As primeiras mudanças relacionadas à associação entre ciência, progresso e ensino superior no Brasil, teve início, principalmente, quando, em 1931, o Governo Federal, por meio da primeira reforma educacional de caráter nacional, realizada pelo então Ministro da Educação e Saúde Francisco Campos, reconheceu a necessidade de criar e manter universidades brasileiras modernas, com objetivos de formação das elites tanto na área profissional e científica como na realização de pesquisas. Pesquisas essas, viabilizadas pela autonomia universitária e pela criação de órgãos de investigação científica70. Na opinião de Francisco Campos, a universidade deveria ser:
[...] uma instituição administrativa e educacional que une toda a educação superior sob uma única liderança intelectual e técnica, seja o seu ensino de natureza pragmática e profissional ou puramente científica, sem aplicação imediata, com o duplo objetivo de proporcionar à elite da nação um treinamento técnico, e criando ao mesmo tempo um clima propicio para que os talentos puristas e especulativos persigam a sua meta, indispensável par ao crescimento cultural da nação – a investigação e a ciência pura71.
69 SÁ, D.M. de. Notas sobre “Ciência e Cientistas do Brasil” In: LIMA, N.T & SÁ, D.M. de (Orgs).
Antropologia brasiliana: ciência e educação na obra de Edgard Roquette-Pinto. Belo Horizonte: Editora
UFMG, Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008, p.168. 70 MOTOYAMA, op. cit, p. 252-253.
Essas medidas levaram a ampliação das universidades no país e, como consequência, a absorção dos cientistas e da produção científica. Consolidando-se a partir dos anos 30, a universidade brasileira é considerada tardia, sobretudo, se considerarmos que a América hispânica já contava com universidades desde o século XVI72. Fato que levou Anísio Teixeira a criticar a deficiência do projeto nacional de educação brasileiro: “como aceitar que se tenha perdido todo o século XIX e cerca de um terço do Século XX para somente serem possíveis em 1934 e em 35 as primeiras universidades brasileiras com a Universidade do Distrito Federal e a Universidade de São Paulo?”73.
A expansão do sistema universitário chegou ao Nordeste mais precisamente no ano de 1946, com a fundação da Universidade do Recife, no Estado do Pernambuco. Logo vieram a Universidade do Ceará, 1954, a Universidade da Paraíba, criada em 1955 e Universidade do Rio Grande do Norte, em 1958. Todas estas criadas e organizadas por meio da incorporação de faculdades e escolas de nível superior, previamente existentes74.
De acordo com Motoyama, as diversas universidades que foram criadas na época eram “celeiros em potencial de pesquisadores e difusores da ciência”. Em particular, a Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, e que, por meio de sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, se tornou o principal centro de investigações científicas de alto nível no país, contrariando a visão corrente do imediatismo ao investir pesadamente na formação de pessoal “acreditando na potencialidade dos seus diplomados para a resolução de problemas de importância da nação”. Segundo Motoyama, a elite paulista já sabia que “para resolver questões difíceis, mais do que receitas e fórmulas mágicas, ter-se-ia de recorrer a homens e a mulheres qualificados e preparados para enfrentá-las com sucesso”75.
Importante observar que a série de artigos publicados no jornal A República segue criticando justamente a linha de acontecimentos narrada pela historiografia da ciência brasileira. De modo que, o último texto da série, intitulado Visão do Futuro, traz como solução definitiva para os problemas enfrentados pelo Rio Grande do Norte a “formação de homens com visão não só do futuro, mas, sobretudo, visão de conjunto”. Para isso, ressalta a importância da criação das Faculdades de Odontologia, Direito e Medicina, consideradas o primeiro passo para a organização da futura Universidade do Rio Grande do Norte: “com essa
72 JUNIOR, Carlos Newton. Breve Histórico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. In: JUNIOR, Carlos Newton (Org.) Portal da Memória: Universidade Federal do Rio Grande do Norte: 45 anos da
federalização (1960-2005). Brasília, DF: Senado Federal, 2005, p.22
73 TEIXEIRA, Anísio. Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1989, p. 89.
74 MOTOYAMA, op. cit., p. 253-257. 75 MOTOYAMA, op. cit., p. 258.
iniciativa mostrariam os pioneiros do movimento universitário do nosso Estado que têm vistas largas para o futuro e visão clara dos problemas fundamentais da nossa região”76.
No Rio Grande do Norte, as escolas e faculdades de ensino de superior eram tidas, sobretudo a partir da década de 1940, com o término da Segunda Guerra Mundial, como espaços primordiais para desenvolvimento científico e cultural do estado77. Os registros dos jornais da época evidenciam a importância dada a esses espaços na promoção da ciência local.
Em julho de 1956, o jornal A República publicava uma reportagem intitulada
Impressões sobre o progresso científico-cultural da cidade na qual, o Presidente da
Associação Médica do Distrito Federal, Álvaro Dória, em visita à Natal, se referia principalmente à qualidade das Faculdades, além de ressaltar o papel da Sociedade de Medicina e Cirurgia:
As instalações da Faculdade de Farmácia e Odontologia e as de Medicina, impressionaram-me sobremaneira, tanto em sua parte técnica, como pela eficiência pedagógica. As Escolas de Serviço Social, Doméstica e de Enfermagem, são outras instituições tidas como padrões dentro de suas finalidades. A Associação Hospitalar e a Sociedade de Medicina e Cirurgia, no plano científico têm contribuído com eficiência para o progresso cultural da cidade. Estimo que a terra potiguar continue nesse impulso progressista, muito embora lutando contra as adversidades da natureza78.
