1. INTRODUCTION
1.6 B ARIATRIC SURGERY EXPERIENCED : Q UALITATIVE RESEARCH
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Para a compreensão da imigração e presença japonesa na cidade de Marília, esse item reunirá uma compilação de dados advindos de Vieira (1970), Sakamoto (2005) e dados de informantes a fim de perfazer, de modo breve, a história da imigração japonesa em Marília. Essa reunião se mostrará importante para a compreendermos contextualmente a posição do "mestiço" e as atualizações de um parentesco japonês no presente.
De acordo com Vieira (1973), os imigrantes japoneses foram um dos principais atores na expansão territorial e econômica do estado de São Paulo. A frente de expansão paulista foi gestada no século XIX e promoveu a ocupação econômico-espacial do estado. Na base desse fenômeno esteve o desaparecimento do regime escravocrata, a expansão da agricultura comercial do café e o seu destino para o mercado exterior, a expansão das linhas férreas pelos planaltos paulistas e a importação de mão-de-obra europeia. Os imigrantes japoneses apareceram em 1908 nesse cenário, um momento mais tardio dessa expansão, mas o grande contingente deles assumiu um papel importante no desenvolvimento histórico da frente de expansão centro-oeste do Estado de São Paulo.
A região de Marília recebeu intenso fluxo populacional nikkey, isso se deu porque desde os anos 20, a colonização das terras foi feita por meio de fragmentação de grandes glebas resultando em pequenas e médias propriedades rurais. No tocante ao grupo de imigrantes japoneses em Marília, a quase totalidade deles trabalhou, inicialmente, como colonos nas fazendas de café. A região de Marília é conhecida por abrigar o maior número de imigrantes japoneses e seus descendentes no interior de São Paulo. Essa região também é conhecida por sediar a “colônia japonesa” mais antiga do Brasil em 191517, a colônia Hirano, de Guaimbê, quando essa cidade ainda não era emancipada18.
Em Marília, os imigrantes japoneses chegaram em 1926 no auge da imigração tutelada, sendo três anos antes da chegada da estrada de ferro e da criação do município, que se deu em 1929. Segundo os dados da edição comemorativa dos 75 anos do Nikkey Clube de Marília (p.13), os primeiros imigrantes a chegarem nessa região foram Kyotaro Shimoe, natural da província de Hiroshima, ele se fixou a 2 quilômetros da estação Oriente. Em seguida, Kyotaro derrubou a mata virgem e plantou 170.000 mil covas de café com outras 22 famílias.
17 Em “O Súdito” de Jorge Okubaro, há dados que contestam essa história. Segundo Okubaro, a primeira colônia
japonesa surgiu na região de Araraquara: a Colônia Tokyo foi fundada em março de 1915 em Motuca. Já a Colônia
Hirano de Guaimbê, na região de Cafelândia, foi fundada em setembro de 1915 (OKUBARO, 2006:173).
18http://www.estadao.com.br/noticias/geral,no-oeste-paulista-nasceram-marilia-e-a-industria-jacto,191577.
Takejito Yada, vindo da província de Mie, desmatou 85 alqueires com mais 9 famílias. As famílias Okajima e Tsuji, da província de Wakayama teria se instalado na região com outras 20 famílias. Yasutaro Matsubara desmatou 200 alqueires e instalou 17 famílias. Logo após, instalaram-se 32 famílias no bairro Macuco, 16 famílias no bairro Meiji, 13 famílias no bairro Andes, 6 famílias no bairro Veado, 4 famílias no bairro do Pombo. Ao observar a chegada das primeiras famílias à Marília, é notável a forte presença japonesa no desenvolvimento histórico da cidade.
