Periodizar, nomeando o tempo, é um ato de poder, como sabemos por dever de ofício. Nessa operação, nada é ingênuo, sendo
necessário pensar que sentidos uma determinada nomenclatura deseja atribuir a um espaço de tempo. O que necessariamente significa considerar quem, para quem e quando se constrói uma determinada designação.
Angela de Castro Gomes (2011, 4’20”/4’50”)17
As primeiras usinas de cana de açúcar se instalaram às margens das várzeas nordestinas entre o final do século XIX e o início do século XX. Esse empreendimento serviu de base para que muitos autores situassem aquela temporalidade como o momento no qual teria se dado a modernização do mundo rural. Aquele momento, a propósito, também teria servido de alicerce para a mecanização das lavouras de café do Rio de Janeiro e de São Paulo, apontando para certa equivalência para o momento no qual teriam se estabelecido essas práticas. Essa concepção, no entanto, esquecia as inúmeras outras lavouras que existiram naquelas localidades, as quais também tiveram a sua importância para o cotidiano da gente camponesa. É certo que muitos dos citados intérpretes tomaram por recorte de suas pesquisas a cultura açucareira, mas ainda assim parece haver um desvio de propósitos quanto ao momento no qual o moderno se tornou hegemônico.
O brasilianista Peter Eisenberg (1977[1969]) defendeu em sua tese de doutorado, intitulada Modernização sem mudança: a indústria açucareira em Pernambuco (1840-1910), não só que o processo de modernização da cultura açucareira teria se dado na segunda metade do século XIX, como também que ele não teria empreendido grandes mudanças sociais no cotidiano dos plantadores de cana. A justificava apresentada para aquela periodização foi o uso por uma parte dos agricultores de modernas técnicas agrícolas, ainda que esses fossem uma ínfima minoria, o que parece ter resultado de uma confusão entre os conceitos de modernização e mecanização. A ideia de uma modernização sem mudança parece também desconcertada, a julgar pela complexidade do movimento modernizador. Essa concepção, a propósito, foi rejeitada por parte dos pesquisadores que deram sequência àquele estudo, apesar de terem repetido os significados da periodização. O referido trabalho, porém, contribuiu bastante com ao explicar como a demanda modernizadora dependeu das iniciativas do poder público, a qual foi frustrada em muitos momentos por falta de impulsos privados que lhes dessem sequência.
José de Souza Martins (2013[1979]) explicou, em O cativeiro da terra, como a
17Trecho transcrito do vídeo da mesa redonda intitulada A República que não era velha: exclusão e inclusão social,
a qual se deu no 35º Encontro anual da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais) ocorrido entre os dias 24 e 28 de outubro de 2011 em Caxambu-MG. Disponível em:
modernização agrária foi marcada pelas desigualdades que se perpetuaram quando do processo da abolição da escravidão. A mão de obra escrava se transformou em mão de obra assalariada, mas esses trabalhadores assalariados, destituídos de meios de produção que permitissem a sua sobrevivência, tinham restado presos ao latifúndio, o qual, inflado pela modernização, mantivera aquela gente nos domínios dos coronéis, que arbitrariam das suas condições de vida e trabalho, porém, a partir de um novo conceito, a propriedade privada. Essa leitura, contudo, é relativizada por Márcia Maria Menendes Motta (1998), em sua tese Nas fronteiras do poder: conflito e direito à terra no Brasil do século XIX. A autora mostrou como os conflitos de terra tinham longa duração no mundo rural, e que muitos dos homens livres e pobres tiveram acesso à propriedade ainda no Oitocentos.