A reportagem do Jornal Tribuna do Norte, de janeiro do mesmo ano, intitulada Bem
impressionado o professor Oliviere com as instalações da Faculdade de Medicina, apresenta
os elogios que o professor italiano Luigie Oliviere, convidado a assumir a cadeira de Anatomia da Faculdade de Medicina, faz a citada instituição79. Outro texto do mesmo jornal, denominado Faculdade de Medicina de Natal, de março de 1956, escrito pelo médico pernambucano Edilton Sampaio, exaltava a importância desta instituição como a “expressão da cultura médico-científica” potiguar. Dizia também que a faculdade era para Natal “um novo passo em nova gigantesca estrada do seu progresso” e chamava o vestibular de “festa intelectual de marcada repercussão na ufanosa cidade”. No entanto, Sampaio chamava a atenção para a falta de amadurecimento da cidade se comparada aos outros centros do ensino médico brasileiro, como Recife, Rio de Janeiro e Bahia, mas acreditava que estudiosos
76 VISÃO DO FUTURO. A República, 28 jul 1956, p. 3.
77 O envolvimento do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial, por meio das cidades de Natal e Parnamirim, é para muitos historiadores um ponto determinante para o crescimento intelectual do estado. Esse crescimento ocorreu, segundo com o historiador Itamar de Souza, principalmente, porque “a presença de oficiais brasileiros e norte-americanos, especializados em diversos ramos da ciência e da tecnologia, possibilitou que as elites de Natal percebessem o atraso intelectual em que viviam”.
78 A República, Natal, 14 jul 1956. p. 3. 79 Tribuna do Norte, Natal, 4 jan 1956. p. 11.
potiguares estavam se esforçando para “engrandecimento cultural” da capital. E complementa: “O meio científico de proporções adequadas às condições da cidade, o campo hospitalar e o material humano, permitem uma esperança” 80.
À Faculdade de Filosofia era atribuída a responsabilidade de vencer a batalha da “renascença intelectual, cívica, moral, literária, científica” e formar professores e técnicos, sobretudo, de História e de Geografia para o Rio Grande do Norte81.
A Faculdade de Medicina era a instituição que mais recebia a atenção no que tange ao seu papel no desenvolvimento científico e cultural do Estado, principalmente por promover cursos, conferências e aulas com especialistas de outros estados:
[...] essa jovem Faculdade de Medicina, apesar de sua dificuldade de se organizar, apesar de encontrar dificuldade na arregimentação de recursos humanos e, sobretudo, de recursos materiais, apesar disso tudo, ela teve uma presença notável aqui no Nordeste, podendo se comparar às melhores faculdades que estavam funcionando no seu tempo82.
Onofre Lopes, médico e então diretor da Faculdade de Medicina, afirmava o papel fundamental dessa instituição para criação da Universidade do Rio Grande do Norte, no ano de 1958: “[...] e é preciso que se diga que foi a Faculdade de Medicina que deu o passo, que deu a origem, que foi o elemento catalisador para que aparecesse a Universidade do Rio Grande do Norte”83.
Diversas reportagens destacando a ação das escolas e faculdades eram publicadas quase que diariamente nos jornais locais, salientando, sobretudo, a importância desses espaços para a criação da futura Universidade:
Possuímos as unidades de Direito, Medicina, Odontologia e Farmácia, Filosofia, e andamos em vésperas de instalar as Faculdades de Ciências Econômicas e Engenharia.
Urge, no entanto, que esse esforço não sofra de continuidade, porque assim teremos em breve a Universidade de natal. Essa ideia da Universidade deve ser a oração mental de todas as horas, dos responsáveis pelo destino do ensino universitário entre nós. 84
Dias antes da data de fundação da Universidade do Rio Grande do Norte, o jornal A
República publicou um texto, intitulado Criação da Universidade, exaltando a importância
daquela instituição para o desenvolvimento científico e cultural do Estado.
80 Tribuna do Norte, Natal, 27 mar 1956. p. 3.
81 FACULDADE DE FILOSOFIA E A REFORMA DO ENSINO, Jornal A República, 08 março 1957, p. 3. 82 GURGEL, Tarcísio. (Org.). A memória viva de Onofre Lopes. 2. ed. Natal, RN : EDUFRN, 2007, p. 55. 83 Ibidem.
Vários Estados da federação possuem já suas universidades e o nosso não poderia ficar em segundo plano, não só porque dispõe de todos os elementos necessários à instalação desse conjunto de altos estudos que constituem a Universidade no sentido técnico do termo, como porque é dever precípuo do governo apoiar inciativas como essa [...].
A Universidade, centro mais desenvolvido de estudos técnicos e científicos há de incentivar também um maior intercambio cultural entre este e os demais Estados do país [...].85
1.5 A Universidade do Rio Grande do Norte – laboratório de projetos para o futuro