3.4 Harmonic measure and stability estimates
4.1.1 Background
Por que discurso e identidades16 nos contornos da pós-modernidade? Porque entendo que investigar o discurso pode ser uma forma de analisar como as MGSP agem no mundo e como constroem a si mesmas e a sua realidade social. Além disso, porque entendo que a relação entre discurso e identidades pode ser vista como importante contribuição para um processo de transformação e de mudanças na realidade social.
Para Foucault (2003), analisar discursos pressupõe também analisar questões sociais, pois discurso e aspectos da vida social são indissociáveis. Com efeito, “não há de um lado, as formas de rejeição, de exclusão, do reagrupamento ou da atribuição; e, de outro, em nível mais profundo, o surgimento espontâneo dos discursos que, logo antes ou depois de sua manifestação, são submetidos à seleção e ao controle” (FOUCAULT, 2003, p. 66). Em outras palavras, a linguagem é entendida como espaço de ressignificação e/ ou de manutenção de discursos que contribuem para sustentar a exclusão de atores sociais em situação de vulnerabilidade social.
Nesse sentido, analisar as representações atribuídas e autoatribuídas às MGSP nos discursos por meio da ADC, com incursões nas identidades, neste estudo, implica compreender essas marcas identitárias como constituídas nos contextos de interação social vivenciados por MGSP como um conceito múltiplo, heterogêneo e dinâmico (RAJAGOPLAN, 1998; MAGALHÃES, 2006). Desse modo, podemos definir essa constituição, inicialmente, como uma reunião de referências e de marcas existenciais heterogêneas, que nos fazem reconhecer um indivíduo como os próprios que compartilham de suas práticas sociais.
16Para Hall (2006), “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que
não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (HALL, 2006, p. 13). Portanto, neste estudo, eu me aproprio do termo identidade no plural, justamente por considerar a multiplicidade do conceito identidades.
Assim, em complementação a essa definição, trazendo-a ainda mais para o contexto desta pesquisa, é possível compreender a constituição de identidades como um conjunto de referenciais para uma investigação acerca das especificidades das realidades vivenciadas por MGSP e relacioná-la, assim, à seguinte definição de Magalhães (2006):
As identidades são criadas no contexto das relações sociais e culturais – são ativamente produzidas no discurso, e é por meio dele que são instituídas. É necessário distinguir identidade pessoal de identidade social, embora ambas estejam numa relação dialética: a identidade pessoal diz respeito à personalidade, à subjetividade; a identidade social depende das circunstâncias sociais em que as pessoas nascem e de sua socialização em determinados papéis sociais (MAGALHÃES, 2006, p. 27).
Sendo assim, por entender que as identidades sociais têm como particularidade a necessidade de serem reconhecidas pelos “outros” e por entender que tal reconhecimento é feito, também, discursivamente, neste tópico, tenho o intento de compreender a constituição de identidades dos atores sociais frente às práticas discursivas. No entanto, tenho clareza de que não é viável oferecer uma definição de identidade sem, simultaneamente, contemplar a extensão desta a outros fatores das práticas sociais com os quais está imbricada. Em outras palavras, é possível notar nas perspectivas conceituais selecionadas, neste tópico, discussões não apenas do que seja identidade, como também de outros fatores que a constituem e que são, mutuamente, constituídos por ela, como: discurso, contornos da pós-modernidade, diferença, cultura, e representações.
Giddens (2002, p. 36) reflete sobre a questão da autoidentidade em relação ao contexto social, porque acredita que mudanças em aspectos íntimos da vida pessoal estão estreitamente relacionadas ao estabelecimento de conexões sociais de grande amplitude. Para este autor (op cit)
A autoidentidade constitui para nós uma trajetória através das diferentes situações institucionais da modernidade por toda a duração do que se costumava chamar de ‘ciclo da vida’, um termo que se aplica com maior precisão a contextos não modernos que aos modernos (GIDDENS, 2002, p. 20).