Em um estudo comparativo quanto à emergência dos engenhos centrais e das usinas em Pernambuco e em São Paulo, o qual se intitulava Agroindústria canavieira e propriedade fundiária no Brasil, Pedro Ramos (1999) descreveu a modernização agrária tomando por referência também a passagem do século XIX para o século XX. O autor colocou aspas na expressão “modernização sem mudança”, preferindo o título “modernização conservadora”, que se baseava no conceito utilizado por Barrington Moore Jr. (1983[1967]), em As origens sociais da ditadura e da democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno, quando o mesmo descreveu o processo revolucionário indiano. O conceito de modernização conservadora era tributário do monopólio que os usineiros conseguiram empreender quanto à produção daquela cultura, dominando do seu processo de extração ao seu despacho nas cidades, o que resultava em pouca margem de barganha para a gente pobre envolvida com esse processo. “A modernização da agricultura não trouxe consigo a desbarbarização do campo. Arcaico e moderno, progresso e regressão, civilização e sertão, cidade e campo, são noções que se negam e se conservam no interior de um desenvolvimento contraditório” (LOURENÇO, 2001[1998], p.11/12). Em sua tese, Agricultura ilustrada: liberalismo e escravismo nas origens da questão agrária brasileira, Fernando Antonio Lourenço (2001[1998]) corroborou à periodização apresentada outrora por Peter Eisenberg (1977[1969]), mas acrescentou que a medida do conservadorismo em questão não estava na organização econômica daqueles sistemas produtivos, mas na forma como as ideias ilustradas foram difundidas no Brasil, as quais legitimavam a abolição gradual da escravidão e sem qualquer reforma social que proporcionasse mudanças mais efetivas no cotidiano das pessoas que trabalhavam no campo.
Essas perspectivas, contudo, abdicavam do protagonismo da gente camponesa, que decerto não foi a população responsável pela compra das máquinas ou pela introdução dos mais
modernos métodos agrícolas. Ao que parece, ainda àquela ocasião, o processo modernizador não era sentido por aquela gente. A abolição da escravidão foi uma conquista muito importante para a gente camponesa, mas não o suficiente para empreender a modernização. A expansão do complexo de mudanças culturais e, sobretudo, a democratização e emancipação que ela pregava pareciam não ter estado em voga até aquele momento. Apesar de descrever o processo histórico indiano como uma modernização conservadora, Barrington Moore Jr. (1983[1967]) não deixou de tratar dele como uma revolução social, mesmo que lenta e difícil. As circunstâncias semelhantes a essa, no entanto, pelos caminhos que a documentação foi sugerindo, só puderam ser vistas de fato, ao menos em terras paraibanas, entre os anos de 1932 e 1962. A modernização conservadora, na esteira dos argumentos aqui desenvolvidos, teve como preceito não apenas os rumos que as elites desenharam ao processo em questão, fazendo da aristocracia agrária a burguesia que ascenderia ao poder, mas também a ação da gente pobre do campo, que em nome de algumas de suas tradições, renunciou a muitos dos preceitos modernos, abrindo espaço para um número maior de permanências no novo tempo do que foi usual em outros lugares nos quais a modernização se fez presente.
Alguns cientistas sociais que teorizaram a modernização nacional no século XX observaram alguns aspectos mais específicos das relações do campo com a cidade. Dentre esses, os autores que se valeram do populismo enquanto ferramenta para pensar a democracia brasileira, dizia Jorge Ferreira (2013[2001]), elegeram a população camponesa como raiz dos problemas nacionais. O argumento era de que essa gente desconhecia os valores que moviam a política, vendendo o seu voto ao primeiro líder carismático que aparecesse no horizonte, o qual remeteria às tradicionais ferramentas do mandonismo, habitual no mundo rural brasileiro até então. Francisco Weffort (1978[1963]), no livro O populismo na política brasileira, falava dessa inabilidade dos eleitores, em sua maioria oriundos do propalado êxodo rural, efeito do desenvolvimento industrial acelerado, para lidar com os instrumentos da democracia, enquanto Octavio Ianni (1978[1967]), em O colapso do populismo no Brasil, insistia no antagonismo do urbano com o rural, marcando o segundo mundo pelo atraso, o que estaria atrapalhando o progresso da primeira espacialidade.
