1.5 NOU 2019: 9 Fra kalveskinn til datasjø – ny lov om samfunnsdokumentasjon og
1.5.1 Bakgrunn og mandat for Arkivlovutvalet
Esta seção está dividida em 2 subseções: na subseção 4.3.1, discutiremos a análise quantitativa; na subseção 4.3.2, discutiremos a análise semântica e os tipos semânticos encontrados no corpus.
4.3.1 Discussão da Análise Quantitativa
Pautando-se pelo aporte teórico da Tipologia da Ordenação dos Constituintes de Greenberg (1966), analisamos a ordem do adjetivo em relação ao nome no Português. Seguindo essa linha, muitos trabalhos já foram realizados sobre a ordem AN e NA nas línguas românicas: para o Português, Cohen (1989) analisou os dados dos séculos XIV ao XX; Nobre (1989) os dados da fala do Rio de Janeiro; Rezende (2008) os dados rurais; para outras línguas românicas, Totaro (1998), (2007) analisou o Espanhol e o Italiano, respectivamente; e Lima (2003) o Catalão.
A presente dissertação deu sequência a esses trabalhos a partir de dados novos, advindos da transcrição de entrevistas orais da fala de moradores situados no continuum ‘mais rural’ conforme propõe o trabalho de Bortoni-Ricardo (2004), explicitado na seção 2.6. São dados diferenciados porque esses falantes, além de serem bastante rurais, estão inseridos em uma rede social densa e múltipla, constituída de pessoas que se conhecem mutuamente e possuem algum grau de relacionamento. Ademais, são falantes com uma linguagem bem peculiar, voltada ao discurso laudatório e religioso.
Após analisarmos exaustivamente esses dados transcritos e realizarmos a tabulação, obtivemos o padrão esperado de predominância da ordem NA, conforme apontado em trabalhos anteriores. Nessa quantificação geral, a ordem AN obteve apenas 7% (11/148), enquanto a ordem NA predominou esmagadoramente com 93% (137/148) de itens lexicais pospostos.
Diante dos resultados, observamos que o Universal 19 de Greenberg (1966) – “quando a regra geral é que o adjetivo descritivo segue, pode haver uma minoria de adjetivos que
geralmente precede, mas quando a regra geral é que adjetivo descritivo precede, não há exceções” – é constatado nos dados rurais, uma vez que a maioria dos adjetivos encontra-se em posposição e um número reduzido de adjetivos vem em anteposição. Sabemos que nessa perspectiva universal há uma supergeneralização desse parâmetro para as línguas românicas e, portanto, não ocorre detalhamento de nenhuma língua específica.
Já em nossa análise detalhamos ambas as ordens. Quando focalizamos a ordem AN, observamos que os 11 adjetivos diferentes encontrados se combinavam a diferentes nomes, perfazendo 74 ocorrências. Em anteposição, 3 adjetivos e seus respectivos equivalentes semânticos obtiveram o maior número de ocorrências: santa e sua variante são com 26 ocorrências; bom e seu superlativo melhó com 22 ocorrências; grande e seu superlativo maió com 13 ocorrências, conforme exemplos, “São Luís”, “Santa Cruz”, “Santa Margarida” “Boa Esperança”, “boa janta” “( a d)as melhó casa”; “um grande interesse do sujeito”; “maió parte”.
Dentre esses adjetivos antepostos, vimos presentes os dois itens gatilhos Bom &
Grande analisados por Cohen (1989), os quais eram altamente frequentes em anteposição até
o século XVIII. Outros autores também perceberam a existência de itens gatilhos ocorrendo em anteposição: Totaro (1998) verificou ‘Gran’ e ‘Buen’ para o Espanhol; e Lima (2003) ‘Bon’, ‘Gran’, ‘Noble’, ‘Notable’ e ‘Bel’ para o Catalão.
Os demais adjetivos em anteposição – belo, úrtima, falicido, única e nova – registraram poucas ocorrências. Úrtima~útima ocorreu nos sintagmas “(n)a útima hora”, “meu úrtimo fio”, “(d)o meu úrtimo marido”, “a úrtima reunião”; belo no topônimo “Belo Horizonte”; já o participial enfático falicido apareceu nos sintagmas “o falicido meu pai”,“os dois falicido meu avô”; única ocorreu em “a única coisa”; e nova em “ a nova luiz”.
Na análise, também sobressaíram a presença de estruturas cristalizadas – aquelas em que adjetivo e nome perderam a propriedade de composição (denominadas ‘compostos’ por Cohen (1989)); e de estruturas semicristalizadas – aquelas que não têm mobilidade, mas ainda nome e adjetivo possuem independência de sentido. Já esperávamos a presença de estruturas cristalizadas na ordem AN, uma vez que se refere à ordem preferencial de colocação do adjetivo até o século XVIII e, portanto, trata-se da ordem que retém o padrão anterior do Português (Cf. COHEN, 1989). Verificamos que a anteposição constitui-se, majoritariamente, de compostos e estruturas semicristalizadas totalizando 67,6% (50/74), restando apenas 32,4% (24/74) para os demais adjetivos. Apesar de outros trabalhos analisados e resenhados nesta dissertação mostrarem uma ordem AN produtiva, muito embora também haja a presença de
SNs cristalizados, nesta análise, fica claro, o predomínio de estruturas cristalizadas, caracterizando o perfil da anteposição.
