Para finalizar esta seção, discutimos os empréstimos. O grupo 4 de alternância é composto por empréstimos de outras línguas, ou seja, itens não latinos. Aqui existem diversas terminações, mas em especial as palavras terminadas em AR, ER e EL. As palavras majoritariamente provém o inglês e o árabe.
AR Nácar – árabe Agar – inglês Alcáçar – árabe Alfâmbar – árabe Almocávar – árabe Almogávar – árabe Drácar – escandinavo Safar – árabe Mudéjar – espanhol Tênar – grenlândico Almíscar – árabe Aljôfar – árabe Almôfar – árabe Dólar – inglês Açúcar – árabe Lúgar - inglês Óscar - inglês ER Acéter – árabe Africânder - língua Alcácer – árabe Alexander – inglês Báfer – inglês Tênder – inglês Bécher – alemão Cantiléver – inglês Éster – francês Gêiser – islandês Bíter – inglês Clínquer – inglês Clíper – inglês Esfíncter – grenlandico
Líder – inglês Píer – inglês Bôer – holandês Bóxer – inglês Buldôzer – inglês Pôlder – francês Pôquer – inglês Pôster – inglês Cheesebúrger – inglês Cúter – inglês Hambúrger – inglês Cáiser – alemão Cânter – inglês Gângster – inglês Máster – inglês
Máuser – nome próprio Quáquer – inglês Táker – alemão Poliéster – inglês Suéter – inglês Píper – nome Rangífer – nome Sínter – inglês Tíner – inglês Zíper – inglês Pulôver – inglês Repórter – inglês Revólver – inglês Zoster – alemão EL Jângal – inglês Arrátel – árabe Diesel – inglês Níquel – alemão Guímel – hebraico Rímel – francês Túnel – inglês Brístol – inglês DEMAIS TERMINAÇÕES Mártir – grenlandico Flúor – francês
Baiânin – nome de religião
Debrífim – inglês Ebômin – iorubá Aligátor - inglês
O léxico do português é composto por um conjunto nuclear de termos da língua, aqueles que apresentam os padrões de construção esperados, que, portanto, respeitam as regras ou restrições de silabificação e acentuação, e por um grupo que apresenta irregularidades, como em toda língua. Entre essas irregularidades, situa-se o empréstimo linguístico, que tem uma extratificação histórica. A estratégia mais comum de adaptação de palavras do inglês para o português é a epêntese para adequação à estrutura silábica e à regra de acentuação da língua. Isso pode ser verificado em palavras como clube (de club, em inglês.
Datação do termo em português: século XVIII19), futebol (de football em inglês, originalmente com acento na segunda sílaba. Datação: século XIX), completamente ajustados ao sistema. Atualmente, é cada vez mais comum empréstimo de língua inglesa sem qualquer tipo de adaptação, seja de estruturação silábica seja de padrões de acentuação, sobretudo na área de tecnologia: mouse, touchscreen, Bluetooth, input e output (datação: século XX).
Processos de adaptação de empréstimos são descritos em diversos estudos da Fonologia dos empréstimos, como o de Kenstowicz (2006), que trata da adaptação de termos emprestados do inglês em línguas tonais como o yorubá. No entanto, o que vem sendo mais comum no português em tempos atuais é a não adaptação e, por esta razão, esses itens apresentam irregularidades com respeito às regras ou restrições da língua receptora.
Itô e Mester (1999, 1995), ao discutirem a estrutura do léxico fonológico do japonês, estabeleceram estratos: o das palavras nativas, que compõem o vocabulário central e o dos empréstimos, que passam por diversos estágios de assimilação. Os autores referem esses estratos como ‘vocabulário nativo’, empréstimos assimilados’, ‘vocabulário estrangeiro’ e aos últimos atribuem rótulos que identificam a origem dos termos.
Itô e Mester (1999) destacam ainda que,
“enquanto a origem de um item lexical consiste em informação etimológica sem qualquer relevância para a gramática sincrônica, essas classificações frequentemente exercem um impacto sincrônico pois elas refletem, mais ou menos precisamente, uma divisão do grupo total de itens lexicais em subgrupos distintos cujos membros comportam-se diferentemente com respeito a diversos critérios dentro da gramática, incluindo a observação de restrições de estrutura morfêmica, combinação morfêmica e alternâncias morfofonêmicas” (ITÔ; MESTER, 1999, p. 1)20.
Uma das estruturas oferecidas pelos autores é a seguinte:
Figura 40 – Estrutura do sublexico paralelo
Lexicon
Sublexicon-1 Sublexicon-2 Sublexicon-3 Sublexicon-4 Native Established Loans Assimilated loans Unassimilated loans Fonte: ITÔ; MESTER, 2004, p.553.
19 Datação dos termos na língua portuguesa conforme o dicionário eletrônico Houaiss, 2009. 20 Tradução minha.
Itô e Mester (1995), em um estudo cuidadoso sobre o léxico do japonês, propõem uma estrutura de organização considerando centro e periferia dentro da língua, conforme a fig.41:
Figura 41 – Estrutura de organização de centro e periferia Lex max “Unassimilated loans” Lex 2 “Assimilated foreign” Lex 1 “Established loans” Lex 0 (= “native”)
Fonte: ITÔ; MESTER, 1995a,b, apud ITÔ; MESTER, 2004, p.553.