As leituras empreendidas pelos teóricos do populismo não só dissuadiam da capacidade da população rural de pensar o mundo, como também desconsiderava os significados que esses sujeitos atribuíam ao sistema político. Nas palavras de Jorge Ferreira (2013[2001], p.88):
O que se questiona é abordar as relações entre Estado e classe trabalhadora a partir de paradigmas explicativos, ao mesmo tempo opostos e complementares, centrados na repressão e na manipulação, ambos surgindo como formas de
violência estatal sobre os assalariados, física em uma dimensão, ideológica em outra.
Acrescentava-se a isso certo desdém que essas narrativas perpetuaram pelo regime democrático que estava em vigor no país, leitura que custou muito caro à frágil República brasileira em seus malabarismos para sobreviver aos golpes de Estado impetrados com recorrência pelos grupos políticos mais reacionários.
Esse trabalho se fundamentou no argumento de que a gente camponesa barganhou a todo o tempo os rumos da modernização do campo, aprendendo a lidar com as ferramentas da economia política e se valendo delas para conseguir que algumas de suas demandas fossem atendidas pelo poder público. Esse processo se fez por meio de muito atropelo e foi permeado de inúmeras cenas de violência, mas também se deixou circundar das solidariedades que perfaziam as práticas dos habitantes do mundo rural. Alicerçadas nas referências modernas e tradicionais, a gente camponesa criou uma cultura politica peculiar às medidas da sua experiência e forma de ver o mundo. Em outras palavras, não houve ingenuidade nos rumos traçados, como tantas vezes foi sugerido pelos intelectuais que leram o populismo enquanto prática corrente entre lideranças políticas e sociedade civil, mas formas de compreender o mundo diversas daquela que propuseram alguns dos sujeitos que queriam a modernização do campo nos moldes da que se deu nas grandes cidades do continente europeu.
Entre 1932 e 1962, os habitantes do mundo rural paraibano conheceram a tantas vezes noticiada modernização, e foram aprendendo a lidar com ela. Assinalada por certa fluidez em torno dos anos que a cercaram, a periodização se assentou em um momento de significativas transformações na história política nacional, quando variados projetos de país entraram no cenário de discussão e ensaiaram que significados teriam a cidadania, os direitos sociais, mas também o desenvolvimento e a democracia, em uma Nação disposta a integrar-se com os seus sertões, leia-se mundos dentro de si ainda estranhos ao poder público. O que se quer mostrar, portanto, é que a gente camponesa encontrou espaço institucional após a consolidação do regime republicano, em 1930, e, sobretudo, nos tempos da experiência democrática, compreendida entre 1945 e 1964, para barganhar as suas demandas, tendo conquistado, ao final desse processo, espaço significativo na imprensa e no parlamento, o qual permitiu a discussão de projetos como a reforma agrária. Apesar disso, esse trabalho manteve como foco as experiências da gente do campo, e destituído de qualquer pudor em declarar que é para ela que essa história foi escrita, elegeu como marcos temporais acontecimentos de relevância ao seu universo de significados.
estabelecendo relações ocasionais, quando não mediadas pelos chefes políticos. Aconteceu que, em 1932, as pessoas do mundo rural conviveram com mais uma desastrosa estiagem, a qual foi, no entanto, usada como cenário da tomada de suas relações com o poder estatal. Na primeira metade de 1930, o mandonismo experimentou aquele que foi, possivelmente, o seu feito de maior amplitude e demonstração de poder. Insatisfeito, entre outras coisas, com as medidas alfandegárias do então presidente do estado da Paraíba, João Pessoa, o coronel José Pereira, então chefe político da cidade de Princesa, decretou o Território Livre de Princesa e manteve um Estado paralelo por quase seis meses com a força de seu exército particular. Frustrado o conflito, poucos meses se passaram até que estourou a dita Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas e seus correligionários assumiram o governo federal sob promessa de desarticular os vícios da administração estatal e centralizar o poder nos domínios do Estado. Na Paraíba, o interventor nomeado para tal finalidade foi Anthenor Navarro18.
