Esse primeiro núcleo foi por nós denominado: “A identidade do eu: todo mundo é igual” porque continha elementos na fala de Lívia que demarcavam a necessidade que ela possuía em firmar sua identidade em pé de igualdade com as pessoas que a rodeiam.
O núcleo de significação contempla os seguintes indicadores: A diferença em pé de igualdade;
Somos iguais porque aprendo e ensino aos outros; A evidência de que a deficiência existe;
Admiração por quem pode jogar futebol.
Durante nossa entrevista, Lívia nos foi dando elementos de que se vê como igual aos seus colegas de classe. Mesmo com a diferença estampada em função de seu comprometimento motor, ela procura o tempo todo reafirmar que a diferença não existe. Ao perguntarmos: [E você acha que a sua vida aqui na escola é diferente da vida das outras crianças?] Não. [Pesquisadora: Não? É... são todas iguais.] Tudo normal.
Quando questionamos se ela e seus amigos eram diferentes em algo, Lívia rapidamente nos devolve a pergunta: “De quê?” Foi quando dissemos que não sabíamos a resposta e era ela quem teria que nos dizer, assim:
Núcleo 1 – A identidade do eu: todo mundo é igual Lívia
110 Uns aprendem muito, outros não sabem ler, outros não sabem escrever, tem
muitos (incompreensível a fala) [Pesquisadora: Então tem o quê?] Muitas
diferenças. [Pesquisadora: Muitas diferenças, uns aprendem...] Ram, ram, outros não. [Pesquisadora: Outros não, uns sabem ler, outros não sabem...] Ram, ram.
Em outro momento conversávamos sobre o relacionamento de Lívia com uma colega de classe cadeirante, que não está mais na escola. Ela nos conta que não tinha muito contato com essa menina, não estabelecendo muitos diálogos. Ao perguntarmos se então não existia uma convivência muito próxima, Lívia diz que não e imediatamente nos fala que ainda hoje existem algumas divergências com seus colegas de classe:
E têm uns na minha sala que não me dou muito bem assim. [Pesquisadora: Por quê?] Mas é poucos. [Pesquisadora: São poucos que você não se dá bem na sua sala.] Porque é assim às vezes a pessoa me xinga e me bate aí eu vou lá e devolvo com a mesma moeda.
Neste momento Lívia faz um comentário debochado e diz ser igual aos seus colegas: “Eu xingo e bato eu sou igualzinha”.
E ainda explica que sua atitude é para que seus colegas não saiam impunes das agressões cometidas contra ela, e explica: “Porque assim se eu vier aqui falar [na coordenação] eles não vão poder xingar, bater, não vão fazer nada, só vai brigar, aí brigar não adianta nada, tem é que descer o cacete”.
Quisemos saber o porquê das discussões, se havia um motivo específico para que houvesse as brigas é quando ela responde: “Porque eu sou (risos) encrenqueira também! [Pesquisadora: Ah, você é danada também, você é encrenqueira!] E eles também são!
Perguntamos como era a relação de ensino e aprendizado com os seus colegas, queríamos entender como ela entendia essa possibilidade de ensinar e ser ensinada:
[Pesquisadora: E você acha que os seus coleguinhas podem te ensinar algo? Te ensinar alguma coisa?] Poderia... porque as vezes a professora passa a lição na lousa pra gente ir copiando, aí ela pede pra gente, pra gente ir lá e resolver, aí quando eu não consigo ou quando alguém não consegue, aí vai chamando um
por vez. [Pesquisadora: Entendi, um vai ajudando o outro... e você ensina
alguma coisa para os seus colegas?] Ensino. [Pesquisadora: Você ensina também.] Ram, ram. Só o que eu sei muito bem, né, porque tem coisa que é muito difícil.
Perguntamos se ela se saia bem na escola, responde que sim, porém assume que seu maior problema é ter pressa em função do medo que sente de acabar o tempo de duração da prova e assim não ter conseguido responder nada, desse modo, encontra uma “alternativa” para seu problema:
Núcleo 1 – A identidade do eu: todo mundo é igual Lívia
111 É o meu problema é a pressa que eu tenho medo de acabar e eu não fazer nada,
aí eu vou chutando, entendeu? [Pesquisadora: Você vai chutando?] É esse o
medo que eu tenho. [Pesquisadora: Mas você tem medo de não dar tempo?] Isso, é esse mesmo. Aí ela [a professora] falou com a minha mãe que pode falar pra mim que não precisa ter pressa que ela espera.