Assim é que Giddens (1991, 2002) prefere o uso das expressões “modernidade alta” ou “modernidade tardia”17 para se referir ao período da pós-modernidade, pois defende a ideia de que a sociedade ainda mantém traços da modernidade, como, por exemplo: o distanciamento entre espaço e tempo, os mecanismos de desencaixe no que concerne à ideia de global e local, assim como Garcia Canclini (2007), e a reflexividade institucional.
Giddens (2002) nos explica que, na atualidade, o distanciamento entre espaço e tempo advém das formas como são organizados os contextos sociais na pós- modernidade. Tal distanciamento possibilita a fundamentação para as recombinações das maneiras como são organizados os contextos sociais. Em outras palavras, há um encurtamento desse distanciamento.
Quanto à reflexão de Giddens (2002) a respeito dos mecanismos de desencaixe, eles correspondem, em uma perspectiva pré-moderna, à ideia de deslocamento das relações sociais dos seus contextos usuais, bem como à rearticulação dessas relações sob a influência da indeterminação do espaço-tempo, característicos da modernidade. Essa reflexão em torno dos mecanismos de desencaixe sob a forma de sistemas especializados é relevante no sentido de que, na atualidade, tempo e espaço tornam-se menos importantes diante da validade dos conhecimentos técnicos, independentemente dos sujeitos que deles fazem uso (GIDDENS, 2002, p. 24).
A reflexividade institucional da modernidade significa que as práticas sociais modernas são enfocadas, organizadas e transformadas, a partir do conhecimento constantemente renovado sobre estas próprias práticas. Nas condições da modernidade reflexiva, ter conhecimento sobre algo não é sinônimo de ter certeza, isto é, por mais entendimento que se tenha a respeito de determinada questão, esse conhecer é sempre fragmentado, questionável e relativo às práticas sociais e vice-versa.
Desse modo, a atualidade é caracterizada por um sistema de tempo universal, em que há a construção de um “passado” padronizado e de um “futuro” universalmente
17Chouliaraki e Fairclough (1999) também optam por utilizar a expressão modernidade tardia para retratar
o período atual que envolve profundas transformações na sociedade contemporânea, fortemente ligadas aos processos de globalização. Assim, opto por utilizar a expressão “pós-modernidade” para me referir ao atual contexto social de mudanças.
aplicável. Assim, as sociedades tradicionais estão encaixadas na noção de tempo e espaço na história, porém a modernidade traz os mecanismos de desencaixe. Para Giddens (1990)
Nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes (GIDDENS, 1990, p. 37-38 apud HALL, 2006, p. 14-15).
É justamente ao fazer essa ligação entre as dimensões “pessoal” e “social” que Giddens (2002) ressalta que “o nível do distanciamento tempo-espaço introduzido pela alta modernidade é tão amplo que, pela primeira vez na história humana, ‘eu’ e ‘sociedade’ estão inter-relacionados num meio global” (GIDDENS, 2002, p. 36). Tal inter-relação evidencia a reflexividade entre identidade pessoal e identidade social na atualidade. Para este autor (ibidem):
A reflexividade da modernidade se estende ao núcleo do eu. Posto de outra maneira, no contexto de uma ordem pós-tradicional, o eu se torna um projeto reflexivo. Transições nas vidas dos indivíduos sempre demandaram a reorganização psíquica, algo que era frequentemente ritualizado nas culturas tradicionais na forma de ritos de passagem. Mas em tais culturas, nas quais as coisas permaneciam mais ou menos as mesmas no nível da coletividade, geração após geração a mudança de identidade era claramente indicada – como quando um indivíduo saía da adolescência para a vida adulta. Nos ambientes da modernidade, por contraste, o eu alterado tem que ser explorado e construído como parte de um processo reflexivo de conectar mudança pessoal e social (GIDDENS, 2002, p.37).