Passados dois anos, a oposição dos coronéis alijados ganhou cada vez mais força no propósito de desarticular o arranjo político dito revolucionário, e na pretensão de não perder a posse do Estado, os líderes do governo trataram de fazer concessões. No Nordeste, José Américo de Almeida, então ministro de Viação e Obras Públicas, se tornou um nome capital dessa agenda, usando a seca de 1932 como cenário das barganhas políticas que se estabeleceriam a partir de então: retomava-se a indústria da seca19, garantindo os recursos públicos que tanto contribuíram à fortuna dos grandes latifundiários, mas o Estado marcava presença em suas possessões, definindo a estrutura geral dos investimentos e abrindo as porteiras para as suas instituições.
Ao longo dos trinta anos subsequentes, a população do campo viveu em um mundo cada vez mais moderno, vigiado pelas instituições estatais e pela imprensa, pela emergência de um número maior de máquinas e modernas técnicas agrícolas e, sobretudo, da abertura de novos canais de participação política. Mas nem por isso deixou estar recheado de muitas tradições, como a proximidade com as redes de poder dos chefes políticos e a rede de solidariedade que envolvia a população camponesa. Isso implicava no investimento da política como principal termômetro das relações humanas, consciente e concorrente às instituições estatais. As conquistas da população rural em meio a essa barganha só puderam ser observadas a partir das
18Para mais informações quanto à interventoria Anthenor Navarro, ver dissertação Os Domínios do Estado: a
interventoria de Anthenor Navarro e o poder na Paraíba (1930-1932), escrita por Martinho Guedes dos Santos Neto
(2007).
19A propósito das diferentes agendas do Instituto Federal de Obras Contra as Secas e das instituições semelhantes a
essa que tiveram vez na sequência da Primeira República ao Estado Novo, consultar Raízes da indústria da seca: o
medidas da história dessa gente, considerando os seus valores e as suas tradições. A modernização democratizou o acesso dos trabalhadores rurais às instituições estatais e ampliou a visibilidade das questões agrárias no cenário político nacional, mas esse processo teve que enfrentar, a todo o tempo, os boicotes das elites senhoriais. A queda de braço pendia para o lado dos de baixo até meados dos anos 1960, quando uma onda reacionária tomou conta do país e atropelou os propósitos camponeses.
Entre os anos 1930 e os anos 1960, portanto, os camponeses e as camponesas reagiram às mudanças constantes de seu mundo e reconstituíram suas experiências em diálogo, até que, chegados os últimos quatro anos da periodização citada, as ligas camponesas apresentaram um mecanismo de resistência ao mandonismo ainda vivo, usando para isso a própria economia política, consolidada entre as pessoas do campo. Trabalhadores e trabalhadoras rurais institucionalizaram, por meio de sindicatos, uma leitura racional de suas condições de vida e trabalho, a qual seria tomada de referências e valores modernos, como democracia e direitos sociais. Por meio dela, eles acionaram o poder público e exigiram que as disposições constitucionais também fossem garantidas para a sua gente. Com isso, articulavam um discurso coletivo, o que equivalia a se mover pela força dos argumentos, como exigia o ideário moderno.
No entanto, em 1962, foi a força militar e/ou paramilitar que preponderou sobre a força política. Depois de um período de detenção por motivos não justificados devidamente, o líder camponês João Pedro Teixeira foi assassinado a mando dos coronéis da várzea paraibana. A força física mostrava o seu poder sobre a razão, apontando para os limites da modernização agrária que havia marcado as décadas anteriores. Apesar disso, as referências capitais quanto ao episódio em questão foram as outras armas, ou seja, a política, que os camponeses aprenderam a manejar, minando o poder mandonista e conduzindo a história por outros rumos. Com a morte do líder camponês, as reações dos habitantes do mundo rural ganharam tamanha visibilidade e força que foram tomadas por alguns como ameaças à ordem pública instituída, ficando marcadas a posteriori como mito de fundação às avessas para o golpe de 1964.
