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Utilizou-se como referencial teórico-metodológico o Círculo de Cultura de Freire por se configurar como uma metodologia libertadora, emancipatória e dialogal capaz de transformar o homem em um ser que participa da construção de sua história de forma autônoma, com liberdade, amor e diálogo. Este método possibilita a transformação do mundo através da conscientização, motivando o homem a assumir o papel de sujeito que cria e recria o existir a partir dos recursos que o viver lhe proporciona (FREIRE, 2005).

Ao proceder a uma descrição da literalidade da palavra Círculo de Cultura, tem- se: a palavra “círculo” significa que todos estão à volta de uma equipe, não existindo um professor, e sim um animador responsável em coordenar e animar as discussões, orientando a equipe, buscando pela participação de todos no processo educativo. Já o termo cultura, é importante esclarecer que denota a capacidade que o grupo tem de está em dinâmico movimento, proporcionando modos novos, próprios e coletivos de pensar. Portanto, é um espaço em que todos os sujeitos envolvidos aprendem que aquilo que constroem é outra maneira de fazer sua cultura e sua história (BRANDÃO, 2005).

Na sua origem, o Círculo de Cultura foi proposto por Freire para alfabetizar jovens, porém devido à relevância e amplitude deste método, fez com que despertasse o interesse de outras áreas do conhecimento em aplicá-lo nos seus estudos, dentre elas a Enfermagem. Saupe et al. (1998) evidenciam que o referencial de Freire é uma importante ferramenta que o enfermeiro vem utilizando para abordar as questões educativas, seja na educação formal, preparando pessoas nas escolas de ensino fundamental e médio e nas universidades, ou na informal, realizando programas de treinamento e capacitação de profissionais de Enfermagem ou de outras áreas, além de atividades de educação em saúde nos níveis individual, coletivo e comunitário (SAUPE, 1998).

Para Brandão (2005), o Círculo de Cultura do educador Paulo Freire culmina com a ideia de substituição de „turma de aluno‟ ou „sala de aula‟, por uma proposta sistematizada que visa a ensejar uma educação emancipatória, participativa e dialógica.

Para Monteiro (2007), o método de Freire constitui-se na formação de um grupo participativo, em que educador e educando pensam juntos, e ao mesmo tempo em que se ensinam, aprendem. A participação em todas as atividades permite a criação de um espaço de ação–reflexão–ação, troca de conhecimentos e oferta de informações dialogadas.

Freire (2005) afirma que a aplicação da metodologia do Círculo de Cultura requer que o animador esteja atento para o que se fala. As discussões, as conversas e as entrevistas, dentro ou fora do processo dialogal, refletem os temas da coletividade, seu modo próprio, solidário de pensar e viver.

O Círculo de Cultura, tomando por princípio norteador o delineamento do

“Método Paulo Freire” (LIMA, 1979), possui praticamente três fases:

Primeira fase: a investigação do universo vocabular. Nesta fase, o facilitador busca por aprender as palavras e os temas que os participantes já sabem, ou querem saber e o que precisam saber.

Segunda fase: a tematização. Compreende o momento em que os participantes codificam e descodificam os temas centrais de sua biografia, buscando pelo significado social e político, tomando consciência da sociedade em que vivem.

Terceira fase: a problematização. Fase da superação da visão mágica por uma visão crítica, em que o sujeito é capaz de promover transformações no contexto em que vive.

De acordo com Freire (2005), na etapa da problematização, os “temas geradores” são apresentados como situações-problemas codificados para a seguir serem descodificados em debates, proporcionando ao grupo a conscientização dos temas geradores a partir de um processo dialogal.

Jorge (1981), na obra “Ideologia de Paulo Freire”, disserta que o Círculo de Cultura é um método importante de problematizar. A problematização nasce da consciência que o sujeito adquire do mundo em que vive e de si mesmo. Esta consciência faz com que o homem transforme o contexto vivido e se coloque como sujeito de mudança de sua história.

Segundo Freire (1999), o Círculo de Cultura consiste em um lugar onde todos de forma coletiva elaboram o conhecimento. Lima (1979) afirma que a técnica proposta por Freire permite a elaboração do conhecimento decorrente de uma substituição de elementos sociais por elementos simbólicos: primeiro figurados, depois verbalizados oralmente, para chegar à leitura.

Fernandes (1994), referindo-se à Pedagogia de Paulo Freire, diz que o seu método une o conteúdo da aprendizagem com o processo de aprender.

As percepções humanas estavam nos objetos reais e ligados a elas estava o sistema de sinalização, isto é, as expressões verbais. A ação gráfica da verbalidade, era então, um subsistema de sinalização. O que o analfabeto não tinha segundo o entender de Paulo Freire e Jarbas Maciel, era a passagem do sistema de sinalização verbal para o subsistema gráfico. A montagem do subsistema deveria ser realizada pelo próprio educando, com instrumentos fornecidos pelo educador. Partia-se do fato que o analfabeto não era analfabeto na fala (FERNANDES, 1994, p. 155).

O Círculo de Cultura estabelece relações de aprendizagem em que o homem em um ato criativo torna-se sujeito de seu desenvolvimento com liberdade e autonomia, rompendo com os modelos rígidos de educação (FREIRE, 2005).

Consoante Freire (2008a), o Círculo de Cultura com seu processo dialogal extrapola os limites da alienação. Trata-se de uma pedagogia inovadora que proporciona um trabalho participativo pela fala e ação dos sujeitos envolvidos no processo de ensino- aprendizagem.

Conforme Boehs et al. (2007), o Círculo de Cultura denota espaço de diálogo, cujo objetivo é a descodificação da realidade dos participantes, fomentando uma aprendizagem no seu aspecto mais amplo, ou seja, a criação de espaços de reflexão, nos quais o homem começa a fazer a respeito do seu poder de transformar o mundo.

Martins (2009) enfatiza que os profissionais de saúde precisam viver experiências abertas juntos aos sujeitos para proporcionar-lhes, a partir de ações educativas, o desenvolver de atos criativos na construção do saber. O ato educativo é um importante recurso para a intervenção, devendo ser direcionado no sentido de buscar pela conscientização do sujeito por meio da apreensão da realidade, emponderando-o do papel transformador do contexto social e político no qual vive (FREIRE, 2005).

Diversas experiências desenvolvidas pela Enfermagem que já foram citadas anteriormente demonstram que o Círculo de Cultura é um referencial metodológico aplicável em outros campos, não se limitando somente à alfabetização de adultos. A problematização, norteada pela conscientização e pelo diálogo, contribui de forma significativa para elevar a autoestima do sujeito, incentivando-o a mobilizar-se em direção a uma ação emancipatória e sistematizada na busca pela justiça social.

5 METODOLOGIA