Desse modo, podemos depreender que Giddens (2002) concebe identidade, na atualidade, como um construto progressivo. Assim, diferentemente de como era percebida nas sociedades tradicionais, não se espera mais, nos dias atuais, que uma única identidade seja atribuída ao indivíduo desde o seu nascimento até a sua morte e nem que cada mudança de identidade seja claramente indicada. Nesse sentido, identidade é um construto que passa por modificações ao longo de toda a vida; ou seja, identidade, nos contornos da pós-modernidade, adquire um caráter plural e progressivo. Por conseguinte, na concepção de identidade apresentada por Giddens (2002), o
conceito de “reflexividade” adquire relevo, uma vez que as identidades são vistas como uma construção reflexiva. Sendo assim, as identidades não são mais predeterminadas pelas sociedades tradicionais, mas sim fortemente afetadas pelas possibilidades de as pessoas construírem ativamente suas autoidentidades, o que reforça a importância de estudarmos não só marcas de identidade atribuídas pelo “outro”, mas as marcas de identidade autoatribuídas pelos atores sociais.
No entanto, para atores sociais, como as MGSP, é possível afirmar que a pós- modernidade adquire contornos diferentes, uma vez que, as constituições identitárias sociais de natureza negativa que lhes são atribuídas exercem forte influência na forma como suas identidades são ativamente construídas, como é possível perceber por meio das análises das representações autoatribuídas nos discursos dessas mulheres.
Por outro lado, ao situar identidades nos contornos da pós-modernidade, é possível perceber que se estas são discursivamente constituídas, são também passíveis de serem discursivamente contestadas. Nesse sentido, Chouliaraki e Fairclough (1999) sugerem que “a reflexividade inerente à ação humana foi ‘externalizada’ na modernidade, ou seja, as informações de que os atores sociais se valem para a reflexividade ‘vêm de fora’.” (CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999 apud RESENDE e RAMALHO, 2013, p. 31). A despeito de os atores sociais se valerem de informações que vêm de fora, a constituição das identidades na pós-modernidade parece ser reflexiva justamente pelo entendimento de que “Cada um de nós não apenas ‘tem’, mas vive uma biografia reflexivamente organizada em termos de fluxo de informações sociais e psicológicas sobre possíveis modos de vida” (GIDDENS, 2002, p. 20). Desse modo, entendo que a constituição de identidades não se restringe apenas ao que vem do mundo externo e nem apenas ao que vem do mundo interno. Essa constituição também abrange as possibilidades de mudanças sociais e identitárias, a partir dos pontos de articulação entre o interno e o externo, bem como a partir da resistência, da contestação, e não simples aceitação, das identidades atribuídas e autoatribuídas aos atores sociais ao longo da vida.
Assim, nos contornos da pós-modernidade, a pergunta “como devo viver?” tem tanto que ser respondida em decisões cotidianas sobre como “comportar-se, o que vestir
e o que comer – e muitas outras coisas – quanto ser interpretada no desdobrar temporal da autoidentidade.” (GIDDENS, 2002, p. 21).
Para Giddens (2002), a noção de reflexividade conduz à noção de identidades híbridas, uma vez que, na modernidade tardia, aos sujeitos são atribuídas diversas identidades e, por conseguinte, diversas formas de representação. Um exemplo de identidades híbridas são as diversas identidades sociais atribuídas à figura feminina. Às mulheres podem ser atribuídas identidades de dona de casa, de profissional, de mãe, de filha, de esposa, entre outras, em detrimento de uma só identidade específica.
Hall (2006) também apresenta algumas discussões que coincidem com a linha de pensamento de Giddens (2002) sobre a questão das identidades em relação ao contexto social, mais especificamente, dentro de uma perspectiva cultural na pós-modernidade. Para Hall (2006), o conceito de identidade passou por significativas modificações ao longo dos anos. Assim, em uma tentativa de sintetizar tais modificações, o autor
(ibidem) discute três principais compreensões de identidade: aquela ligada ao sujeito iluminista, a qual ressalta um viés individualista; a ligada ao sujeito sociológico, que buscava uma interação com a sociedade; e a dos dias atuais, a do sujeito pós-moderno, em que se reconhece uma desarticulação nas possibilidades de certeza e continuidade.
