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Os trabalhos recentes que tratam da teoria do crescimento econômico frequentemente estudam a influência dos retornos crescentes à escala no processo de

crescimento, e, por conseguinte, a concentração das atividades produtivas em determinadas localidades.

Neste sentido, as externalidades se relacionam com a discussão sobre localização, como apresentado na seção anterior. Deste modo, para iniciar o debate sobre externalidade, é importante primeiramente discutir o conceito de externalidades na economia, que de acordo com Sandroni (1999), são benefícios adquiridos por empresas formadas ou já existentes, em decorrência de uma indústria ou serviço público, proporcionando vantagens antes inexistentes. As economias externas assim permitem que haja no geral uma redução dos custos para as empresas sendo uma importante propulsora do desenvolvimento econômico.

Para Marshall (1985) os retornos crescentes eram externos à empresa, e as economias de escala fomentavam a concentração das atividades econômicas. A economia de escala neste caso permitiria uma redução a longo prazo dos custos médios da produção, pois os custos totais de produção seriam menores, proporcionalmente aos do produto, contribuindo assim para uma maior concentração de indústrias. Esta concentração faria com que houvesse uma maior atração para sua proximidade de atividades subsidiárias que reduziriam os custos de transporte dos insumos, das matérias-primas e dos instrumentos (ferramentas), permitindo gerar sinergias pelos diversos segmentos da cadeia produtiva.

O autor argumentava que esses benefícios permitem às indústrias se especializar com diversas vantagens como, por exemplo, os segredos da profissão deixam de ser segredos e ficam soltos no ar, de modo que as crianças absorvem inconscientemente grande parte deles; a busca por trabalhos bem feitos está presente e o lançamento de uma nova ideia é logo adotada por todos; e surgem nas proximidades desse local, atividades subsidiárias que organizam o comércio, fornecem à indústria principal matérias-primas e instrumentos etc. Contudo, há também desvantagens, como, por exemplo, o mercado de trabalho, com atividades que apenas podem ser desenvolvidas por certo tipo de pessoas; o custo da mão de obra é elevado para o empregador, porém a renda média ganha por família é baixa.

Posteriormente, vários autores abordaram a questão da aglomeração, especialização e industrialização local como uma forma de gerar mais desenvolvimento para as empresas. Bean (1946) observou que um aumento da industrialização gera uma renda per capita maior do que não se industrializar. North (1955) corrobora a afirmação deste autor ao

afirmar que as regiões especializadas em alguns produtos com elevada elasticidade renda terão flutuações maiores na renda do que regiões mais diversificadas.

No que concerne à questão das externalidades, Henderson (2002) realizou um estudo empírico no qual investigou a influência das economias externas de escala sobre a produtividade de diversas indústrias nas 742 cidades e 317 regiões metropolitanas dos Estados Unidos. Neste estudo, o autor aborda questões da literatura que ainda não foram resolvidas como: a) se as economias de escala urbanas derivam primariamente da atividade industrial local, como em Marshall (1890), ou da escala geral e da diversificação de todas as atividades econômicas locais como as de Jacobs (1969); b) quais são os atributos do ambiente local que geram as externalidades?; c) quais as magnitudes envolvidas?; e d) se as economias de escala são primariamente estáticas ou dinâmicas, ou seja, se são os impactos na produtividade provindos de mudanças no ambiente industrial corrente ou se estão relacionados a impactos na produtividade advindos das condições do ambiente passado (GALINARI et al., 2007).

O estudo de Henderson (2002) mostrou que há evidências de que as externalidades derivam da própria indústria, ou seja, decorrem mais dos transbordamentos (spillovers) informacionais gerados pelo número de plantas do que do mercado de trabalho.

Nesta perspectiva, Jacob (1969) destaca que a interação entre pessoas nas cidades contribui para a obtenção de ideias e inovações. Assim, a aglomeração de muitas empresas em um mesmo local gera externalidade que contribui para que o conhecimento possa ser difundido de empresa para empresa praticamente sem custo algum. Desta forma, o investimento em conhecimento por uma empresa específica pode melhorar os seus lucros bem como o de outras, gerando assim, retornos crescentes a escala (ROMER, 1986). Entretanto, Giuliani & Bell (2005) afirmam, que a difusão deste conhecimento em atividades aglomeradas, não é feita tão facilmente, pois este conhecimento é absorvido pelas firmas que possuem maior capacidade de captação, ou seja, firmas que tenham recursos financeiros maiores.

Apesar disso, Marshall (1890), Arrow (1962) e Romer (1986), formalizados posteriormente por Glaeser et al. (1992) como o modelo de Marshall-Arrow-Romer (MAR) (localização), defenderam que a concentração de indústrias especializadas em uma determinada cidade promove knowledge spillovers (transbordamentos de conhecimento) entre as empresas semelhantes, o que facilita a inovação. Contrastando esta afirmação, está a abordagem de Jacobs (1969) (urbanização), segundo a qual os knowledge spillovers são

mais eficientes entre empresas complementares. A multiplicidade de atividades desenvolvidas em um centro urbano serve como suporte às inovações, ou seja, a diversificação garante o aumento da produtividade do trabalho e a sustentabilidade do crescimento de longo prazo da cidade. Assim, a fonte mais importante de knowledge spillovers seria externa ao setor em que a empresa opera.