A estrutura na figura 41 demonstra que quanto mais próximo ao centro – Lex 0 – menor o número de violações de restrições em que um item incorrerá, pois esse é o estrato mais interno e que tem as formas mais nativas. Por outro lado, quanto mais perto da periferia, representada por Lexmax, maior a quantidade de violações. Ou seja, nesse estrato estão os itens que respeitam o menor número de restrições.
Kiparsky (1968) discute o fato de que as palavras do léxico certamente não são empacotadas em um grupo ou outro, sejam quais forem os rótulos ou esquemas que se criem para representar essa divisão, mas é fato estabelecido que elas apresentam graus diferentes de nativização.
Retomando nossa análise, o grupo de empréstimos mencionado como grupo 4 de alternânica compreende palavras localizadas na periferia do léxico do português, uma vez que tais palavras não passam por processo de assimilação, mas conservam os padrões da língua de origem. Assim, sobre a sílaba final fechada não incide o acento, como não ocorria nas línguas de origem de tais empréstimos. Novamente, como ocorre nas irregularidades anteriormente exploradas, as palavras desse grupo são incorporadas às geradas pela Regra Geral (b).
Há adaptações para além do padrão acentual que ocorrem em um ou outro termo, como qualidade de vogal que não existe no português e é assimilada em outra categoria
existente na língua, ditongos que sofrem monotongação no processo de empréstimo, entre outras. Desse modo, os itens poderiam ocupar uma das duas posições mais periféricas da língua, Lex2 ou Lexmax, como propostas por Itô e Mester (1995a,b apud ITÔ; MESTER, 2004, p.553). A diferença entre elas não será estabelecida neste trabalho. Tratamos as palavras no português como pertencentes ao léxico nativo, a itens adaptados ou a empréstimos não- adaptados, reduzindo o esquema a 3 níveis, tomando como parâmetro apenas o acento.
No primeiro deles, Lex 0 (fig.41), estão itens nativos como ‘casa’, ‘anel’, ‘anzol’, ‘colher’ e ‘marrom’, entre outros. São palavras que satisfazem o maior número de restrições, especialmente as mais altas na gramática da língua, como TROCHEE e *APPEND. No segundo grupo, Lex 1, estão os empréstimos que passaram por adaptação e estão completamente incorporadas ao primeiro grupo, pois apresentam os mesmos padrões, exceto pela origem. Termos como os citados ‘futebol’ e ‘clube’ se encaixam aqui. E no terceiro grupo, Lexmax, mais próximo à periferia, estão os itens que violam o maior número de restrições, como ‘tênder’, ‘pálmer’, ‘zíper’, ‘flúor’ e ‘debrífim’. Alguns desses últimos apresentam adaptações menores, no nível dos segmentos, mas mantém o padrão acentual da língua de origem.
Esse grupo de palavras, embora não passe pelas regras de acento do português, apresenta acento na sílaba pré-final, o que coincide com o que ocorre com os itens sustentados pela Regra Geral (b) de acentuação. Essas palavras são, portanto, incorporadas ao grande grupo de palavras que apresentam a mesma estrutura via regra, apesar da sílaba fechada que neste caso se comporta como leve. Alguns empréstimos citados nesse subitem são tão comuns, tão frequentes na língua portuguesa, que por vezes é até difícil pensar que tais palavras não tenham sido criadas na nossa língua21.
Novamente no caso dos empréstimos, a consoante final não contribui para o peso. A razão pela qual isso ocorre é que a palavra não é reanalisada pela regra de acento em português. Portanto, se a consoante figurava como não portadora de peso na língua de origem ou se o peso não era relevante para a atribuição de acento, essa característica da sílaba também não terá papel aqui. É ativada a fidelidade de acento, responsável por manter o acento na posição de origem.
Propomos, em seguida, uma organização dos dados discutidos neste trabalho na estrutura do léxico do português, sem estabelecer a diferenciação entre graus de adaptação.
Figura 42 – Estrutura de organização de centro e periferia com dados do acento em português Lex max
“Nácar, almíscar, dólar, acúcar, acéter, cantiláver, líder, píer, revólver, diesel, túnel”
Lex 1
“coragem, nariz, feroz22, abalável, áxil, adesivagem” Lex 0
“casa, carta, borboleta, parede, animal, anel, anzol, barril, azul, alecrim, batom, comum, altar, elixir, amor, bodas, pires, vírus, abacatal, baixel, asnil, linhol, bodeguim, alimentar, abridor, folgaz, acidez, perfuratriz”
O esquema sugerido representa a divisão entre vocábulos que são formados pela gramática geral da língua sem a necessidade de indexação (Lex0), as formas mais nativas, as palavras que são derivadas da inclusão da restrição indexada, que permite a sua seleção, (Lex1) e, finalmente, os termos emprestados, que estão na periferia do sistema e não obedecem às restrições da língua, sendo apenas incorporados a um grupo gerado com as mesmas características por analogia.