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A Zed & Two Noughts (1985), escrito e realizado por Peter Greenaway, é o

primeiro filme que mencionamos em que as representações dos deuses são mais insinuadas do que realmente apresentadas. Isto não significa que o filme não esteja repleto de diálogos referentes ao mundo clássico; apenas denota que não é uma transposição idealizada de forma directa. O que se comprova, pois a linguagem, sets e guarda-roupa não tentam idealizar um contexto da Antiguidade, mantendo antes todos estes elementos no mundo contemporâneo. Deste modo, a obra funciona como uma metáfora. O filme é também independente, arthouse, e avant-garde, o que significa que o seu conteúdo visual e simbólico recebe maior importância do que as acções ou que a narrativa; e somos constantemente relembrados que estamos a assistir a um filme.

Tal como diz o título, todo o enredo é passado num jardim zoológico, um ZOO (A

Zed and Two Noughts). É neste espaço que o enredo decorre. Os protagonistas são dois

irmãos, Oliver Deuce (Brian Deacon) e Oswald Deuce (Eric Deacon), zoólogos, que deparam com problemas existenciais depois do acidente de viação das suas mulheres. Após este acontecimento, eles tornam-se obcecados por animais em decomposição.

Ilustração 24 - Obsessão com o número dois. Os irmãos Deuce (Brian e Eric Deacon) em A Zed and Two Noughts (1985). Este é um motivo que ocupa muitos dos planos do filme, nos quais, duas formas similares são colocadas lado a lado. Isto acontece, em especial, quando os dois irmãos estão presentes.

Em relação à comparação com o panteão grego, o próprio realizador diz: “Many of Zed and Two Nought’s characters are actually Olympian gods: Castor and Pollux, the twins who arose from an act of bestiality, are the film’s two main characters. Venus or the prostitute is one of the two principal women1; always two: Juno, fecund, is the other. Mercury guards the gates of the zoo and carries flying wings on his hat. The villain, Pluto, who of course bears a Walt Disney badge in order to identify himself, collects zebras, black and white emblems of the judgemental society. Meanwhile, Neptune looks after those in the fish house and Jupiter governs the whole zoo” 2.

A partir destas palavras conseguimos perceber que Alba Bewick (Andréa Ferréol) é Hera, uma mulher mais velha que se veste de branco. A primeira prova que temos, de que esta personagem é Hera, encontra-se na quantidade de filhos que ela pretende ter, enquadrando-se assim na apresentação que Greenaway faz em relação à personagem que descreve como “Juno, fecunda”3. Bewick pretende ter “tantos [filhos] quantas letras há

no alfabeto grego”. Alba provém do latim albus, “branco”, o que se pode ligar ao branco do mármore, cor associada, pelo homem renascentista, à cidade ideal grega. Alba também se pode referir a Alba Longa, uma cidade antiga do Lácio, da qual provinha a ascendência de Rómulo e Remo4.

1 Lembremo-nos de um dos epítetos de Afrodite, Porne, “prostituta”, vide CLEANTH. Stoic., apud.,

ARNIM, H.F., Stoicorum Veterum Fragmenta , B.G. Teubner, Stuttgard, 1964 (primeira edição de 1859- 1931), vol. 1, p. 103.

2 Apud. ACKER, Kathy, “The Color of Myth: The World According to Peter Greenaway”, The Village

Voice, 1990, 67/61 sq.

3 Isto apesar de Hera não ser primariamente associada com fertilidade, mas antes com casamento, um dos

seus epítetos principais era Τελεία, “a que está comprometida [em casamento]”, vide MOTZ, Lotte, The

Faces of the Goddess, Oxford University Press, New York, 1997, p. 145. Burkert, contudo, sugere ainda o

epíteto de Ἐλεύθυια, “a ajudante do parto”, mas não como essencial, apenas como existente, vide BURKERT, Op. Cit., 1993, pp. 170-171. Independentemente do caso, Greenaway pode ter associado estas duas características distintas. Sobre Hera vide capítulo referente à deusa.

Ilustração 25 – A auréola dos deuses gregos. Primeiras imagens, Alba Bewick (Andréa Ferréol) como Hera, em A Zed

and Two Noughts (1985). Chamamos atenção para o que parece ser uma auréola a circundar a sua cabeça. Esta

iconografia repete-se, ao longo do filme. A própria centralidade da cama, o tipo de planos usados e a organização do cenário, aludem a alguém entronizado. Última imagem, fresco conhecido como: “Leitura da sorte de Héracles”, Pompeios VII 3.10-12.

Ilustração 26 – Asas como símbolo de Hermes. Duas primeiras imagens, dois planos do filme

A Zed & Two

Noughts (1985)

referentes à personagem que alegoriza a figura de Hermes. Penúltima imagem, cratera ática com pormenor de Hermes com petasus alado, Ferrare, Mus. Naz. 4110 (T55), c. 460 a.C.; última imagem, cratera em cálice com pormenor de Hermes com petasus alado, Boston, MFA 03.796, c. 425 a.C.

Apesar do que o realizador afirmou, esta personagem talvez seja mais identificável com Leda. Alba é a mãe dos dois protagonistas, dos dois irmãos. Concomitantemente, a referência poderá ser associada aos dois filhos de Leda: Pólux e Castor1. A personagem “Oliver” (Eric Deacon), um dos irmãos, dialoga com Alba. Esta era quem conduzia o carro em que a esposa morreu. O gémeo diz: “You were wearing white feathers and you were driving a Ford Mercury. […] you were asking for trouble”. As “penas brancas” são mais uma alusão a Leda. A menção a Mercúrio, ou Hermes, aqui presente, demonstra alguma da marginalidade deste deus. Esta divindade podia ser entendida como trapaceira, pelo facto de se deslocar com facilidade entre os vários mundos. Outra prova de que Greenaway alude à descendência de Leda está no facto de os filhos que ela tem com um dos dois irmãos se virem a chamar Castor e Pólux.