De um modo geral, Lívia diz ter um bom rendimento escolar:
Esses dias teve a de Português e a de Matemática, a de Português eu tirei 8,0 e a de Matemática uma eu tirei 9,0, 9,5 parece e a outra ela ainda não deu a nota. [Pesquisadora: Não saiu o resultado ainda]. É ela colocou 12 acertos 8 erros. [Pesquisadora: Certo]. Aí ela ainda não deu a nota. [Pesquisadora: Mas você se sai bem então?] Saio.
Lívia nos conta que há conteúdos que ela assimila melhor, já outros encontra certa dificuldade, mas de um modo geral diz aprender: “Aprendo agora estou estudando fração. [Pesquisadora: Fração... e como você tá achando que é aprender fração?] Ah, têm umas que é fácil, outras que é difícil... [Pesquisadora: É? Mas você está aprendendo?] Tô, devagarzinho, mas tô”.
Quisemos saber como era seu relacionamento com os coleguinhas, já sabíamos que com alguns ela não se dava muito bem, mas como era a amizade com os outros?
Eu tenho muitos. [Pesquisadora: Muitos amigos?] Muitos, principalmente na minha sala. [Pesquisadora: Na sua sala principalmente]. É. [Pesquisadora: Você se dá com a maioria das pessoas que estão na sua sala]. Com a maioria. [Pesquisadora: Entendi e esse relacionamento como que é esse relacionamento com os seus coleguinhas?] É bom.
[Pesquisadora: Vocês vão um na casa do outro, como é que é?] Ah, têm uma que vai que é em frente a minha rua, na minha rua não, em frente a minha casa que ela entrou no 2º ano parece e tem gente que é desde a 1ª série que tá comigo. [Pesquisadora: Já é uma turma que vem desde o comecinho]. É têm uns que são, no ano passado caiu todo mundo desse ano, caiu todo mundo. [Pesquisadora: Então já tem amizade de muito tempo]. É, já, desde a 2ª. [Pesquisadora: Certo]. E tem muito.
Tentamos resgatar um pouco de sua história, queríamos saber como é que Lívia tinha sido recebida na escola e ela nos responde: “Ah, eu não lembro porque foi há 4 anos atrás, eu estou aqui desde a 1ª série e eu não lembro”.
Lívia em mais de um momento, traz o futebol para a nossa conversa, é como se ela apresentasse admiração por quem pode praticar tal esporte, para tanto um dos momentos é quando ela diz que talvez a brincadeira que Natália [seu flashcard escolhido] mais gostasse de brincar seria o futebol:
[Pesquisadora: E do que ela mais gosta de brincar, do que você acha que a Natália [número 7] mais gosta de brincar?] Brincar assim... de futebol. [Pesquisadora: De futebol? A Natália é boa pra brincar?] Deve ser. [Pesquisadora: E você acha que os amiguinhos chamam a Natália pra brincar?]
Núcleo 1 – A identidade do eu: todo mundo é igual Lívia
112 Sim. [Pesquisadora: Chamam bem ela pra brincar de futebol, aceitam ela no futebol, bacana, ela joga bem?] Joga. [Pesquisadora: Será que ela faz muitos gols?] Ela é boa [risos].
Por fim, perguntamos o que deveria existir na escola para que as crianças assim como ela se sentissem melhor é quando ela nos responde que o que faltava era “uma escada rolante [...] Pra não precisar subir e descer...”.
O presente núcleo, portanto, traz elementos importantes para entendermos os sentidos de Lívia em relação às diferenças. Durante todo o tempo, ela apresenta conteúdos de que não há nenhuma diferença entre ela e seus amigos, para tanto traz frases do tipo: eu sou igualzinha; tudo normal; sou encrenqueira também! E eles também são!
Apesar de Lívia ter um comprometimento motor visível, em nenhum momento faz menção a sua deficiência, ao contrário, ela trata como se a deficiência inexistisse em sua vida. Afirmando o tempo todo que todo mundo é igual é como se Lívia estivesse negando a sua deficiência, seu comportamento revela uma negação da sua diferença.