Deste modo, pôde-se observa que na visão de Jacobs (1969) é a diversificação que serve como um mecanismo gerador de crescimento econômico e não a especialização. A autora utiliza um exemplo de duas cidades inglesas, Birminghan e Manchester, e mostra que, com a Revolução industrial a primeira desenvolveu atividades diversas e se tornou um dos principais centros urbanos do país, ao passo que a segunda se especializou em tecelagem, atingiu o seu auge e depois entrou em decadência. Desta forma, verifica-se que a cidade que se diversificou se manteve no mercado, por ter um diferencial em comparação com a que apenas se especializou. Contudo, isto é apenas um caso, a especialização também pode ser benéfica para uma determinada região ou setor industrial.

A teoria de Marshall-Romer-Arrow assim como a de Schumpeter (1942) preveem que o monopólio local é melhor para o crescimento em relação à concorrência local, pois o valor econômico proveniente da atividade inovativa das empresas é maximizado. Assim, quando as externalidades são internalizadas, a inovação estimula o crescimento. Defendendo ideia oposta, Jacobs (1969) e Porter (1993) afirmam que a concorrência local proporciona uma maior externalidade de conhecimento que o monopólio local (GLAESER et al., 1992).

A concorrência local, na visão de Porter (1993), favorece a busca de aprimoramento pelas empresas, o que estimula a diversificação na pesquisa e desenvolvimento e propicia a introdução de novas estratégias e habilitações. Além disso, o autor ressalta que a informação passa a fluir livremente possibilitando a difusão das inovações rapidamente por meio dos clientes e fornecedores que possuem contato com vários concorrentes. A difusão de inovações acelera o processo de imitação contribuindo para a melhoria das ideias inovadoras, mas em contrapartida reduz os retornos do inovador. Apesar disso, tanto a teoria de MAR como a de Porter, concordam que importantes externalidades tecnológicas ocorrem dentro da indústria, e que a especialização regional é boa tanto para o crescimento das indústrias especializadas como para as cidades onde elas se encontram.

destacam quando as cidades se especializam e diversificam isoladamente, ou quando especializam e diversificam conjuntamente. Os autores relatam também três formas de modelagens: a da especialização pura, em que cada cidade em uma economia especilizada produz o bem x ou z; diversificação pura, em que todas as cidades produzem ambos os bens; e do sistema misto que é a junção dos outros dois modelos, ou seja, coexistem nas cidades ambos os casos, a especialização e a diversificação5. Um resultado que corrobora muitas das afirmações feitas é a de que a formação de muitas cidades se deve ao custo elevado de transporte entre cidades.

Henderson (1988) se aprofunda na análise sobre a diversificação e sua relação com o tamanho das cidades e argumenta que cidades com especializações similares tendem a ter o mesmo tamanho. Em seu outro trabalho, Henderson (1997) faz uma distinção entre as cidades de tamanho médio (50.000 a 500.000 habitantes) e as grandes (acima de 500.000), mostrando que as grandes cidades, em média, são mais especializadas em serviços (financeiros, seguros, e setores de bens imobiliários) do que as cidades de tamanho médio, que são mais especializadas em indústrias maduras (tais como matérias têxteis, alimentos, polpa e papel) e menos em indústrias recentes (tais como componentes eletrônicos e instrumentos). Assim, as indústrias das cidades de tamanho médio são mais diversificadas que as das grandes cidades.

O autor destaca também que o tamanho de equilíbrio do centro urbano seria determinado por um trade-off entre o custo marginal imposto pelas deseconomias de aglomeração e o beneficio marginal das economias de aglomeração na produção. Deste modo, o tamanho da cidade irá depender do grau de economia de escala na produção em que ela se especializa, ou seja, produtos com maior grau de economia de escala implicarão cidades maiores. O tamanho da cidade também seria afetado por outros fatores como a qualidade do ar e do setor público, o clima, o lazer etc.

Quanto à especialização, as cidades médias teriam seu tamanho limitado. Assim, o oposto às economias de escala na produção seriam as deseconomias de escala que surgem a partir do momento em que mais atividades econômicas se localizem em uma mesma região.

Duranton & Puga (1999), corroboram o estudo de Henderson (1997) ao relatarem que a diversificação está mais presente nas grandes cidades. Entretanto, existem algumas

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Para maiores detalhes sobre a modelagem utilizada pelos autores veja ABDEL-RAHMAN & FUJITA (1993).

exceções, o caso da cidade de Nova York, que é altamente especializada em serviços empresariais, entretanto, estes serviços são heterogêneos. Assim, cidades menores seriam mais especializadas que as grandes cidades, como as cidades de Búfalo, Columbus e Portland. Os autores especificam também quando e por que algumas cidades se diversificam ou se especializam e o que melhoram com estas variáveis.

Pode-se observar assim, que a discussão sobre diversificação e especialização das cidades é bem extensa e tem se estendido muito durante os anos, porém poucos são os trabalhos que relatam de maneira detalhada este assunto para o caso brasileiro, como os de Diniz & Crocco (1996), Oliveira (2004, 2006), Ferreira (2002), Paiva (2006), que se fixam na questão da aglomeração e desaglomeração industrial; já os, autores Resende & Wylle (2005), Saboia (2001), Andrade & Serra (2000) e Galinari et al. (2007), entre outros relatam a questão da diversificação e especialização. Para contribuir com o enriquecimento da literatura, buscou-se dar maior ênfase a estas questões. Deste modo, para verificar qual a relação da diversificação e especialização, estimou-se um modelo que se baseia no proposto por Glaeser et al. (1992) apresentado na seção seguinte.