De acordo com os dados do Nikkey Clube, a presença nipônica na econômica cafeeira local foi muito forte. Em 1935, o município de Marília contava com 135,000 alqueires19 e pertencia a ele os Distritos de Varpa, a Colônia Nipônica de Bastos, Pompeia, Oriente e Avencas. Na mesma data, Marília possuía 3.313 pequenas propriedades agrícolas. Em 1934, 72% dessas propriedades estavam nas mãos de estrangeiros e os imigrantes japoneses perfaziam 42% desse total. Essa concentração se deu devido aos auxílios financeiros da BRATAC, Sociedade Colonizadora do Brasil, sociedade japonesa responsável pela imigração tutelada e o desenvolvimento dos núcleos coloniais. A cotonicultura também foi ponto forte na economia local, de 1936 a 1946, Marília foi o principal produtor de algodão do estado de São Paulo e muito do capital para essa economia era proveniente de investimentos japoneses acrescido com o trabalho intenso dos imigrantes. A economia do algodão impulsionou o processo de industrialização da cidade, pois em 1936 empresas de origem japonesa estabelecidas no Brasil compravam e beneficiavam o algodão, enviando-o para o Japão.
A partir do desenvolvimento econômico promovido pela imigração japonesa, outras industrias se estabeleceram em Marília por conta do algodão, entre elas, Sociedade Algodoeira do Noroeste Brasileiro Sanbra S.A., Anderson Clayton & Cia Ltda, Mc. Faden & Cia Ltda e S.A., Industrias Reunidas Francisco Matarazzo e Industria Zillo Ltda. Grosso modo, esses dados evidenciam o forte papel desempenhado pela imigração japonesa em Marília e a sua inegável participação para o desenvolvimento dessa cidade.
Em 1938, o município de Marília perdeu parte do seu território devido à criação de novos municípios como Pompeia, Quintana e Bastos. Entretanto, de acordo com Vieira (1973:166), o censo estimou em 19,24% o número da população nikkey na cidade de Marília. Ainda, no ano seguinte Marília contaria com 2.882 famílias japonesas, sendo 600 na zona urbana e 2,282 na zona rural. De acordo com a mesma autora, até a data de 1942 os imigrantes
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em Marília viveram orientados para o Japão, pois além de haver o desejo de retorno à terra natal por parte dos imigrantes do continente e da ilha de Okinawa, muito da economia local era estreitamente ligada ao Japão, a exemplo da produção do algodão. Mas com o final da Segunda Guerra, o sonho de retorno se desfez e eles fincaram no Brasil a sua morada.
A forte presença japonesa deixou marcas em Marília, a história desta imigração está escrita nos nomes das ruas, no comércio, na indústria e na religiosidade local. Os imigrantes japoneses trouxeram o budismo para Marília, lá há dois templos com mais de 50 anos: o Hompa
Honganji Kiyokai e Shinshu Honganji, além de outros cultos asiáticos. E hoje, segundo as estimativas do Nikkey Clube, Marília possui cerca de 2.000 famílias de japoneses e descendentes, agrupando um total em torno de 10 mil pessoas, o que corresponderia a 5% da população local20. Ainda, a cidade abriga, o ‘Japan Fest’, o maior festival de cultura e gastronomia japonesa do interior de São Paulo.
Contudo, o presente exitoso da presença japonesa em Marília foi tecido em meio a muitos conflitos que deixaram marcas profundas na história e lacunas na memória dessa imigração. Segundo um pequeno registro do Nikkey Clube sobre a imigração, a documentação histórica de Marília sofreu sérios danos durante e após a Segunda Guerra Mundial. Livros, reportagens, documentos e registros pessoais foram queimados pelas famílias imigrantes devido as perseguições policiais durante a guerra e durante as ações da Shindo Renmei.
Em 1942, o Brasil rompeu as relações diplomáticas com a Alemanha, Itália e Japão. De acordo com a obra História da Imigração Japonesa em Marília e a Formação das
Associações21, nesta ocasião o delegado de polícia João Amoroso Netto publicou uma nota na impressa local (Correio de Marília 31/05/1942) que os imigrantes oriundos dos países do Eixo deveriam comparecer à Delegacia de Polícia para comunicar o seu local de residência do qual não poderiam mudar sem autorização prévia. Ainda, aos imigrantes do Eixo foi proibido o uso da língua materna, conversar sobre política internacional, realizar reuniões em espaços públicos e privados, o funcionamento de associações e escolas étnicas, cantar o hino desses países, expor
20 A associação nikkey local estima que a população nikkey em Marilia seja de 2.000 mil famílias, algo em torno
de 10.000 nikkey na cidade. Os dados do IBGE estimam que a população “amarela” (termo genérico para asiáticos) seja de 5.808 (2,68%). Porém, esse número pode não ser exato já que o censo no Brasil é auto classificatório e a sociedade brasileira utiliza o registro marca corporal “cor da pele” com muita plasticidade. Isso significa que muitos descendentes de japoneses podem autodeclarar cores de pele que não a amarela.
