Lívia
119 ao dizer que: “A deficiência atinge de maneira avassaladora os deficientes das camadas populares, pois além de considerados improdutivos ainda não costumam ter seus direitos reconhecidos e respeitados” (p. 72).
E ainda:
Parece que muitas vezes a sociedade busca nas diferenças as justificativas para as desigualdades e se pensarmos que dentro das deficiências existem ainda categorias mais ou menos aceitas socialmente, inclusive pelas possibilidades ou dificuldades produtivas, podemos imaginar que um deficiente com uma condição que traga maiores limitações (físicas ou mentais, e pertencente às camadas menos favorecidas socialmente, raramente terá as oportunidades a que teoricamente teria direito (p. 72).
Ribas (2007) também afirma que o impacto causado pela deficiência depende da condição social que o sujeito ocupa assim:
Um paraplégico, que use cadeira de rodas, que viva numa família pobre e que more numa favela, certamente será mais deficiente do que outro paraplégico que, embora também use cadeira de rodas, viva numa família rica e more num luxuoso condomínio fechado e a sua casa seja adaptada para as suas necessidades (p. 17-18).
Assim, a escolha dos flashcards com deficiências igualmente representadas, sendo um com deficiência visual e a outra com deficiência física, Lívia atribui a menina branca e rica o sucesso escolar e ao menino negro e pobre o fracasso.
No próximo núcleo, “A diferença vista como possibilidade de vantagem” trataremos de algumas escolhas de Lívia como fortes indicadores da existência das diferenças, isso porque ao eleger suas preferências, demarca algumas possibilidades de se tirar vantagem sobre o outro que é diferente.
Núcleo 3 – A diferença vista como possibilidade de vantagem
Esse núcleo aglutina as escolhas de Lívia em decorrência de nosso segundo momento de atividade com os flashcards. Julgamos importante destacá-lo, pois encontramos um elemento bastante contraditório em seu discurso.
Suas escolhas estavam sempre baseadas na possibilidade de se garantir alguma vantagem sobre o outro; as diferenças aqui são destacadas por Lívia como possível caminho para se garantir algum benefício a seu favor.
O terceiro núcleo: “A diferença como possibilidade de vantagem” compreende um único indicador:
Núcleo 3 – A diferença vista como possibilidade de vantagem Lívia
120 Escolhas pensadas para se tirar vantagem.
Primeiramente, perguntamos a Lívia com qual criança ela gostaria de fazer a lição de casa, ela escolhe o [número 37 – menino rico, chinês, sem perna], segundo ela é porque os meninos aparentam ser mais atenciosos.
Em seguida fizemos a mesma pergunta, mas agora era com qual criança ela não gostaria de fazer o dever de casa, Lívia escolhe o [número 39 – menino, negro, rico, sem braço], segundo ela a falta do braço no menino resultaria em mais trabalho para ela, uma vez que teria que fazer a sua lição e a dele também.
[Pesquisadora: É com qual dessas crianças aqui você não escolheria pra fazer a lição de casa com você, que você não gostaria que fosse pra sua casa?] Esse daqui. [Pesquisadora: Esse cara aqui?] Rhum, rum. [Pesquisadora: É o número 39, fala pra mim quais são as características dele?] Falta um braço... [Pesquisadora: Falta um braço.] É rico. [Pesquisadora: Ele é rico, a roupa não está rasgada, né?] Eee, é negro. [Pesquisadora: Ele é negro e por que você não o escolheria?] Porque assim, já que ele escreve com a mão direita e ele não escreve porque perdeu a mão, aí eu teria que copiar pra mim e pra ele. [Pesquisadora: Entendi, se de repente ele não... ] Aí ele não faria a lição, já que ele escreve com a direita, aí ele não podia. [Pesquisadora: Entendi, se de repente ele escreve com a mão direita e ele não tem o braço direito, daí ele não conseguiria escrever, daí você é quem teria que copiar duas vezes.] É duas vezes. [Pesquisadora: O seu e o dele.] Ram, ram.
