Til annet ledd
IV. Tilrettelegging for romning og redning
Comecemos com o filme de 1918 (numa fase adiantada do cinema primitivo, portanto) denominado The Triumph of Venus. Esta obra, escrita e realizada por Edwin Bower Hesser, dá destaque a Afrodite (Betty Lee), aqui referida pelo seu nome romano, “Vénus” (aliás, tal como acontece com os restantes deuses).
Triumph of Venus foi produzido pela Victory Film. Na promoção do filme, Betty
Lee é descrita como “a filha mais bela do sul [norte-americano] ”, ideia que estava de acordo com a interpretação da deusa do amor. A menção a Afrodite não é apenas alegórica, visto que num dos cartazes promocionais do filme se poderia ler: “Um romance dos deuses e deusas da mitologia grega antiga”1. Com isto, não chega a ser surpreendente a inclusão de muitos dos Doze, entre os quais Ártemis (Phyllis Beveridge), Hefesto (Percy Standing), Zeus (John Fedris), Ares (Karl Dane), Hera (Beatrice Armstrong), Hermes (A.
Freeland), Apolo (Don McDonald) e, curiosamente, Hebe (Ruth Bradley) – divindade que se relaciona com a juventude.
Ilustração 13 - Cartaz de The Triumph of Venus (1918), escrito e realizado por Edwin Bower Hesser.
Enraivecido com Vénus, por esta o rejeitar, Jove oferece a bela deusa do amor ao horrível Vulcano. Vénus consegue escapar, mas Vulcano, ao vê-la com Marte, prende-os na sua rede mágica, de modo a serem expostos a todos os deuses1. Apolo liberta-os, e
Vénus refugia-se na ilha de Milo, na qual se apaixona por um jovem escultor2. Vénus tem
uma filha com ele, chamada Nea.
Numa outra sequência, o filme remete para o mito de Ártemis/Diana. A deusa apercebe-se de que está a ser observada pelo mesmo escultor do episódio anterior e mata- o3. Nea cresce e torna-se uma bela adolescente que se apaixona por Pannas, um pescador. Diana, contudo, ama o mesmo homem, pelo que decide aprisionar Nea numa rocha4. Cupido liberta-a, mas os dois têm de ultrapassar vários desafios impostos pela deusa da caça, antes de Vénus interceder por Cupido e Nea, junto de Jove. O deus-rei, irado, vira a sua fúria contra Diana, que é forçada a oferecer aos apaixonados a “taça da imortalidade”.
Passados cinco anos, em 1923, a Fox Film Corporation produz The Temple of
Venus, um filme que explora os mesmos temas de romance e juventude5. Também aqui podemos encontrar um elenco de deuses que, apesar de serem menos proeminentes e em menor número merecem ser listados (sendo oferecida às personagens “humanas” a maior
1 Actores e respectivas personagens que não estejam identificados acima, não foram creditados. O enredo
é muito similar ao mito que subjaz a estes três deuses, vide Od. 8.266-366.
2 Vide mito de Pigmalião e Galateia, CLEM. AL., Protr., 4; OV., Met., 10.243 sq.
3 Vide mito de Ártemis e Acteón, OV., Met., 3.131; APOLLOD., Biblioth., 3.4; sobre este mito vide ainda
LACEY, Lamar R., The Myth of Aktaion, Literary and Iconographic Studies, University Microfilms International, Michigan, 1991.
4 Leitura de Diana/Ártemis original, pelo que a deusa repudia todos os homens que se apaixonam por si. 5 Uma das imagens promocionais do filme de 1923 refere mesmo: “The Temple of Venus: youth and
importância narrativa). Os membros do Δωδεκάθεον são Afrodite (Celeste Lee), Hera (Marilyn Boyd), Zeus (Frank Keller), Ártémis (Helen Vigil), e Posídon (Robert Klein). A estes acrescentam-se a oréade Eco (Lorraine Eason) e a titânide, rainha dos oceanos, Tétis (Señorita Consuella). O romance é um dos temas mais recorrentes nas artes narrativas e visuais. A conexão imediata com a audiência é uma das razões que explica esta escolha temática.
Ilustração 14 - Cartaz promocional de
The Temple of Venus (1923). Repare-se
no pormenor de a imagem incluir, maioritariamente, personagens femininas, cromaticamente destacadas.
Uma breve sinopse do filme poderia contar-nos que esta é uma história em que Vénus envia Cupido à Terra com o intuito de descobrir se ainda existe romance nesse lugar. Ele encontra Moira e Peggy, as filhas de um peixeiro, que se envolvem nos laços amorosos de um artista e de um pescador. No fim, recuperando um tópico da literatura clássica, Cupido volta a encontrar-se com Vénus para fornecer o seu relatório1.
Os grandes trunfos comerciais destes filmes são três: primeiro, o destaque oferecido ao elenco para propagação imediata do produto; segundo, o uso do género fantástico; e terceiro, o apelo ao erotismo e à sexualidade (neste período ainda alargadamente focados no feminino).
A representação da sensualidade feminina era um meio de atracção muito difundido durante as primeiras décadas do cinema2. Com a implementação, em 1930, nos EUA, do Motion Picture Production Code, mais conhecido como Código Hays3, este tipo de temáticas deixou de ser aceitável. O género fantástico, no cinema americano, eliminou em grande parte temáticas consideradas “pagãs”. Este género, tal como as narrativas de base historiográfica, aproveitou ainda para exponenciar histórias judaico-cristãs,
1 O topos da mãe que encomenda ao filho uma tarefa e ele faz o relatório; vide VERG., Aen., 1.657 sq., em
que Dido apaixona-se por Eneias; OV., Met., 5.341-571, em que Hades fica apaixonado por Proserpina ou Perséfone; e APUL., Met., 4.1-35, o episódio de Eros (ou Cupido) e Psique.
2 Lembremo-nos, por exemplo, que o primeiro vencedor, nos prémios da A.M.P.A.S. (Academy of Motion
Picture Arts and Sciences), para a categoria de “Melhor Produção” (hoje conhecida como “Melhor Filme”) foi o filme Asas (1928), no qual se podia vislumbrar, a actriz Clara Bow, frontalmente nua.
3 Este código durou até 1968, acabando por ser substituído pelo MPAA, um novo sistema de classificação,
narrativas que fossem moralmente correctas. Tudo isto, na perspectiva e opinião dos produtores e, consequentemente, das audiências de então. Com o fim deste código, muito pelo impacte do cinema europeu e pelo recorrente forçar das barreiras em relação ao que era e não era aceitável, nos próprios EUA, passou a ser possível traduzir para cinema imagens e ideias que antes eram vedadas a um público alargado. O erotismo e a violência voltaram, por esta ordem e gradualmente, a preencher os ecrãs.