Nesse sentido, para Hall (2006), as identidades do sujeito pós-moderno estão sendo descentradas diante da complexidade das transformações das sociedades modernas. A implicação direta de tais transformações são as fragmentações das culturas de classe, de gênero, de sexualidade, de etnia, de raça e de nacionalidade, as quais ofereciam, no passado, sólidas localizações para os indivíduos sociais.
Assim é que Hall (2006) critica algumas maneiras naturalizadas e neutras de se perceber identidades culturais nacionais na atualidade. A crítica do autor (ibidem) à existência de uma identidade nacional unificada está fundamentada na tese de que há uma estreita relação entre identidade e diferença, pressupondo, assim, identidades e diferenças plurais existentes em uma mesma sociedade.
Segundo Hall (2006), a globalização, “um complexo de processos e forças de mudança” (HALL, 2006, p. 4), tem contribuído para a ocorrência de diversos deslocamentos no interior dessas identidades culturais nacionais, deslocando o foco para identidades locais e regionais, assim como um hibridismo das culturas originado pela migração dos povos, o que ecoa as ideias a respeito de mundo globalizada e profunda
instabilidade social (GARCIA CANCLINI, 2007) já discutidas na seção 1.1.1 deste
Capítulo.
Assim como Giddens (1991; 2002), Hall (2006) também aborda a relação entre espaço, tempo e identidade, no sentido de afirmar a diminuição do distanciamento entre espaço e tempo. Para Hall (2006), uma das principais características da globalização é a “compressão espaço-tempo”, em que a aceleração dos processos globais nos dá a correta sensação de que “o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que os eventos em um determinado lugar têm um impacto imediato sobre pessoas e lugares situados a uma grande distância” (HALL, 2006, p. 69). Isso nos remete à ideia sobre reflexividade entre identidade pessoal e identidade social.
Para Hall (2006), é relevante o impacto da globalização sobre os temas tempo e espaço em sua teorização sobre identidade cultural na pós-modernidade, pois é em relação a esse impacto que tempo e espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. Além disso, todos os sistemas de representação, como a escrita, a pintura, o desenho, a fotografia, devem traduzir seu objeto em dimensões espaciais e temporais.
Dessa maneira, atualmente, a questão da identidade e da diferença é central na teoria social e na prática política e encontra-se “na tensão entre perspectivas essencialistas e perspectivas não-essencialistas sobre identidade” (WOODWARD, 2000
apud SILVA, 2000, p. 12). Assim, considerando que, é a partir das relações sociais que ganham força a representação e a identificação de aspectos culturais e sociais, ganham destaque as relações entre identidade e contexto social. Sem entrar em pormenores, é importante destacar que ganha notoriedade a perspectiva denominada estudos culturais, em que identidade é entendida de forma relacional e estreitamente ligada à diferença.
Nesse caminho, Agar (1994) afirma que a língua é uma prática social e como tal possibilita a construção de significados. Além disso, a perspectiva dos estudos culturais se mostra relevante para este estudo por reconhecer a necessidade de estabelecer relações entre identidades, representações e linguagem. Assim é que a forte relação entre cultura e construção de significados é suscitada por Agar (1994)
A língua, em todas as suas variedades, em todos os modos em que aparece na vida cotidiana, constrói um mundo de significados. Quando você se depara com diferentes significados, quando você se torna consciente dos seus próprios e trabalha para construir uma ponte
para outros, ‘cultura’ é o que você está fazendo. A língua preenche espaços entre nós com sons; a cultura forja a conexão humana através deles. A cultura está na linguagem e a linguagem está impregnada de cultura (AGAR, 1994, P. 28).
Nesse sentido, no tópico seguinte, dou continuidade à revisão de perspectivas teóricas com a definição de identidade18 presente na obra Identidade e diferença: a
perspectiva dos estudos culturais. Esta obra foi organizada pelo estudioso Tomaz Tadeu da Silva e, além de suas contribuições, traz as reflexões de identidade propostas pelos pesquisadores Kathryn Woodward e Stuart Hall. Cada um desses autores contribui com importantes perspectivas para os estudos de identidade.