O não falar de sua deficiência pode estar posto como um elemento constitutivo de seu sofrimento, o discurso não dito é também um discurso atrelado aos seus sentidos. Lívia convive no mesmo espaço com crianças que não apresentam deficiência e assumir diante de todos de que ela é diferente talvez seja pra ela uma tarefa bastante difícil. Amaral (2004) em sua afirmação: “[...] o sofrimento que acompanhou o desnudar-me enquanto pessoa deficiente, foi um dos mais brutais, que vivi” (p. 120) é revelador dessa condição de ser diferente e ainda mais agravante quando se é deficiente.
Apesar desse ocultamento de sua deficiência a diferença aparece meio que velada em alguns momentos de sua fala. Primeiramente destacamos o medo que Lívia possui de acabar o tempo destinado as provas e ela ainda não ter conseguido terminar as questões. Acreditamos que esse medo está atrelado a competição que estabelece com seus colegas, é como se ela tivesse que provar o tempo todo de que é capaz, de que realmente está em pé de igualdade com as crianças sem deficiência, não se admitindo assim ficar para traz nas atividades.
Em segundo lugar, o fato de ela não se lembrar como foi recebida na escola pode estar intimamente ligado ao fato de ela ter sido olhada pelos outros, com os olhos da diferença, fazendo com que ela ao longo do tempo, buscasse esquecer tais momentos. O ser diferente e deficiente implica muitas vezes o estar errado, determina um estigma
Núcleo 1 – A identidade do eu: todo mundo é igual Lívia
113 depositado pelos outros trilhando uma vida de sofrimentos; talvez por essa razão, Lívia busque esquecer e ocultar a sua deficiência, ainda que visível, mas em um primeiro momento é o único refúgio encontrado por ela para fugir de tal situação.
Para ilustrar tal sofrimento, trazemos Amaral para nos contar o que é ser diferente aos olhos do mundo e em particular pelo prisma do seu olhar:
Lembro-me de uma tarde em que passeava pela cidade de São Francisco. Numa das ruas, apinhada de pessoas fazendo truques e exibições em troca de dinheiro, uma grande caixa de papelão. De tamanho suficiente para abrigar um rapaz e sua clarineta, que, todavia, não eram vistos do lado de fora. À primeira vista, dois canais de comunicação com o público: uma pequena fenda, com as instruções para a introdução do dinheiro, e outra, bem maior – na verdade uma janela -, que se abria para que o jovem tocasse um solo à vista das pessoas. Brasileiramente, introduzi uma moeda de um cruzeiro. Imediatamente a clarineta soou de forma acusatória e a moeda foi devolvida, com grande impulso, por uma terceira abertura até então não notada. Rimos muito.
Do ponto de vista do músico, simplesmente o exercício de um direito: recusar a moeda diferente. Do ponto de vista da moeda, embora não se tratando de algo falso ou inacabado, o não ser aceita por não válida, e não válida por ser diferente.
E é como se eu fosse músico e moeda ao mesmo tempo, mas com uma dessemelhança fundamental, pois ser diferente implica em ser moeda não- corrente, mas não implica no exercício do direito de rejeitá-la.
Então, como conviver com o inaceitável? Negando? Tornando-se parte do museu de excentricidades da vida? Supervalorizando a diferença, tornando-a lucrativa?
Em relação à moeda, posso escolher exibi-la num chaveiro, ou até mesmo num estojo de veludo [...].
Como fazer qualquer uma dessas coisas se a moeda sou eu?
Sempre se pode enfatizar a riqueza de detalhes do lado perfeito. É o famoso: “feia, mas tão simpática”, “aleijada, mas tão inteligente, tão sensível, um rosto tão lindo...”.
A tendência então parece ser a de minimizar, às vezes a de negar o aspecto errado ou diferente.
Mas – grande impasse – ele continua existindo. Não se pode jogar um pó mágico sobre a perna paralisada, o rosto deformado, os braços retorcidos, e torná-los invisíveis. Não se pode jogar outro pó mágico e desencadear o funcionamento dessas partes. Não há pó mágico. Pó que nos faça driblar o tempo e o espaço em que vivemos, as pessoas que somos. Somos. Sou (2004, p. 45-46).
Desta feita, Lívia com a consciência de que não existe esse pó mágico que mude a sua condição de deficiente, acaba tentando omitir a sua deficiência e vai constituindo uma “identidade do eu” igualitária, a partir de aspectos que são efetivamente comuns e a tornam igual, como se isso fosse possível a todos nós.
Núcleo 1 – A identidade do eu: todo mundo é igual
Núcleo 2 – Todo mundo é igual, mas tem gente que é diferente