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5. Comparative analysis of various CO 2 -EOR applications for the particular

5.1. Gaseous CO 2 injection

5.1.2. Required CO 2 amount assessment

Curiosamente, uma das crianças conduzidas até Xũnĩm ĩn yĩ ka'ok levava consigo um filhote de cachorro debaixo do braço. Não querendo soltárlo, Xũnĩm ĩn yĩ ka'ok pegou o cachorro e fez o mesmo procedimento que faz com as crianças – passou barro e o esticou – o que foi motivo de muito riso entre os presentes. As exegeses dos Tikmũ'ũn sobre os Xũnĩm ĩn yĩ ka'ok nos remetem a uma eficácia ao mesmo tempo corporal e educativa: “a criança vai crescer rapidinho, vai aprender a respeitar a mãe, não vai bater em outra criança...”; ou ainda podemos observar um tipo de educação musical e da memória muito particular: o próprio termo Xũnĩm ĩn yĩ ka'ok pode ser traduzido também como “xũnĩm corporfala forte”, já que corpo/carne/fala têm a mesma origem (yĩy = falar; yĩn = carne, músculo, corpo). Nesse sentido, a construção do corpo passaria pela noção de um corpo que ouve e soa; além disso, “Kotkuphi também ajuda a educar as crianças quando corta o cabelo delas... mas não corta bem, não. Mas a criança quando crescer vai saber o canto dele”. Estas explicações literais me foram dadas por Zé Antoninho Maxakali, filho de Toninho Maxakali e herdeiro dos conhecimentos xamânicos do pai. Ocorre que este aprendizado musical do canto passa por um cuidado corporal, por uma fabricação do corpo para o canto a partir do corte de cabelo das crianças feito por Kotkuphi. Em relação à última passagem, não podemos deixar de relembrar que os cabelos dos Tikmũ'ũn são um dos lugares onde se instalam os yãmĩy quando estão nas aldeias.

Kotkuphi, espíritormandioca, este que corta o cabelo das crianças, é um dos grandes caçadores aliados dos Tikmũ'ũn. Eles é que trazem flechas aos homens (TUGNY, 2011, p. 99). Dentre eles, há uma categoria especial formada pelos Kotkuphi pahok (Kotkuphi cegos: pa = olho, face; hok = falta, vazio). Pelas belas palavras de Tugny,

Suas flechas [de Kotkuphi pahok] são seus olhos que se deslocam em busca do corpo que tocam. Viajam ativamente para afetar aquilo que olham. Os Tikmũ'ũn demonstram grande desejo de compartilhar com os yãmĩyxop essas flechadas, de serem, enfim, flechados por essas imagens cantorasrvedoras. Por isso seu grande entusiasmo em buscar comida para que essas imagens venham a suas aldeias, vêrlos e afetárlos, tocárlos com suas visões. (TUGNY, 2011, p. 99).

Os Kotkuphi nos apresentam suas flechas como sendo sua visão, seus olhos. Ainda que cegos, eles acertam onde querem, e com extrema precisão. São flechas, portanto, de algum modo, mágicas, flechasrolho, capazes de ver, de mirar... olhares afetantes. Há, ainda, mais coisas por ver.

pelos Tikmũ'ũn como viajantes que veem muitas coisas. “São grandes visionários” (TUGNY, 2011, p. 87). Outros Xũnĩm diferentes de ĩn yĩ ka'ok têm cantos. O que seus cantos guardam são exatamente essas visões. Mais do que isso, os cantos são as visões, as viagens. A respeito da visão de morcego, animais que são como os Kotkuphi pahok, cegos, Tugny destaca uma qualidade visual na “mirada de morcego” que muito nos interessa aqui.

Mas, se voam no escuro, é porque suas visões se fazem ao experimentar a face oculta dos corpos. Suas visões são seus cantos, que, como para todos os morcegos, funcionam pela impedância de suas vozes sobre os corpos que encontram. Os cantos do Xũnĩm experimentam essas impedâncias e atravessam as superfícies dos corpos experimentando suas formas de circular no espaço e auscultar suas dobras. O repertório do Xũnĩm é ao mesmo tempo as visões e as sensações de movimento que experimentam ao se transformarem em borboletas, minhocas, capivaras, onças, peixes, sapos, homens brancos, homens negros e viajarem pelo ar, dentro da terra, na superfície da água, na lama, no fundo dos rios, nas cidades, sobre a terra. Como viajantes, estão sempre compartilhando suas visões quando cantam nas aldeias dos Tikmũ'ũn. (TUGNY, 2011, p. 87). Observamos, através das análises de Tugny, que a visão de Xũnĩm é antes de tudo acústica. É uma experiência da impedância dos corpos. Do morcego, a voz que atravessa os corpos, perceberos, experimentaros. É uma visãorimpedância acústica. Enquanto os Kotkuphi trazem a carne dos animais – que flecham com suas flnchas-olho – para oferecêrla aos Tikmũ'ũn, os Xũnĩm oferecem a estes suas visões obtidas graças às suas vozns-olho. Estes exemplos dizem respeito a agentes que “enxergam” não obstante à sua cegueira. As visões que paralisam – de certa forma, como uma fotografia – as imagens enxergadas por estes yãmĩyxop são os cantos. Para seguir com a metáfora, os repertórios a que compõem estes cantos são, quase sempre, como álbuns de fotografias que se multiplicam indefinidamente na medida em que as viagens, assim como a curiosidade por elas, não cessam. Prolongando esta continuidade “cantor imagem”, “cantar é abrir a visão”, ainda que com olhos aparentemente cegados.