A caixa de ferramentas dos camponeses e das camponesas ao final da periodização em questão, portanto, dava notícia de uma população articulada aos políticos e intelectuais do país e de fora dele, barganhando espaço no corpo legislativo nacional, e, para isso, negociando com as instituições democráticas em suas mais variadas esferas. Mas essa multidão de novas práticas revestia-se de um arsenal de permanências muito caro ao traquejo social dos sujeitos em questão, as barganhas que fugiam ao confronto direto, o boicote das novas demandas, a rápida articulação de amplas redes de solidariedade, o desvio de significados, entre outras atitudes como essas,
permitiu que esses sujeitos corporificassem uma cultura política, a qual seria cara à população rural por muitas décadas em sua luta pela sobrevivência no Estado-Nação.
Cultura política, em conformidade com Rodrigo Patto Sá Motta (2009, p.21) pode ser definida como um “conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas [parcialmente] partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro”. Apesar de inscritas pela longa duração, as culturas políticas não estavam alheias às variações de contexto e nem pressupunham que as pessoas que partilhavam dela dispusessem de significados de todo homogêneos. Ainda a esse respeito, enquanto Serge Berstein (1988) as observava de forma plural, compreendendo as disputas que habitavam as relações entre as diferentes culturas políticas nos territórios nacionais e internacionais, Rodrigo Patto Sá Motta (2009) discutiu como era possível tratá-las tanto no singular como no plural, remetendo, no primeiro caso, a uma circunstância particular, em geral hegemônica, ou, na esteira do segundo caso, a essas muitas culturas políticas que disputam espaço, às vezes no interior das outras, que lhes eram maiores, como era o caso das culturas políticas que conformavam Estados nacionais.
Inscrita a essa prova, a hegemonia da modernidade desenhou alguns limites para a experiência da gente camponesa. O encontro dessa população com o novo tempo acessou um mar de outras referências e estranhezas, escrevendo uma ordem para tudo que misturava as tradições locais ao projeto intelectual moderno. O efeito do composto foi uma mudança do significado de ambos, trilhando um caminho sem volta. Progressivamente, os habitantes do mundo rural passaram a ver a nova lógica do tempo interferindo nos mais diversos aspectos de suas vidas. No curso desse processo, desprezar a modernização deixou de ser uma possibilidade, como fora outrora, momento no qual ela não era mais que uma notícia. O que significa dizer, àquele tempo, que era necessário reagir.
Dentre os anos nos quais esse processo se deu, apenas na última década era possível falar em camponeses e camponesas enquanto categorias nativas àquela gente. Antes disso, os sujeitos em questão se identificavam, sobretudo, pelo seu ofício, seriam eles vaqueiros, agricultores, ferreiros, sapateiros, entre outros, ou pela sua condição na terra, eram moradores, foreiros ou proprietários. Mas havia ainda aqueles que se valiam do nome do seu senhor ou da localidade em que habitavam, mas, em poucos casos a referência ao mundo rural era tão direta quando se tornaria ao final daquela década. Antônio Torres Montenegro (2013[2003]) alertou para a possibilidade do termo rurícola, e do sentido político que a expressão camponês estava tomando
nos anos 1960. O que se pode observar é que essa dicotomia entre a cidade e o campo estava sendo inventada junto com esses conceitos, de forma que, para o propósito dessa pesquisa, não era possível fugir deles. No que dizia respeito às primeiras décadas no curso da modernização, ele seguia como uma categoria externa, usada pelo pesquisador para compreender em conjunto, resguardadas as atenções metodológicas necessárias, um grupo que, apenas nos últimos dez anos estudados, passou a se identificar como tal.