21 Resumo histórico e comemorativo editado em 2005 para a ocasião do 75 aniversário do Nikkey Clube de
retratos de membros de seu governo, viajar, ouvir rádio estrangeira e se comunicar com parentes no exterior. Nesse contexto de perseguições constantes, as famílias japonesas destruíram livros e documentos em japonês, pois como os policiais não conheceriam a língua, as famílias em posse de livros poderiam ser presas e acusadas de atentarem contra o Estado. De acordo com o relato da senhora Akiko Sasazaki presente no História da Imigração Japonesa em Marília e a
Formação das Associações (2005: 09):
Se a polícia entrasse em casa, não tinha jeito, revistava tudo. Acabamos queimando muitos livros também, porque eles não sabiam ler japonês e qualquer livro achavam que era livro de guerra ou alguma comunicação e prendiam. Meus pais temiam isso e, para evitar, a gente queimou bastante. Tínhamos de jogar tudo fora ou então no fogo. (Relato de Akiko Sasazaki)
De acordo com a obra acima citada, os imigrantes japoneses dessa região migraram para o Brasil com a tradição de veneração da família imperial. Veneração e lealdade frutos da Era Meiji, a forte identificação com os costumes culturais trazidos do Japão não teria sido apagada com a opressão do Estado. A opressão deixou marcas profundas na memória dos que viveram e testemunharam a discriminação e violência física praticadas pelas autoridades policiais. De acordo com a obra comemorativa da Associação, a violência estatal vitimou principalmente os imigrantes que tinham mais dificuldades para se comunicar porque não sabiam falar a língua portuguesa. Durante a Segunda Guerra, os imigrantes originários do continente japonês e os oriundos da ilha de Okinawa suplantaram as suas diferenças históricas, regionais e culturais e se uniram em solidariedade étnica para enfrentar as violências vindas do Estado. Mas ao final da guerra, um novo tipo de conflito surgiu na vida dos imigrantes, e dessa vez não era entre brasileiros e japoneses e sim no interior da colônia entre os japoneses, era a
Shindo Renmei.
A Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos, foi uma sociedade secreta que pregava a vitória do Japão na Segunda Guerra e com isso perseguia e matava os conterrâneos “derrotistas” que acreditavam na derrota do império. As notícias veiculadas nos rádios e jornais sobre a derrota do Japão não foram suficientes para convencer a todos os imigrantes que estavam no Brasil. Apartados do mundo durante a Segunda Guerra, houve imigrantes que se recusaram aceitar a derrota do Japão. Tal recusa advinha do ideário de que a
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invencibilidade de 2600 anos do exército japonês tinha relação com a existência da figura divina do imperador. Desta forma, se o imperador ainda estava vivo após o conflito, isso só indicaria a vitória do exército japonês (MORAES, 2000).
Os imigrantes que se recusaram a aceitar a derrota do Japão passaram a se autointitular kachigumi (vitoristas) porque permaneciam fieis a sua pátria e ao imperador e passaram a perseguir os makegumi (derrotistas), os traidores da pátria que acreditavam na derrota do Japão. Das ações nascidas em Tupã, de janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, a Shindo
Renmei se ramificou pelo interior paulista e pela capital promovendo assassinatos e ataques aos
makegumi. A liga teve forte atuação e impacto na vida das famílias nikkey de Marília e até a data dessa pesquisa, era lá que se encontrava em vida reclusa o senhor Tokuiti Hidaka, o último sobrevivente da Liga do Caminho dos Súditos22. A Shindo Renmei se tornou um tabu no seio da colônia e uma cicatriz talhada pelas mãos dos próprios patrícios23.