Diante desse quadro, a alegação de Lehmann (1972) de que nas línguas românicas um pequeno número de adjetivos mais comuns, ‘cerca de uma dúzia ao todo’, figura em anteposição parece se confirmar. Tal constatação contraria as afirmativas de Cohen (1989; 1997) a despeito da posição do autor de que a anteposição é um processo ainda bastante produtivo no Português.
Na ordem NA, por sua vez, ao ser focalizada, fica patente sua predominância quantitativa sobre a ordem AN nos dados rurais aqui analisados e, portanto, esta análise está em consonância com as outras análises propostas para o Português e línguas românicas, conforme já dito. Nestes dados, a recorrência de adjetivos também figura em posposição, com a combinação de 64 itens lexicais diferentes (84,2%). Destes, os que mais sobressaíram na análise foram bom e seu superlativo melhó~milhó com 11,3% de ocorrências (52/461);
grande e seu superlativo maió com 6,3% (29/461); católica com 6,1% (28/461) e velho com
4,8% (22/461). Além desses itens, houve também a recorrência significativa de outros adjetivos em posposição, a saber, adventista, novo, intero, bunito, dorada e piqueno. Em posposição, complementarmente, ocorreram adjetivos que não se repetiram no corpus, distribuídos em 73 itens lexicais, totalizando 15,2%.
Como se observa, nesta análise, os adjetivos bom e grande são recorrentes em posposição, apesar de a bibliografia consultada demonstrar que são adjetivos típicos e predominantes da anteposição. Nesse sentido, consideramos a alta ocorrência desses dois adjetivos, que geralmente ocorrem em anteposição, inesperada na ordem NA.
Em posposição, as estruturas cristalizadas e semicristalizadas também ocorreram, embora com uma frequência menor de 22,6% em relação à anteposição, conforme exemplos, ‘muito gente boa’, pressão arta’, ‘mãe sortera’. Como explicitamos no item 3.2.1.1, dois fatores contribuem para a formação dessas formas que vão ficando fixas em determinada posição: (a) quando adjetivo e nome são colocados em contiguidade no eixo sintagmático, um irá modificar o outro, criando a ‘situação de modificação’; (b) quando há alta frequência de uso desses sintagmas, nome e adjetivo vão perdendo a individualidade semântica até fundirem-se. Como se vê, embora tenha considerado que o perfil da anteposição seja caracterizado por essas estruturas rígidas, a rigidificação das estruturas não é exclusiva da ordem AN.
Na análise da ordem NA, muitas características dignas de menção emergiram, tais como, i) a presença de adjetivos participiais em sua maioria pospostos; ii) a ocorrência de intensificadores; iii) os registros de dois adjetivos contíguos no SN. No primeiro caso, os participiais, dada a variação de itens lexicais, destacaram-se em meio aos adjetivos pospostos, com um total de 39 adjetivos diferentes, exemplificados nos seguintes sintagmas: “uns pé de café sartiado”, “a cuzinha muito bagunçada”, “a família criada”, “um lugá muito apertado”. O segundo apontamento refere-se à ocorrência expressiva de intensificadores antecedendo o adjetivo, vistos em exemplos como “um terrero muito limpim”, “um insinamento religioso
muito bom”, “ a pessoa muito bondosa muito caridosa”, “a coisa mais difíci’”, “broinha
tão gostosa”. No terceiro caso, encontramos 13 ocorrências de dois adjetivos contíguos
pospostos, modificando um mesmo nome, tais como, “ a casa grande arta”, “essas pessoa mais rico mais controlado”, “(n)essa casa bunita virdinha”, “essas casa antiga muito
grande”. Nesses casos, podemos evidenciar que a fala desses moradores é bastante peculiar
com a ocorrência de estruturas bem características. 4.3.2 Discussão da Análise Semântica
Com base na análise proposta, foram considerados os estudos tipológicos que levam em conta a semântica, iluminada pelos estudos de Waugh (1977), explanados na seção 3.1. Seguindo esse pressuposto, registramos os casos de ‘pares quase mínimos’ em que a oposição de A e N demonstra diferença de sentido. Essa oposição é pouco habitual nos dados, encontramos apenas três casos: ‘bom lugá’ versus ‘um lugar bão’; ‘muito boa pessoa’ versus
‘pessoas muito boa’ e ‘( a d)as melhó casa’ versus ‘ as casinha melhó’. Nesses exemplos, as
combinações de nomes com adjetivos denotam ‘valor’ e apresentam uma significação mais frouxa, ou seja, a compreensão do significado do par depende da própria posição, do valor lexical e gramatical e do contexto, conforme explicitado por Cohen (1989).
