação, o que aliado às constantes melhorias tecnológicas contribui para uma maior eficiência do comércio.
No entanto, e à parte das vantagens apresentadas pela globalização, esta temática tem sido rodeada de controvérsia devido à distribuição assimétrica dos seus benefícios e dos impactes negativos que acarreta para alguns países. Entre as consequências estão a disparidade de rendimentos, os desafios ambientais, a perda de emprego e a vulnerabilidade a choques económicos.
De acordo com Collier, Dollar, & WBG (2002) muitos países pobres têm ficado à margem da economia mundial, o que significa que a globalização não tem funcionado. Tal deve-se ao facto de estes serem deficitários em relação a infra-estruturas e recursos para melhoria das tecnologias de produção, o que impossibilita-os de competir com mercados desenvolvidos, ficando assim dependentes de exportações de produtos primários. Aliado a estas evidências, existe também o facto de os mesmos correrem o risco de não se integrarem na economia mundial devido à queda do preço dos produtos e às barreiras ao comércio. De acordo com Collier et al. (2002) independentemente do facto dos países menos desenvolvidos estarem a caminhar no sentido da abertura económica, continuam a enfrentar o proteccionismo dos países ricos. A falta de acordos de cooperação regional e internacional é apontada também
como um obstáculo, uma vez que não permite o livre fluxo de mercadorias, serviços e pessoas. Outro factor que conduz à marginalização destes países está relacionado com o decréscimo na procura de mão-de-obra não qualificada, abundante nestas economias, e a diminuição de salários.
Dadas as limitações e constrangimentos apresentados verifica-se a necessidade de melhoria em determinadas áreas. Assim, para gerir o processo de globalização, de forma a tirar proveito dos benefícios e reduzir os riscos e consequências negativas, é necessário uma preparação prévia para que os países se integrem economicamente a nível global. Neste sentido destaca- se a ajuda prestada pelas organizações internacionais. Cumulativamente, verifica-se a necessidade de actuação ao nível das políticas, reformando-as caso se verifique a necessidade, assegurando a sua coerência e transparência, ou seja a boa governação. Assim, é necessário que os Governos dos países sejam transparentes, incorruptíveis e competentes. Collier et al. (2002) elaborou um programa de acção, o qual contém sete áreas de intervenção, para que os países pobres possam beneficiar da globalização: o desenvolvimento de uma ronda de negociações sobre comércio, a condução a um clima favorável de investimento nos países subdesenvolvidos, o desenvolvimento e melhoria dos serviços de educação e saúde, a protecção social adaptada a um mercado de trabalho mais dinâmico, o aumento da ajuda externa, a redução da dívida e por fim as questões ambientais relacionadas com os gases com efeito de estufa (GEE) e o aquecimento global.