“Se eu fosse um arqueólogo, eu iria viajar pelo mundo à procura de relíquias inestimáveis. Eu conheceria as pirâmides, as esfinges e os sarcófagos.
Eu atravessaria os desertos, visitaria o pólo norte e pularia para o pólo sul, passando pelo Equador e pelo Chile, depois eu passaria no Japão, “hum”, só de pensar me deu uma vontade louca de comer peixe.
Ah! Mas então seria melhor eu ir para o Amazonas, eu poderia pescar e caçar com os índios, usando arco e flecha, sarabatana e flechas grandes, eu estaria realizando um sonho de infância, mas mesmo assim o que eu queria mesmo era conhecer a Grécia, eu simplesmente adoro a mitologia de lá; Afrodite, Medusa, Zeus, minotauro, Hércules e muitos outros personagens.
Ai meu Deus! Como eu adoraria fazer isso, e quem não adoraria, mas é como dizem: Querer não é pode e eu quero muito fazer isso, com certeza eu seria muito feliz.
Ah!!! Eu já ia me esquecer de dizer que faria tudo isso com um protótipo do 14 bis, só para sentir o vento do rosto.”
R. E.
Como já mencionamos, o indivíduo criativo possui elevado senso de humor, uma vez que brinca com idéias fazendo combinações incomuns. Notamos que o educando faz uso do humor em sua redação quando menciona que viajaria pelo mundo inteiro em um “14 bis”. Todos sabemos que esse tipo de avião não existe e é essa mistura de realidade e ficção que provoca o humor:
“Ah!!! Eu já ia me esquecer de dizer que faria tudo isso com um protótipo do 14 bis, só para sentir o vento do rosto.”
O aluno possui um nível elevado em fluência, uma vez que almeja visitar vários lugares se fosse um arqueólogo. Deixou fluir suas idéias em relação a lugares, não se limitou em ficar no Brasil. Ele atravessaria os desertos; do pólo norte pularia para o pólo sul; passaria pelo Equador, pelo Chile, Japão, Amazonas, Grécia. Como podemos observar, o aluno pensou em vários lugares e em todos esses lugares, se lá estivesse, faria algo diferente, como por exemplo: caçar e pescar com os índios no Brasil utilizando arco e flecha, sarabatana e flechas grandes:
“Eu conheceria as pirâmides, as esfinges e os sarcófagos.
Eu atravessaria os desertos, visitaria o pólo norte e pularia para o pólo sul, passando pelo Equador e pelo Chile, depois eu passaria no Japão, “hum”, só de pensar me deu uma vontade louca de comer peixe.”
Encontramos também a habilidade de fluência no segmento em que o estudante menciona querer conhecer na Grécia vários personagens: Afrodite, Meduza, Zeus, Minotauro, Hércules.
“...eu queria mesmo era conhecer a Grécia, eu simplesmente adoro a mitologia de lá: Afrodite, Meduza, Zeus, minotauro, Hércules e muitos outros personagens.”
Redação 6 – Se eu fosse um...?
“Se eu fosse um pernilongo, eu morreria esmagado e teria que chupar o sangue dos outros. Se eu fosse um político, eu seria preso, por causa do mensalão.
Se eu fosse um traficante, eu seria preso.
Se eu fosse um macaco, eu teria que comer bananas.
Se eu fosse D. PedroI, não poderia jogar vídeo game, nem assistir TV.
Se eu fosse uma telha, eu tomaria chuva, sol quente, e quebraria. O pior, é que as pombas, você sabe né?
Se eu fosse um livro, eu seria riscado, rasgado e depois jogado no lixo. Se eu fosse um peixe, eu seria engolido por um tubarão, ou pescado e comido.
Se eu fosse uma árvore, eu seria queimada, ou cortada ou até atingida por um raio em tempestade.
Eu acho que eu vou ser eu mesmo. É melhor.”
M.S.