Conforme a análise propõe, realizamos a distribuição dos adjetivos em classes, tanto em anteposição quanto em posposição, seguindo os pressupostos de Dixon (1977; 2004) e Cohen (1989).
Em anteposição, registramos 8 classes semânticas: religião, dimensão (mensurável),
dimensão (graduável), idade, valor, propriedade física, quantificação e posição. Constatamos
que os tipos que mais agregaram adjetivos combinados a diferentes nomes foram as classes que denotam religião, dimensão (graduável) e valor. Essas classes incluem muitos itens lexicais na medida em que (a) a classe Religião insere os hagiotopônimos (nomes de santos e,
por extensão, a santidade, o sagrado e, finalmente, derivados da religião), os quais já estão cristalizados em anteposição; (b) a classe dimensão (graduável), composta pelos itens ‘maió’ e ‘grande’, antepõe-os numa tentativa de desambiguar esses adjetivos quando estão acompanhados de nomes que podem ser ‘graduáveis’; (c) a classe valor, por ser uma classe subjetiva, tem como ordem ‘natural’ a anteposição. Como podemos ver, a anteposição não é privilégio somente dos adjetivos de valor, conforme bem explicita Cohen (1989).
Verficamos ainda que, em anteposição, esses mesmos tipos semânticos – religião,
dimensão (mensurável), valor – também são os que mais inserem estruturas cristalizadas e
semicristalizadas. Em especial, notamos que a classe que denota religião, por sua vez, se constitui exclusivamente de compostos (hagiotopônimos).
Apesar de considerarmos 8 classes na ordem AN, uma nos pareceu controversa – a
posição – na qual está inserido o item lexical ‘úrtima~útima. Observamos que, embora a
maioria dos dicionaristas classifique ‘último(a)’ como ‘adjetivo’, há gramáticos como Rocha Lima (2002, p. 107) que incluem ‘último(a)’ na classe dos numerais ordinais por sua propriedade inerente de ordenação. Ainda segundo o autor, ‘último(a)’ é um numeral ordinal que ‘não possui um cardinal correspondente’. Nesse sentido, devido à peculiaridade desse item lexical, sua exclusão dos dados seria compreensível.
Em posposição, registramos um total de 16 tipos semânticos: religião, dimensão
(mensurável), dimensão (graduável), idade, valor, propriedade física, quantificação, posição, grupo social, temperatura, sabor, cor, propensão humana, velocidade, dificuldade e qualificação. Essa maior diversidade de tipos semânticos é justificável dada à variedade de
itens lexicais constantes nessa ordem. Dentre essas classes, as que agregaram mais combinações de itens foram aquelas que indicaram dimensão (mensurável), idade, valor,
propriedade física. No que tange a essas classes, constatamos que (a) a classe denotadora de dimensão (mensurável) apresentou muitos itens, conforme já era esperado, devido à tentativa
de desambiguar os adjetivos que estão inseridos em sintagmas que possuem um significado que pode ser ‘medido’; (b) a classe idade, apesar de ocorrer majoritariamente em posposição, parece conter também itens que cumulam o traço ‘valor’, como por exemplo, um casaréu
grande véi; (c) a classe valor, normalmente anteposta, inovou em nossa análise ao vir com
uma extensa variedade de itens em posposição; (d) a classe propriedade física, a qual inclui muitos participiais, ocorreu normalmente posposta.
Observamos que os tipos semânticos que indicam cor, grupo social, temperatura,
posposição. A despeito de alguns desses tipos, Cohen (1989) assinala que as classes que expressam sabor e temperatura possuem significado ‘objetivo’ e vêm em posposição. No que se refere à ‘cor’, a autora explica que nessa classe cada adjetivo tem um significado preciso, tal como ‘amarelo’, ‘vermelho’, não dependente do contexto, por isso vem posposta no Português Atual.
Apuramos também que as classes que incluem estruturas cristalizadas e semicristalizadas em posposição são aquelas que indicam dimensão (mensurável), valor, cor,
propriedade física, grupo social, sabor e religião. Dentre esses tipos, a classe religião
sobressaiu com um número expressivo de estruturas semicristalizadas, as quais ‘caminham’ para a cristalização. Notamos que o discurso religioso dos falantes rurais de Luisburgo possibilita a formação dessas estruturas que geralmente compõem essa classe semântica. Rezende (2008) corrobora essa análise, pois assinala que o discurso religioso cristão motiva a cristalização das formas.
A análise proposta demonstrou que uma variedade de tipos semânticos é registrada na fala dos moradores rurais de Luisburgo. Em posposição, há o maior registro de classes (16 tipos), justificada pelo maior número de adjetivos (137 itens lexicais). Em anteposição, apesar da presença de poucos adjetivos (11 itens lexicais), há um número apreciável de classes (8 tipos), ou seja, quase uma classe para cada adjetivo.