Quisemos saber com qual criança Lívia escolheria para brincar e ao olhar bem para os flashcards opta pela [número 03 – menina, negra, cega, rica]. Lívia nos diz que escolheu uma criança cega para brincar porque brincando de cabra-cega a menina não teria como trapaceá-la como nos conta:
[Pesquisadora: E com qual dessas crianças você gostaria de brincar?] Essa. [Pesquisadora: Com essa daqui?] Ram, ram. [Pesquisadora: É a [número 03], quais são as características dela, fala pra mim?] Ela é cega. [Pesquisadora: Ela é cega.] Rica. [Pesquisadora: Rica.] E negrinha. [Pesquisadora: Negrinha, hum.] Cabelo encaracolado. [Pesquisadora: Cabelo encaracolado.] Com sapato. [Pesquisadora: Com sapato. Por que você gostaria de brincar com ela?] Porque se eu brincasse de cobra-cega não precisava colocar nada nela (risos)... [Pesquisadora: Você é esperta, em?] Aí era só correr atrás, não ia perder tempo. [Pesquisadora: Entendi, você não ia perder tempo de tá cobrindo o olho dela porque ela é cega aí pra brincar de cobra-cega...] É porque tem criança que é muito esperta. [Pesquisadora: Fica olhando por baixo da venda, né.] É.
Não gostaria de brincar com a [número 17 – menina, negra, rica, cadeirante], segundo ela, pelo fato de ser cadeirante, Lívia acabaria perdendo seu tempo empurrando-a.
[Pesquisadora: E com qual dessas crianças você não gostaria de brincar?] Essa daqui. [Pesquisadora: Com essa daqui que número que ela é? Número 17, por que você não gostaria de brincar com ela?] Ah, porque eu teria que empurrar
Núcleo 3 – A diferença vista como possibilidade de vantagem Lívia
121 ela. [Pesquisadora: Fala pra mim as características dela?] Ela é rica, cabelo preto encaracolado, negrinha e anda na cadeira de rodas. [Pesquisadora: Aí, você acha que não seria legal brincar com ela porque você teria que empurrar...] Empurrar, aí eu não ia correr também se fosse brincadeira de correr. [Pesquisadora: Aí você acha que ela atrapalharia a brincadeira, por que você teria que ficar empurrando?] Sim.
E por fim, escolhe a [número 01, menina, negra, rica, sem deficiência], para sua festa de aniversário, pois sendo rica, Lívia acredita que ela lhe daria um bom presente:
[Pesquisadora: Qual dessas aqui você escolheria pra ir na sua festa de aniversário no ano que vem?] Essa. [Pesquisadora: Essa daqui?] É. [Pesquisadora: Ela é a [número 01], fala pra mim as características dela.] Ela é pretinha, rica... [Pesquisadora: Ela é o quê?] Pretinha. [Pesquisadora: Ela é negra...] É moreninha! [Pesquisadora: Morena, tá. Ela é rica, tá com sapato, não tá com a roupa rasgada...] Ram, ram, só e ela é normal, tranqüila. [Pesquisadora: Tá e ela é normal, não tem nada de diferente. Por que você escolheria ela pra ir na sua festa?] Por que ela podia levar um presente bom. [Pesquisadora: Você acha que ela podia levar um presente bom pra você? Por que você acha isso?] Porque quem é rico não tem dó de gastar dinheiro. [Pesquisadora: (risos) Ah, quem é rico não tem dó de gastar dinheiro?] É. [Pesquisadora: Alguns ricos têm, né?] É alguns têm. [Pesquisadora: E ela tem cara de quem não tem dó de gastar dinheiro e aí ela daria um presente bom pra você?] Ram, ram. [Pesquisadora: É? E as outras crianças que estão aqui que você acha que também são ricas, você acha que elas também não teriam dó de gastar dinheiro com você? E por que que essa?] ... Essa daqui tem cara.
O terceiro núcleo vem contrapor o primeiro núcleo de significação: “A identidade do eu: todo mundo é igual”. Apesar de Lívia afirmar durante todo o tempo, que todos são iguais, o presente núcleo: “A diferença vista como possibilidade de vantagem” é revelador de que há diferenças entre as pessoas.
Ela usa as diferenças para extrair alguma vantagem para si. Ou ela escolhe um que é mais rico e com isso pode ganhar um presente melhor, ou opta por uma criança com deficiência visual, pois assim não correrá o risco dessa criança olhar por baixo da venda porque já é cega, ou também exclui aquelas diferenças que poderão lhe acarretar algum ónus.
É o caso do menino sem um braço e que o escolhendo para fazer a lição de casa, Lívia diz que estaria em desvantagem, caso ele fosse destro, a ausência do braço o impediria de realizar a atividade, sendo assim Lívia teria que copiar o exercício duas vezes, por ele e por ela. E o outro exemplo é o da menina cadeirante, Lívia a exclui dizendo que em uma brincadeira de pega-pega, ela acabaria perdendo seu tempo tendo que empurrá-la.
Núcleo 3 – A diferença vista como possibilidade de vantagem