Abrir a visão é o trabalho a que se dedica, por toda uma vida, um xamã. Entre os Tikmũ'ũn, o trabalho do xamã passa por conhecer muitos cantos. Como vimos, nesse contexto, cantos são visões. A iniciação dos jovens se dá por volta dos sete anos de idade e passa por sua reclusão no kuxnx quando aprendem, dentre outras coisas, cantos. Lá, apartados das mães por um longo período de iniciação, é que, também, são instilados com kohok hnp em seus olhos.

os yãmĩyxop. São quase cegados para aprender a ver, ouvir e cantar. É vendo menos que podem ver as imagens que devem ver. Como se se tratasse de pressentir algo que está aquém das vibrações luminosas, como se buscassem uma qualidade diáfana de encontro com a luz. (TUGNY, 2011, p. 94).

Encontrando certa proximidade entre o modo de fabricação da visão na prériniciação xamânica dos meninos ikpeng e o exemplo do mel de fumo maxakali do qual vimos falando, Tugny nos fala da visão apreendida pelo futuro xamã tikmũ'ũn como análoga à visão do morcego – a qual nos referimos como “vozesrolho”: a visão do morcego cantor que experimenta, com o seu canto, a impedância dos corpos.

O corpo do futuro xamã é fabricado como um receptáculo dos sons, um corpo selado, um instrumento de reverberação de um “caos acústico” de todos os povos que entraram em seus ouvidos. (…) Quaserver, quaserouvir, auscultar o próprio corporreceptáculoracústico, auscultar os outros corpos, ver menos, ver o que é quase imperceptível, essa é a modalidade de visão apreendida pelos futuros xamãs tikmũ'ũn, a visão do morcego. Ela implica a tranformação do corpo em instrumento de reverberação acústica. (TUGNY, 2011, p. 98r99). Temos neste trecho uma reflexão sobre o corpo do xamã, explicitamente sobre sua fabricação como um “receptáculo de sons” forjado a partir de muitos diferentes sons que entraram em seus ouvidos. Um corpo múltiplo, mas de sons. Um corpo habitado por uma multiplicidade sonora. Mas se o corpo é um receptáculo, ele também reverbera, a partir de sua perspectiva, os sons que recebe. Vejamos.

4.5.2 Corpos transformados, corpos produtores de som

Vimos que quando os Xũnĩm estão presentes nas aldeias, trazem consigo seu mĩmãnãm, suporte onde inscrevem seus códigos particulares72, assim como todos os outros espíritos que possuem mĩmãnãm73(FOTO 7). O período em que o mĩmãnãm permanece

instalado nas aldeias coincide com o período em que os espíritos estão presentes. O que poderia, no entanto, parecer uma arte puramente visual, nos remete ao âmbito do som.

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“O mĩmãnãm do Xũnĩm fica geralmente no centro dos demais; é um dos mais compridos e, além das figuras geométricas, traz as imagens das classes de cantos que estarão prioritariamente presentes durante sua estadia na aldeia, tal uma partitura musical” (TUGNY, 2009a, p. 467). Essas elaborações nos levam a pensar no mĩmãnãm também como um suporte de escritura musical.

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Tugny informa que os yãmĩyxop (grupos de espíritos, cantos ou ciclos festivos) que possuem o mĩmãnãm são

Segundo o relato de Tugny, os Tikmũ'ũn já a disseram “que o mĩmãnãm ajuda os outros espíritos a escutarem o canto do kuxnx. Serve como uma caixa de ressonância acústica” (TUGNY, 2009a, p. 467). Ressaltamos o caráter amplificador deste aparato, que nos faria observárlo como um dispositivo sonoro, embora seja a um só tempo, um dispositivo, além de sonoro, visual, de identificação dos espíritos e marcadores temporais da presença destes.

FOTO 7: Imponente mĩmãnãm do Xũnĩm cercado pelos de Kotkuphi