A vida, o drama existencial, é central ao enredo, pelo que, um dos temas abordados pelo filme relaciona-se com as origens da humanidade. O que é perceptível devido à presença de episódios documentais sobre o mundo animal (narrados por Sir David Attenborough, um dos mais famosos naturalistas, biólogos e antropólogos do mundo).

De modo a contrastar com o tema: vida, a morte é outro dos assuntos que o filme trata e representa. Os irmãos estão permanentemente obcecados pelo mistério que o estado de morto revela. Durante esta sequência, o realizador mostra-nos inúmeras imagens aceleradas de animais e plantas em decomposição. Este efeito parece querer demonstrar que os gémeos estão particularmente interessados na transição da vida para a morte.

As alusões ao Olimpo são facilmente delineáveis. Existem entidades com a sua própria residência e todos vivem no mesmo espaço alargado: o zoo. Muitos dos eventos, todavia, nada têm que ver com a Antiguidade, ou pelo menos, alteram-nos de tal modo que se separam destas presumíveis referências.

Os habitantes do jardim zoológico, i.e., os deuses, controlam os animais, seres que funcionam como metáfora do homem. Um dos irmãos, quando questionado sobre que tipo de animais estuda, responde: “todo o tipo de animais”.

“Laid by whom? By Jupiter? Was that the cause of death?”, estas palavras são proferidas no início do filme, após o acidente já mencionado, em que as mulheres dos protagonistas morreram. Estará o realizador a sugerir que é este deus o responsável pelo destino final dos homens? Ou será esta referência apenas uma inclusão inocente? Seja qual for a resposta correcta, Greenaway demonstra apetência por colocar dúvida na mente de um espectador. Assim sendo, todo o panteão que o realizador descreve, de forma clara, no passo citado torna-se mais difícil de deslindar ao longo do filme. Apesar de algumas das alusões ao mundo clássico serem óbvias.

Vénus é a primeira divindade apresentada, sendo, em A Zed and Two Noughts referida como Venus de Milo (Frances Barber)1. Esta personagem, ao ter a profissão de prostituta amadora e de receber este nome pretende aludir, claramente, a Afrodite Πόρνη, s. “prostituta”. Hermes é o guarda do zoo. O espectador consegue identificá-lo pois, como referido, ele usa asas no seu chapéu. O deus mensageiro também devaneia pelo espaço, dialogando com muitas das personagens.

Van Hoyten (Joss Ackland) talvez seja Hades, visto que tem uma presença imponente e costuma vestir-se de preto, cor que se pode associar ao Tártaro. Outra personagem que poderá ser Hades ou Zeus é Felipe Arc-en-Ciel (Wolf Kahler). Esta parece-nos ser uma ideia viável pois, tendo um enorme fascínio por zebras (vide citação

1 Menção a Afrodite ou Vénus de Milo, como é hoje conhecida, uma célebre escultura de Alexandre de

Antioquia, datada de c. 100 a.C., e que se encontra no Museu do Louvre, LL 299, Ma 399. Para mais sobre a peça em si vide RIDGWAY, B.S., Hellenistic Sculpture, The University of Winsconsin Press, Winsconsin, 2000, pp. 167-171, III. 21, fig. 5.

de Greenaway), ele também se veste de branco, cor que se pode associar ao Olimpo. O seu nome sugere ainda um carácter uraniano. Por fim, Zeus também poderá ser Fallast (Geoffrey Palmer), o gerente do Zoo, que se veste de fato e, predominantemente, com cores negras. Este jogo de cores e símbolos evidencia o contraste entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte, entre o mortal e o divino.

Ilustração 27 – Possíveis representações de Deuses Gregos em A Zed & Two Noughts (1985). Da esquerda para a direita. Alba Bewick, já sem as duas pernas. Felipe Arc-en-Ciel, também sem os membros inferiores. Fallast, que à semelhança de Alba, vide ilustração 25, tem um faixo de luz, uma “auréola estilizada”, atrás de si. Venus de Milo dialoga com Van Hoyten.

Uma metáfora que atravessa todo o filme tem que ver com a amputação de membros do corpo. Perder uma perna, ou preferencialmente as duas, é uma obsessão que a personagem “Alba” não consegue afastar da sua mente. A mãe dos gémeos decide amputar as duas pernas. Mais tarde, é apresentada a Felipe Arc-en-Ciel, que também não tem todos os membros do corpo. Os dois enamoram-se. O que significa a perda destes membros? Porque se enamora Alba por esta personagem enigmática? Só as personagens que se associam aos deuses têm falta de membros. Será isto uma forma de representar o divino, em contraste com o mortal? Talvez, mas a opção mais provável relaciona-se com o facto de muita da estatuária que nos chega da Antiguidade estar danificada, perder componentes originais. Isto também demonstra a maior adoração que Greenaway demonstra, no que respeita ao que nos chegou do mundo clássico, em detrimento do modo como estas obras pretendiam ser e permanecer no seu contexto original.

O cineasta britânico também parece preocupado com simetrias. Ao remover uma das suas pernas, Alba não resiste a cortar também a outra, quase como se esta fosse um empecilho à sua existência. Inúmeros planos são compostos com uma estética excessivamente assimétrica. Tudo isto é um subterfúgio para o verdadeiro significado do filme: a consciência de que o homem está sozinho, num universo sem deuses, vazio, onde a vida e a morte parecem não ter significado.

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