Para Wechsler (1993: 49), o indivíduo criativo é em geral fluente no sentido de produzir mais idéias do que uma pessoa qualquer, sobre um determinado tema. Para a autora, quantidade gera qualidade. Diante dessas afirmações, verificamos que a habilidade de fluência está presente nesta redação, uma vez que o aluno apresenta várias idéias do que poderia ser: pernilongo, político, traficante, macaco, D. Pedro I, telha, livro, peixe, árvore. Ele mistura objetos, pessoas, animais, plantas e essa mistura revela o quanto deixa fluir suas idéias. É interessante observar que o educando cita até D. Pedro I, que não existe mais. Notamos que estabelece uma coerência com o título que deu à redação, uma vez que acrescentou ao título um ponto de interrogação “Se eu fosse um..?” O ponto de interrogação revela o quanto o aluno estava indeciso e repleto de idéias no que gostaria de ser. Vejamos:
“Se eu fosse um pernilongo, eu morreria.. Se eu fosse um político, eu seria..
Se eu fosse um traficante, eu iria...”
O paralelismo, recurso no qual se podem observar expressões ou frases com estrutura sintática idêntica, aparece nesta redação. O aluno utiliza esse recurso para melhor expor suas idéias e evidenciar na forma, o que o conteúdo nos transmite:
“Se eu fosse um pernilongo, eu morreria.. Se eu fosse um político, eu seria..
Se eu fosse um traficante, eu iria.. Se eu fosse um macaco, eu teria.. Se eu fosse D. Pedro I, não poderia. Se eu fosse uma telha, eu tomaria.. Se eu fosse um livro, eu seria.. Se eu fosse um peixe, eu seria... Se eu fosse uma árvore, eu seria...”
A ironia é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário da realidade com a intenção de zombar ou brincar. Observamos que o aluno utiliza essa figura de linguagem quando se refere aos políticos e traficantes, pois todos nós sabemos que nenhum político foi preso por causa do mensalão e nem todos os traficantes são presos. Por ser a afirmação do aluno inversa à realidade dos fatos, entendemos que haja ironia nessas frases. O uso dessa figura de linguagem é que provoca o humor:
“Se eu fosse um político, eu seria preso por causa do mensalão. Se eu fosse um traficante, eu iria preso.”
O humor também está presente no segmento abaixo, pois o aluno relaciona o tempo passado com o tempo presente, utiliza avanços tecnológicos para expressar que não estaria
satisfeito se fosse D. Pedro I, porque não poderia fazer uso desses recursos. É essa falta de lógica que cria o humor:
“Se eu fosse D. Pedro I, não poderia jogar vídeo game, nem assistir TV.”
Como vimos, perguntas retóricas são aquelas que numa conversação envolvem o interlocutor, porém não exigem resposta. Observamos que o aluno utiliza esse recurso para levar o leitor a imaginar o que fazem as pombas em cima do telhado. Notamos que o aluno utiliza a figura de linguagem: eufemismo, como recurso de humor. O leitor acha graça ao perceber que seriam “as fezes” da ave que o aluno não quis revelar. Vejamos:
“Se eu fosse uma telha, eu tomaria chuva, sol quente, e quebraria. O pior é que
as pombas, você sabe né?”
Outra figura de linguagem utilizada pelo aluno foi a gradação, ao fazer uso desse recurso mostrou ser lingüisticamente criativo. Notamos também que fica implícita uma crítica aos alunos que não conservam os livros didáticos. Vejamos:
“Se eu fosse um livro, eu seria riscado, rasgado e depois jogado no lixo.”
É interessante observar como o aluno apresenta suas idéias: inicia sempre com a mesma expressão “Se eu fosse um...” e depois coloca um fator negativo, como por exemplo “eu iria preso”. Esse tipo de construção revela a visão determinista do aluno em relação ao mundo que o cerca, pois se fosse um traficante só poderia ir preso; se fosse um pernilongo só poderia morrer esmagado; se fosse uma telha só poderia tomar chuva; se fosse um macaco só poderia comer bananas etc. Esse recurso, além de criar no leitor uma certa expectativa em relação ao que o aluno gostaria de ser, demonstra que o aluno não está satisfeito em ser alguém diferente. Mas é só no final que o educando revela que vai ser ele mesmo, porque seria melhor. Esse final inesperado é que provoca o humor.
Como podemos observar, esta redação contém as características consideradas criativas como o humor, a fluência e a analogia. Encontramos também muitas críticas: aos políticos que não são punidos; aos traficantes que não vão presos; ao desmatamento exacerbado e à má conservação dos livros didáticos.